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"Fora do Baralho", na Rádio Observador, que reúne os ases do comentário. Hoje, Susana Peralta, Luís Aguiar Conraria e Jorge Fernandes. Nesta edição não contamos com o Nuno Garoupa. A jogada da semana, na segunda parte, será sobre o código laboral, que esta semana foi chumbado no Parlamento pelo Chega. Eu sou o Ricardo Conceição, este é o "Fora do Baralho". Vamos aos naipes. Luís Aguiar Conraria, queres dar ouros no caso do MAL, o Movimento Armilar Lusitano, e uns planos para atacar figuras nacionais como o primeiro-ministro? Queres dar ouros a quem, Luís?

Não ao grupo terrorista barra nazi, obviamente, mas sim, em primeiro lugar, à polícia, penso que foi uma operação conjunta da Polícia Judiciária e da PSP. A notícia saiu agora, portanto ainda não sei todos os detalhes. Em primeiro lugar, obviamente, à polícia, que impediu que isso acontecesse. Havia uma lista de 40 alvos que chegava a incluir comentadores. Acho que nenhum de nós, mas comentadores como nós, havia alguns. É uma coisa bastante chocante, além de alvos muito mais assustadores, como era o caso de Luís Montenegro. O alvo do ataque era o apartamento dele em Lisboa. De acordo com a notícia, esse ataque, depois desistiram dele porque se aperceberam que ele estava a morar num hotel e que não usava o apartamento. Os meus ouros, além de irem pra polícia, vão também pro atual ministro da Administração Interna, que tem sido algumas vezes confrontado com uma pergunta que vem muitas vezes de deputados da iniciativa liberal, mas não só, que é quando lhe perguntam pela simetria entre a extrema-direita e a extrema-esquerda. E neste momento, penso que junto da direita portuguesa, está a entrar na moda a ideia de quererem dizer que a extrema-esquerda é tão perigosa como a extrema-direita, e que obviamente que historicamente isso aconteceu, há movimentos de extrema-esquerda violentíssimos, a FP25 é um desses casos. Mas a verdade é que neste momento não há nenhuma organização de extrema-esquerda que represente o perigo que representa a extrema-direita organizada que há em Portugal. E tenho gostado muito de ver o ministro da Administração Interna a responder de forma muito clara e muito cabal a essas perguntas, deixando bem claro que neste momento em Portugal não há nenhum perigo de extrema-esquerda, perigo no sentido de haver organizações que andam a planear assassínios, espancamentos ou o que quer que seja. Convenhamos que confundir aquelas coisas um bocado folclóricas, como atirar tinta pra cima de políticos ou interromperem o trânsito pra exigirem o fim dos fósseis, não é nada que se possa comparar a movimentos extremistas organizados com fins terroristas.

Mas já tivemos uns coquetéis Molotov.

Tanto quanto eu conheço, obviamente que as coisas podem mudar, e se a informação mudar, eu tenho que mudar de opinião, claro, mas tanto quanto é possível perceber, estamos a falar da ação de alguém individual. E como tal, não se confunde. Tal como eu não confundo o caso da madrasta que, naquele crime absurdo, matou a sua enteada de oito anos, não confundo isso com as mulheres portuguesas ou com as enteadas portuguesas. As coisas não se misturam. Uma coisa é organizações, outra coisa são ações individuais. Eu não vi nenhuma organização de esquerda a não condenar veementemente esse caso do coquetel Molotov, que felizmente não rebentou.

Vamos à Susana Peralta agora, que tem paus, vai ao naipe. Paus para o ministro da Educação, aqui no caso em que o Ministério da Educação reconhece uma falha no exame de português e pediu entretanto uma auditoria. O exame tinha uma imagem igual à de um livro de preparação para exames. O Ministério da Educação diz que houve uma falha objetiva da equipe responsável, pediu uma auditoria à entidade responsável pelos exames. Susana, os teus paus vão para o ministro?

Os meus paus não vão pra essa reação, que acho que é já a segunda reação. Que é a reação de efetivamente dizer que houve uma falha e que se vai abrir uma inquirição pra perceber qual foi essa falha. Os meus paus vão pra sequência de reações, ou seja, só pra recordar quem não está a par do que aconteceu, há um cartum que sai pra fazer um comentário crítico no exame de português e há um cartum exatamente igual num livro de preparação pro exame de português da editora Leia e com uma pergunta que é muito semelhante. Não é exatamente textualmente igual, mas é demasiado parecida para isso não levantar algumas questões que necessitariam de ser averiguadas. Isto foi denunciado por um professor de português, António Carlos Cortez, nas redes sociais, e a primeira reação do Ministério da Educação foi dizer que o item do exame elaborado pelo Educa Que é o novo nome do instituto que organiza as avaliações, foi concebido antes da publicação do manual. Diz isto taxativamente e, portanto, não seria possível à equipa responsável pela realização do exame, verificar a existência prévia de um item que ainda não tinha sido publicado. E, de facto, é verdade. E depois o ministério ainda diz que a autora do livro da lei não integra qualquer equipa de elaboração de provas, etc. E depois, a seguir, veio mais tarde, no dia seguinte, dizer que afinal não. Que afinal o caderno de exercícios foi disponibilizado em agosto de 2025 e que a prova foi elaborada no início de 2026 e portanto há aqui quatro, cinco meses em que aquele livro de preparação já estava no mercado e é evidente que ainda não há aqui, até ver, nenhuma suspeita da equipa que realizou o exame ter ido diretamente beber ao livro de preparação, mas a equipa de redação dos exames, como depois o próprio ministério reconhece no segundo comunicado, tinha a obrigação, não deve haver, imagino eu, 30 mil livros de preparação para o exame, de verificar se de facto há uma coincidência tão óbvia entre duas perguntas. Por quê? Qual é que é o grande problema disto? O problema é que isto obviamente poderá eventualmente colocar alguns alunos com benefício, aqueles que estudaram por esse livro de preparação para os exames, para o exame de Português, neste caso. Mas agora, já hoje, não param de suceder os comunicados, a famosa Educa, o instituto dos exames, vem dizer que não lhe parece que a pergunta igual à do livro afeta a equidade. Quando obviamente, há aqui dois principais problemas. Um é que independentemente da fonte desta coincidência ou da razão desta coincidência de perguntas, afeta a equidade, ponto final. A não ser que a Educa e o Ministério da Educação tenham dados que me digam que este livro foi vendido de maneira bastante marginal, meia dúzia de estudantes do 12° ano. Afeta a equidade. E depois o outro problema, obviamente, é indagar quais é que foram as falhas no controle de qualidade do exame que permitiram que esta pergunta surgisse reproduzida praticamente ipsa verbis. E isto não é a primeira vez que o Ministério da Educação e o ministro Fernando Alexandre se precipitam. Eu recordo quando foi a história dos professores em falta, que o ministro também se precipitou a anunciar o número de professores em falta pra depois perceber que os serviços do ministério, neste caso, o Educa não é bem o serviço do ministério, é o serviço autónomo, independente, mas seja como for, estavam a informar erradamente. Aliás, com os professores em falta, já agora fica aqui a nota que entretanto foi montada supostamente uma task force para se conseguir medir esse problema dos professores em falta, das aulas em falta, e que eu saiba ainda não há resultados finais, e isto já foi há mais de um ano. E isto é de facto tudo uma grande leviandade, e deixa-me dizer só mais duas notas, Ricardo. Uma delas é que é absolutamente essencial, eu acho que nós temos um sistema de exames do secundário que tem uma reputação de seriedade e de honestidade e que aliás é bastante horizontal para todos os alunos, o que é um sistema de acesso ao ensino superior que é muito superior do ponto de vista da equidade a muitos outros que existem noutros países europeus, e portanto, é importante preservarmos a confiança no sistema. E depois, por outro lado, é que o exame de Português é aquele de má memória. Porque houve um processo em tribunal que decorreu e que foi complicado, porque uma pessoa que fazia parte da equipa que elaborava o exame, houve uma alegada fuga de informação do exame, e portanto, é mais uma razão pra nós termos especial cuidado com o exame de Português, e não parece que o Ministério da Educação tenha tido esse cuidado desta vez.

Ficam dados os paus ao ministro da Educação. O Jorge Fernandes tem ouros para Donald Trump. Donald Trump está de parabéns, Jorge?

Olá, Ricardo. Ouros acima de tudo. Bem, começa logo pela questão simbólica, até porque a liturgia também importa aqui. Ouros porque ele, como sabemos, é atraído e tem uma grande atração.

Ele gosta muito de dourados.

Um gosto por dourados e ouro.

A Casa Branca está cheia de dourados agora.

Tudo o que brilhe é realmente algo que o atrai. E o primeiro grande momento da semana foi o fato de Donald Trump, que esteve na Europa esta semana, ter pedido para utilizar Versalhes como o local onde ele, enquanto presidente dos Estados Unidos, foi assinar o tratado, o memorando de entendimento com o Irão. Bom, é pena, de facto, embora não surpreendente, que Donald Trump não saiba o peso simbólico que Versalhes tem enquanto local onde potências, algumas delas decadentes, como é notoriamente o caso dos Estados Unidos, pretendem assinar tratados, e houve um certo tratado em 1919 que foi assinado precisamente em Versalhes, que abriu depois as portas do inferno para a Europa uns anos mais tarde. E portanto não é surpreendente, mas mesmo assim não deixa de ser profundamente irônico que Donald Trump tenha escolhido Versalhes para assinar um tratado que é, acho que é mais ou menos neste momento, tirando meia dúzia de pessoas que são, digamos, mais fanáticas de Donald Trump, toda a gente, incluindo imensos senadores e pessoas do Partido Republicano, muitos deles que inclusive estiveram e estão próximos de Donald Trump, toda a gente diz que o tratado, de facto, é uma profunda humilhação para os Estados Unidos. E falando mais especificamente das condições do tratado, bem, esta guerra deu ao Irão um lugar-

Jorge, é importante, de facto, não é um tratado. Acho que é importante, não é um tratado, não

Sim, ao contrário. É um memorando de entendimento, mas os termos que nós temos neste momento do memorando de entendimento e termos esses que foram, de resto, divulgados oficialmente pela Casa Branca, dizem qualquer coisa como haverá o levantamento integral das sanções que até hoje nunca tinha acontecido, convém relembrar, mesmo com o acordo de Obama de 2015, este levantamento das sanções vai mais ou menos dar qualquer coisa como, segundo os cálculos atuais, 60 mil milhões ao Irão todos os anos, naturalmente, vendendo petróleo no mercado internacional. Portanto, dará um imenso retorno financeiro às elites corruptas e profundamente reacionárias que são quem manda no Irão neste momento e que saíram, de resto, as elites e o núcleo mais duro da guarda revolucionária saiu reforçado, porque simplesmente Donald Trump e os Estados Unidos e Israel mataram imensas pessoas que faziam parte da elite dirigente do Irão. No mesmo memorando de entendimento, temos umas promessas vaguíssimas e sem qualquer mecanismo de controle, isto é muito importante, de que o Irão não irá ter nenhum programa nuclear. Portanto, ao contrário de 2015, um acordo que Trump disse que era o pior acordo da história dos Estados Unidos, aqui há promessas, mas ao contrário de 2015, não há nenhum tipo de mecanismo de controle. E depois, claro, fala-se de um fundo de investimento imobiliário onde, naturalmente, a Trump Incorporation terá um grande papel a dizer, da ordem dos 260 mil milhões de dólares. Portanto, basicamente, o que aconteceu aqui foi Donald Trump deu uma enorme crise econômica e financeira ao mundo em grandes medidas, financeira não, mas pôs o mundo novamente a atravessar um momento de inflação mais elevada, custou milhares de milhões de dólares aos americanos, aos europeus e a outras pessoas, naturalmente, nas economias, nomeadamente através do aumento do preço do custo do petróleo. Levou à perda de vidas humanas, tanto no Irão como do exército americano, despendeu um balúrdio absoluto em material militar americano, mas isso naturalmente é um problema para os eleitores americanos resolverem. E no final de tudo isto conseguiu exatamente nada, à exceção de ser profundamente humilhado e no fundo reforçar ainda mais a ideia, e eu acho que é mais ou menos comum hoje em dia, que os Estados Unidos estão em profunda decadência enquanto potência militar. Há 30 anos atrás seria impensável que os Estados Unidos não conseguissem impor, seja militarmente, seja politicamente, os seus desejos perante uma potência que apesar de tudo é uma potência menor comparada com os Estados Unidos. E portanto, de facto, os Estados Unidos entraram nesta guerra e assustaram-se provavelmente. Portanto, Donald Trump percebeu que ou ia mesmo até ao fim e metia botas no chão, que era uma coisa que ele tinha prometido que nunca faria e seria muito difícil politicamente, e retraíram-se. O problema disto tudo maior, para além destas questões mais imediatas da inflação, do custo do petróleo, etc. O problema disto tudo é o sinal que isto envia aos inimigos dos Estados Unidos, nomeadamente à China, sobre a fraqueza dos Estados Unidos. Portanto, há muita gente que acha que Trump representa um momento de retórica de macho alfa que fortalece os Estados Unidos e eu acho que a prazo veremos que é exatamente o oposto.

E já voltamos para a segunda parte do Fora do Baralho. Segunda parte do Fora do Baralho com Luís Aguiar-Conraria, Jorge Fernandes e Susana Peralta. Esta semana não contamos com o Nuno Garoupa. Eu sou o Ricardo Conceição e esta sexta-feira fica marcada por uma dramática reviravolta. O Chega votou contra a reforma laboral que acabou por cair no Parlamento. Jorge Fernandes, surpreendeu-te este desfecho?

A mim surpreendeu.

Agora assustaste-me.

Acho que mais do caminho.

Eu já não te ouvia, pensei: "Bou, tu ficou de tal maneira surpreso."

Eu fiquei surpreendido.

Foi embora.

E eu fiquei surpreendido, mas digo-te quem ficou mais surpreendido que eu. Hugo Soares e Luís Montenegro certamente ficaram ainda mais surpreendidos do que eu, o que é absolutamente extraordinário e que diz muito da incompetência política destas pessoas. Bem, incompetência porque, em primeiro lugar, a primeira regra escrita na política portuguesa neste momento já não é não escrita. A primeira regra escrita na política portuguesa é nunca se deve confiar em André Ventura. Portanto, eu não consigo entender como é que alguém acha que faz um acordo com André Ventura e que André Ventura vai honrar esse acordo. Parece-me de uma perfeita inocência. Muito sinceramente, acho que já passaram anos suficientes e já passaram rondas negociais e muitas coisas aconteceram no Parlamento português para ainda estarmos na fase de confiar na palavra de André Ventura. Mas vou te dizer também quem ficou surpreendido. Os deputados do Chega ficaram surpreendidos porque é absolutamente evidente pelas imagens que quando Aguiar Branco diz quem vota contra, uma parte muito significativa da bancada do Chega fica hesitante sobre se deve levantar-se para votar contra ou votar a favor. Aquela bancada, digamos.

Não se levantaram.

Ventura, Pedro Pinto, Rita Matias levantaram-se imediatamente. Eles certamente estavam mais dentro da posição atual do partido, porque é como em tudo, a posição do partido naquele momento era outra, mas 10 minutos antes poderia ter sido outra. E vê-se perfeitamente nas imagens que mesmo dentro do Chega, houve deputados para quem não foi nada claro aquilo que aconteceu. Mas tirando esta parte mais cênica e teatral, que teve imensa graça, deixa-me que te diga, mas para mim não tem graça, especificamente por ser uma derrota deste governo. Acho que uma reviravolta parlamentar desta natureza, para mim teria sempre graça, seja à esquerda, seja à direita. Indo ao ponto mais de fundo.

Mas achas que é uma derrota do governo?

Eu fiquei satisfeito. É uma derrota em toda a linha do governo, é uma derrota até diria, não só uma derrota substantiva, mas a forma em si adiciona mais derrota à derrota. É uma derrota, porque de facto Luís Montenegro investiu muito capital político nesta matéria. Se Luís Montenegro, há uns meses atrás, quando percebeu que havia uma forte resistência, nomeadamente na rua, por muito que digamos que a rua é controlada e tem enorme influência do PCP, da esquerda, e que a rua não funciona organicamente como uma representação daquilo que é Portugal, é tudo verdade, isso sem dúvida nenhuma. Mas por aquilo que se foi fazendo na rua, escrevendo nos jornais, etc., percebeu-se que havia apenas uma maioria social, política, muito curta de apoio a tudo isto. Portanto, eu acho que Luís Montenegro deveria estrategicamente ter batido em retirada há muitos meses atrás, quando percebeu que realmente isto não ia levar a lado nenhum. Insistir nesta tentativa de reforma até ao último momento e insistir nisto, e depois a maneira como a derrota aconteceu, é um momento absolutamente humilhante e talvez o momento mais baixo do primeiro mandato do Montenegro.

Luís Aguiar-Conraria, com o Congresso PSD este fim de semana no Velódromo de Sangalhos, isto não cai que nem uma luva a Luís Montenegro para ter uma nova narrativa?

Pois, vai ter que ter uma nova narrativa, sim. Mas olha, antes de fazer o comentário político, deixa-me primeiro fazer um comentário econômico, que era dizer que pronto.

É esse o teu comentário?

É quase. Mas deixa-me agora falar aqui um pouquinho mais da questão econômica substantivamente e não um mero suspiro. Esta reforma, obviamente, que era um sucesso há alguns anos, obviamente que a agenda Trabalho Digno de António Costa estava a ser revertida, mas não era nada de absolutamente dramático. Portugal não se ia tornar numa selvajaria no mercado laboral. Provavelmente continuaríamos a ter das legislações mais rígidas na OCDE, pelo menos para determinado tipo de trabalhadores. Mas sendo aplicada, também não era isto que ia mudar o nosso regime econômico, não era isto que nos ia fazer crescer. Este tipo de reforma só faz verdadeiramente sentido se enquadrado em outras reformas que aumentem a produtividade da economia e aumentem a competitividade. Portanto, a bem dizer, do ponto de vista econômico, isto não é dramático. Não é nenhum drama o ser aprovado e também não é nenhum drama deixar de ser aprovado. E portanto, por muito desamparados politicamente que se sintam, isto não é motivo para se andar a convocar eleições antecipadas.

Achas que não é usado para isso?

Eu não sei se não vai ser usado para isso, porque eu não acredito na racionalidade dos nossos políticos, mas acho que não deve ser usado para isso, porque não é motivo para isso. O país não ia mudar por causa disto, isto não é uma reforma que iria salvar o país e não ser aplicada também não vai acontecer nada de especial. O que eu espero, isso sim, do PSD, é que perceba uma coisa simples, do PSD e de muitos comentadores de direita que estão sempre a defender os acordos da AD com o Chega, que é que percebam que o Chega e André Ventura não são confiáveis. E se é verdade que o PS, neste caso, se pôs logo de fora das negociações, também é verdade que um acordo com o Partido Socialista pode ser muito mais difícil de obter do que um acordo com o Chega, dependendo do sítio para onde está virado André Ventura no dia em que negociarem. Pode ser muito mais difícil negociar com o Partido Socialista, mas uma vez chegando a acordo com o Partido Socialista, à partida, nem sempre, mas à partida é cumprido. E portanto, se calhar, às vezes vale a pena entrar em negociações mais difíceis se se quer reformar verdadeiramente o país. Se calhar mais vale investir em negociações mais difíceis à esquerda, neste caso, ou ao centro, melhor dizendo, do que aproveitar a volatilidade de André Ventura, porque a volatilidade tanto dá para dizer que tem acordo, como claramente era o caso ontem, e como claramente a maioria da bancada do Chega pensava que era. Foram cinco os deputados do Chega que se levantaram. Este episódio que o Jorge estava a revelar, foram cinco os deputados do Chega que se levantaram, depois há outro que se levanta e depois os restantes. Portanto, os próprios deputados do Chega estavam realmente convencidos de que sim, havia acordo. Portanto, com essa volatilidade toda, não dá, não é possível.

Acho que o PSD devia procurar parceiros mais sérios.

Susana, isto em certa medida também não faz cair por terra a argumentação, nomeadamente dos comentadores mais à esquerda, de que estavam todos feitos uns com os outros, estão todos feitos uns com os outros. Afinal, não parece ser bem assim.

Não, eu acho que a argumentação mais à esquerda, na qual eu me incluo, dizer que o Luís Montenegro escolheu neste seu segundo mandato governar com o Chega, é porque ele adotou algumas leis, algumas alterações legislativas simbólicas, que têm muito a ver com a agenda do Chega. Não era o caso desta reforma laboral. Esta reforma laboral, aparentemente, era algo que vinha das ideias para o Código do Trabalho, para o direito laboral, da própria ministra enquanto acadêmica, que depois decidiu transformar isto em projeto de lei. Agora, quando nós olhamos para o que o Luís Montenegro fez neste ano e pouco deste seu segundo mandato, tivemos nacionalidade, tivemos imigração, tivemos identidade de gênero, tivemos as bandeiras LGBTQIA+. Temos agora, neste momento, um novo debate que aí vem da prestação social única com regras de trabalho social, que também respondem à agenda do Chega, que tem a mania da subsidiodependência e da fraude, dos portugueses que trabalham para sustentar os que não fazem nada. Portanto, me parece evidente. Agora, não era o caso desta reforma laboral. As outras todas, eu vejo de maneira muito clara esta AD a querer implementar ou a querer ir pescar ao baú do Chega ideias bafientas. No fundo, porque eu acho que o Luís Montenegro está convencido que governando com as ideias do Chega vai conseguir esvaziar o balão do Chega. Eu acho que ele provavelmente está enganado. Neste caso, não se percebe muito bem o que aconteceu. Eu recordo que no dia da greve geral, Montenegro tinha dito: "Este pacote laboral vai morrer onde tem que morrer, que é no Parlamento", alguma coisa assim deste gênero. Na quinta-feira à tarde, no Parlamento, cantava de galo inflamado a dizer que realmente agora o Chega era o grande defensor da classe trabalhadora portuguesa, porque tinha conseguido direitos nos 25 dias de férias, e a dizer: "Agora, como é que a esquerda vai explicar isto?" Porque de repente Montenegro era o legítimo representante da Internacional Socialista em Portugal. Perdão, não Montenegro, mas André Ventura. Para hoje, eu estou aqui a ler as declarações do André Ventura hoje. Peço desculpa, esta sexta-feira.

Para os ouvintes que nos ouvem ao sábado, que é para não fazer muita confusão.

Obrigada, Ricardo. Fizeste bem em corrigir, eu peço desculpa aos ouvintes. Mas de fato, no dia da votação, ou seja, no dia do volte face, vem dizer que a legislação laboral apresentada continha vários erros para quem trabalha, para quem investe e sobretudo para as famílias portuguesas, como a amamentação, o regime do outsourcing e a possibilidade de despedir em bar aberto as pessoas em Portugal e ainda das licenças parentais. Será que quinta-feira ao fim do dia, quando ele estava com aquele discurso completamente inflamado, a situação era diferente? Ou então, de fato, isto foi uma armadilha de André Ventura a Luís Montenegro. Eu começo a pensar que se calhar foi mesmo assim. Ele fez de propósito para hoje ver aquela cara de Luís Montenegro e de Duque Soares quando perceberam que afinal o Chega estava a traí-los ali à frente de toda a gente, estava o país inteiro a ver aquilo, porque entretanto isso foi um crescendo de um ano. Estamos há um ano nesta conversa.

E isto fortalece ou não fortalece a ideia de que vamos para eleições brevemente?

Eu não vejo muito bem que interesse é que o Luís Montenegro tem para ir a eleições agora, ele está em terceiro nas sondagens. Não sei, ele quer vitimizar-se. Já deu o PS peditório. A segunda eleição de Luís Montenegro já foi numa lógica de vitimização. Eu espero que os eleitores percebam que a lógica da vitimização não é isso que resolve os problemas do país.

Também admite maioria na moção que apresentou agora na candidatura à liderança. Jorge, já será eleições na operação final?

Acho que seria suicida da parte de Luís Montenegro convocar eleições neste momento, porque correu o risco não só de perder. Diz Susana, desculpa.

Ele não convoca eleições, pode provocar.

Acho que não. Vamos ver uma coisa, nós temos sempre que operar com a informação que temos e que é, neste momento, há uma sondagem que saiu agora em que o PSD é terceiro, mas vale o que vale. Eu acho que é mais ou menos claro para toda gente, parece-me que o PSD não está propriamente numa trajetória de subida. Eu acho que aquilo que as sondagens consistentemente estão a mostrar é o PS ultrapassar o PSD sem ter um resultado extraordinário. Atenção, no fundo, o que as sondagens estão a mostrar é a consolidação dos três blocos e o PS neste momento. E a acontecer aquilo que é natural. Eu acho que houve uma certa direita que ficou um bocadinho bêbada com o sucesso das últimas eleições e achou que a esquerda ia ficar reduzida a praticamente nada e não percebeu o que era mais ou menos lógico, que este momento que nós vivemos atualmente é um momento de transição nos equilíbrios do sistema partidário português. O que eu quero dizer com isto? Houve este momento em que a direita, de facto, é hipermaioritária. Por quê? Porque aconteceram duas coisas ao mesmo tempo. O Chega está a se consolidar politicamente como uma força indiscutivelmente tão grande ou muito próxima de PS e PSD, e isso foi combinado com uma punição do incumbente, no caso, António Costa. E esta punição do incumbente, com os centristas a punirem o PS e ao mesmo tempo a consolidação do Chega, deu esta supermaioria de direita. Mas o que será normal com a consolidação do Chega será aquilo que é o sonho de André Ventura, é que o PS se bipolarize com o Chega. Portanto, que a grande competição partidária vá acontecer entre PS como representante do centro-esquerda, digamos assim, moderada, etc. O desaparecimento praticamente da esquerda à esquerda do PS, com a exceção do Livre, eventualmente, e depois aqui Chega e PSD, um sempre a subir e outro a descer. O que vai acontecer, na minha opinião, é que o Chega mantém-se, consolidará o seu resultado e depois o PSD, sendo incumbente, será altamente punido e será esvaziado. E eu acho que muita gente no PSD não percebeu isto e pensou que a mudança era estrutural e que no fundo o socialismo tinha acabado e que era o fim do PS. E isto foi um erro clamoroso.

Ainda temos aqui mais um... Desculpe, deixe só o professor concluir, por favor.

A única maneira que o PSD tinha, não vou dizer reverter isto, mas a única maneira que o PSD tinha, que não é fácil, seria fazer um grande mandato, isto é, ter um mandato em que de facto fosse visível para as pessoas melhorias econômicas, melhorias sociais, fazer um grande mandato, quer dizer, Montenegro ser claramente percepcionado como um grande primeiro-ministro. E isso eu penso que não está a acontecer, é claro, quer dizer, mesmo dentro do PSD, as pessoas há que naturalmente apoiem Montenegro, etc., mas ninguém está extasiado com o desempenho de Montenegro.

Luís, também afastas para já esta ideia da possibilidade de eleições nos próximos meses, ano?

Eu não digo ano porque acho que o momento decisivo será o orçamento.

O orçamento, sim.

Pronto, esse é o momento decisivo e sim, não sendo aprovado o orçamento...

Também não sendo aprovado o orçamento, nada indica que o governo caia, não é?

Eu diria que aí cai, sim. Eu diria que é provável que caia.

Não há hipótese.

António José Seguro, penso eu, não irá imediatamente convocar eleições, mas depois o mais provável será Montenegro ter uma posição de força e não negociar nada e apresentar novamente o mesmo orçamento ou uma coisa muito parecida, e depois ele volta a ser chumbado. E aí, é claro, estamos perante um impasse institucional que se resolve em democracia convocando eleições.

Jorge, estamos mesmo a fechar este Fora do Baralho e tu tinhas uma música para dedicar ao novo grande timoneiro da classe operária, é isso?

Claro, temos uma música que queremos dedicar a André Ventura aqui, o hino da CGTP, e naturalmente suporemos que no banho estes dias enquanto celebra os direitos dos trabalhadores, canta a plenos pulmões: "Unidade, unidade".

Libertai-nos do jugo para sempre. É o povo quem vós libertais. Unidade, unidade, unidade. Do trabalho contra o capital.

A fechar Fora do Baralho, o hino da CGTP, aqui dedicado pelo Jorge Fernandes a André Ventura. É uma dedicatória a fechar este Fora do Baralho. Desejo a todos bom fim de semana. Lembro ainda que no domingo temos o episódio extra para responder às perguntas dos ouvintes. Este fim de semana será com a Susana Peralta. É fácil, basta enviar um e-mail para foradobaralho@observador.pt. Este domingo será a Susana a responder. E o Fora do Baralho regressa dentro de uma semana. Bom fim de semana.

Do trabalho contra o capital. Camaradas lutemos unidos, porque é nossa a vitória final.