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Fora do Baralho, edição extra de resposta às perguntas dos ouvintes que recebemos através do e-mail foradobaralho@observador.pt. É o economista Luís Aguiar-Conraria que fica hoje com essa tarefa. Temos aqui questões, Luís, sobre orçamento do Estado para o próximo ano e sobre imigração. Aqui vamos nós. Vamos começar com o Paulo Costa. Diz que existe um consenso de que os portugueses já não querem fazer o trabalho que os imigrantes estão dispostos a fazer, pegando no exemplo do turismo, que é central para a economia portuguesa, não haverá portugueses dispostos a fazer esse trabalho se forem melhor pagos e tratados, ou é mais rentável contratar imigrantes com salário mínimo e dispostos a trabalhar de sol a sol?

As perguntas não são mutuamente exclusivas. Eu começo por dar razão ao Paulo Costa. Quando se diz que os portugueses, ou quem quer que seja, que não está disposto a fazer um determinado tipo de trabalho, é não estar disposto a fazer aquele determinado tipo de trabalho por aquele preço, ou seja, por aquele salário. Isto é evidente que é sempre uma questão de salário. Eu não estou disponível para ir fazer o transporte do lixo, se me pagarem 10 vezes mais do que me pagam como sendo professor, claro que estou disponível. Isto é sempre uma questão de preço. É evidente que se não houvesse imigrantes disponíveis para trabalhar por um determinado preço, das duas, uma: as empresas ou pagavam mais para atrair portugueses para fazer esse trabalho, ou fechavam. Eventualmente, os salários que os portugueses exigiriam para trabalhar em determinadas empresas são incompatíveis com os preços que se praticam no mercado, porque há um mercado mundial para determinado tipo de produtos, e portanto, possivelmente as empresas fechavam. Não há aqui forma de saber exatamente o que é que aconteceria. Os estudos, o que geralmente mostram é que é evidente que pode haver aqui alguma competição entre os trabalhadores menos qualificados e os imigrantes também menos qualificados, e portanto, pode haver aqui, no curto prazo, algum desvio, mas geralmente o que acontece é que se criam empregos suficientes. O fato de virem imigrantes que depois também trazem com eles mesmos mais atividade econômica, que se criam empregos suficientes, que na prática o que existe é um deslocamento dos trabalhadores, sem ter propriamente um grande impacto no salário das pessoas que já cá viviam. Isso é o que a maioria dos estudos mostra. Mas é possível imaginar situações em que isso não acontecesse. Àquela pergunta, isso era o que eu dizia, aqui isto não é mutuamente exclusivo. Ou é mais rentável contratar imigrantes com salário mínimo e dispostos a trabalhar de sol a sol? Sim, do ponto de vista de uma empresa que vende produtos e que os vende internamente ou que os exporta, claro que quanto mais barato forem os seus trabalhadores, maiores serão os lucros. É como é.

Pois, é como é e só temos complexo.

E por isso é que, regra geral, a melhor defesa dos trabalhadores são taxas de desemprego baixas, porque quando as taxas de desemprego são altas, é muito fácil para as empresas substituir trabalhadores que sejam reivindicativos. Quando as taxas de desemprego são baixas, como têm sido, felizmente, em Portugal nos últimos anos.

Sim, vivemos o chamado pleno emprego, não é?

E já há alguns anos, e por isso é que nos últimos anos, e mais uma vez contrariando o discurso catastrofista que se ouve constantemente, os salários reais dos portugueses têm aumentado bastante. Em 2025, já aumentaram 7% reais, estou a falar além da inflação. Em 2024, também andou nos 7% ou 8%, já não tenho aqui o número presente, mas também é um valor bastante significativo. Isso é consequência do desemprego baixo, porque é evidente. Os empregadores tentam pagar menos, os trabalhadores tentam receber mais. Faz parte da negociação e estamos a ver isso neste momento nas negociações da concertação social.

Temos agora aqui uma questão do Rui Carvalho, a propósito do orçamento do Estado para 2026, para o próximo ano. Cita aqui uma acusação feita pela candidata presidencial Joana Amaral Dias sobre o orçamento. Na proposta, a segunda maior despesa do orçamento de 2026 é para despesas excepcionais. Fui verificar e está na proposta aprovada na generalidade gastos superiores a 15.000 milhões de euros nestas despesas excepcionais. Este ouvinte quer saber onde é que é gasto este exagero de dinheiro dos nossos impostos, a expressão é do Rui Carvalho. Primeiro que tudo, Luís, de que tipo de despesas excepcionais é que estamos a falar?

Isto, de facto, é uma coisa esquisita, mas são despesas financeiras, compra de ativos financeiros, investimentos feitos pelo Estado. Estamos a falar disso. O que realmente surpreende é que este ano O aumento é muito grande. Passou de R$ 7 milhões para R$ 15. É isso, não é? Duplicou. Milhões não, mil milhões. Se fosse R$ 7 milhões, estava tudo bem. Não, R$ 7 mil milhões. Já no ano anterior tinha sido cerca de R$ 5 mil milhões. Estamos a falar de uma trajetória de R$ 5 mil milhões, R$ 7 mil milhões e de repente R$ 15 mil milhões. A descrição oficial deste item são despesas que se destinam a operações de investimento do Estado. Investimentos financeiros. Não é o saco azul que a Joana Amaral Dias dá a entender. Quer dizer, uma pessoa chega ao fim do ano e tem o relatório e sabe onde é que as despesas foram efetuadas. Pagamentos de empréstimos, investimentos que sejam feitos. Não é um saco azul, mas tenho que reconhecer que também não é o item mais transparente do orçamento de Estado.

Sendo que há também aqui esta segunda pergunta do mesmo ouvinte, se estas despesas são fiscalizadas por alguma entidade ou pelo Tribunal de Contas, por exemplo.

Estas despesas são fiscalizadas como as outras e, portanto, o Conselho de Finanças Públicas, quando analisa o orçamento de Estado e quando dá o seu parecer, fala também neste item e realmente chama a atenção para este aumento elevado.

O ouvinte também se questiona por que razão é que os partidos da oposição não criticam ou contestam estas despesas. Não se tem ouvido sobre esta parte, ou pelo menos não tem sido notícia, porque na discussão parlamentar e sobretudo nesta fase da especialidade, são mais de duas mil propostas de alteração ao orçamento do Estado, enfim, é muita coisa e nem tudo depois chega às notícias.

Mas lá vê, aqui estamos a falar de investimentos. Eu admito, mas sem saber, que alguém tenha perguntado ao ministro das Finanças e ele tenha respondido: "Olhe, este ano, este valor duplica, passa de R$ 7 milhões pra R$ 15 mil milhões, porque temos de fazer este pagamento e aquele e temos de pagar estas dívidas" ou o que quer que seja. Admito que ele tenha dado alguma explicação e que seja uma explicação simples. Se no Parlamento estes R$ 15 mil milhões não tivessem minimamente explicados, realmente era incompreensível que os partidos não pegassem no assunto.

É aqui um tópico que gerou interesse deste nosso ouvinte, à boleia de uma crítica de uma das candidatas presidenciais. Já sabe, pode enviar também as suas perguntas para foradobaralho@oobservador.pt. O Luís Aguiar-Conraria, a Susana Peralta, o Jorge Fernandes e o Nuno Garoupa estão sempre dispostos a responder a tudo, a mesmo tudo. Podem criticar à vontade porque eles estão aqui, não é, Luís? Também gostam de receber críticas.

Eu até achava que seria mais piada se houvesse mais críticas e insultos ao nosso programa e a cada um de nós. Portanto, sejam à vontade.

É isso, fica aqui o apelo. Aqui estamos. Luís, boa semana pra ti e boa semana pros nossos ouvintes. Eu sou a Vanessa Cruz. Sexta-feira, já sabe, há sempre reunião semanal, jogada da semana com os quatro ases do Fora do Baralho, depois das 19h, na Rádio Observador, das 19h, sempre em podcast.