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Boa tarde, bem-vindo ao Gabinete de Crise. Todas as semanas, à mesma hora, convocamos os especialistas para avaliar o estado do combate ao novo coronavírus e a forma como Portugal e o resto do mundo estão a enfrentar este desafio. É uma parceria do Observador com a Universidade Nova de Lisboa. Temos conosco dois acadêmicos, os especialistas deste gabinete: Pedro Pita Barros, professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa, doutorado em Economia, membro do Conselho Nacional de Ética para as Ciências de Vida e do Conselho Nacional de Saúde. Pertence também ao painel de peritos da Comissão Europeia sobre investimento em saúde. Publica regularmente artigos científicos em revistas de economia e, em particular, de economia da saúde. Boa tarde, Pedro.
Boa tarde.
E Alexandre Abrantes é professor da Escola Nacional de Saúde Pública, que pertence à Universidade Nova de Lisboa, licenciado em Medicina, doutor em Saúde Pública, com uma longa carreira na Comissão Europeia e no Banco Mundial, onde liderou projetos nas áreas da educação, proteção social e saúde. Boa tarde também ao Alexandre.
Olá, Carla, boa tarde.
Na segunda parte do programa, junta-se a nós a coordenadora do Centro de Investigação da Escola Nacional de Saúde Pública, Sónia Dias. É ela uma das responsáveis do Barômetro COVID-19, mais concretamente, a parte que avalia o que pensam os portugueses nestes tempos de pandemia. Vamos ter muito para analisar, mas já lá vamos. Para já, o primeiro ponto da agenda deste gabinete de crise. E começamos sempre com um número. Alexandre Abrantes, qual é o número desta semana?
Olha, o número desta semana é relacionado com a nova política de alargar a testagem de suspeitos. Portanto, como sabe, tem havido uma grande pressão pública para aumentar o número de testes disponíveis e já há indicadores de que realmente estamos a aumentar a população que estamos a testar. De início, só 20% das pessoas que eram testadas tinham respostas positivas e agora estão a baixar cerca de 10%. Isso quer dizer que há muito mais gente a ser testada, o que é desejável se quisermos fazer uma política de identificação de contactos e contenção. Chega ou não chega? Eu diria que estamos no bom caminho, ainda há um pouco a percorrer. Os países com mais sucesso, como a Coreia do Norte, têm um teste de positividade nos testes de 6,5%. Quer dizer que se tivermos mais ou menos 2000 testes por milhão de habitantes, estaremos mais ou menos, no momento, na quantia certa. Estamos em boa direção e podemos nos alegrar de ter sido alargada a política de testagem de suspeitos.
E por isso fica esse número, que é positivo. Pedro Pita Barros, qual é o seu número?
O meu número neste momento é o mais de meio milhão de pessoas no mundo que têm já o COVID. E em particular, o fato de muito desse aumento estar se a verificar nos Estados Unidos, que neste momento já são o principal foco. O que significa que temos um problema verdadeiramente mundial e vamos ter que procurar respostas que vão para além de Portugal em todo este processo. E com esta ideia não pretendo ser nem negativo, nem positivo, é apenas constatar que teremos que pensar também em Portugal, na nossa própria interdependência com o resto da Europa, e olhar pra Espanha aqui ao lado, a ver como evolui também, dada a sua proximidade.
E isso leva-nos a olhar para os números desta semana e as tendências. O Pedro está a dizer que a abordagem tem de ser sempre global. No caso português, é importante perceber o que está a acontecer em Espanha e podemos assistir a algum fenômeno de espelho?
Creio que não poderemos falar exatamente em espelho, mas podemos aprender quer com Espanha, quer com Itália, por irem à frente de Portugal neste processo. E, portanto, nós podemos antecipar o que é que nos poderá suceder se não tomarmos decisões e medidas e até comportamentos que eles não tenham adotado. E esse é um elemento importante. Depois, há também, em termos internacionais, um aspecto importante a considerarmos, que é a capacidade que a Europa possa ter ou a União Europeia possa ter de conseguir, em cooperação, de uma forma cooperativa, lidar com os vários países em situações diferentes. Não estamos a falar só da parte económica, estamos a falar em apoio até mesmo clínico, como neste momento está a suceder com alguns doentes franceses a serem tratados na Alemanha, que tem alguma capacidade. A Bélgica também ainda não está sob grande pressão, poderá receber alguns doentes e amortecer alguma pressão noutros países e no futuro, quando os pontos de pressão mudarem, termos estes aspetos. Estão também em curso iniciativas para aquisição conjunta de medicamentos. Fala-se muito hoje em dia também dos equipamentos de proteção, poderá vir a haver aí alguma coisa também a poder ser usada em termos europeus. E toda a partilha de informação, toda a criação de um conjunto de informação que permita pilotar estes momentos de crise com o conhecimento pleno das situações será importante. E portanto, a nossa preocupação é com os doentes portugueses, mas podemos ter uma âncora também no que se passa nos outros países, em antecipação, em partilha de recursos, em partilha de conhecimento.
Alexandre Abrantes, parece-lhe que, de facto, o fato, passe a redundância, de Portugal não ter sido dos primeiros países a registrar casos de coronavírus, nos permitiu aprender e antecipar alguma coisa?
Acho que sim, Carla. Realmente, eu no início pensava que nós íamos a reboque dos acontecimentos, mas comparando as nossas intervenções e a maneira como o governo atuou e as pessoas responderam, acabamos por aprender dos outros e tomar decisões mais cedo do que os outros. Os outros, por exemplo, a Itália, que teve o problema primeiro, não tinha onde ir buscar um modelo de intervenção a não ser a China. Enquanto nós, quando começaram a aparecer os primeiros casos aqui, já tínhamos o caso da Itália, já havia fortes epidemias tanto na França como na Alemanha e na Suíça, e portanto houve algum aproveitamento das lições aprendidas nesses países e realmente acabamos por intervir mais rapidamente. A segunda coisa também é do ponto de vista de resposta dos hospitais e do tipo de coisas que não havia experiência. Nós tivemos algum tempo para adquirir os ventiladores, para adaptar novas instalações com camas para a epidemia e o número de casos que precisarão de estar internados. Esses outros países que foram os primeiros a ser atingidos, não tiveram essa oportunidade, portanto acabaram por andar muito mais a reboque e não conseguiram preparar-se com o mínimo de antecedência.
E o facto de na Europa a população ser mais envelhecida do que a dos países asiáticos faz com que os exemplos que chegam, nomeadamente da China e da Coreia do Sul, que já falamos, são exemplos que não se podem aplicar tão diretamente aos países europeus?
Honestamente, não tenho a certeza disso, por uma razão simples: nós estamos a ver na Europa também que a mortalidade está a ser maior na população mais idosa. Portanto, a lógica de proteção da população mais idosa já vinha também da China, onde já tinha sido detectado isso. Em termos de conhecimento, nós não estamos muito diferentes do conhecimento que tínhamos já da experiência da China.
Ou seja, são só, entre aspas, os efeitos práticos. Estamos com uma mortalidade enorme na Europa e isso deve-se ao facto de sermos mais velhos.
Sim, é uma parte, mas o facto dessa parte é comum. A parte que nós temos diferente, e em Itália aparentemente foi muito diferente da China, é também o tipo de convivência entre gerações mais novas, em que o Covid pode ser basicamente assintomático, e gerações mais idosas, portanto, entre avós e netos, a ser muito mais intensa do que noutros países, incluindo na China, e isso ter fomentado muito mais o contágio. Nós temos características que não têm exatamente a ver com a mortalidade, mas com a vivência social, que fazem também a diferença entre um contágio muito mais célere que houve em Itália do que acabou por haver na China, mesmo descontando a parte da contenção da China, que foi levada mais a sério.
Alexandre, há que acrescentar alguma coisa. Sim.
Se me permite, adicionava um outro comentário a esta problemática dos idosos na Europa. Temos que pensar, eu não tenho bem os números na minha frente, mas hei de procurar, para a semana podemos voltar a falar no assunto, é a proporção de idosos que estão institucionalizados nos diferentes países. Eu penso que a matriz social e a maneira como os diferentes países tratam os idosos varia bastante dos países mais a norte e dos países a sul. Na Europa do Sul, uma grande parte dos idosos não estão institucionalizados, estão tradicionalmente em casa das famílias, das famílias estendidas, enquanto que nos países nórdicos, por exemplo, uma grande parte dos idosos estão em instituições assistidas ou alojamento assistido, ou mesmo em cuidados continuados. Não sei como é que isto se vai implicar na difusão da epidemia, porque se por um lado os idosos que estão espalhados na comunidade, são infectados mais facilmente porque não estão protegidos, mas por outro lado, se uma vez que entra a infecção numa instituição, aquilo espalha-se de uma maneira muitíssimo rápida. Será interessante acompanharmos esse fenómeno de idosos na comunidade ou idosos na instituição.
Não nos vamos esquecer, é um excelente tema para abordarmos para a semana. Estamos quase a chegar ao fim da primeira parte do gabinete de crise, mas vamos ainda desfazer mitos. São ideias que aparecem como certas, mas que vale a pena questionar. Pedro Pita Barros, qual é o seu mito?
O meu mito, acho que vou pelo mito do Alexandre, portanto vou deixá-lo falar e dizer eu, porque creio que ele tem um bom mito que eu subscrevo.
Alexandre, então explique que mito é que é preciso desconstruir.
Um dos mitos é que Portugal atuou muito tarde. Eu próprio estava indignado porque se fecharam as escolas e o ensino presencial muito tarde e estava indignado porque se atrasou três ou quatro dias a declaração do lockdown.
Foi um erro.
Que foi comparar realmente o momento em que nós interviemos na suspensão das aulas e no lockdown, nós fizemos intervenções muito mais precoces do que os outros países. Vou-lhe dar aqui exemplos. Os italianos esperaram que morressem 366 pessoas antes de suspenderem as aulas presenciais, enquanto que nós não tínhamos nenhum óbito ainda e já tínhamos fechado as escolas. Por exemplo, no lockdown, a Itália esperou que morressem 630 pessoas antes de decretar o lockdown, enquanto que nós, aos 14 óbitos, já estávamos a fechar e a mandar as pessoas para casa. Portanto, é uma ideia que realmente nós não esperámos tanto que morressem pessoas do que os outros países para tomarmos as medidas que tomámos.
E esse deve ser uma variável comandante.
Posso comentar?
Claro.
Ok! O meu comentário é: por que eu deixei o Alexandre avançar com o mito e por que eu subscrevo o mito dele? De certa forma, é sempre fácil dizer que foi tarde demais quando sentimos que há problemas, ou se não tivesse havido tantos problemas, dir-se-ia que tinha sido cedo demais e desnecessário. Portanto, a pergunta que nós temos que fazer, e que o Alexandre colocou bem, é se com a informação disponível que existe em cada momento, as decisões públicas foram acertadas ou não. E o que se está a ver é que nós, em Portugal, com a informação que ia havendo, até se foi decidindo mais cedo do que os outros. E portanto, nesse sentido, é bom pensar que quando nós analisamos a posteriori, estamos sempre a olhar com mais informação do que quem tem que decidir no momento em que vai decidir. E portanto, muitas vezes, a nossa percepção de timing pode diferir de acordo com isso. Portanto, às vezes deixarmos levar pelas emoções nestas discussões, é mau no sentido em que nos impede de ver os tempos ótimos. E nesse sentido, o trabalho que o Alexandre fez de recolha de informação é muito útil no desfazer deste mito e de nos dar confiança também para o resto do processo de decisão que ainda teremos pela frente.
E quando é que este lockdown vai começar a ter efeitos práticos nos relatórios que recebemos diários da Direção Geral de Saúde?
Posso começar, depois completas tu. Portanto, como sabe, a doença, desde a infecção até aos sintomas e seu diagnóstico, etc, passa uma, duas semanas. Eu julgo que os efeitos de redução já se estão a notar na transmissão da doença, mas não na sua manifestação. Vamos ter que esperar, desde o lockdown, umas duas semanas para que o número de doentes infectados possa diminuir.
Então talvez para a semana já consigamos olhar para isso de outra forma.
Sim, na segunda-feira a seguir, a fazer 15 dias de lockdown.
Muito bem. Caiu o mito. Depois da atualização das notícias, regressamos com companhia. A coordenadora do Centro de Investigação da Escola Nacional de Saúde Pública, Sónia Dias, chega ao gabinete de crise. Até já. Estamos de regresso ao Gabinete de Crise, o programa que analisa o estado do combate ao Covid-19 com os professores da Universidade Nova, Pedro Pita Barros e Alexandre Abrantes. Nesta segunda parte, temos um convidado, neste caso, uma convidada, a coordenadora do Centro de Investigação da Escola Nacional de Saúde Pública, Sónia Dias. Bem-vinda, boa tarde.
Boa tarde, muito obrigada pelo convite.
Bem-vinda. A segunda parte do Gabinete de Crise começa sempre com uma nota de esperança. Porque não há só motivos para preocupação, há também razões para se olhar com otimismo para o futuro. Alexandre Abrantes, quer começar?
Sim, posso começar. Estamos todos muito preocupados com a crise econômica que se avizinha. No entanto, se formos ler alguns artigos de especialistas do Financial Times, alguns deles têm perspectivas de que, uma vez passada a parte pior da epidemia, a recuperação econômica pode ser mais rápida do que em outras crises. E eles usam bastante o caso da China, em que a economia já está a arrancar com uma certa velocidade, muito mais rapidamente do que eles tinham previsto.
Portanto, uma recuperação mais rápida é o que se espera, essa recuperação econômica. Pedro Pita Barros, e a sua nota de esperança?
Curiosamente, o Alexandre tocou no ponto econômico, mas eu vou tocar num outro ponto que não é exatamente econômico. A minha nota de esperança vai para o comportamento da sociedade civil. Pelas decisões que têm tido também cada um de nós nestas questões do isolamento e pela confiança, de acordo com o inquérito recente do Instituto de Ciências Sociais e do ISCTE, da confiança nas instituições que nos estão a liderar, no Ministério da Saúde, na Direção Geral de Saúde, no governo. O facto de também, segundo um outro inquérito que nós fizemos na Universidade Nova, as pessoas terem começado até alguma parte do isolamento ainda antes das medidas do estado de emergência, mostra que, mesmo que de vez em quando existam uns fura-quarentenas, como já ouvi chamar, em geral, a população está muito alinhada, também muito preocupada, mas muito alinhada com as medidas que estão a ser tomadas, o que é uma diferença muito grande para com o que surgiu em Itália e depois em Espanha, e que nos dá alguma esperança de que vamos conseguir atalhar o caminho mais rapidamente do que esses países fizeram. Este empenhamento cívico é também notável, e deixe-me reforçá-lo agora, pela possibilidade de podermos vir a contar com médicos que já se tinham sido reformados e que estão a acolher o apelo da Ordem dos Médicos para que voltem a intervir e voltem a trabalhar. E na sociedade em geral, nós vemos esse tipo de mobilização, de vontade de contribuir para o bem comum. E isso parece-me ser muito saudável na sociedade portuguesa e é um motivo de esperança de conseguirmos todos juntos ultrapassar este período difícil.
Pedro, que excelente pretexto para convidarmos a Sónia Dias. Não vamos perder mais tempo. Ela é a coordenadora científica do Barômetro Covid-19. Sónia, quer explicar-nos qual é a ideia deste instrumento, este Barômetro Covid-19?
Muito bem. O Barômetro Covid-19 é, no fundo, uma parceria entre a Escola Nacional de Saúde Pública da Nova e o Expresso. E na verdade, preocupa-nos ir começando a acompanhar passo a passo aquilo que é a evolução da pandemia em Portugal. De uma forma muito breve, podemos dizer que o barômetro inclui três componentes, que são coordenados por diferentes professores da escola. Um deles é o que eu penso que nós vamos falar mais hoje, que tem a ver com o inquérito on-line, chamado Opinião Social Para avaliarmos semanalmente do ponto de vista do cidadão a sua perceção e a sua opinião quanto ao risco, quanto à capacidade de resposta das autoridades e dos serviços de saúde e também do cumprimento das medidas que estão a ser veiculadas e do próprio comportamento individual que o Pedro também já referiu. Depois, uma segunda componente tem a ver com a questão da epidemiologia e portanto percebermos onde estamos e para onde vamos em termos das questões mais epidemiológicas. E aqui temos os estatísticos, epidemiologistas e os matemáticos a trabalhar para desenvolver modelos que nos permitam analisar e prever a evolução dos casos em Portugal.
Sim, força Sónia.
Só uma última componente, que é a questão das políticas e qual é que é o impacto que estas políticas têm tido na evolução da epidemia, mas também nas respostas. E isto permite-nos comparar as medidas que estão a ser adoptadas em diferentes países e conseguirmos fazer uma breve análise de qual é que será o impacto que cada uma das medidas está a ter e adequar essas medidas de forma a ajudar também na escolha de quais são as medidas necessárias e aquelas que podemos provavelmente deixar para segundos momentos, que na verdade também foi aquilo que o Pedro tinha referido. Estas são as três principais componentes do barómetro.
E já vamos olhar, claro, com mais detalhe para o comportamento da população. Isso é importante percebermos melhor neste programa, mas o que eu ia perguntar é se estas conclusões e este trabalho está a ser articulado com as autoridades de saúde.
Sim, nomeadamente a questão do barómetro da opinião social, mas também depois dos modelos e do impacto das políticas e das respostas, na verdade procura ser um instrumento que rapidamente possa dar informações para se adequar as respostas e as estratégias. Na verdade, estamos todos a aprender com uma epidemia, como se tem dito, que é muito imprevisível e tem muito pouco conhecimento. Portanto, procuramos nesse sentido estar adequados e a ajudar na tomada de decisão.
Este barómetro Covid-19 já tem conclusões da primeira semana. O que destacaria?
Olhe, em primeiro lugar, e até um bocadinho no sentido daquilo que têm sido também boas notícias e a associação e o empenhamento que a sociedade civil está a ter, eu acho que é de realçar o envolvimento que a sociedade civil teve na adesão ao nosso estudo. Nós lançámos o questionário há cinco dias e temos mais de 130 mil questionários respondidos. É um questionário online e portanto, nesse sentido eu penso que quer a academia se está a aproximar de investigação, que procura de facto responder às necessidades do terreno e não apenas à investigação, que muitas das vezes fica apenas no papel e dentro dos académicos, mas por outro lado também aquilo que tem sido o apoio da sociedade civil a fornecer conhecimento que nos permita compreender melhor o que está a acontecer no terreno. Portanto, eu acho que isto é, de facto, um aspecto positivo e queríamos agradecer a todos os que nos têm apoiado nesta construção do conhecimento. Em termos de resultados e focando-nos talvez aqui numa primeira fase nos aspectos mais positivos, o nosso estudo vai de facto de acordo com aquilo que também tem sido apontado por outros questionários, no sentido em que a mensagem que está a passar, eu acho que esta é uma das primeiras e grandes conclusões do nosso barómetro e da nossa opinião social, que tem a ver com a maior parte das pessoas, a grande maioria considera que as medidas que estão a ser veiculadas, quer para a Direção-Geral de Saúde, Ministério da Saúde e autoridades, são muito importantes e são as adequadas. Portanto, denota-se aqui um alinhamento entre a população e as entidades governamentais. Por outro lado, denota-se também o mesmo alinhamento relativamente aos comportamentos individuais. A grande maioria refere a adoção das principais medidas reforçadas pelas autoridades de saúde no que respeita à prevenção da propagação, como por exemplo, a lavagem das mãos e o distanciamento físico. Foi muito interessante quando nós perguntámos concretamente se saem de casa e se saem somente em situação de absoluta necessidade, nós tivemos 90% das pessoas a dizer que só sai em situação de absoluta necessidade. Portanto, vai no encontro de outros estudos e provavelmente de um comportamento diferente de outros países europeus, em que os portugueses estão, de facto, a acatar estas medidas.
Essa ideia de que a mensagem está a passar é importante, mesmo com alguma margem de erro para aquelas pessoas que não dizem exatamente a verdade sobre as vezes que saem e o nível de necessidade que têm de sair de casa. Temos uma percepção. São todas necessárias. Queria ouvir-vos também, Alexandre Abrantes e Pedro Pita Barros, sobre o momento. Quando é que será o momento de saturação destas medidas? Ele um dia vai acontecer, não vai?
Provavelmente, sim. É natural que comece a haver alguma fadiga a partir de determinada altura. E sobretudo, aqui nós temos um risco enorme. Nós sabemos que as medidas que são tomadas têm um certo desfasamento até terem efeito. Portanto, não é dizer: declarámos estado de emergência e num dia estamos todos, ou quase todos, em casa a trabalhar ou a fazer outra coisa qualquer durante dois dias e ao terceiro dia, de repente, os números revelam que desapareceu o contágio e que não há mais doentes. Não é assim, não vai acontecer assim. Como o Alexandre referiu há pouco, existem desfasamentos temporais que podem ir até duas semanas, até pode ser um pouquinho mais de duas semanas, a conseguir-se ver o efeito das medidas. E o efeito das medidas pode não ser logo no início tão grande como as pessoas gostariam que fosse pra acabar. E se não houver aqui uma boa estratégia de divulgação de informação, de honestidade na transmissão de informação, como tem existido até aqui, a dizer que está a resultar, mas está devagar. Está a resultar e está a ser rápido. Está a resultar, mas não podemos abrandar ainda. É natural que possa criar essa fadiga com as medidas. E, portanto, nós vamos ter aqui, provavelmente, um ponto crítico, que será dois ou três dias depois dos primeiros 15 dias do estado de emergência, perceber se começa a haver nos números alguma mudança crucial que faça criar o ânimo de: "Isto está a resultar, vamos continuar até o fim".
Portanto, o barômetro vai ser importante também pra poder fazer essa comparação entre a primeira semana e o que se segue agora.
Sim, exatamente. E há vários barômetros ou vários inquéritos que têm estado a circular, vários nacionais, vários internacionais, que provavelmente nos vão dar, com ligeiras nuances, uma imagem relativamente precisa quanto a isso. E portanto, aqui a fadiga também depois vai depender, em grande medida, de nós conseguirmos evitar isso em si, também evitar ter corridas aos supermercados ou a ideia de que existe escassez de bens essenciais, que deve ser outra preocupação fundamental nesta lógica de evitar essa fadiga. Um aspecto curioso também de um outro inquérito é que as pessoas, na semana antes da declaração do estado de emergência, já tinham começado a antecipar compras. O que significa que neste momento também temos aqui algum comportamento de: se não faltou nada até agora e já se antecipou alguma coisa, não estamos a atingir aquela situação de lutas por rolos de papel higiênico que houve noutros países. E isso, se continuarmos com a capacidade de garantir o bom funcionamento das cadeias logísticas, ajuda a que esta fadiga se instale menos. Portanto, nós temos aqui dois riscos neste processo. O primeiro é as pessoas verem se está a funcionar ou não está a funcionar. O segundo é sentir a impressão de a sua vida normal ser demasiado afetada por falhas ou escassez, que não é suposto existir em geral. E isso são dois elementos que nós podemos, de alguma forma, ir tentando acompanhar e influenciar na medida do possível.
Ou seja, Alexandre, vamos ter de procurar e sentir alguma normalidade dentro desta absoluta anormalidade que está a ser o nosso modo de vida nesta altura.
Dois pontos rápidos. Primeiro: há aqui um fator que é o fator de até que ponto o isolamento está a mexer no bolso das famílias. As famílias podem aguentar não sair para trabalhar duas semanas, enfim, mas depois do dia de Páscoa, eu acho que muitas famílias vão começar a pensar se realmente aguentam ficar em casa, mesmo com os subsídios que o governo diz que vai dar e que, portanto, enfim, mas que não é tão fácil pôr a funcionar como a gente se calhar imagina. O segundo ponto é como é que vai ser o processo de começar a reduzir estas restrições de movimentos, do lockdown, etc. Isso temos que olhar um pouco pra experiência da Coreia e da China. A China, principalmente, porque já começou a aliviar as limitações e ver como é que as pessoas se comportam e quais são as consequências desse alívio das restrições em populações que estiveram durante dois, três meses com grande contenção.
Sónia Dias, pode haver, e este barômetro pode, de facto, ajudar a estabelecer uma relação entre a aceitação destas medidas e o impacto no orçamento familiar?
Sim, eu penso que sim. Eu tinha aqui também dois aspectos muito importantes. Um é que, de facto, nós temos um grande número de pessoas, mais de 60% dos nossos inquiridos, que referem que, de facto, está receoso relativamente à questão de perder rendimento devido à situação atual que se vive. Portanto, este é um aspecto que é importante e que nós precisamos de ter em conta. E também é muito interessante ver que este receio está muito associado às pessoas que nos responderam que quase todos os dias ou todos os dias se sentem agitados e ansiosos relativamente a esta situação. Portanto, há aqui, de facto, uma ligação entre estes dois aspectos. Só para realçar uma outra questão que foi referida e que tem a ver com o cansaço das medidas e a adesão e o tempo que as pessoas vão conseguir fazer a adesão a estas medidas. Eu penso que há aqui um importante dado do nosso estudo que nos mostra Que as principais fontes de informação que têm sido utilizadas pela sociedade têm sido as fontes governamentais, quer do Ministério da Saúde, quer com as entidades e com outras autoridades e com outros ministérios. Isto permite-nos perceber que as pessoas estão ligadas a informações que são credíveis e talvez por isso tenham melhor aderido àquelas que têm sido as orientações. Por outro lado, acho que é muito importante dizer que o principal canal de informação escolhido tem sido os telejornais e a comunicação social. Há aqui um papel da sociedade como um todo, de podermos informar com clareza, de mostrarmos como está a situação e através desta transparência e desta adesão a fontes de informação credíveis, conseguirmos ir gerindo a ansiedade da própria população e ao mesmo tempo também a adesão àquelas que vão ser as medidas necessárias ao longo do tempo, que nós próprios também não temos total conhecimento.
E portanto, uma enorme responsabilidade, quer para as instituições, quer também para os órgãos de comunicação social.
Sim, exactamente. Se me permite uma última nota, que eu acho que é muito importante, é que se está a criar também uma rede importante de solidariedade e de apoio. Estamos a assistir simultaneamente à construção de sentimentos e de alianças que normalmente nós não assistíamos. E isso é também um dado muito positivo. Por exemplo, quase 80% dos nossos respondentes refere que vai e pode contar com o apoio não só dos familiares, mas por exemplo de pessoas conhecidas da sua comunidade para adquirir bens, produtos de farmácia, em caso de necessidade. Está-se aqui também a gerar um sentimento que eu acho que é muito interessante e que pode, de alguma maneira, colmatar algum do sentimento mais negativo associado ao isolamento social.
Sónia Dias. Sim, mesmo para terminar.
Posso só comentar rápido?
Claro.
Ok. Será muito importante nós conseguirmos manter esta solidariedade, face até às últimas notícias que estão a surgir de Espanha, de numa pequena localidade ter havido reações adversas à transferência de pessoas que estavam infectadas com Covid. Se isso começa a ser recorrente e começa a surgir em vários sítios, passa a ser preocupante e inverte totalmente. Está na nossa mão também tentar evitar que haja esse tipo de reações adversas associado à fadiga das medidas.
Isso é muito importante, essa nota. Vamos continuar a acompanhar a evolução da atitude dos portugueses face à pandemia e à forma como reagem às medidas de restrição que estão a ser pedidas a todos nós. Sónia Dias, muito obrigada por ter vindo ao Gabinete de Crise. O Alexandre Abrantes e o Pedro Pita Barros vão voltar para a semana. Fica combinado o encontro?
Até breve.
Combinado, até para a semana.
A terminar. Obrigada. Vamos ficar com aquele que pode ficar bem conhecido como o hino da quarentena. Cristóvão, que está na Ilha Terceira, nos Açores, é o autor desta canção. Pedro Varela editou o vídeo que corre pelas redes sociais. Dois amigos à distância, como quase todos nós hoje em dia, construíram uma mensagem de esperança. Tal como a música, dizemos agora nós: vai ficar tudo bem. Separados lutamos, juntos resistimos. O Gabinete de Crise volta para a semana. Até lá.