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Bem-vindos a "Filhos da Europa", o novo podcast da Rádio Observador, em parceria com o Parlamento Europeu. Nas próximas semanas, vamos conversar com cinco pessoas nascidas no ano de 1986, o ano da adesão formal de Portugal à então CEE, Comunidade Económica Europeia. Vamos tentar perceber como cresceram eles num Portugal que se estava a tornar mais europeu. Para a estreia de "Filhos da Europa", convidamos um dos músicos mais populares do país. Olá, Benjamim.
Olá, obrigado.
1986 é uma data cheia de significado na tua vida. Não só porque foi o ano em que tu nasceste, mas porque 1986 dá também nome a um disco teu.
É verdade.
E foi o ano em que Portugal aderiu à então CEE.
E ano da catástrofe de Chernobyl.
É verdade. Um mês antes de tu teres nascido.
Sim, em abril.
Chernobyl foi em abril, tu nasceste em maio, em circunstâncias normais, deduzo.
Sim. Até agora ainda não me cresceu um pé extra.
Olha, Benjamim, obrigado por teres encontrado tempo na tua agenda.
Obrigado pelo convite.
Nada. Andas a ensaiar, espero não estar aqui a revelar nada de extraordinário.
Não, ensaiar faz parte do trabalho do músico.
É verdade, mas o que é que estás a aprontar? Algo especial?
Por acaso, isto vai passar noutra altura. Tenho um concerto amanhã.
Ok, então é por isso.
Sim.
Muito bem. E tens também um concerto agendado para fevereiro, em Lisboa. No Coliseu dos Rebentos, é? Não.
Exatamente. Dia 8 de fevereiro, isso é com o Tozé Brito. Eu e o Tozé fomos convidados para fazer parte deste ciclo que se chama "Conta-me uma Canção", em que dois escritores de canções tocam música juntos, mas mais do que tocar música juntos, é falar sobre o processo de fazer música.
Isso é superinteressante.
É.
É uma coisa sobre a qual tu te sentes à vontade? Normalmente, os artistas têm algum pudor de falar de si e de falar dos seus processos criativos, porque são sempre zonas sombrias da vida das pessoas. Tu estás à vontade nisso?
Não estou à vontade. Eu sinto muita dificuldade em articular o pensamento sobre o meu processo criativo, porque ele tende a ser caótico, contraditório e muito ambíguo. Eu oiço muitos podcasts e vejo muitos vídeos de malta a falar de processos criativos e acho fascinante como é que há muita gente que consegue, de maneira tão sucinta e tão lógica, falar sobre os seus processos criativos e muitas das coisas que eles estão a dizer são coisas que eu sinto e que são exatamente aquilo que eu também faço, mas que eu não consigo descrever daquela maneira.
Como assim? Explica lá. Dá-me um exemplo que tenhas ouvido e que dizes: "Eu concordo com ele, mas..."
Há uma TED Talk que está no YouTube, do Mark Ronson, sobre sampling. Isso é muito mais espetacular, aquilo é quase um espetáculo e ele faz aquilo de uma maneira brilhante. Mas depois a maneira como ele aborda todo o processo criativo dele e todas as coisas que ele pensa e todas as decisões que ele faz, ele consegue argumentá-las de uma maneira que pra mim é muito mais caótica, é muito mais de instinto na minha cabeça. Se calhar, às vezes, uma pessoa toma uma decisão e só muito retrospectivamente é que consegue perceber porque é que tomou realmente aquela decisão. Foi uma questão de instinto.
E tu compões muito por instinto, é isso?
Eu faço muitas coisas por instinto. O que é que é o instinto? O instinto está lá porque existe uma memória muscular qualquer. É como tu a fazeres rádio. Instintivamente, se calhar, a maneira como fazes a coisa, não estás a pensar.
É uma mecânica associada à coisa.
Exato.
É como tocar guitarra. Quando se salta de um lá para um ré, ninguém vai olhar pra mão e ver onde é que se colocam os dedos.
Idealmente. Eu, às vezes, olho.
Tu olhas?
De lá pra ré, não, mas às vezes.
Muito bem. Olha, Benjamim, tens quase 40 anos.
É verdade.
É uma idade um pouco fantasiada, diabolizada. Ele é quarentão, vai entrar na curva descendente da vida.
Eu não acredito em nada disso.
Não, eu estou a dizer que é o que dizem sobre os 40. Até há aquela expressão, 40 aguenta. Não conhecias essa?
Não.
Não, foi à toa. Olha, como é que tu te sentes à beirinha dos 40, Benjamim?
Ainda estou a curar chegar aos 30. Ainda estou na depressão dos 30. Já estou a chegar aos 40. Sinto-me bem. Uma coisa que eu sinto é que a minha vida vai melhorando à medida que o tempo vai passando também. Ou seja, eu gosto de apreciar cada momento que eu estou a viver. Já vivi numa casa cheia de gente a partilhar um quarto minúsculo, já vivi sozinho no Alentejo, já vivi sozinho em Lisboa, casei-me, sou uma pessoa feliz no meu casamento, fiz quatro discos. Portanto, todos os momentos da vida eu acho que nós temos que apreciá-los.
São fases, não é?
São fases. A vida é só fases.
É verdade, e nós andamos a saltar de umas para as outras.
Não existe nenhum momento em que tu possas dizer: "Estou confortável agora e isto vai ficar assim pra sempre". Nunca vai acontecer.
Não, ninguém pode garantir isso.
Seja aos 40, aos 80, 90, 30. Pronto.
Mas sentes que o tempo te deu conforto, mas também maturidade?
Maturidade, sim. Acho que sim. Também há um lado imaturo que eu gosto sempre de conservar.
Isso é ótimo. Aquela loucura saudável.
Sim, a irreverência.
Sim.
Não querer também aceitar tudo.
Pois. Tu consegues fazer este exercício que é: a uma fase da tua vida corresponde um disco?
Sim, consigo. E é assim que eu faço o meu.
É?
É. 2015, autorrádio. Foi o ano em que eu Voltei para Lisboa dois anos antes, voltei de Londres. Em 2012 gravei um disco como Walter Benjamin, que era o meu projeto anterior. 2017, o "1986". 2020, "Via Extinção". 2024, "As Berlengas". Portanto, eu consigo saber onde eu estava a viver, como é que eu estava a viver, onde é que eu gravei, como é que era o meu estúdio na altura. A Catarina, minha mulher, está sempre a dizer, ela é que reparou que cada vez que eu entro num processo criativo diferente, eu mudo o sítio onde eu estou a trabalhar em casa ou o meu estúdio, eu mudo tudo de sítio. E ela diz: "Cada vez que fazes um processo novo, tens que mudar o sítio onde estás".
Do lugar, é isso?
Sim. Eu também me lembro dessas variações consoante os discos que estava a fazer.
Muito bem. Não associas isso a nenhuma marca de móveis, pois não?
Não, isso não.
Tive a minha fase, enfim, não vou dizer marcas. Então, agora onde é que te encontras, Benjamin? Em que fase é que tu estás?
Estou a fazer um disco novo. Estou a fazer muitos projetos.
Ah, afinal há disco novo.
Há um disco novo a ser feito.
Sim. Fala, dá-me lá uma notícia em primeira mão.
Estou a fazer canções. O meu último disco foi um disco muito experimental.
"As Berlengas".
"As Berlengas". Porque estava farto de fazer canções e depois de estar muito tempo na estrada a tocar esta música mais eletrónica e de ter feito este disco, que foi um disco bastante difícil de fazer, eu comecei a sentir falta um bocado da simplicidade de fazer músicas, agarrar numa guitarra e fazer uma canção. Portanto, estou neste sítio agora, estou dedicado mais a escrever, menos dedicado a estar dentro do computador a produzir coisas, mas fazer uma produção mais manual. Os 40 anos, começares a sentir que os teus olhos já começam a arder quando estás muito tempo ao computador. Pensar: "Se calhar não quero estar tanto tempo ao computador, se calhar quero-
Back to the roots.
Sim, um caderno e uma folha.
É?
Sim. Mas isso também faz parte do processo. Daqui a dois anos, se calhar estou a fazer música com o telefone. Isto também faz parte do processo criativo não ser sempre igual. Eu gosto de mudar sempre as coisas, gosto de mudar mesmo as colaborações, fazer músicas com outras pessoas. Lancei agora uma canção com o Caio. Ando sempre a fazer muitas coisas. Tenho uma editora, portanto, não me faltam projetos.
Tens com o que te ocupar.
Tenho que ocupar todas as horas do dia.
Boa, muito bem. Olha, vamos falar de ti, do teu percurso de vida, que não é só marcado pela música. Academicamente, és formado em antropologia, não é?
É verdade.
Que é uma coisa bizarra. Quer dizer, a antropologia não é bizarra. Portanto, és antropólogo.
Não, não sou antropólogo, de maneira nenhuma, nunca na vida.
Mas és formado em antropologia, não é?
Licenciei-me, nunca fui buscar sequer o diploma. Estudei, obviamente, era esperado que eu fosse tirar um curso.
Era esperado por quem? Pela família?
Sim, e por mim também. Eu estudei música toda a minha vida. Desde os seis anos que estou a estudar música. E havia uma parte de mim que não queria ficar só preso naquilo que é a música. Eu acho que é muito importante, para quem escreve canções, então. Obviamente, eu podia ter tentado ir para uma escola superior de música ou se me tivesse dedicado mais à parte mais técnica ou de dominar o instrumento de tal maneira de querer ser um executante ou intérprete. Mas na minha cabeça estava claro que me interessa muito mais escrever canções, trabalhar em produção, tocar com outros músicos, uma coisa um bocadinho menos académica. E antropologia, eu fui lá parar porque não fui um aluno brilhante. Eu vou dar conta disso. As pessoas: "Não podes dizer essas coisas".
Conta. Podes contar, claro que sim.
Basicamente, eu fiz uma lista de cursos aos quais eu me candidatei, antropologia estava lá. E foi o que calhou. Não sei se era para ir em segunda ou terceira opção. Os exames do 12º ano não correram especialmente mal.
Correram-te mal e, portanto, não tinhas nota para entrar em cursos.
Direito, por exemplo.
Era uma opção?
Era uma opção. A primeira opção foi Direito. Houve várias mudanças na minha vida, meu pai é engenheiro e eu comecei a programar computadores em Basic, muito pai, com 10 anos, e meu pai ficou maluco. Meu pai programava algumas coisas no trabalho dele.
Então Basic ainda no DOS, MS-DOS.
Em DOS, sim, MS-DOS. Depois Visual Basic em DOS também ainda.
Ok, giro.
E o meu pai ficou fascinado e ofereceu-me o livro que ele tinha de Basic, com código, para aprender código. E eu achava que queria ser engenheiro, mais na área da eletrotécnica. Eu desmontava os meus brinquedos todos, fazia coisas com circuitos e lâmpadas.
Portanto, há um lado geek.
Há, sem dúvida, um lado geek gigante meu, eu gosto de bricolage.
Sim.
Isso passou-me o meu pai diretamente, esse tipo de coisas.
Ok. Espera, deixa-me abrir um parêntesis. Quando dizes eu gosto de bricolage, é porque tu montas depois os teus sintetizadores e fazes aquilo tudo ou um dia destes vamos te apanhar em casa em cima de um escadote agarrado a um berbequim a fazer coisas em casa?
Sim, eu já fiz isso. O meu estúdio em casa, o submarino, era uma cave que estava num estado lastimável e fiz o isolamento todo, passei a eletricidade toda.
Tu sozinho?
Sozinho, às vezes tinha ajuda, que era para conseguir pôr as placas na parede. Obviamente, tive ajuda, mas berbequim na mão, furar, tirar as vidas todas. Eu acho graça a esse tipo de coisas.
Ok.
Não é que tenha muito jeito, atenção. Eu tenho amigos meus que têm mesmo muito jeito e fazem as coisas perfeitinhas e eu não tenho muito jeito, mas eu gosto de fazer. Desde muito novo comecei a ser geek de som. O primeiro gravador multipistas que eu tive, que implorei aos meus pais para me comprarem uma vez que fomos a Andorra, eu tinha 12 anos. Eu já tinha visto nas revistas. A primeira revista de gravação que eu comprei foi em 1997, na D'Itália.
Eram o quê? Quatro pistas?
Eram quatro pistas em cassete.
Incrível. Era cassete, não era bobine?
Era uma cassete. Porque nós somos aquela geração que apanhou a transição do analógico para o digital. E eu, como em 97 tinha 11 anos, já estava a ler sobre gravação analógica e gravação digital. Ou seja, eu apanhei muito essa transição de, de repente, termos um computador em casa que dá para gravar música, por exemplo. Portanto, eu comprava os cabos e comprava as placas de som que instalavam. O meu primeiro Pentium 100, eram dois computadores que meu pai tinha velhos, que eu fui para a empresa do pai de um amigo meu, que eles eram uma empresa de informática, e eles ajudaram-me a montar. Com dois computadores, fiz o meu computador para conseguir gravar música.
Pentium 100 hoje é muito menos do que um telemóvel.
É muito menos que um telemóvel.
Incrível.
Windows 95.
Ui!
95, sim, na altura. O primeiro computador que eu tive foi um Estrade.
E depois apareceu o 98, o Windows 98, depois apareceu o XP, depois o 2000, depois o NT Server, enfim. Somos muito antigos.
Eu sempre gostei muito deste lado de engenharia. Mas na escola percebi que eu era obcecado por música durante todo o tempo que estive na escola.
Mas escuta ou produção?
A tocar. Tinha uma banda. Fui muito precoce a começar a tocar com amigos meus. Nós fizemos uma banda na escola.
Tu cresceste onde, Benjamim?
Cresci em Lisboa.
Em Lisboa. Sim.
Tive a sorte de andar numa escola que, apesar de saberem que eu não era o aluno mais empenhado academicamente, eles valorizaram muito o fato de eu ser tão empenhado a fazer música.
Ok. Não te estirontearam enquanto pessoa.
Não. Estamos a falar numa escola privada que é conhecida por ser bastante rígida. E ao mesmo tempo que sofria um bocado pelo facto de, eu nas aulas lia revistas de música. Passava um segundo, meu pai recebia cartas em casa a dizer que eu não fazia os trabalhos de casa. Coitado, eu acho que os meus pais sofreram um bocadinho comigo. Ao mesmo tempo, eu sempre tive uma estratégia.
Ia pagar a severidade.
Ia pagar, sim. Ia fazer um grande sacrifício. Mas ao mesmo tempo, a minha estratégia na vida sempre foi nunca chumbei de ano. Estive sempre ali a safar-me. Algumas disciplinas eu safava-me bem, noutras disciplinas era mais fraco. E depois percebi que com a matemática, aquilo não era um caso de amor. E, portanto, eu percebi que engenharia não ia ser.
Não ia dar.
Depois também comecei a perceber-
Foi assim que então que foste parar à antropologia.
Fui parar à antropologia.
Virando as costas à matemática.
Sim.
Mas também não muito convictamente, pelo que estás a dizer, porque querias era fazer música.
Olha, foi a melhor coisa que me aconteceu, eu ir parar à antropologia. Porque se eu tivesse entrado em Direito, isto é muito honesto, eu ia só ficar muito frustrado, porque eu acho que era um curso que exige estudar muita coisa, exige estudo, que eu acho que não estava sequer disponível para. O que ia acontecer? Ou eu desistia da música, então dedicava-me realmente àquilo que eu acho que não ia ser uma hipótese, ou então aquilo ia criar um sentimento de permanente insatisfação e tensão, e mesmo com a família, ou estás na faculdade e estás a chumbar. Obviamente, antropologia é um curso que não tem o mesmo tipo, eu não quero ser mal interpretado, é preciso estudar para fazer antropologia, obviamente.
Mas não exige o mesmo compromisso.
Exato. Eu acho que o compromisso é um bocadinho maior. Acho que vocês podem reconhecer isso. É como um curso de medicina. Eu não vou comparar aquilo que eu tive que estudar para o curso. E é mesmo aquilo que tu te podes safar. A responsabilidade, pelo menos na minha ótica, se eu tivesse a estudar medicina ou direito, tens a responsabilidade da vida das pessoas na mão, essa liberdade das pessoas na mão, aconselhares as pessoas juridicamente. Em antropologia, eu sabia que não queria centro palco, portanto, o meu passeio foi mais informal. Ao mesmo tempo, aquilo que eu aprendi lá foi fascinante.
No curso de antropologia.
E eu não estava preparado para mudar tanto a minha maneira de ver o mundo.
Partilha, o que é que mudaste?
Tudo.
Mas foi o quê? Foi o curso ou foi a instituição universidade?
Não, foi tudo. Obviamente, a universidade eu acho que é muito importante. Tive uma vida académica muito interessante.
18 anos. Foi muito noturna?
Também noturna e diurna.
Não, mas é um mundo novo. Cais num sítio, tens 18 anos e de repente convives com pessoas que têm 22, 23, 25, 26.
Sim.
Professores com outra atitude.
Professores com outra atitude. E na altura eu apanhei ali o pré-Bolonha na FCSH. Eu tive muita sorte, que eu hoje vou à FCSH.
FCSH é a Universidade Nova de Lisboa, ali na Avenida Berna. Muito agitada, essa faculdade, não era?
Era muito agitada, era muito divertida, era muito irreverente. E tenho saudade.
Já não?
Eu não sei. Eu acho que uma das coisas que me faz um bocado de pena em relação àquilo Aquilo que eu vivi na universidade, por exemplo, agora ando no metro e vejo grupos de jovens amarrados uns aos outros. Vou ao Estádio Universitário, grupos de jovens amarrados uns aos outros, aos berros.
As praxes.
E na FCSH só havia um curso com praxe e havia uma coisa que era o MATA, não sei se te lembras, que era o Movimento Antitradição Académica, que era muito forte na FCSH. Portanto, a nossa praxe foi uma folha colada na sala de aula que os alunos mais velhos fizeram assim: "Jantar karaoke na marisqueira chinesa. Inscreve-te." Inscrevemo-nos e era jantar e cantar músicas.
É um belo ritual iniciático.
Foi perfeito, ficámos todos a conhecer e foi espetacular. Nenhum de nós teve que perder o respeito pelos outros.
E ser humilhado e andar a fazer figuras.
E assusta-me. Diz?
Não, continua.
Assusta-me a ideia de-
De ser um carneirinho, é isso?
Sim, a ideia de perder a irreverência, de perpetuar estes ciclos de bullying. Por que é preciso fazer isso para ter o respeito das pessoas? Por que nós temos que passar por estes rituais de iniciação?
Muito bem. Já contaste um pouco da tua infância, da tua juventude, da tua entrada na faculdade para o curso de Antropologia. Benjamim, o que te motiva enquanto músico para escrever canções?
O mundo. Isso na Antropologia foi muito importante, olhar para o mundo de outra maneira, perceber como é que as pessoas vivem, perceber como é que uma sociedade nasce, perceber como é que o ser humano existe, perceber um pouquinho de economia. A antropologia tem uma coisa muito engraçada, que é que fala de toda a atividade humana, fala de tudo. Fala desde economia, fala de modos de vida, fala de cultura, fala de lei, fala de música, de arte, fala de muitas coisas.
E deu-te uma grelha nova para interpretar o mundo.
100%.
Foi?
Sim.
Consegues materializar isso? O Benjamim no secundário pensava de que maneira e o Benjamim pós-antropologia?
Isso eu posso todos os anos. Eu penso isso sobre o que eu pensava no ano passado e o tipo de coisas que eu achava quando era mais novo e que hoje acho diferente. Isso faz parte também do tempo a passar e das coisas que aprendemos e mudamos de opinião. Não sei, é mesmo uma descodificação do mundo, uma maneira de descodificar o mundo, uma maneira de perceber que há coisas que são universais, perceber que há coisas que não são universais. Agora estamos a viver o fim do relativismo cultural, que foi algo que estudei no curso. Mesmo olhando agora para os desafios que o mundo tem e perceber coisas que eu aprendi sobre a sociedade e sobre o ser humano, e começares a ver a história a repetir-se. Eu acho que é só uma maneira de interpretação, como é outra qualquer.
O que te assusta mais hoje, Benjamim, a olhar para o mundo?
A guerra. O que me assusta mais?
Mas sempre houve guerra. É o quê? A guerra da Ucrânia, a guerra aqui às portas da Europa? A possibilidade de nós podermos estar envolvidos numa guerra?
Também, obviamente, isso assusta-me muito. Indo ao tema desta conversa, o pressuposto da Europa, a ideia dos 40 anos dados.
O pretexto.
Mas o pretexto é importante, porque tal como eu disse que apanhei a transição do analógico para o digital, também apanhei, quer dizer, já nasci num contexto em que nós fazíamos parte da Europa, mas o meu contexto familiar, por exemplo, o meu pai veio de Angola em 74, 75. Isso é um contexto. Tenho muito aquela visão da malta dos retornados, apesar do meu pai dizer que não é retornado. Apanhei esse contexto. Depois apanhei o contexto da minha mãe, que vem do Norte, a família vem para Lisboa, então encontraram-se em Lisboa e eu e o meu irmão e os meus primos somos os primeiros a nascer em Lisboa. Num contexto dos anos 90, em que de repente Portugal já não é um país, nós ainda éramos um país muito periférico, éramos um país muito isolado. O primeiro Game Boy que o meu irmão recebeu foi porque o padrinho dele trabalhava na TAP e tinha ido aos Estados Unidos e trouxe-lhe um Game Boy, porque era impossível comprar um Game Boy em Portugal. O grau de isolamento em relação àquilo que se consumia. Eu lembro-me disso, da televisão, dos programas, da música que se consumia. Obviamente, ouvia-se música estrangeira, mas o acesso que nós temos hoje em dia e o acesso que fomos ganhando também com a internet.
Mudou muito nos anos 90.
Muda muito.
Na tua infância e juventude.
Mas a minha infância e juventude, a ideia tanto tecnológica, que é muito importante, como política, no caso da União Europeia, era que o futuro ia ser muito melhor, era que nós nos íamos aceitar muito mais uns aos outros, era que nós estávamos a construir uma sociedade mais aberta.
Íamos ter uma moeda única.
Passámos a ter uma moeda única.
Sem fronteiras.
Exatamente, a parte das fronteiras é muito importante. Eu fui para Inglaterra estudar num contexto que já é histórico. Eu olho para mim, há 10 anos, é histórico. Eu estudei no Reino Unido, quando o Reino Unido fazia parte da União Europeia, e para mim é completamente anacrônico não fazer parte da União Europeia. Portanto, eu olho para o mundo quando eu começo a ver-
Tu viveste em Londres entre 2009 e 2013.
2009 e 2013, exatamente.
2013. Desculpa, na altura já se falava da possibilidade de sair?
O que se falava foi um bocado o que começou a aparecer aqui muitos anos depois, agora com os novos fenômenos populistas. É que, de repente, vias um programa na BBC, por exemplo, um debate sobre imigração, e de repente já havia lá um do painel que tinha um discurso que já era muito inflamado. Para mim, o que foi chocante foi perceber que as campanhas, muitas delas, por exemplo, a campanha do Brexit, toda a gente sabe que foi feita com muitas mentiras. O Boris Johnson tinha cartazes que eram factualmente errados. E isso funcionou para uma promessa do primeiro-ministro David Cameron, que ia referendar o Brexit se ganhasse as eleições. E a partir daí fez essa proeza de conseguir. Eu vou muitas vezes ao Reino Unido e sinto que há muito arrependimento, muita gente, do Brexit, que trouxe imensos problemas ao Reino Unido. Mas o maior problema que eu sinto é que nós estamos agora a regredir para a era imperial nacionalista. Os nacionalismos a ressurgir, os impérios a ressurgir. Isto na Rússia é muito assustador. Aquilo que acontece na Palestina também é muito assustador, porque é um processo que não acaba, é uma colonização. Agora West Bank também já está. Não existe respeito pela lei internacional. Ou seja, hoje em dia parece que não há lei. Temos presidentes de países poderosos que dizem coisas que eu acho que são completamente inaceitáveis. As pessoas acham que é normal.
Por exemplo?
Por exemplo, basta ver agora o post que o Trump fez sobre a morte daquele realizador, Jim Riner, como é que ele se chama?
Sim.
O post dele, um post de um presidente da república.
De um presidente de um país.
Sim, um país.
A congratular-se.
Não, e ele não se congratulou. Ele diz uma coisa que é mais grave: "Ele morreu porque ele era anti-Trump e então despertava a loucura nas pessoas e as pessoas ficaram malucas e alguém o matou." Quando ele foi provavelmente morto pelo filho. Nós estamos a viver um reality show. No outro dia, eu não consegui ver nenhum debate das eleições das presidenciais.
Das portuguesas.
Das portuguesas. Tentei ver um e ao fim de três minutos eu tive que parar.
Por quê?
Porque imagina, há pessoas que dão notas positivas a discursos. Obviamente que demagogia sempre houve na política e isso faz parte. Mas tu metes uma pessoa que está sempre aos berros, que está a chamar a outra candidata de atriz, por exemplo, e depois consegue no final, eu vejo o painel dos jornalistas e dá-lhe uma nota positiva.
Porque ele foi eficaz.
Sim, mas isso não é eficaz.
Muitas vezes é esse o critério utilizado, porque ele falou para o seu eleitorado.
Pronto, mas então o que estamos a falar? O que estamos a discutir? E para mim isso assusta-me, assusta-me muito. Sempre houve esquerda e direita e sempre houve pessoas mais assim e mais assado, e acho que vai sempre haver. E acho que nós temos sempre que nos respeitar uns aos outros e por isso é que há democracia e nós votamos mais à esquerda, mais à direita. Está tudo bem. Mas quando agora o discurso é um discurso muito destrutivo, um discurso dos 50 anos.
Os 50 anos da democracia.
Pronto, e agora vamos aos 40 na União Europeia. Eu lembro-me como é que era Portugal há 35 anos. Eu lembro-me do que é que o meu pai passou quando veio de Angola. A descolonização foi um processo histórico que aconteceu e isso era inevitável.
Tu fazes parte dos que acham que estamos infinitamente melhor.
Eu acho que estamos infinitamente melhor e quem diz que não estamos, ainda ontem eu estava a ter uma conversa com a amiga do meu pai. E ele estava a dizer que agora é só crime e assassinatos. E eu: "Isso não é verdade. Tu ias no bairro." Eu saí ao Bairro Alto antigamente e era assaltado, e eu fui assaltado no caminho de casa, em Telheiras, dezenas de vezes. As pessoas que dizem isso estão a mentir, não se lembram. Sempre houve crime em Portugal. E este discurso anti-imigração.
Se calhar é que há mais visibilidade hoje em dia, não é?
Mas eu não sei se há mais visibilidade, porque havia crime todos os dias, assassinatos. Houve terrorismo em Portugal, ainda eu olho o podcast do Observador sobre o da embaixada da Turquia, mais o outro palestiniano que foi no Algarve assassinado. Houve montes de coisas e sempre houve. Em Portugal assassinaram um chefe de Estado em 1908, no Terreiro do Paço.
Nós temos memória curta, não é?
Muito curta.
E gostamos sempre de olhar para o passado em tons cor-de-rosa, não é?
Sim, não vamos dizer que está tudo perfeito. Não está tudo perfeito. Nós temos imensos desafios e há muitos problemas em Portugal. Só que eu não vejo é no discurso político e muito menos nas soluções milagrosas, nenhum caminho para uma coisa construtiva. Nós estamos agora numa maré destrutiva, que vem internacionalmente assim. Isso está a funcionar muito para o Trump, em que ele queima tudo, em que põe em causa todas as instituições, põe em causa os tribunais, põe em causa a independência dos órgãos de soberania. E a partir do momento em que isso acontece, nós estamos a entrar num caminho muito perigoso.
Muito perigoso. Tu falavas dos 50 anos e do discurso em torno da diabolização dos 50 anos da democracia.
Sim, basta olhar para os indicadores.
Sim, a minha pergunta é: se esse discurso existe É porque há quem esteja disponível para o receber ou não.
Eu acho que há muitas pessoas pouco disponíveis para o contrariar. Cada vez que alguém me diz isso, eu digo: "Olha, isso não é verdade". Ou então vamos discutir o que aconteceu, ou vamos discutir o que era o país. Uma coisa de antropologia muito engraçada, o "Ricos e Pobres no Alentejo", do Cutileiro.
Sim, José Cutileiro.
José Cutileiro.
O irmão do escultor João Cutileiro.
Exatamente. É uma monografia que as pessoas podem ler sobre como era o Alentejo há 60 anos. Basta perceber qual era o grau de pobreza. É um grau de pobreza que hoje em dia tem marcas muito grandes na dinâmica econômica dos sítios. Hoje em dia está a mudar um bocado, mas no isolamento. E obviamente que há aqui uma coisa muito importante, que é que da mesma forma como não existe ninguém que esteja a defender ou que se empenhe a defender realmente 50 anos de um legado que tem muita coisa boa e tem muita coisa má, é a nossa vida, é o país. Isto não é um regime, isto é um país. O que é a corrupção? A corrupção não é um partido A ou B. Não, é o país, é a forma como a economia funciona.
Mas tu achas que Portugal é um país corrupto?
Acho que é um país que tem muita corrupção, como todos os países têm corrupção.
Mas a corrupção que tu identificas é corrupção material ou moral?
Eu não sou conhecedor, eu teria que ter dados estatísticos sobre corrupção econômica em Portugal. Nós ouvimos falar de muitos casos, e é um facto, e isso é inegável, que um dos grandes problemas dos últimos 50 anos foi que não conseguimos ter um sistema de justiça que fosse eficaz o suficiente. O Sócrates foi preso em 2015. Como é que nós ainda estamos a debater que o advogado se despediu? Acho que as pessoas ficam desesperadas com essa resposta.
E descontentes, não é?
Sim, e isso cria todo o tipo de ideias, que é: por que eu estou a trabalhar e a descontar e há aqui pessoas que estão a beneficiar disto e não lhes acontece nada. A ideia de que o crime compensa. E nós realmente temos que combater a ideia de que o crime compensa. Como? Não sei.
Mais eficaz na luta contra o crime, não é? Se calhar passa por aí.
Não sei, ficar certos tribunais. Eu acho que tem muito a ver com a lentidão da justiça e da maneira como os advogados conseguem ir protelando os processos, se houver dinheiro para que isso aconteça.
Boa. Então, posso deduzir, há uma música do teu próximo álbum que se vai chamar "Justiça".
"Justiça". Não.
Uma balada justiceira.
Não.
Olha, mas enfim, agora aqui num tom mais negativo nos últimos minutos da nossa conversa, mas também há coisas boas neste país, ou não?
Acho que há coisas excelentes.
O que tu mais gostas de Portugal, Benjamim?
O que eu mais gosto de Portugal é das pessoas. Eu sempre senti que Portugal era um país muito aberto e nós gostávamos muito de receber pessoas e hoje em dia isso mudou, também porque falamos de imigração, também turismo. Acho que as pessoas sentem-se um bocado expulsas das cidades e portanto aí também começamos a ficar um bocado incomodados com o outro, muitas vezes. E tenho pena que isso esteja nesse ponto, mas eu gosto muito das pessoas em Portugal. Eu passo a vida de norte a sul do país a tocar em todo lado. E é engraçado, eu acho que os músicos são das pessoas que mais conhecem o país, eu conheço todos os distritos de Portugal. Onde há um palco em qualquer região de Portugal, em qualquer sítio, eu já toquei.
Qual foi o sítio mais pequenino onde já tocaste?
Toquei na aldeia da Pedralva.
Pedralva, isso é...?
Algarve.
Algarve, isso é onde?
É ao pé de Lagos.
Ok, ali para o pé de Benzafrim, por aí?
Não sei. Benzafrim, não sei. É muito perto de Lagos. Desculpa, eu não disse Lagos, é Sagres que eu queria dizer. A Pedralva é perto de Sagres. Ao pé de Lagos, eu também toquei no Barão de São João, que é uma aldeia ao pé de Lagos que tem muitos hippies alemães que foram para lá nos anos 70, então é assim um sítio hippie. É uma aldeia portuguesa que tem o café central e tu entras no café e está o póster do Benfica e estão lá os senhores a beber as minis às 10h, mas depois tens uns grafites marados, psicadélicos lá também. Isso é engraçado.
Boa, mas em que contexto é que se deu esse concerto nesse sítio pequenino?
Uma tour que nós fizemos em 2015, o meu primeiro álbum ao rádio, em que nós nos metemos numa carrinha e percorremos o país todo. E Portugal é um país lindo, Portugal é um país que tem pessoas maravilhosas. Eu acho que os portugueses são muito trabalhadores, ao contrário do que se diz. Eu vejo muitas pessoas com espírito de iniciativa. Também sinto uma coisa, e isso também se calhar ajuda a explicar os fenómenos populistas que temos hoje em dia e o facto de eles serem tão eficazes, é que as pessoas que tiveram responsabilidades governativas e que também têm a responsabilidade, nomeadamente se tiveres uma maioria absoluta, de não a deixar cair por uma questão completamente idiota, é não falhares às pessoas também. O interior continua esquecido. O interior de Portugal continua esquecido e as pessoas sentem-se abandonadas e portanto as pessoas votam sempre nos mesmos e a coisa não funciona, então vou votar neste que tem aqui uma solução mágica para os meus problemas. Que obviamente que não tem. Esse é o problema, porque depois vais esbarrar numa questão que é um orçamento, vais esbarrar no que realmente as pessoas querem.
A realidade é dura, não é?
Sim.
Às vezes.
Mas também é espetacular. Mas imagina, nós temos agora pleno emprego em Portugal, neste momento. Nós tivemos saldo orçamental positivo, ou seja, as pessoas dizem: "Mas eu não consigo pagar a renda da minha casa". Claro. Pronto, então se calhar é preciso políticas que vão ao encontro das necessidades das pessoas, não sei. Mas eu olho para Portugal com muita esperança.
Muito bem. É um bom tom para terminar esta nossa conversa. Olha, eu tenho a certeza absoluta que vou voltar a ver-te aqui na Rádio Observador. Há para aí umas coisas, é melhor não dizermos nada.
É verdade.
Não vamos dizer nada, Benjamim. Foi um gosto.
Obrigado, eu é que te agradeço.
Muito obrigado. E que venha de lá esse disco novo. Já tem músicas?
Já tem músicas.
Quantas são?
Não sei ainda.
Dá lá uma notícia, vá lá.
Para aí oito músicas. Vai ser curto e ao essencial. Espero que seja bom.
Será, seguramente. Uma vez mais, obrigado.
Obrigado, João.
Até à próxima. Este foi o primeiro "Filhos da Europa", o novo podcast da Rádio Observador em parceria com o Parlamento Europeu. Nas próximas semanas vamos continuar a ouvir portugueses nascidos no ano de 1986, o ano da adesão de Portugal à então CEE.