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Bem-vindos. Este é o "Filhos da Europa", podcast da Rádio Observador em parceria com o Parlamento Europeu, onde ouvimos portugueses que nasceram em 1986, o ano em que Portugal aderiu à então CEE. Na semana passada, escutamos o músico Benjamim, que partilhou conosco como foi crescer em Portugal nos anos 90 e também nos revelou que está a preparar um novo disco com oito canções, entre outras revelações. No "Filhos da Europa" desta semana, recebemos uma fingidora, a atriz Catarina Wallenstein. Não levas a mal, Catarina, que te chame fingidora, porque profissionalmente és uma fingidora. Ou não?
Acho que começamos mal.
Estou na entrada à pé juntos.
Mas não me importo, não leva a mal. Acho que é um equívoco.
O que é para ti ser atriz?
Eu acho que é o contrário, é operar sobre um lugar de verdade e tentar surfar a minha verdade para não ter de vos mentir. Portanto, acho que a ideia de que o ator sabe mentir muito bem é simplista.
É um grande equívoco.
Acho que é simplista, porque acho que nós tentamos arranjar circunstâncias para que o que temos que contar não seja uma mentira. Então criamos verdades para não vos estarmos a mentir.
Ok, e isso, do ponto de vista mental, passa por quê, Catarina?
Passa, eu acho, por uma criação de circunstâncias psicológicas, por uma questão de projeção. Claro que aproveitas sempre muito a tua visão do mundo, mas um reaproveitamento daquilo que seria a história, o enredo ou o guião, é uma apropriação daquilo para se tornar a minha verdade. Se eu estiver distante daquilo que foi escrito, eu vou estar a operar sobre a mentira, mas se eu me apropriar e tornar aquilo a minha verdade. E acho que também tem a ver com não negar o sítio onde eu estou naquele dia. Imagina, quero fazer uma cena, dramaturgicamente, tenho a ideia de que ela é muito alegre, mas eu não estou sintonizada numa frequência. Em teatro, dá para sentir muito isso. Eu tenho que aproveitar, eu tenho que surfar a onda em que eu estou, que é verdade. E portanto, se eu estou um pouco mais para baixo, eu vou trabalhar sobre os contrastes, mas a partir desse para baixo, porque se eu estiver só a fingir uma imensa alegria, eu estou vos a tentar enganar e a ideia é tentar não vos enganar.
Muito bem. Bela descrição. Falaste do texto e isto obviamente tem a ver com uma frase do Fernando Pessoa, o poeta é um fingidor. Li algures que também gostas muito disso.
Mas o resto da frase acho que vai ao encontro daquilo que eu expliquei, que finge tão completamente que chega a fingir que é dor.
Isso.
Ou seja, a gente cria as circunstâncias para a coisa ser mais real.
Muito bem. Li que tu também gostas muito de poesia, ou pelo menos do texto. É isso?
Eu tenho uma alegria imensa com a utilização das palavras e vindo da música, tenho uma abordagem à língua bastante musical e bastante rítmica.
Vens da música porque estudaste canto coral e violoncelo, não é?
Sim, eu sou filha de músicos. O meu pai é contrabaixista, a minha mãe é cantora lírica, professora de canto, é uma belíssima professora de canto, aliás. E portanto eu estudei numa escola de música toda a minha infância, cantei em coros, toquei violoncelo, fiz um pouco de composição, fiz as práticas teclados, são três anos de piano. Ainda fui fazendo essa parte do conservatório.
Estudaste num liceu francês também, não é?
Exatamente.
Portanto, só não tocas piano. Também tocas piano?
Toquei um bocadinho. Não, é histeria minha. Toquei um pouco.
Ok.
E a minha abordagem à palavra é bastante rítmica e bastante musical, e acho que é uma das coisas que me caracteriza, é o gosto profundo pela língua e pela palavra.
Muito bem. Olha, eu estive a ver mais ou menos as tuas redes sociais. Não. Não és muito profícua. Não, mas o que eu queria perguntar era: não contas muito dos projetos em que andas envolvida.
Vou contando quando eles saem.
Sim, ou seja, és um pouco como Madonna, não é? Só contas quando já não estás lá, quando já acabou.
Quando as coisas saem para o mundo. O nosso trabalho tem a particularidade de ter algum tempo de pós-produção e que não depende de mim. Enquanto os outros estão a trabalhar, fico quietinha. Quando as coisas saem, trabalho junto com as produtoras para as divulgar e quero muito que as pessoas vejam, mas não sei se se calhar é a minha ideia de que o cinema ou as séries ainda, eu tenho algum gosto de acreditar que estou a trabalhar com algum tipo de artesanato e não de uma grande fábrica. E tenho algum respeito pelas imagens que não são minhas. Portanto, eu não partilho coisas ainda em processo, imagens do rodagem, o guarda-roupa das outras pessoas, a imagem daquele realizador. Eu sei lá se ele quer que aquilo seja visto. Ele é detentor das suas imagens e quando a pessoa é cá fora, eu divulgo, eu defendo, visto a camisola, mas não tenho por hábito contar onde é que vou, o que é que faço, porque não acho que interesse muito, mas cada pessoa tem a sua cultura e gosta e acho muito bem, mas eu não ponho os sítios onde durmo e as comidas que como e os passeios que dou, assim como não ponho as cenas que estou a gravar naquele dia. Depois divulgo com o material de divulgação que as produtoras decidem divulgar.
Ok, isto era para ir à pergunta: o que é que andas a fazer? Profissionalmente, claro.
Olha, acabei de fazer uma série bastante grande, grande para mim. Eu acho um tema belíssimo e era protagonista. E infelizmente, não tenho ainda a autorização de partilhar muitas coisas com vocês, mas eu acho que vão ouvir falar dela em breve. É uma série histórica, política, sobre uma mulher.
Mas o IMDb já conta tudo.
Talvez, não sei, já procuraste?
Já. Conta.
Eu não posso, mas se já encontraste, não fui eu.
Já. Uma senhora que se tornou a primeira eleitora em Portugal.
E a primeira cirurgiã também.
E a primeira cirurgiã.
É verdade.
E que dá nome a um hospital.
Dá.
Gostaste de fazer essa série?
Adorei. Acho que é uma época própria.
Tu interpretas, vamos abrir o jogo.
Eu não posso.
Então abro eu, pode ser? Está no IMDb, estou a citar. Fazes de Carolina Beatriz Ângelo.
É verdade.
Que dá nome a um hospital. A primeira mulher a votar em Portugal, a primeira cirurgiã. Como é que foi para ti, enquanto a atriz Catarina Wallenstein, interpretar esta mulher? Exigiu de ti o quê?
Exigiu de mim muitas coisas, mas primeiro proporcionou-me uma imensa alegria, porque estamos a falar de uma época da qual não se fala muito e a forma como nos é ensinada a história no programa hoje em dia, salta um pouquinho por cima da Primeira República e daquela altura de todas as viragens, da monarquia para a república, aqueles primeiros governos, a sucessão de governos até à ditadura. Por causa da ditadura, essa história foi um pouco passada a ferro e não foi muito falada. Simultaneamente, é também a altura da emergência dos primeiros feminismos obviamente na Europa, mas em Portugal, e essa mulher fazia parte de um grupo excecional que é retratado nesta série.
Já percebi.
Deu-me uma grande alegria poder falar de política, poder falar da Primeira República, poder falar do início dos feminismos, do início das reivindicações feministas e da grande mudança no dia a dia das mulheres.
Tu és uma pessoa política, ou seja, acompanhas, segues, vibras?
Sim, absolutamente.
Consomes informação política?
Sim, consumo e acho que a nossa forma de estar na vida é política, mais ou menos partidária, consoante as pessoas, mas absolutamente política, ou seja, aquilo que eu escolho dizer e a forma como eu escolho estar no mundo é política.
Ok. E assumindo posições?
Sim. Acho que assumindo posições perante mim própria, que são as mais importantes, de tentar ter alguma clareza num mundo em ebulição e num mundo enlouquecido. Às vezes sinto que talvez seja demasiado definitiva nas minhas opiniões, mas estou sempre pronta a contradizer-me, que eu acho que é importante, mas tentar perceber onde é que eu me situo neste turbilhão de mundo ensandecido.
Ok, então partilha connosco uma-
Uma preocupação?
Não, está me a faltar a palavra. Algo que tu tenhas revisto, uma opinião que tu tenhas revisto nos últimos tempos.
Um coisa em que eu me tenha contradito?
Isso.
Não sei, estás me a perguntar uma coisa difícil. Eu tenho esta preocupação de às vezes achar que a forma de me exprimir com tanta certeza pode ser arrogante. E acho que o trabalho da flexibilidade é uma coisa que é muito importante. E acho que dá para ser firme e rigoroso, porque acho que sou firme e rigorosa, mas continuando a trabalhar a flexibilidade, e era a isso que eu me referia. Não te consigo dar agora um exemplo concreto em que tenha que voltar atrás, porque não é uma coisa de arrependimento ou de erro, mas é a ideia de que ser firme e rigoroso não implica a inflexibilidade. E acho que nos dias que correm, esta semana então, com as notícias que temos, dá para perceber como o mundo está completamente enlouquecido e as pessoas para se agarrar a qualquer coisa tendem a ficar mais inflexíveis.
Sim. Barricam-se, não é?
Barricam-se e estamos todos cheios de certezas, somos todos especialistas de coisas das quais não fazemos ideia nenhuma, coisas que não estudamos, temos todos imensa opinião. Temos pouco tempo para pensar. É curioso que hoje em dia são raras as pessoas, há uma pessoa que me faz isto regularmente: "Não sei, desculpa, estou a pensar." Já não tiramos tempo para pensar. Em princípio, neurologicamente, nós fomos talhados pelas redes sociais nestes últimos anos a posicionar-nos. Primeiro era o like, não like, ou partilha, não partilha, isto faz parte da minha maneira de ser. Mas este posicionamento instantâneo tirou-nos a latência da dúvida, do pensamento e de podermos abstrair de emitir uma opinião. E portanto, tornamo-nos todos pequenos especialistas.
É verdade. E é um sinal de fraqueza hoje em dia dizer: "Não sei, não percebo nada disso."
Sim.
Não é?
Sim. E a minha impaciência e a minha rapidez às vezes também exigem aos outros que tenham respostas naquele minuto.
Ainda que seja a resposta errada, é preciso dar uma resposta.
E acho que temos que ter um bocadinho de cuidado com isso. Acho que a ideia de poder passar um tempo a pensar pode ser muito enriquecedora, porque hoje em dia não há a latência do pensamento e da dúvida.
Ok. O que é que te inquieta, Catarina Wallenstein? Ou é tanta coisa?
Não, inquieta-me que as pessoas estejam muito zangadas. Inquieta-me que as pessoas estejam todas umas contra as outras, no sentido em que não se consiga conviver com a pluralidade e com a diferença, e que estejam a ser muito raros, nomeadamente o exemplo que vem das figuras políticas que nos representam ou que nos querem representar não é exemplar. Porque o debate saudável de ideias e o convívio com pessoas que pensam diferente de nós neste momento é complicado, é difícil, às vezes sensível. E a ideia de poder debater o país ou o mundo com uma pessoa que pensa diferente de mim e de ser um momento agradável e enriquecedor é rara. Tendo que para mim não, mas no mundo que me rodeia é uma coisa que me preocupa, porque as pessoas estão francamente talhadas para estar umas contra as outras e só se rodearam dos seus semelhantes, e isso é triste, é pobrezinho.
As bolhas.
É triste, porque é muito redutor, porque o mundo não é isso.
Exato. Estamos a ficar todos muito intolerantes, não estamos?
Estamos. Eu estou muito intolerante com a intolerância. Não, estamos todos enlouquecidos.
É verdade.
Não estou uma otimista. Não ando soturna, não sou soturna, não sou negativa, mas sou francamente pessimista, porque acho que isto está a atingir. Acho que vai ter que piorar a níveis estratosféricos, porque acho que aparentemente isto não chega para as pessoas como sinal de que as coisas estão péssimas.
Isto?
Isto, o mundo, esta loucura toda em que vivemos.
Ok. Tu nasceste em Londres, cresceste em Lisboa.
É verdade.
Frequentaste o Liceu Francês, tu és uma verdadeira europeia.
É verdade, eu vivi a Comunidade Europeia.
É verdade. Tu tens nacionalidade britânica? Não.
Não tenho. Que a Thatcher já tinha alterado as leis e já não dava para ter. Vivi lá muito pouquinho tempo.
Um ano, não foi um ano e meio?
É.
Os seus pais estavam lá?
Os meus pais estudaram lá e escolheram que eu nascesse lá, mas voltaram pouco tempo depois de eu nascer.
Muito bem. Conta como foi a tua infância, Catarina Wallenstein.
Não sei se me lembro muito ou o suficiente, mas eu tenho a impressão de que foi uma infância muito tranquila, sem grandes sobressaltos. Sou filha de dois pais que ainda estão juntos, andei sempre na mesma escola, vivi sempre na mesma cidade. Eu venho de uma família com muito amor e muita escuta, em que as crianças tiveram direito a ter opiniões, a tomar decisões e a falar. As coisas mais "erestudas", adoro inventar palavras. Talvez fosse a ideia da exigência de que eu me comportasse de certa maneira ou de que eu fosse de certa maneira. Fui educada numa família rigorosa, com muitas regras.
Com muitos artistas também, não é?
Sim.
O teu pai é contrabaixista, a tua mãe é cantora lírica, já disseste. O teu tio é o ator José Wallenstein.
Meu avô era ator também.
Exatamente.
Minha tia Madalena também. A minha tia trabalha na parte de programação para crianças do CCB e do projeto educativo.
E o vocalista, guitarrista?
É meu irmão, o Tomás Wallenstein.
Exatamente.
Sim, que vive em Boston.
Belos Natais esses.
Sim. Acho que talvez desde os oito anos não há assim tantos instrumentos e tantas r ábulas. Em crianças fazíamos algumas.
Tens memórias de Natais épicos com tantos artistas na família?
São todos. Este Natal foi assim. Estamos sempre todos juntos.
Deixa-me adivinhar. Lutam para ver quem é que faz de Pai Natal?
Não. Este ano o Pai Natal foi só sonoro.
Explica.
As crianças ouviram o ho ho ho e ouviram os guizos.
E imaginaram.
E foram correr, mas eles já não estavam ali.
Ok.
Mas ninguém se mascarou de Pai Natal.
Não têm esse hábito?
Não temos.
Pronto.
Talvez venhamos a ter.
Quem sabe? Portanto, tiveste uma infância feliz.
Tranquila, sim. Com muitas regras e com alguma exigência. Acho que fomos criados os dois por pais com exigência e com muita responsabilidade, à medida das exigências. A liberdade equiparada à responsabilidade, que já conseguimos ir tendo, mas tranquila, não me lembro de ser doloroso, ansioso nem complicado crescer. Há uma idade chata, ali os 12, 13 são meio desconfortáveis. É a ideia que eu tenho.
Em alguns casos, até aos 20.
Eu tive vários regressos, uma melancolia aleatória.
Sim, a idade do armário não te bateu forte?
Não sei. Acho que a que me bateu mais forte foi talvez aos 11. Era uma coisa triste, solitária, de ter uma tristeza não concreta. Ou talvez eu ainda não a soubesse identificar.
Começaste a ler Baudelaire.
Não, não tinha essa veia adolescente ainda a cultivar a dor. Era mesmo uma coisa de tristeza. Lembro-me de chorar, mas não sabia o que era. Se calhar não percebia. E agora, a esta distância, não sei dizer qual seria o facto concreto que me desassegava, mas tinha uma tristeza. E depois passou. E depois, de vez em quando, aí vir a adulta, visitamos umas tristezas e vamos aprendendo a identificá-las e a cuidar delas, a regá-las um bocadinho, dar-lhes uma atençãozinha e depois pô-las no congelador.
Muito bem. O que te entristece mais hoje em dia, Catarina Wallenstein?
Eu não sou uma pessoa muito triste. Sou uma pessoa solar. A injustiça entristece-me. Normalmente não é perante mim, mas a injustiça em relação às outras pessoas sempre me incomodou, desde criança. E esta adequação do adulto a si próprio, por causa da passagem do tempo, às vezes pode ser dolorosa. A ideia de estarmos a tentar recuperar uma pessoa que fomos, porque sabemos que estávamos mais solares ou mais acompanhados ou mais felizes. Mas lá está a história da verdade, nós temos que surfar a onda que está a acontecer e encontrar o novo nós. Essa adequação à passagem do tempo pode ser dolorosa, mas eu não me considero uma pessoa nada triste.
Pronto, e acabas assim, com grande sorriso. Catarina, esta é daquelas da alface beira: televisão ou teatro?
Teatro.
Sempre?
Sim.
Se pudesses escolher, só teatro?
Se me pagassem como em televisão. Mas não.
É um problema o dinheiro para os atores em Portugal.
É. Viver só de teatro é precário, porque são muitas horas de trabalho. O tipo de dedicação a um projeto normalmente é muito intenso.
Mas muito curto.
Sim, curto e intenso. Nós não somos maratonistas, somos sprinters, de alguma maneira. A nossa vida torna-se aquela experiência de teatro e a gente pensa naquilo e a nossa energia fica contagiada com as vidas que andamos a pesquisar e as histórias que andamos a contar.
Eu tenho imenso respeito pelos atores.
Quando se ganha muito pouco dinheiro, realmente a única vantagem é que não temos muito tempo para o gastar. Estamos no teatro e vamos a correr para casa, porque as alturas de ensaio são muito intensas. Eu, pelo menos, não tento ter muita vida paralela, porque a vida torna-se o processo criativo. E é disso que eu bebo. Mas o dinheiro em teatro ainda é muito pouco. Estes governos sucessivos, ou seja, a forma de ver o país não tem englobado a cultura como uma pedra fundamental da criação de pessoas mais completas. Não é só a ideia política, a ideia de gestão de dinheiro, é pensar que nós estamos a criar os eleitores de amanhã. E que a partir da escola, da cultura e das ferramentas que damos para as pessoas olharem para o mundo de uma forma diferente, e de uma forma justamente mais tolerante, ou que saia pelo menos das suas linhas e das suas rotinas, é criar uma flexibilidade e uma agilidade mental para ensinar as pessoas a pensar no futuro. E eu acho que isso tem sido Tem sido descuidado.
Descuidad0 em Portugal. Aliás, tudo o que implique um investimento diferido, digamos assim. Investir hoje para colher daqui a algum tempo em Portugal é sempre-
Claro, nós estamos sempre a trabalhar para os quatro e para os oito anos, para mostrar coisas hoje. Nós temos que pensar que podemos alterar uma geração se mudarmos e pensarmos profundamente na educação e na cultura. Ou seja, a cultura também deveria estar no guarda-chuva do Ministério da Educação, que tem problemas gigantescos e do qual ouvimos falar muito. Do Ministério da Cultura pouco ouvimos falar, a não ser quando os artistas vão à rua, perto de umas legislativas, porque pode ou não ter interesse a certos partidos falar disso. Mas pensar que é um investimento profundo na sociedade e nas pessoas que a compõem, tem sido totalmente posto de parte. E isso é muito triste, porque é uma forma de descaso e de descuido pelas próprias pessoas.
Também temos um problema que é sermos muito pequeninos. Do ponto de vista cultural, Portugal resume-se a meia dúzia de cidades. Ou não, Catarina?
Nós temos uma riqueza cultural.
O consumo.
Sim, claro. Nesta lógica capitalista em que nós vivemos, não é Portugal, é este mundo onde nós nos inclinamos, vive. Se fôssemos um mercado que vende para não sei quantos milhões, talvez pusessem mais dinheiro, mas nós temos um capital cultural gigantesco. Ou seja, não nos faltam bons atores, não nos faltam bons técnicos, não nos faltam assuntos, não nos falta identidade cultural, identidade regional. Ou seja, nós temos muito por onde pegar. E as pessoas gostam e interessam-se. O que falta mesmo é investimento para poder ser um trabalho digno, para podermos criar de forma digna, porque é como se o tempo, por exemplo, de escrita e de pensamento, não entrasse como o processo criativo. O que interessa é a execução, mas nós não podemos começar a ensaiar um espetáculo ou a filmar uma série hoje, sem ter anos de trabalho para trás. Esse trabalho é muito pouco remunerado. Evidentemente que há programas de apoio governamental, de apoios e de concursos, mas a ideia que tu vais escrever nas tuas horas vagas para um dia seres apoiada à produção é absurda. Tu tens que ser pago para escrever, para ter ideias.
É engraçado que estás a pensar nisso. Espero que não leves a mal a comparação. Estavas a falar do tempo que leva a construir um criador de cultura. E eu estava a pensar, por exemplo, numa indústria farmacêutica, que também leva imensos anos a produzir um comprimido e que depois se paga. Mas no caso dos atores não se paga esse tempo.
Depende do ponto de vista. Eu acho que se paga em empatia, em sensibilidade, em capacidade de pensar, em capacidade de análise, em espírito crítico, em não alinhar nas ideias de manada, em poder emitir a sua própria opinião. Acho que evidentemente se paga, acho que se paga em qualidade humana e capacidade de raciocínio. Agora lembrei-me de um professor de liceu que dizia uma coisa que já todos nós ouvimos, mas que é básica, que é: não interessa a quem está com o poder nas mãos que os outros saibam pensar porque são menos controláveis. Portanto, em certa análise, não acreditando que é esse o objetivo, o resultado é exatamente esse. Há cada vez menos pluralidade de pensamento, porque não somos desafiados a questionar-nos.
A questionar. E os atores fazem muito isso quando constroem, quando interpretam uma personagem.
Para nós mesmos, sim, mas imagina, tu vais ao teatro, vês uma história que não tem rigorosamente nada a ver com a tua vida e tu vais pensar numa coisa na qual nunca pensaste, vais sentir coisas que nunca sentiste. Portanto, não é o ator sabe fazer, nós não somos nada de especial. O que é especial é a experiência de eu, como público, me poder sentar e ser surpreendida e me serem propostas sensações, sentimentos e reflexões que não saíram de mim, que não têm a ver com a minha iniciativa. É-me proposto pôr-me noutro sítio, eu olhar o mundo de um outro ângulo.
Do outro ângulo.
E não é entretenimento, não é abdicar daquilo que eu sinto e daquilo que eu sou para me distrair. É o contrário, é pôr-me num outro lugar para eu ser de verdade e estar de verdade ali naquele momento.
Catarina, para ti construir uma personagem é uma coisa, como é que caracterizarias? Alegre, sofredora, angustiante?
Acho que é sempre um pouco angustiante, porque o desconhecido é muito assustador, porque tento trabalhar sempre com uma entrega. Enfim, sou perfecionista e sou exigente comigo própria, portanto passar por um processo criativo e não me custar, eu acho um bocadinho estranho. Não é um passeio no parque. Tenho que ir, questionar-me, falhar, expor-me, errar em frente a toda a gente, pensar outra vez, experimentar de novo. E isto acho que é o sítio de crescimento, é onde a gente arrisca. Quando é seguro, não acredito que tenha muito interesse.
Portanto, gostas de ir para fora de pé.
Eu não gosto, eu odeio, mas eu não posso não ir para fora de pé, porque senão eu vou me instalar enquanto pessoa e enquanto artista. E, portanto, evidentemente que estar fora de pé é desconfortável, nunca vou gostar, mas vivo para isso. Olha as minhas contradições, as maças, é tão bom.
Então, mas o ser humano é assim mesmo.
A falta de coerência é tão importante. Também já não temos direito a ser incoerentes, já viste?
Temos.
Temos? Acho que temos.
Caramba.
Eu quero muita incoerência.
Força. Olha, qual foi a personagem que mais trabalho te deu até hoje, Catarina?
Não sei pensar assim. Vou dizer porquê. Porque acho que cada processo criativo é completamente diferente do outro, porque tem a ver com as pessoas que me rodeiam, com a natureza do texto, com a própria natureza, o ritmo de filmagens, se é um trabalho mais solitário, se é um ensaio que é muito coletivo, se tem muito tempo de preparação e de ensaio ou se é uma coisa que eu faço em casa. Portanto, não consigo dizer que eu tenha uma forma de trabalhar.
Não, era a personagem.
Eu sei, mas cada um deles depois me leva de uma forma. Há uns que são muito sofridos.
É importante também a fase da vida em que estás?
Sem dúvida. Eu não existo sem eu existir. Percebes? Eu só existo naquele dia, àquela hora, e no dia seguinte talvez um pouco diferente, espera-se. E, portanto, não te sei dizer assim uma coisa que me tenha custado. Esta coisa de fazer de Carolina Beatriz Ângelo deu-me uma alegria imensa, porque também foi a última. A mais importante é sempre aquela que estamos a fazer agora, se calhar. Tenho montes de personagens que me deram imensas alegrias, mas não sei a nível do gostar ou do investimento. Também há personagens que são mais sofridas ou mais tristes, ou há temas que são mais pesados, e isso traz-se um pouco para casa. Há outras alturas e papéis que trazem uma energia mais jocosa, mais satírica. E portanto, acho que cada processo é um processo, não tenho uma eleição de uma coisa mais dura ou mais difícil ou mais divertida.
Ok. Já percebemos, és uma pessoa que consome muita política, disseste isso há pouco.
Sim, sobretudo eu quero me manter informada. Quero justamente poder posicionar-me com algum conhecimento de causa. Não sou uma especialista.
Não, mas hoje-
Mas também não quero que me passe nada ao lado. Tento saber mais ou menos o que se passa.
Isso os especialistas somos todos hoje em dia.
Exato.
É verdade. E tu lamentas isso.
Lamento.
Mas olha, quando olhas para o país e para a Europa, onde é que tu te posicionas? Como é que tu vês o mundo hoje em dia?
O mundo está insano. Mas vou direto ao assunto. Eu acho que a ideia de nós não estarmos na União Europeia, para mim não faz sentido nenhum. Ou seja, estes 40 anos da ideia de comunidade, o crescimento que isso dá, cultural e o crescimento económico, evidentemente, por fazermos parte de uma comunidade, é abissal e é inegável. A ideia de navegarmos isoladamente, qualquer um dos Estados-membros, é uma loucura. Aliás, é só olhar para o que se passou com o Brexit e perceber a ansiedade que isso ainda nos causa a muitos de nós ao olhar. Portanto, a ideia dissidente de Portugal ser hipoteticamente dissidente da União Europeia, para mim não faz sentido nenhum.
Tu sofreste de alguma maneira ou os teus pais sofreram, alguém da tua família sofreu?
Diretamente com o Brexit?
Sim.
Não, mas estamos chocados até hoje.
Eu pergunto isto porque-
Não, não tinha ninguém lá
...são artistas, principalmente a carreira internacional.
Vejo as dificuldades de pessoas. Continuo a ver as dificuldades das pessoas que lá estavam, que estudaram e que agora para voltar e o visto é uma confusão. Mas não conheci ninguém muito próximo que estivesse lá, que fosse diretamente visado. Mas ainda estou chocada como se tivesse sido ontem. Não me habituo a todo o contexto, a rapidez, a enorme proeza mediática e manipulação mediática que é feita sobre as populações e como isso pode ter um resultado abissal da noite pra dia. Ia se falando, havia uns zunzuns, mas foi bastante surpreendente, não sei se estás de acordo comigo.
Estou.
Pronto. Até hoje parece que não me habituei. Continua a ser meio absurdo.
É meio estranho, não é? Porque tu cresceste com a ideia do sonho europeu, não é?
Sim, aliás, estando no Liceu Francês, um bocadinho à semelhança, tu entrevistaste o Benjamim na semana passada. Ele também viveu em Londres e estudou na escola alemã. Eu estudei numa escola francesa, ou seja, ambos estudamos numas escolas que são pedras basilares, são países fortíssimos na União Europeia. E, portanto, nós falamos línguas, viajamos, fazemos parte do projeto europeu também na forma de conhecermos uma outra cultura e de nos fazermos entender e de conseguirmos viver, de fato, em comunidade, não só a facilidade de locomoção e de comércio, etc. Mas a ideia de nos entendermos melhor culturalmente uns aos outros. Portanto, a ideia separatista, para mim, é muito assustadora.
Pelo menos crescemos nesse sonho. Eu também cresci nos anos 80 e 90, havia aquela esperança de sermos todos europeus.
Sim.
E de falarmos todos a mesma língua, nunca mais haver uma guerra na Europa.
Pois. Uh.
Isso é francês.
É. Mas sim, eu acho que estamos num momento completamente, para já as coisas aceleram-se e precipitam-se. E os eventos políticos e as maluquices agora esta semana é incontornável. Estamos todos de boca aberta, hoje é o assunto da Gronelândia, e vamos ter surpresas destas com cada vez mais frequência, porque esta ideia da lei do mais forte está vigente, é concreta. Ou seja, até há uns anos era apeluada.
Já não é uma ideia.
Mas havia um certo direito pela lei internacional, pela autodeterminação dos povos. Neste momento, é a lei do mais forte e de forma muito concreta, de pessoas que nos representam culturalmente, no sentido em que nós andamos a papar a cultura americana e nos identificamos com ela e com a forma de viver. Portanto, neste momento, a nossa cultura econômica, há uma parte da nossa forma de viver que é representada por toda a concretização desta lei do mais forte.
Tu revês-te nessa cultura americana, nessa que tu citaste há instantes?
Não, mas seria também ingênuo dizer que eu não faço parte. Duas coisas: a primeira, já a juntar estes dois assuntos, a ideia de que nós somos todos europeus, nós somos todos estupidamente europeus, com ou sem União Europeia e com ou sem projeto europeu, no sentido em que nós temos uma história que nos une, a história colonial, e isso define-nos até hoje. Ou seja, nós temos uma cultura partilhada entre vários países europeus. Eu tenho vivido entre aqui e o Rio de Janeiro, e só comecei a reparar quão europeia sou conforme sou confrontada com o fato de ser europeia. Confrontada não é acusada, não é conversa dos teus trisavós que fizeram não sei o quê de vovô. Não estou a falar de conversas básicas, estou a dizer coisas muito concretas, meio cartesianas, meio racionalistas, a ideia de lógica, a ideia de causa e consequência, a ideia de certo e errado, um intrínseco moralismo na forma de estar. Não é um moralismo só de julgar o outro, é a ideia de que há uma forma certa de se fazer as coisas.
Isso é europeu?
É. É bastante.
Há quem diga que esse lado moral é o que acompanha os perdedores
Não sei. Também acho que pode ser o que acompanha países que viveram com a Inquisição fortíssima, que é o nosso caso e de Espanha, por exemplo. Ou seja, nós temos uma veia moral e moralizante antiquíssima e altamente repressora e durante muito tempo, e isso está no nosso ADN. Nós também carregamos essa história da Inquisição e carregamos muitas outras. Ou seja, nós carregamos a nossa história e acho que a ideia de culpa não me interessa, mas temos que perceber que o nosso processo histórico é o nosso processo histórico e que o dos outros é o dos outros, e que as coisas têm consequências no desenvolvimento de outros povos, no desenvolvimento de outras identificações e identidades. Portanto, sim, nós somos estupidamente europeus. E tudo bem, não me importa nada, acho fixe, mas temos que saber que somos europeus e não vamos deixar de ser, e identificamo-nos com os nossos parceiros europeus e portanto temos uma comunidade que nos junta e que eu acho que é bom que exista, no meu ver.
Mas também há muita coisa que nos afasta. Tu que estudaste num liceu internacional, num liceu francês.
Faz lá a pergunta.
Há coisas que nós não temos em comum com os franceses.
Mas eu acho que se tu comparares com um país da América Latina ou da Ásia, são detalhes e são embirrações bairristas da Europa. Se pensássemos isso de uma forma federalista e fôssemos todos um território muito grande, tem os seus regionalismos. Os parisienses têm o nariz empinado e essas coisas? Não sei se isso nos distancia tanto, porque acho que isso são rótulos que nós precisamos de pôr para estarmos mais ou menos confortáveis ao pé das outras pessoas.
Para justificar, não é?
Sim, acho que obviamente, culturalmente, há identidades das pessoas, há velocidades de pensamento, velocidades de reação, há tamanhos de mercados, há solidões diferentes, climas diferentes, naturalmente. Mas acho que apesar de tudo, temos muitas coisas que nos juntam.
Muito bem. Dizias que passas muito tempo no Rio de Janeiro.
Sim, eu estou entre aqui e o Rio de Janeiro.
A fazer o quê?
Porque o meu companheiro é carioca e portanto as nossas vidas dividem-se. Eu trabalho mais por aqui, ele trabalha mais por lá e andamos para lá e para cá. Mas enfim, acho que é uma vida-
Casal Atlântico.
Atlântico. Podia ser um sítio muito pior. O Rio de Janeiro é uma cidade inacreditável.
Mas está distante, não é?
Pois está, mas ao mesmo tempo dá-me uma frescura, uma falta de conforto na vida. Não a vida que eu tenho no Rio de Janeiro, mas a ideia de que eu chego lá, demoro um pouco a adaptar-me, depois adaptei-me, já estou instalada, volto a arrancar-me para aqui. Parece que me estou sempre a desenraizar. Não é que eu não saiba onde é que pertenço, não é nada disso, mas a ideia da adaptabilidade, à medida que nós envelhecemos, começas a reparar mais nela, seres mais ou menos adaptável. Não estou a dizer que custe muito mais ou muito menos, ou pelo menos talvez eu não passe muito tempo a pensar nisso, mas eu sinto o momento do desenraizamento, mais lá vou eu de armas e bagagens para lá e troca o MIO, descola e vai, instala. Quando está tudo: "Agora vamos voltar para Lisboa." E penso assim: "Estávamos bem aqui, mas ao mesmo tempo eu preciso de ir trabalhar, eu preciso de estar no meu país, com as minhas pessoas." Desenraíza outra vez. Isso dá-me alguma frescura de olhar sobre as coisas, porque eu já ando para lá e para cá há oito anos, portanto conheço razoavelmente bem o Rio de Janeiro, mas é sempre muito fresco, porque eu vejo Lisboa com uma certa distância, porque consigo passar uns momentos mais longe daqui e lá continuo, obviamente, com um olhar de grande novidade e de grande espanto, porque é uma cultura supereficiente, um mercado gigante, uma arte ultracriativa e política também, uma população muito misturada, muito desigual, mas muito engajada. E portanto, isso é muito rico. Depois chego cá e também consigo olhar para Lisboa com algum carinho, mas com alguma distância, sem tomar tudo por estabelecido, sem tomar tudo por garantido e conseguir também fazer as críticas, porque às vezes acho, neste momento, Lisboa substancialmente mais chato que o Rio de Janeiro, por exemplo, ou a Europa em geral, mais chata do que a América Latina. Chata tipo sage. É mais silencioso, é mais organizado, mas também é mais aborrecido, é mais monocórdico.
E tu queres agitação?
Eu gosto de agitação, acho que por isso este pêndulo é bastante interessante, porque eu mantenho-me agitada mesmo aqui. É novo. Consigo que a minha cidade se vá tornando nova para mim periodicamente. Isso é muito interessante.
Isso é bom. Catarina Wallenstein, foi um gosto. Muito obrigado.
Obrigada.
Agradeço. Catarina Wallenstein, atriz, a segunda convidada dos "Filhos da Europa", podcast da Rádio Observador em parceria com o Parlamento Europeu, onde conversamos com portugueses que nasceram em 1986, o ano da adesão de Portugal à então CEE. Até para a semana.