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Sejam bem-vindos. Este é o "Filhos da Europa", podcast d' "O Observador" em parceria com o Parlamento Europeu, onde ouvimos personalidades nascidas no ano de 1986, o ano em que Portugal aderiu à então CEE, hoje União Europeia. Esta semana com um atleta que projetou o nome de Portugal alto e a alta velocidade, Yasaldy Nascimento, que com as cores portuguesas ganhou várias medalhas em competições de atletismo em provas de 100 metros. Viva, Yasaldy!

Olá, boa tarde. Tudo bem?

Tudo bem. Yasaldy, estás na Escócia. O que te levou à Escócia? Às Highlands.

Sim, vivo em Edimburgo há sete anos. Acabei por me mudar por motivos familiares. O principal motivo de ter vindo pra Escócia foi que eu fui pai ainda quando competia.

Sim.

E a minha companheira era espanhola e nós ficamos um bocado sem o apoio da família.

Sim.

Então começamos a ver algumas possibilidades e, como tínhamos duas opções, eu tinha a minha família na Escócia, ela tinha em Espanha, e acabamos por decidir vir para a Escócia.

Para a Escócia. Muito bem, à procura de uma certa rede familiar, não é?

Exatamente.

Boa. És empresário agora, não é? Deixaste as corridas, o atletismo, mas andas sempre a correr atrás dos negócios, é isso?

Sim, eu tenho algumas empresas na Escócia, mais na parte do turismo, na parte imobiliária. Tenho uma empresa de apartamentos, vamos falar Airbnb, apesar de não trabalhar com Airbnb, trabalho mais com outras plataformas.

Short renting. Tu alugas.

Sim, short term.

Diz.

Sim, short renting. Edimburgo é uma cidade muito turística e também está em crescimento. É a segunda cidade que recebe mais turistas em UK, a seguir a Londres, é Edimburgo. Então a cidade tem muita procura. E eu identifiquei alguns pontos fracos na cidade e tenho tentado trabalhar nessas lacunas, vamos assim dizer, e explorar a possibilidade de crescimento.

Na exploração de apartamentos para alugar a turistas. Quantos apartamentos já tens, Yasaldy?

Neste momento, para short term, nós temos 50 e temos mais 15 para long term. Quando eu digo long term, Edimburgo, como eu disse, está em crescimento, então há muita construção, há muita coisa que está acontecendo na cidade. Então tu tens várias empresas que vêm de fora e têm que ser alojadas, basicamente, na cidade.

Ok.

Eu tenho uma parte da empresa que exatamente trabalha diretamente com essas empresas.

Para alojar trabalhadores que vêm para o setor da construção em Edimburgo, é isso?

Exatamente.

Exatamente. Portanto, já tens quantos? 65 apartamentos, é isso?

Exatamente, 65, mas esperamos até ao fim.

Diz, esperas crescer até o final do ano?

Sim, eu acho que nos próximos três, quatro meses, talvez eu chegue aos 100 ou talvez mais.

Podemos classificar-te como um grande proprietário imobiliário.

Ainda não.

Ainda não. Estás a ser humilde, Yasaldy.

Não, estou no caminho ainda, acho que ainda há muita coisa para ser feita, mas é uma oportunidade. Eu identifiquei algumas oportunidades dentro da cidade.

Sim.

E criei muitas relações com empresas.

Muito bem.

Então acabo por ser uma referência quando eles chegam à cidade, nós acabamos sempre por ser contactados para cuidarmos dessa parte da acomodação.

Ok. Estás sozinho nessa empresa ou tens sócios?

Eu estou sozinho na empresa. Nesta parte dos apartamentos. Como é que eu vou te explicar? Acabo por puxar para criar outro tipo de pequenos negócios para suportar.

Paralelos. Serviços associados a isso.

Exatamente.

Do tipo?

Neste momento, por exemplo, eu tenho uma lavandaria também, que é uma das principais da cidade. A razão foi exatamente por isso, porque com 65 apartamentos, a demanda em termos de roupa que nós precisávamos de utilizar dentro dos apartamentos era muito grande e eu percebi que as empresas externas, às vezes, não nos conseguiam dar resposta ao tempo que nós precisávamos. Então acabei por adquirir minha própria lavandaria, que neste momento já expandi a mesma lavandaria em menos de um ano.

Uau. E os negócios correm bem. Olha, diz uma coisa, podemos classificar-te como um empresário de sucesso na Escócia?

Isso depende muito da forma que cada um olhe para as coisas.

Se estás expandindo, penso que sim, que podemos, ou não?

Sim, eu estou a crescer. Tenho investido muito nos últimos dois anos. Na verdade, a minha ambição é, talvez dentro de um ano e meio, dois, ser realmente a referência nesse setor dentro da cidade, principalmente para as empresas.

Ok.

A empresa é, ao meu ver, médio porte. Mas é uma empresa estável, com provas dadas neste mercado. Mas como eu te disse, a parte do sucesso depende muito da meta de cada um. Se eu for pensar em termos financeiros e o que eu já atingi até agora, claro que eu tenho que estar orgulhoso do que fiz. Mas não estou satisfeito. Acho que ainda posso fazer muito mais do que consegui até agora.

Até agora. És uma pessoa ambiciosa ou és uma pessoa permanentemente insatisfeita com o que tem, Yasaldes? Como é que tu te definirias?

Eu acho que é um mix dos dois. Nós no desporto, no atletismo, que foi o desporto que eu fiz, tu és educado de uma forma que tu nunca estás contente com o que tu consegues atingir. Muitas vezes tu estás a tentar, por exemplo, fazer mínimos para os Jogos Olímpicos, mas quando tu consegues essa marca, tu começas a pensar na possibilidade de chegar a uma meia-final. Então, o teu primeiro objetivo que era ter, por exemplo, os mínimos para os Jogos Olímpicos, no momento que tu consegues atingir esse objetivo, ele deixa de ser o objetivo principal, porque tu continuas a ter outras metas a seguir.

Exato.

E eu acho que nos negócios é exatamente a mesma coisa, não é pela parte financeira. Acho que o que me move neste momento não é a parte financeira.

Não é ser rico, nem ter muito dinheiro, não é isso. É ser bem-sustido. É montar uma coisa e no final do projeto dizer: "Consegui". É isso?

Exatamente. É engraçado, porque o que acontece? Tu nem queres investir ou continuar a crescer, mas às vezes tu olhas e vês uma lacuna e começas a perceber que podes trabalhar naquilo. Essa sensação é muito excitante, como tu disseste, é uma sensação de crescimento. E acho que isso vem muito do desporto. Toda a minha carreira foi assim. Então acho que é uma coisa que veio comigo do desporto. Foram 20 anos, acho que é difícil eu mudar essa parte.

Da tua mentalidade, não é?

Exatamente.

Olha, Yasaldes, tens saudades de correr?

Tenho das competições, tenho das pessoas, da sensação de entrar nos estádios cheios, dos treinos. Tenho saudades. Mas também acho que foi um capítulo muito bom na minha vida, que me deu muito em termos de experiência como ser humano.

Sim. Mas também deu muita dor, não é? Porque é preciso fazer muitos sacrifícios para ser um atleta de alta competição.

Exatamente. No meu caso específico, eu tive muitas lesões. A minha carreira foi marcada por muitas lesões. Eu tive muitos altos e baixos. Mas isso eu olho para isso como uma coisa positiva. Parte negativa, talvez eu acho que não tenha atingido o potencial que eu podia ter atingido em termos físicos, em termos de marca e de resultados internacionais.

Ainda assim ganhaste umas medalhas, não foi? Foste top oito no Campeonato Europeu, prata no sub-23, bronze nos Ibero-Americanos, primeiro lugar na European Team Championship. Portanto, tens um palmarés. Aí na Escócia sabem quem tu foste e quem tu és, porque continuas a ser o detentor destas medalhas, Yasaldes.

Sim, algumas pessoas.

Tu dizes isso: "Hello, my name is Yasaldes, sou empresário e ganhei medalhas". Não dizes nada disso.

Não. O que acontece é eu às vezes acabo conhecendo algumas pessoas que estão ligadas ao desporto. E aqui na Escócia o rugby é muito forte.

Pois é.

Existe muito esta cultura, quando tu encontras alguém que já fez desporto, eles acabam por falar disto e às vezes eles acabam por se surpreender quando perguntam se eu já fiz alguma coisa, eu digo: "Por acaso já fiz 600 metros". Claro que eu não digo que fui aos Jogos Olímpicos, eles acabam por me perguntar as minhas marcas e quando percebem as marcas, acabam por saber.

Eles perguntam porque tu, apesar de teres deixado a alta competição, continuas a ter um físico ainda impressionante. É isso, Yasaldes?

Sim, é a parte física.

Fisionômica.

Exatamente, eu ainda continuo de vez em quando a fazer alguma atividade física, que é muito importante no dia a dia. E também foi o que eu te expliquei, a grande parte da minha geração até aqui na Escócia, eles estiveram muito ligados ao rugby, então tu acabas facilmente encontrando pessoas que estão ligadas ao desporto. Eu, por exemplo, tenho um café e uma das vezes estava a falar com uma pessoa que estava lá dentro e acabei por descobrir que ele tinha sido atleta olímpico e treinador olímpico da seleção inglesa. São coincidências que acontecem.

O mundo é muito pequenino.

Exatamente, o mundo é muito pequeno.

Olha, como é a vida na Escócia, assim em traços gerais, Yasaldes? Para além do frio e da chuva.

Essa é a parte mais complicada, por ser inverno.

Mas vive-se bem na Escócia?

Sim, Edimburgo é uma cidade espetacular, é uma cidade que tu consegues ter tudo ao teu alcance e sem muito estresse Tu não tens grandes autoestradas, não tens autoestradas, na verdade. Dentro da cidade, não tens arranha-céus em Edimburgo, acho que é a única capital europeia que não tem arranha-céus dentro da cidade.

Portanto, conserva assim ainda um ar muito antigo e pitoresco, é isso?

Exatamente. Em termos do clima, o inverno acaba por ser um bocado, não é que seja muito difícil, porque não faz muito frio. Faz frio, mas nada de extraordinário. Acho que custa mais o verão, que tu às vezes queres ter temperaturas entre os 26 e os 27, e aqui é um bocado difícil que isso aconteça. Mas é um país muito bonito. A Escócia é um país lindíssimo. As pessoas são muito amáveis, muito simpáticas. A qualidade de vida é ótima. Como eu te disse, os níveis de estresse são muito baixos para quem vive na cidade e aos redor da cidade. Acho que em termos de estilo de vida é um sítio muito bom para se viver. Eu viajo muito e vivo em muitos países, e acho que há poucas cidades com que eu me identifico tão bem como esta.

Fantástico. A Escócia que votou a favor da sua permanência na União Europeia. Tu não vivias ainda na Escócia nessa altura, pois não? Mas é um tema ainda, e Exaltas.

Sim, eu não tinha tanta noção. O meu cunhado é escocês. E, por exemplo, eu não tinha tanta noção que existe uma rivalidade muito grande entre a Escócia e a Inglaterra, e isto é uma coisa que já vem de anos e anos. Houve uma guerra, então é uma coisa que não está apagada na memória dos escoceses. É uma coisa que tu sentes no dia a dia aqui, que existe alguma rivalidade. Como é que eu vou dizer? Não digo que seja revolta, mas eles não se identificam como ingleses, basicamente. Percebes?

Ok. E do que percebeste, eles identificam-se como europeus, europeus continentais, ou seja, do espaço comunitário da Europa, da União?

Em termos políticos, eu não te sei explicar se é exatamente eles que querem, eles se identificam como europeus. O que eles não querem ser é ingleses. Percebes? Eu acho que tem mais a ver com isto. Eu lembro, por exemplo, quando foi em 2020 ou 2021, que foi a final do Euro entre a Inglaterra e a Itália. Eu vi outros escoceses a torcerem pela Itália, que eu fazia muita confusão. Percebes? Aquilo fazia-me confusão, mas partilhamos-

Sim, porque eles partilham a ilha, não é? Partilham a ilha, uma história comum e a língua.

Exatamente. Como eu te disse, houve uma guerra. Houve uma guerra, houve pessoas que morreram, antepassados, então é uma coisa que está marcada na história e na pele dos escoceses.

A rivalidade histórica. Mas é saudável ou não? Sentes que é saudável ou é uma coisa muito visceral e doentia?

Não, é completamente saudável. Só que o que eu sinto é que, por exemplo, com o falecimento da rainha e do príncipe de Edimburgo, acho que acabou por haver um afastamento maior entre Inglaterra e a Escócia, porque, por exemplo, onde eu vivo, tu tens o Royal Yacht, que era basicamente o iate da rainha, onde ela passava os verões. Ela passava os verões exatamente a menos de um quilômetro de onde eu vivo.

Que luxo, olha, estás a ver? Tu vives onde a rainha ia passar férias. És um homem de sorte.

Muito perto. E os castelos também, às casas.

Isso não está ao alcance de todos os mortais.

Neste momento, na verdade, o iate é como se fosse um museu, que ela deixou, com a idade ela deixou de usar o Royal Yacht. Mas a casa de férias também, eles tinham aqui a casa de férias, então todos os anos em agosto havia competições. Não sei se tu alguma vez já viste aquelas competições que existem na relva, corridas na relva, na Escócia. E era no norte da Escócia e a rainha vinha precisamente para prestigiar esses momentos.

Tu chegaste a ver alguma vez a rainha ao vivo?

Não, nunca tive esse prazer. Mas com o príncipe Carlos, por exemplo, isso já não acontece. Acaba por haver um distanciamento. E em termos, vamos falar de estratégia política, geopolítica, a Escócia neste momento está numa situação muito privilegiada, porque se eles saírem da Grã-Bretanha, eles vão criar uma pressão gigantesca sobre a Inglaterra.

Sim.

Então acho que vai ser interessante. Eu acredito que este ano supostamente haveria outro referendo, não tenho a certeza, mas acho que é para ser este ano e acho que vai ser uma situação um bocado tensa, porque eu acho que a Escócia realmente vai querer sair e a Inglaterra sabe que não pode deixar isso acontecer.

E Exaltas, como é que foi a tua infância lá em São Tomé?

Eu não tenho muitas memórias, para ser sincero. Eu saí muito cedo de São Tomé, saí com cinco anos.

Ok.

Eu saí muito novo de São Tomé. Voltei algumas vezes, mas eu não tenho muitas memórias, tenho algumas memórias confusas.

Cresceste onde em Portugal?

Eu cresci em Sintra, em Massamá.

Massamá.

Exatamente, ali na linha de Sintra. E uma das razões até de eu começar a minha carreira A falar internacional, ainda representei São Tomé, mas uma das razões de eu até naturalizar-me como português é porque eu não tinha qualquer tipo de-

Ligação com São Tomé

...identificação com o país. Apesar de ter nascido no país, eu não tinha qualquer tipo de ligação com o país.

Com São Tomé.

Exatamente, com São Tomé, e acabei por tomar essa decisão. Na altura, até eu tinha condições mais favoráveis para continuar a competir por São Tomé, mas realmente não existia qualquer tipo de-

De ligação

...de ligação.

E hoje, ao fim de sete anos a viver na Escócia, sentes-te um bocadinho escocês já e as altos? Ou não?

Não me sinto como escocês. Acho que é mais-

É natural. Uma pessoa convive diariamente com um determinado povo, vive num determinado país, há uma altura em que nos olhamos ao espelho e pensamos: "Eu já faço coisas como eles. Eu já sinto as coisas como eles." Não, no teu caso ainda não é. Não.

Não, eu gosto muito da cidade. Eu posso dizer que eu adoro a Escócia, adoro Edimburgo e a história, mas não, acho que ainda não estou nesse ponto.

Ainda não chegaste ao ponto de dizer: "E as altas, vais pôr um kilt". Não, ainda não, também não.

Já o fiz.

Já fizeste? Já? Conta.

O meu cunhado é escocês e quando eles se casaram, nós fomos todos de kilt. Éramos 15 pessoas e estávamos todos com os kilts. Essa parte, sim, a parte da história, mas sentir-me parte da Escócia neste momento, acho que ainda não. Eu gosto de Edimburgo, foi o que eu te expliquei, mas eu sou português. Não nasci em Portugal, mas sou português e isso nunca vai mudar.

Nunca vai mudar. Que diferenças é que encontras entre viver na Escócia e viver em Portugal? Bem sei que são registos diferentes, porque em Portugal vivias sob o registo de atleta de alta competição, aí és um empresário bem-sucedido. Mas que diferenças é que tu encontras entre a vida em Portugal ou o viver em Portugal e o viver na Escócia?

Para ser bem honesto contigo, eu acho que em termos de oportunidades, as oportunidades que tu consegues ter aqui seria muito mais difícil teres em Portugal.

Ou seja, a Escócia é um país com mais oportunidades.

100%. Não tenho qualquer tipo de dúvidas em relação a isso. Eu acho que eu teria muita dificuldade para construir o que eu construí em Portugal em tão pouco tempo.

Mas por quê? Porque o ambiente econômico-social e Edimburgo proporciona mais que pessoas vinhem na vida, digamos assim, ou porque os escoceses são diferentes dos portugueses?

Eu acho que é-

Um pouco das dois

...um pouco das duas. A cidade em si ou a Escócia em si tem muitas oportunidades, mas tu tens muita facilidade também aqui em termos de criar as oportunidades. As pessoas não te julgam pelo que tu tens ou pelo que tu fazes, mas se elas perceberem que tu és uma pessoa com cabeça e com visão, elas dão-te a oportunidade. Eu vou te dar um pequeno exemplo. Eu uma vez estive num pequeno pub, aí uma coisa que eu faço. Estava num pequeno pub em Edimburgo.

Então já és escocês.

Exatamente. Nesse ponto. À sexta-feira à noite, nesse aspeto, sim, eu sou escocês.

Ok.

Mas aqui os pubs funcionam mais ou menos como os cafés em-

Em Portugal

...em Portugal. As pessoas no final do dia acabam por ir para o pub. Não que fiquem ali muito tempo, mas bebem uma cerveja e acabam por falar. Tu podes ir para um pub sozinho, sentas-te lá e acabas por conhecer pessoas, basicamente.

São espaços muito conviviais, é isso?

Exatamente. Mas eu vou te contar uma pequena história. Uma vez eu estava num pub e estava com um amigo meu, estávamos a falar sobre alguns negócios. Havia uma pessoa que estava na mesa ao lado e estava a ouvir a nossa conversa e achou interessante e começou a falar conosco. Acabou por se identificar como dono do pub, na verdade. Já não lembro que horas é que eram, mas eles iam fechar o pub e ele convidou-nos para ir até a casa dele, que era perto, era uns cinco minutos a andar. E nós fomos até a casa dele com mais alguns amigos. E eu quando cheguei à casa dele, depois em conversa com ele, ele começou a perguntar o que eu fazia, o que nós estávamos a discutir. Eu acabei por perceber que ele era dono de uma das maiores empresas escocesas.

Uau!

Na parte imobiliária.

Ok, portanto arranjaste logo ali um parceiro.

Exatamente, mas isto nem tem a ver com a parceria, tem a ver com a pessoa estar sentada contigo num pub, identifica-se contigo e convida-te para ir à casa dela, e tu quando chegas lá consegues perceber quem é aquela pessoa. E eu acho que, por exemplo, em Portugal isso é um bocado difícil de acontecer, ou pelo menos nunca aconteceu comigo, esse tipo de coisas. E aqui em Edimburgo já me aconteceu algumas vezes, digamos assim.

As pessoas depositam mais confiança nos outros, será?

Exatamente. Na minha perspectiva e a minha experiência, é o que eu te posso dizer.

Boa.

E depois acho que também em termos de Dos rendimentos que tu consegues ter aqui, os rendimentos mínimos, dá toda a qualidade de vida em relação a Portugal.

Quantos funcionários tem a tua empresa, Yasalts?

Neste momento estamos com 28. Duplicamos o número do ano passado para este ano, e são de vários sítios diferentes. Temos asiáticos, sul-americanos, escoceses, indianos, ingleses. Acaba por ser uma equipa muito diversificada.

Tens as Nações Unidas dentro da tua empresa, quase.

Exatamente.

Isso é um desafio. Partilha connosco esse dia a dia de ter de gerir pessoas de proveniências tão distintas, como é que é? É fácil? Há quem ache que é muito difícil. No teu caso, como é que é, Yasalts?

No meu caso é fácil, porque eu acabo por tratar todos os meus funcionários ou colaboradores, como tu quiseres chamar, como se nós fôssemos uma família. Eu tenho que criar uma ligação dentro da equipa, porque todos os setores têm que trabalhar em conjunto. Então eu tento fazer reuniões semanais com todas as equipas. Tentamos fazer alguns eventos, jantares, proporcionar alguns bons momentos à equipa, que é para estarmos sempre unidos. Claro que acabas por ter problemas, mas grande parte dos meus funcionários, não todos, talvez 80% deles, são pessoas que vieram de outros países e que começaram na parte da limpeza dentro dos meus apartamentos. Eu consegui perceber que eles tinham potencial para mais do que estavam a fazer naquele momento. E comecei, aos poucos, treiná-los e dar-lhes outras ferramentas para irem crescendo dentro da empresa. E esta é muito a minha filosofia.

Diz-me uma coisa, o facto de tu teres sido, e és, imigrante, numa primeira fase saindo de São Tomé para Portugal em tenra idade, depois tendo sido imigrante em Portugal e depois teres vivido também em Tenerife, viveste dois anos em Tenerife. E agora o facto de seres um português, entretanto naturalizado na Escócia, o facto de tu seres imigrante faz de ti uma pessoa que olha para os outros de uma maneira diferente ou esse teu passado, esse teu presente, não condiciona em nada a forma como vês as pessoas?

Eu acho que sim, claro que sim, porque eu passei por algumas dificuldades em toda a minha fase de crescimento. Quando falo de dificuldades, por exemplo, quando eu estava a crescer, eu lembro-me de ter que ir para renovar o meu cartão de residência em Portugal, ter que ir para a fila do SEF às 03:00, para conseguir ter lugar para fazer o cartão. Então eu passei por essa fase.

Isso molda uma pessoa, não é?

Exatamente.

E moldou-te a ti também.

Sim, claramente. Eu sei que as pessoas muitas vezes chegam à Escócia, mas o que eu vejo é que todas as pessoas merecem uma oportunidade, como foram dadas a mim também, por Portugal e por muitas pessoas que me acompanharam toda a minha vida. Eu tento sempre dar oportunidade a todas as pessoas que estão à minha volta, neste momento, na empresa, para crescerem. E foram crescendo e eu fico feliz em ver o crescimento deles, porque eles acabam por ter uma qualidade de vida melhor, acabam por crescer, acabam por estabilizar a vida deles, das próprias famílias. Isso para mim é muito gratificante, sentir que eu posso ajudar outras pessoas com o que eu estou a fazer.

Dizias há instantes que há muita falta de mão de obra aí na Escócia. O tema da imigração é um tema de disputa política aí também, como é, por exemplo, agora em Portugal e tem sido noutros países europeus.

A Escócia está uma situação completamente diferente. Eu vou-te dar um exemplo. Eu trabalho com muitas empresas. Neste momento, se tu tivesses que construir, e estão a construir vários, um hotel, por exemplo, em Edimburgo, 90% das pessoas têm que vir de Inglaterra, porque eles não têm mão de obra. Então o que é que isto faz? Isto faz que os preços subam. Tudo acaba por ser mais caro, porque se alguém tiver que vir dois anos de Inglaterra para cá, tem que receber muito mais, porque tem que ficar fora de casa, tem que voltar para casa aos fins de semanas. Mesmo em outros setores, tu acabas por ter essa dificuldade. Então, na verdade, o que eu tento dizer é que a Escócia precisa de imigrantes, a Escócia precisa de gente. Claro que eles estão em UK e não têm essa liberdade, pelo Brexit, mas acho que isso vai ser um dos pontos muito fortes em relação à possibilidade de haver um referendo e a Escócia tentar sair, porque é uma necessidade.

Muito bem. Olha, Yasalts, vês-te a investir em Portugal? Honestamente.

Eu gostaria, vou ser bem honesto contigo. Eu gostaria. Eu neste momento estou a começar um projeto novo na Escócia, que é uma steakhouse. Já tenho um, vou abrir agora o segundo e agora vou começar este novo. E estes negócios já estão a funcionar em Tenerife, como eu te disse, eu estive em Tenerife dois anos. Estes negócios já estão a funcionar em Tenerife. E, por exemplo, o Steak 21 eu acho que era um modelo muito interessante para se investir em Lisboa, por exemplo.

Steak 21 é algo que tu já tens, é isso?

Exatamente. Mas é algo que eu ainda tentei testar um bocado o mercado e não tenho certeza se seria um mercado que nós conseguíssemos realmente explorar em Lisboa. Mas quem sabe?

Ideias não faltam. Pelo que eu já percebi, és um criador de ideias e de negócios.

Eu acho que eu tenho a facilidade de encontrar nos problemas oportunidades.

Boa.

Eu acho que essa é uma das minhas maiores qualidades quanto aos negócios, é que eu consigo encontrar onde as pessoas veem problemas, eu consigo encontrar oportunidades.

Isso é muito bom. Vem dos tempos em que eras velocista. Encontras ali a tua trajetória e não alargas. É isso que procuras na vida, Yasaldes?

Sim. Acho que tem muito a ver com essa parte do desporto, como eu te falei.

Sim.

Eu tive muitos altos e baixos. Acho que talvez uma das melhores prestações que eu tive foi no Campeonato da Europa em Berlim, em 2018. Eu fui nono, tive uma micro rotura na minha final e fiquei a um milésimo de segundos de passar à final.

Caramba. Deve doer.

Doeu. Principalmente pela lesão, porque se não tivesse tido a lesão, eu tinha chegado à final. Mas dois meses e meio antes, três meses, eu não estava em condições de fazer os mínimos para a competição. Até pensei em desistir naquela altura e tive muita sorte de sempre ter um treinador ao meu lado, João Abrantes, até quero mandar-lhe um abraço.

Bem.

E o que aconteceu? Basicamente, ele convenceu-me, entre aspas, no trabalho de equipa, nós nos conseguimos convencer os dois que era possível com dois meses e meio. Naqueles dois meses e meio, basicamente fiz o possível e o impossível para me pôr em condições. Eu tive uma prova antes do Campeonato da Europa para fazer os mínimos. Eu fiz os mínimos antes e fui para o Campeonato da Europa, às cegas. Eu tive três semanas para fazer aquela preparação e consegui talvez fazer uma das minhas melhores prestações em termos internacionais.

Muito bem. Portanto, tu gostas de sentir a adversidade e de sentir que tens que lutar contra algo. É isso? Em parte.

Não que eu goste de sentir, mas não me assusta.

Ok, pronto.

É exatamente isso. Não me assusta.

Não te assusta.

Pelo contrário, o que eu penso é: eu posso acordar hoje e ter um problema gigantesco para resolver e o que eu penso é: se eu consigo resolver hoje, eu vou resolver, se eu não consigo resolver, vai ficar ali no canto. Eu sei que ele está ali, eu tenho que resolvê-lo e eu tenho que encontrar uma solução. Então uma das coisas que eu aprendi é: eu não preciso de tentar resolver tudo num dia, porque talvez eu não vá conseguir. E também não tenho que deixar que isso não me afete, de forma que eu não consiga continuar o meu dia a dia e trabalhar. E às vezes acontece. Já me aconteceram coisas na parte empresarial de olhar para o final do mês, por exemplo, e não saber como é que eu vou sobreviver. Mas isso não me assusta. Neste momento, o que eu faço é ter confiança no que eu estou a fazer e acreditar que a minha estratégia vai funcionar.

Muito bem. És um homem de confiança, então.

Exatamente. Eu acho que sou um homem de confiança, tenho alguma sorte, porque eu sou um bocado aventureiro. Eu arrisco-me um bocado.

E fazes bem.

Mas tenho sempre a confiança. Eu sou muito racional, eu tento tomar as decisões sem pôr qualquer tipo de emoção. Tanto na minha vida pessoal, como na parte empresarial. Eu tento sempre ser muito racional, mesmo quando as coisas não correm como eu achava que iam correr naquele momento, eu tento sempre manter o mesmo plano, porque eu quando fiz aquele plano, eu estava com a cabeça fria e às vezes as coisas não correm exatamente como tu queres, mas não significa que o teu plano esteja errado, tu tens que continuar a acreditar nisso.

Muito bem. Yasaldes, foi um gosto. Muito obrigado. Agradeço-te teres arranjado disponibilidade na tua vida empresarial aí na Escócia para falar um pouco conosco sobre a tua vida aí nesse país ventoso e chuvoso. Agradeço-te uma vez mais. Muito obrigado.

O prazer foi todo meu e deixo-vos o convite quando quiserem vir a Edimburgo, estou aqui à vossa espera. Estão convidados, estou aqui à vossa espera. Está bom?

Muito bem. Yasaldes Nascimento, uma vez mais, muito obrigado. Foi o "Filhos de Europa" desta semana, podcast d'O Observador em parceria com o Parlamento Europeu, onde ouvimos personalidades nascidas no ano de 1986, o ano em que Portugal aderiu à então CEE, hoje União Europeia, o dia que mudou Portugal. Até para a semana.