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Este é o Fora do Baralho especial ouvintes, em que os ases respondem às perguntas que são enviadas para foradobaralho@observador.pt. Eu sou a Inês André Figueiredo e hoje é a vez da Susana Peralta, que vai começar por responder às perguntas de Luís Tinoco Azevedo. Susana, este ouvinte considera que há um problema extra na introdução da correção por item nos exames nacionais. E eu vou ler tudo, porque é um bocadinho complexa a pergunta. O Luís diz o seguinte: com esta alteração, para um exame não ter problemas de digitalização e correção, necessita que todos os itens tenham digitalização ou correção, e isso aumenta exponencialmente a probabilidade de um exame ter problemas de correção. O ouvinte assume aqui os números do público, dizendo que 290.351 provas são correspondentes a mais de dois milhões de itens. E coloca a seguinte questão: se por hipótese 0,5% dos exames tiverem problemas na digitalização ou na correção, isto quer dizer que das mais de 290 mil provas corrigidas, é esperado que 1450 sejam afetadas. No entanto, quando a correção é por item, se 0,5% dos itens tiverem problemas deste gênero, a probabilidade de um exame ser afetado sobe para os 3,49%, afetando então mais de 10 mil exames. Susana, este ouvinte pergunta se está a pensar bem ou se lhe está a escapar algo, e pergunta também se a introdução desta camada extra de complexidade tem o resultado esperado.

Olá e obrigada por esta pergunta. Eu devo dizer que não verifiquei aqui as contas das probabilidades, mas vou tomar por boas as probabilidades calculadas pelo ouvinte. Mas a questão de fundo aqui é perceber se com esta correção por itens, o fato de haver um problema no item, espalha esse problema por uma série de exames. Um item é, neste caso, uma pergunta de um exame. Ao passo que quando se houver um problema no exame da Susana, isso chateia a Susana, se houver um problema na pergunta número um, isso chateia todas as pessoas que fizeram a pergunta número um, e depois depende da proporção de perguntas número um que estiverem engatadas. No fundo, estou a traduzir aqui por miúdos o que esta pessoa pergunta. Eu acho que é um problema potencial. Agora, o que é que aqui pode, de alguma maneira, mitigar esse problema potencial? Em primeiro lugar, repara que achamos nós, nós também sabemos pouco acerca do procedimento de digitalização e depois de distribuição dos famosos itens, isto é, das perguntas. Neste momento, isto está tudo ainda bastante opaco e vamos aguardar pela famosa auditoria independente. Esperemos bem que ela venha a existir. Portanto, em princípio, o exame quando é digitalizado, é digitalizado inteiro. Não há uma separação prévia do exame em perguntas antes da digitalização. Portanto, aí, em princípio, não vai haver estes problemas por itens. Depois, é verdade que vai haver uma separação do exame já a partir da sua versão digitalizada, presumo eu, e vão ser distribuídos por professores. E aí, se houver alguma etapa nesse processo da distribuição que gere aqui alguma entropia, de facto, este raciocínio pode vir a aplicar-se. Agora, também é verdade que, em princípio, o processo de digitalização e de inserção de um exame num sistema de informação, numa plataforma digital, também permite ter maneiras muito mais fáceis depois de fazer a verificação para verificar se há erros ou não. Tu podes fazer diferentes tipos de contagens para perceber, podes fazer por amostragem, ir ver se as perguntas que foram atribuídas a determinado professor, a determinado corretor, são ou não são todas da sua disciplina de especialidade, se são de facto todas ou não a pergunta dois de uma série de exames, em vez de serem várias perguntas diferentes, exames diferentes. E isso é que infelizmente não aconteceu. Aliás, é engraçado que o ministro vem dizer na conferência de imprensa que os famosos erros de parametrização, que têm a ver com a grade de correção das escolhas múltiplas, são muito fáceis de resolver quando estás a trabalhar com uma plataforma. E é verdade, basta ir lá e dizer: "Olha, a 1C estava classificada como errada e agora está classificada como correta", e aquilo depois corre para todos os milhares de exames que tiverem respondido àquela pergunta. Agora, o que ele não disse, e que devia ter dito quanto a mim, é se esta trapalhada e essa impreparação, e se o amadorismo deste processo levou ou não a mais erros. Portanto, em princípio, só pra agora concluir. Se tu usares a plataforma como deve ser e o processo de digitalização, e a criação de um sistema de informação, se explorares ao máximo as suas potencialidades, tu tens um sistema de verificação e correção dos erros que é muito mais robusto e portanto, mesmo que tenhas este problema do espalhar de erros por vários exames, quando o erro advém de um problema qualquer relacionado com um item, isto é, por hipótese, com a pergunta número três, em vez de vir relacionado com o exame da Susana.

A solução também é mais fácil.

Tens uma máquina muito mais fácil de detetar esses erros. As pessoas aqui que trabalham com Excel, nós estamos sempre a fazer somas de controle para ter a certeza que quando separarmos uma coisa qualquer em diferentes componentes, que depois o total bate certo. Isso pode-se fazer num sistema deste gênero. Claramente não foi feito. Agora vamos esperar que isso possa ser implementado no futuro.

Que haja melhorias. Uma outra pergunta ainda sobre os exames nacionais, desta vez do ouvinte Vítor Araújo, que quer saber o que pensas do aumento dos pedidos de reapreciação. Segundo o ministro Fernando Alexandre, no ano passado houve 6200 pedidos, neste ano já vamos nos 8900, são mais 43,5%. O ouvinte do "Fora do Baralho" quer saber se é normal que os alunos estejam a pedir para ver os exames, tendo em conta toda esta situação, mas quer também saber se faria sentido não haver as tais taxas de reapreciação neste ano em específico.

É absolutamente evidente que o aumento dos pedidos de reapreciação se prendem com as trapalhadas, com o amadorismo e com o desastre instalado deste processo. Acho que não há nenhuma dúvida quanto a isso. Quando tu tens notícias atrás de notícias de professores que já corrigiram o exame e depois ele desaparece da plataforma, de alunos com notas de -3, de alunos que depois quando começam a receber os exames, reparam que recebem o exame que não é o seu, etc. Claro que há uma desconfiança neste momento instalada, já para não falar dos exames incompletos e das regras distintas para como é que se devia tratar um exame que não estava completo. Se devia esperar pelo fim ou corrigir dá zero, ou corrigir aquilo que ali estava e fingir que era tudo. Enfim, não interessa. Quer dizer, há uma tal desconfiança no sistema, e aliás, isso é um dos grandes problemas e uma das consequências mais graves desta trapalhada e do amadorismo deste pseudorreformismo deste governo, que é de facto minar a confiança num sistema de uma coisa que, apesar de poder certamente ser melhorado, mas para ser melhorado tinha que ser melhorado com muito mais cuidado, porque minar a confiança num sistema destes é péssimo sob vários pontos de vista. Trata-se da equidade no acesso ao ensino superior, mas retomando o meu raciocínio, é evidente que toda a gente neste momento quer que o seu exame seja reapreciado. É evidente que o aumento se deve a isso, e não há nenhuma maneira honesta de nós olharmos para este problema e inventarmos outra causa para este aumento do número de pedidos de reapreciação. Agora, relativamente à taxa a ser paga. Normalmente, para que serve esta taxa? Vamos lá ver uma coisa. Eu tenho uma confiança grande no sistema de correção de exames, em anos normais. Mas eu acho que de facto o meu exame foi mal corrigido, depois vejo bem, eu acho que merecia aqui mais um ponto. E a ideia desta taxa é evitar que toda a gente se ponha a pedir correções.

Haja uma corrida à reapreciação.

E sobretudo que as pessoas que vão pedir sejam aquelas que têm uma razoável expectativa da sua nota subir, porque de facto a taxa só é cobrada se a nota não subir. Se a nota efetivamente subir, a pessoa não paga, ou enfim, é-lhe devolvido, não interessa. O problema é que a expectativa e a quantidade de entropia que entrou no sistema este ano, leva a que muitos de nós possamos achar que o nosso exame está mal corrigido, independentemente de olharmos para ele e dizermos: "Está aqui a minha cópia, realmente tive esta nota, mas de acordo com isto que eu aqui escrevi, até falo com o meu professor que me dá uma ajuda e penso realmente que merecia aqui mais uns pontos". Neste momento há uma perceção de ruído, no sentido de aleatoriedade nestas correções, que é normal que as pessoas não sintam confiança e queiram mais facilmente pedir a sua reapreciação.

E devia haver uma exceção neste ano?

Se tu eliminasses completamente a taxa, toda a gente ia pedir reapreciação e o sistema colapsava. Toda a gente, uma percentagem muitíssimo elevada. E não dava, nós não tínhamos esses recursos. A plataforma, já vimos que não serve para isso. Portanto, eu percebo que haja aqui algum conservadorismo, até porque a pessoa, apesar de tudo, os alunos têm alguns elementos para decidir. Estão a receber, em princípio, todos eles, espero eu que já tenham, todos eles, as cópias PDFs do seu exame. Portanto, têm aqui alguns elementos para decidir com alguma informação. Agora, o que eu acho que devia haver, parece-me evidente, uma vez que o governo introduziu este ruído, no fundo, esta aleatoriedade entre aquilo que uma pessoa escreve e a nota que tem no fim, devia naturalmente fazer aqui um gesto e baixar o valor desta taxa. Isso parece-me o mínimo, porque há aqui erro que é exclusivamente imputável ao governo. E digo isto com muita pena, porque eu tenho um grande apreço pessoal pelo ministro Fernando Alexandre, mas sobretudo ao ministro Fernando Alexandre, e parece que neste momento o governo e o ministro não estão dispostos a pagar nenhum custo disto e quem está a pagar são as famílias e os jovens envolvidos nesta grande trapalhada vergonhosa.

Muito obrigada, Susana. Ficamos por aqui neste "Fora do Baralho" especial ouvintes. É muito fácil enviar perguntas ou comentários, basta enviar um e-mail para foradobaralho@observador.pt. Eu sou a Inês André Figueiredo e pode sempre ouvir-nos em podcast nas plataformas habituais.