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Boa tarde. Estamos no Gabinete de Crise, uma parceria do Observador com a Universidade Nova de Lisboa para avaliar o estado da pandemia e a forma como Portugal e o resto do mundo estão agora a desconfinar. Os nossos especialistas são a coordenadora do Centro de Investigação da Escola Nacional de Saúde Pública. Sónia Dias, boa tarde.

Olá, boa tarde, Carla.

Boa tarde também ao Pedro Pita Barros, professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa. Bem-vindo, Pedro.

Obrigado. Viva, boa tarde.

O convidado da segunda parte é o médico de família Daniel Pinto, que é também professor da Nova Medical School. Numa altura em que cabe aos cuidados de saúde primários fazer o seguimento dos doentes infectados em casa, vale a pena ouvir quem está na primeira linha. Mas para já, arrancamos com a ordem de trabalhos desta semana. Há sempre um número que é o ponto de partida para a análise. Pedro Pita Barros, qual é o seu número?

Eu escolhi um número que já tenho referido por várias vezes em vários locais, que é o 97%, que é a proporção das pessoas com Covid-19 confirmada, que está a ser seguida pelos cuidados de saúde primários, e foi o número apresentado pelo primeiro-ministro no plano de desconfinamento. Já tem algum tempo, não consegui atualizar o número para a versão pública mais recente, mas provavelmente não será muito diferente hoje em dia. Eu escolhi este número por uma razão importante: é que há aqui um enorme trabalho invisível dos médicos de família no seguimento destes doentes, bem como também há um trabalho de base dos médicos de saúde pública na identificação e no seguimento dos casos suspeitos. O que significa que a resposta do Serviço Nacional de Saúde à Covid-19 está a ser muito mais do que apenas realizar os testes ou dar o tratamento hospitalar, que são as duas faces mais visíveis desta intervenção. E parece-me ser justo não só reconhecer o trabalho quase invisível que está na retaguarda de todo este processo, como perceber melhor qual é a magnitude que esse trabalho tem hoje em dia. Nós temos a maior parte das pessoas com a Covid a ser tratada em casa e, portanto, haverá um trabalho agora e no futuro muito importante destes médicos de família e era isso que eu gostava de destacar com a escolha deste 97%.

Fica muito bem destacado. Sónia Dias, e o seu número, qual é?

O meu número desta semana é o 49, que representa a percentagem de pessoas que respondeu ao barómetro da Escola de Saúde Pública, em que teve necessidade de uma consulta médica durante o período de Covid, mas não a teve. Seja porque os serviços a desmarcaram, com cerca de 30% de respostas, ou até porque o próprio preferiu não ir, com 17% das respostas. É também interessante ver que mesmo dos restantes que tiveram consulta, estas aconteceram quase de forma semelhante, quer presencialmente, com 29%, quer à distância, com 22%. É, no fundo, o reverso da medalha em relação à resposta dos serviços de saúde à Covid. Não há dúvida que face a uma ameaça de uma epidemia que não conhecíamos, há necessidade de resposta imediata do SNS, ainda mais quando tínhamos casos como Itália, Espanha à nossa frente, que foi imprescindível tomar decisões e reorganizar os serviços para se concentrarem na Covid. Sabemos também que o SNS não teria tido possibilidade nem capacidade de resposta de se adaptar para responder eficazmente à epidemia se tivesse mantido toda a atividade regular. Mas na verdade, há um custo associado, relacionado com o que não se conseguiu fazer em relação à monitorização regular, a cuidados dos outros doentes que não deixaram de existir, mas também com o que se perdeu em termos de medicina preventiva e de promoção da saúde, que importa não esquecer e assim que possível, deve-se também iniciar a redução deste impacto.

É, ficamos aqui com os vossos números, com o lado bom e o lado menos bom ou mais grave da forma como os nossos serviços de saúde lidaram e estão a lidar com a pandemia. Vamos falar sobre isso com mais detalhe na segunda parte do Gabinete de Crise. Para já, olhamos para os números, o que nos dizem os números das autoridades de saúde sobre a infeção. Na semana passada, já falámos aqui da preocupação com os infectados na região de Lisboa e Vale do Tejo. O primeiro-ministro ainda ontem disse que a situação está controlada, mas, no entanto, mantém o atraso na abertura de alguns espaços e serviços em relação ao resto do país. Afinal, Pedro, devemos ou não ficar preocupados com o que se está a passar nessa região?

Devemos, pelo menos, pensar que as autoridades têm que estar preocupadas com o que se está a passar. Os números em si mesmos não são muito grandes, mas têm vindo sempre a crescer e esse é o fator de preocupação. E mais uma vez esta semana, a média de novos casos diários que ocorreu na última semana foi superior ao que tinha ocorrido na semana anterior. Naquele meu novo indicador da semana Gabinete de Crise.

Exato.

Em Lisboa e Vale do Tejo, o número médio de casos novos por dia na última semana foi 259 e tinha sido 206 na outra semana anterior. Enquanto que no resto do país foi 25, quando tinha sido 34. Portanto, não só os valores são muito mais baixos no resto do país do que são em Lisboa, como têm uma tendência crescente no resto do país e continuam a ter uma certa tendência crescente em Lisboa e Vale do Tejo. Aqui não é ainda, provavelmente, um motivo de alarme, porque temos visto que estes casos têm surgido numa população relativamente jovem, portanto, não está a sobrecarregar o sistema de saúde. E como têm sido relativamente detectados cedo, tem havido intervenção e provavelmente alguns destes números ainda são consequência de se testar extensivamente os casos que estão à volta, os contactos das pessoas que foram confirmadas e começar a testar mais à volta. Portanto, pode haver aqui algum efeito também de ter aumentado o teste para detetar completamente qual é a bolha que está em causa, mas se dentro de uma semana, duas semanas, não se começar a baixar, podemos começar a ficar mais preocupados E aqui talvez valha a pena assinalar que esta tendência do crescimento dos casos de Lisboa e Vale do Tejo já leva praticamente um mês. Portanto, desde a semana de 8 a 14 de maio, ele tem vindo a crescer 30, 40 casos em média por dia no último mês. É altura de começar, de facto, a ter um certo travão pela intervenção das autoridades e esperemos que se consiga por isso. Há quem possa olhar isto pelo lado bom, que é se é sobretudo uma população jovem que não tem sintomas suficientemente fortes pra ter que ser internada em hospital e não está sobrecarregar o sistema de saúde, se calhar contribui pra tal famosa imunidade de grupo. Mas essa não é a nossa estratégia nacional de lidar com a Covid. Era preferível controlar e evitar que um destes casos, em algum momento, extravase para populações mais vulneráveis, que será aqui uma das preocupações centrais.

Sónia, e o que destacas sobre a evolução da situação de Lisboa e Vale do Tejo? Onde é que estão as maiores preocupações?

Eu acho que, de facto, concordo completamente com o que o Pedro estava a dizer e até seguindo um pouco este raciocínio. De facto, os números podem vir a ser preocupantes se não começarem a baixar, mas tivemos a informação que foram realizados mais de 17 mil testes, e apenas 4% foram positivos e todos assintomáticos. Portanto, parece-me estar a haver um esforço grande de testagem, o que aumenta, já sabemos, de forma lógica, o número de casos identificados, mas parece também estar a haver um esforço muito grande de identificação, caracterização e isolamento dos focos e dos casos de infecção e adaptar medidas particulares no controle destes surtos, o que de alguma maneira nos dá a garantia ou a segurança de que as autoridades estão a conter estas questões. Eu talvez colocasse aqui a tónica na questão do desafio que nós vamos ter pela frente relativamente a este particular de Lisboa e Vale do Tejo. Por um lado, e já fomos falando destas coisas, mas é motivar as pessoas neste momento, que já estão muito cansadas de ouvir falar do Covid e que têm provavelmente muitas outras coisas pra resolver do ponto de vista econômico e social. Eu diria que as pessoas começaram, por um lado, a saber conviver com o vírus numa primeira fase, porque adotaram algumas medidas de segurança, etc. Mas agora estão também a começar a viver e a conviver com o risco de infecção. Ou seja, as pessoas acabam por estar relativamente confortáveis com o facto de terem que correr este risco. E isso vai pesar na tomada de decisão do que fazer no seu dia a dia e claramente a necessidade de trabalhar e de construir a sua normalidade é muito importante. Só realçar um outro aspecto, é que de facto estes casos parecem estar associados a casos e a contextos particulares, mas é importante que as pessoas percebam, porque às vezes acontece isso, que estes casos não são um problema dos outros, e que não são os meus contextos, portanto, isto não me diz respeito. É muito importante que as pessoas compreendam que estes casos, muitos deles até de pessoas assintomáticas, que não sabem que estão infectadas, e que estas pessoas não vivem numa bolha. As pessoas movem-se, trabalham e qualquer pessoa infectada pode acabar por ser o início, até de forma inconsciente, uma cadeia de transmissão. E a disciplina que todos temos que ter pra manter estas regras de segurança é fundamental.

Essa ideia de que as pessoas começam a ficar confortáveis com o risco de viver com o vírus é interessante e é isso que faz com que as idas à praia se mantenham no mesmo local em que não é possível ir a um centro comercial ainda. Começa a ser difícil determinar, sobretudo aqui nesta zona que estamos a falar de Lisboa e Vale do Tejo, o que é correto fazer daquilo que é perigoso ou não, Pedro?

Sim, até certo ponto começa a haver alguma quase contradição entre normas para determinadas áreas, normas para outras áreas. E isso vai ser difícil liderar. Calculo que parte das dificuldades seja a capacidade da própria Direção Geral de Saúde emitir normas ou orientações detalhadas pra toda e qualquer circunstância. Torna-se complicado fazer isso em termos de tempo e de recursos de pessoas que exige que possam ser necessárias noutros pontos do sistema. Mas depois para o cidadão comum começa a ficar essa dúvida, precisamente, de até onde se pode ir e não se pode ir. E é provável que aconteça muito o que a Sónia está a referir, que as pessoas, com o cansaço e com a passagem do tempo, vão começando elas próprias numa espécie de experimentação. Vão à praia uma vez, não aconteceu nada, podem ir numa segunda vez. Vão a uma zona comercial, não aconteceu nada, não há notícia de nada, vão uma segunda vez. E aos poucos vão experimentando. Não é necessariamente mau, desde que seja sempre feito com as precauções devidas. Isto é, nós não podemos passar a viver com medo permanente de tudo e de alguma coisa, até porque se esse medo depois passar pra suspeição de toda e qualquer pessoa que passa na rua ao nosso lado e que tem uma pequena tosse e ficamos assustados, passamos a ter uma vida em sociedade que é completamente atípica. É uma vida de medo que não se chega.

Claro.

Portanto, é natural que as pessoas vão fazendo alguma experimentação de ver até onde podem ir e ganhando alguma confiança e com isso vão progredindo. Agora O importante aqui é perceber se o fato de os novos casos que terem sido confirmados serem numa população muito específica, não tem a ver com alguma falta de sensibilidade para com as necessidades de socialização dessa mesma população. Por exemplo, basta pensar nos miúdos em idade escolar. Não têm sido os casos mais prementes em termos de aumento de número de casos confirmados, mas as pessoas em idade escolar, os adolescentes, estavam habituados a uma socialização intensa que lhes foi totalmente retirada.

De um dia para o outro.

De um dia para o outro. E se começam agora a ter a oportunidade de voltar a ter alguma dela, é natural que, pela própria natureza, tendam a experimentar mais e mais. Portanto, aqui não se trata tanto de proibir situações dessas, de pessoas de 20 e tal anos, etc. Não se trata de começar a proibir idas à praia ou outras coisas. É manter as pessoas alerta e, sobretudo, ter uma grande capacidade de ir buscar e testar sempre que for detectado um caso.

Muito bem. Em um minuto, Sónia. Posto isto, parece-lhe que a hipótese de uma cerca sanitária está completamente caída como uma estratégia?

Sim, porque se de facto os casos estão a ser bem identificados, monitorizados, isolados e controlados os seus contactos, na verdade, não me parece que estas medidas de cercas sanitárias e de grande contenção sejam a função mais premente neste momento. Realmente, o que é necessário é uma grande disciplina individual e mantermos todos as regras que já fortemente foram disseminadas.

Muito bem. Estão agora na ordem de trabalhos do gabinete de crise os mitos. Vamos deixá-los cair. Falamos de ideias feitas, daquelas verdades que afinal não são bem assim. Vamos a elas. Pedro Pita Barros, o calor vai fazer desaparecer o vírus da Covid-19?

Não, infelizmente não vai. Não é sequer claro que o atenue consideravelmente. Têm havido algumas informações a sair sobre isso, mas também aqui a incerteza que nós temos sobre o vírus é muito grande, embora o que parece ser claro é que embora não se saiba qual é a sazonalidade que ele possa vir a ter, todos os países no mundo, neste momento, seja inverno ou verão, primavera ou outono, ou outra estação qualquer nesse país, têm tido que lidar com o vírus. E por isso não será certamente o calor que irá fazer desaparecer o vírus da Covid-19. Por isso teremos que ir mantendo os cuidados que temos hoje em dia durante as quatro estações do ano, enquanto não houver a vacina ou tratamento. Claro, vai ser mais fácil ficar em casa quando tivermos chuva. Mas mesmo agora durante o verão, não podemos esperar que apenas o calor e o sol façam desaparecer o vírus.

Aqui está um mito a cair. Sónia Dias, podemos contrair a Covid-19 por mergulhar no mar ou na piscina? Continuamos a pensar no verão.

Sim, de facto esse foi o mito que eu escolhi, porque realmente na hora de ir à praia ou ir à piscina, ainda há muitas dúvidas entre os portugueses. Será que é possível mergulhar no mar em segurança ou tomar banho numa piscina? Ainda não existem estudos específicos para o SARS-CoV-2 em água, mas o que se sabe, tendo em conta os estudos feitos com outros vírus, também da família do coronavírus, é que parece que, por um lado, o efeito da diluição do vírus no meio aquoso faz com que o risco de infecção se reduza muito comparativamente com a transmissão aérea. E, por outro lado, mesmo em relação ao mar e à presença de sal, provavelmente contribui para uma diminuição da carga viral e da sua inativação, levando assim a uma redução da concentração e da infecciosidade do vírus. Nas piscinas, porque os compostos utilizados para a desinfeção dos espaços à base de cloro, que vão eliminar eficazmente o vírus, torna-se ainda menos provável que uma pessoa possa ser infectada pelas águas da piscina. Resumia assim, quase em tom de brincadeira, que na praia e na piscina, a questão centra-se nos banhistas, nas pessoas. Ou seja, também aqui o distanciamento social é o elemento-chave. Se houver aglomerações, pode acontecer. Não pela água, mas devido à transmissão aérea ou ao contacto direto, não se excluindo que ao nadar próximo de alguém infectado, mesmo que este seja assintomático, possa levar a uma infeção. Portanto, resumia, distanciamento social também nas praias e nas piscinas.

A Covid-19 não se contrai na água do mar ou da piscina, mas sim com os banhistas e não vale a pena pensar que o vírus vai desaparecer com o calor. Vamos ter de continuar a lidar com ele. Vamos regressar já a seguir com notas de esperança e também com o médico Daniel Pinto para falar de cuidados de saúde primários. Até já. Segunda parte do Gabinete de Crise, o programa que todas as semanas analisa o estado do combate à Covid-19. Estamos com os professores Sónia Dias e Pedro Pita Barros e daqui a pouco, também com o professor e médico de família, Daniel Pinto. Mas antes de mais, uma nota de esperança. É preciso estar atento, respeitar as indicações, mas todos os dias vamos tendo também alguns sinais de confiança. Sónia Dias, qual é a sua nota de otimismo desta semana?

A nota que trago prende-se com o facto de se terem retomado as visitas aos lares. Voltar a ser possível o contacto com os familiares e entes queridos tem um impacto muito positivo no bem-estar, no nosso lado emocional, no aumento da tranquilidade, o que é também um importante contributo para se enfrentar esta nova realidade. E de facto, esta possibilidade das visitas aos lares foi desejada com muita expectativa. Muitos ansiavam de facto ser possível esta retoma. E parece que está a correr bem. Não se observou um aumento dos casos nestes contextos, demonstrando que estamos a ser capazes de pôr em prática medidas para que as visitas decorram com segurança. As visitas têm sido cuidadosas, organizadas, bem programadas. Têm tido várias questões de uma visita por utente, uma vez por semana, a duração limitada, o cumprimento das medidas individuais de proteção, mas também queria realçar a grande capacidade de articulação, de agregação de esforços e respostas de diferentes setores e serviços, quer governamentais, com os gabinetes de saúde, a Autoridade de Saúde Locais, mas também os setores de solidariedade, apoio social, organizações na comunidade, que estão agora a trabalhar em articulação, aspecto que ao longo dos anos tem vindo a ser difícil de implementar. A retoma dos lares passa a ser assim também perspetivada como um sinal positivo neste panorama de regresso à normalidade, mas também da implementação de alterações de funcionamento que seria mesmo muito bom que se tornassem duradouras e permanentes.

Aprender com as dificuldades e implementar boas medidas. Pedro Pita Barros, que nota quer destacar?

Desta vez, na esperança da semana, escolhi uma esperança no sentido de querer que algo aconteça. Portanto, não é exatamente o sinal de haver algo que tenha sucedido que nos dê esperança, não é uma questão de fé, mas uma vontade. E a vontade é a esperança de que os surtos que têm surgido na zona de Lisboa, e que nós já falámos há pouco, sejam realmente limitados na sua extensão. E aqui a esperança é a esperança da intervenção rápida das autoridades de saúde, com esta técnica já conhecida de detetar, testar, conhecer e isolar para quem for positivo para a Covid-19. Dá alguma esperança, e aí sim, pela rapidez com que tem sido feito, que sejam situações que acabem por ficar contidas e sem dar origem a um crescimento acelerado. E, portanto, a minha esperança está na manutenção deste processo de decisão rápida e no cortar dos contágios possíveis o mais depressa possível. Eu sei que a evolução recente desta semana não vai de encontro à esperança. Isto é, a evolução desta semana não foi nesse sentido, mas devemos manter a esperança de que vamos conseguir uma evolução em Lisboa que inverta o que tem sucedido no último mês. E esta é a tal parte de vontade que é uma esperança. Eu tenho a impressão que o que nós temos visto de mecanismos sugere que isso é possível. Por outro lado, podemos ter esse ponto. Agora, também vale a pena assinalar aqui um aspecto interessante ligado ao que a Sónia estava a dizer, que é: a esperança positiva que nós tínhamos posto aqui a semana passada foi cumprida. Isto é, tínhamos a esperança positiva de que não houvesse surtos associados com esta abertura das visitas aos lares e às residências de idosos. E na verdade, os cuidados que estão a ser tidos por toda a gente, seja nos lares, seja de quem visita, seja provavelmente dos próprios residentes, acaba por ter dado cumprimento a esta esperança que nós tínhamos na semana passada, que era uma abertura que era desejada, como a Sónia referiu, que ia obrigar a cuidados que todos tiveram, e a esperança era que não resultasse em surtos nesses locais, o que parece que se conseguiu garantir.

Então pode ser que dê sorte, que a esperança desta semana se confirme para a próxima. Em todo o caso, fica aqui uma ótima deixa para chamarmos já o convidado desta semana do gabinete de crise. A maioria dos doentes com Covid-19 cura-se em casa, os tais 97% que falávamos na primeira parte do programa, e esses doentes não estão a necessitar de tratamento hospitalar. Por isso, cabe aos cuidados de saúde primários fazer o acompanhamento destas situações. O médico de família Daniel Pinto exerce na área de Lisboa, é também professor da Nova Medical School. Muito bem-vindo ao gabinete de crise. Obrigada por estar conosco esta tarde. Começo por lhe perguntar como é que está a correr este processo de monitorização dos doentes que se tratam em casa.

Obrigado pelo convite. Isto tem sido um trabalho novo para os médicos de família, porque, de facto, como disse, a maior parte das situações não são graves o suficiente para motivarem a ida ao hospital. Ao mesmo tempo, nós sabemos que esta é uma doença um pouco diferente daquela que nós estamos habituados, no sentido em que, ao contrário do que acontece numa gripe, em que nós normalmente sentimo-nos muito mal nos primeiros dias e depois vamos melhorando, na Covid-19, às vezes nós sentimo-nos relativamente bem no início e passados alguns dias as pessoas começam a sentir-se pior. E, portanto, isso motiva esta necessidade de acompanhamento permanente das pessoas que estão a ser tratadas em sua própria casa. Muitas vezes há apenas vigilância, os sintomas são ligeiros, às vezes é preciso fazer alguma medicação para aliviar sintomas como febre ou dores no corpo, dores de cabeça. Mas temos sobretudo que estar atentos a este potencial de agravamento que pode acontecer alguns dias depois. Ao mesmo tempo, também é importante darmos algum apoio psicológico a algumas pessoas que se sentem bastante isoladas, sobretudo idosos, porque se a maior parte das pessoas tem resolução da doença no espaço de mais ou menos duas semanas, há algumas pessoas que após duas semanas mantêm um teste positivo, apesar de muitas vezes já se sentirem relativamente bem. Nós não temos a certeza se eles são ou não contagiosos e, portanto, por cautela, mantemo-los em casa. E, portanto, às vezes há pessoas que passam um mês inteiro em isolamento em casa porque são positivas para a Covid-19 e isso psicologicamente também é difícil para estas pessoas, sobretudo às vezes pessoas de mais idade, que se veem privadas do contato social que tinham com a sua família, inclusivamente. Por outro lado, também estes contatos telefônicos são importantes pra nós podermos ajudar o trabalho dos médicos de saúde pública, que neste momento muitas vezes não têm mãos a medir. E, portanto, também podemos perceber quem são as outras pessoas que vivem em casa, explicar como é que as pessoas devem agir para evitar a transmissão dentro da mesma família ou quando existe risco, testar as pessoas que estiveram em contato com pessoas positivas para a Covid-19, para evitarmos que essas pessoas saiam à rua e depois venham espalhar a doença a outros.

Portanto, têm aqui várias funções e obviamente que estão a percorrer caminhos novos. Ainda não tínhamos passado por uma situação destas e os médicos de família acabam por enfrentar esta experiência. Quais são as principais dificuldades que encontra, sendo que nestes contatos telefônicos não há a mesma relação cara a cara entre o utente e profissional de saúde, como é que isso se ultrapassa?

Isso é verdade. Há aqui uma vantagem que nós temos, que é conhecermos a maior parte das pessoas antes. Portanto, já temos uma relação cara a cara anterior com muitas pessoas e quando falamos com alguém que já conhecemos, o contacto telefónico é bastante mais fácil. Mas como há tantas pessoas a necessitar de acompanhamento e o acompanhamento tem de ser feito todos os dias, incluindo sábados, domingos, feriados, nem sempre a pessoa é contactada pelo seu médico de família, às vezes é contactada por outro médico, habitualmente dentro da mesma unidade de saúde. As pessoas também têm alguma garantia de que estão a ser acompanhadas por uma equipa em que está presente o seu médico de família e isso ajuda a facilitar essa relação.

E essa diria que é a maior dificuldade, de conseguir estabelecer essa confiança com aqueles que não conhece tão bem.

Sim, provavelmente sim. Também é verdade que nós não estamos a fazer telefonemas só por causa da Covid-19, continuamos a fazer as outras tarefas que fazíamos antes, muitas delas ao telefone, e estamos a perceber que provavelmente conseguimos fazer muita coisa que antes achávamos que só podíamos fazer presencialmente, pelo telefone. Esse é talvez o lado positivo que nós podemos aproveitar desta pandemia, é perceber que se calhar estas consultas à distância funcionam para um grande número de situações e muitas pessoas ficam satisfeitas por um contacto com o médico, mesmo que telefónico, e nós conseguimos resolver uma boa parte dos assuntos pelo telefone, sendo que quando não conseguimos resolver, pedimos às pessoas para vir ao centro de saúde. Neste caso, as pessoas que têm infecção pela Covid-19, há áreas dedicadas, há atendimentos dedicados à Covid-19 na comunidade, porque às vezes nós não temos a certeza se a pessoa precisa mesmo de ir ao hospital e pode precisar de uma observação e nesse caso vai a uma dessas áreas dedicadas, onde também há médicos de família que estão a fazer este trabalho de procurar avaliar a gravidade da doença e enviar para o hospital apenas aquelas pessoas que realmente necessitam.

Portanto, podemos dizer, se calhar de uma forma mais simples, mas que os cuidados de saúde primária acabaram por se reinventar e descobrir até forças e qualidades que nem sabiam que tinham.

Sim, isso é verdade. Eu penso que provavelmente toda a medicina está a descobrir coisas que não sabíamos antes e estamos a abraçar novas tecnologias e novas formas de funcionar e perceber que às vezes algumas das resistências que tínhamos não faziam muito sentido e podemos abrir aqui novos espaços, novas formas de nos relacionarmos com as pessoas. Eu penso que depois deste período de pandemia, há muitas coisas que vão provavelmente ser organizadas de forma diferente.

Tem ideia, à primeira vista, de alguma coisa que possa mudar já totalmente depois de termos ultrapassado a pandemia?

Eu diria que, por exemplo, uma boa parte das pessoas que têm situações crónicas como a hipertensão arterial, sobretudo pessoas mais jovens abaixo dos 60 anos, que muitas vezes não têm outras doenças, não têm consequências da hipertensão ainda, apenas precisam de vigiar a sua pressão arterial e podem fazer isso em casa ou na farmácia, e precisam de um contacto com o médico para fazer a gestão da sua medicação, para fazer a avaliação relacionada com a hipertensão. Provavelmente, muitas destas pessoas, de facto, não precisam de ir aos centros de saúde duas vezes por ano para estar cara a cara com o médico. Podem fazer uma boa parte do acompanhamento à distância e se calhar até uma parte do acompanhamento ser feito por outros profissionais, como enfermeiros, que também podem fazer essa avaliação. Eu diria que, por outro lado, há aqui uma questão que também é importante, que é: nós temos de perceber aquilo que é prioritário. Com estas tarefas adicionais que temos relacionadas com a Covid-19, o tempo não aumentou e como nós já tínhamos o dia todo ocupado e sobretudo na área da Grande Lisboa, há uma carência grande de médicos de família, a pressão do trabalho era grande. Algo que nós provavelmente também temos de aprender é dar prioridade àquilo que traz mais ganhos em saúde, àquilo que pode levar à diminuição das principais causas de morte e também à diminuição de internamentos ou de complicações de doenças e se calhar abandonarmos algumas práticas que tínhamos anteriormente, que não trazem ganhos em saúde às pessoas e que ocupam o tempo dos médicos desnecessariamente.

E haja meios, Daniel Pinto, já vamos falar sobre isso. Portugal não tem os médicos de família que precisava e isso terá outras consequências. Deixe-me chamar a Sónia Dias a esta conversa, porque na primeira parte a Sónia chamava a atenção para a quantidade de consultas e de outros atos médicos que acabaram por ser desmarcados por causa desta concentração no problema da Covid. Esta experiência vem capacitar os cuidados de saúde primários e os médicos de família de uma outra forma?

Sim, só talvez dizer que, de facto, e parece-me que é mesmo muito justo, que no princípio do discurso público, nesta fase inicial da pandemia, foi muito colocada a tónica nos cuidados hospitalares, na existência ou não de número de necessários ventiladores, etc, que pode ter dado a ideia de que a luta e o combate se centrava fundamentalmente ao nível dos cuidados hospitalares e cuidados intensivos. Mas na verdade, houve um extraordinário e importante componente que se centrou nos cuidados de saúde primários e estas equipas de medicina familiar, de saúde pública, etc, superando todas as dificuldades, face a uma pandemia que não se conhecia, alguma falta de recursos, conseguiram dar a resposta e foi fundamentalmente pela disponibilidade das equipas médicas, a sua entrega e motivação. Acho que este louvor e este agradecimento pelo contributo, muitas das vezes trabalhando de forma completamente anónima, foi mesmo muito importante. Depois, queria dizer que Houve aqui uma série de alterações, até os nossos próprios dados e, no fundo, também no seguimento do que estava a ser dito, houve uma série de consultas à distância, a utilização de novas tecnologias, portanto, alguma coisa que se poderá de facto aprender e levar para o futuro. Mas diria talvez, que esta experiência desta crise evidenciou a importância, muitas das vezes, de não ver os cuidados de saúde apenas centrados nos cuidados hospitalares. E cada vez se percebe mais que as estruturas de proximidade são, de facto, decisivas para implementar medidas de saúde e acho que, aqui sim, sai reforçado um SNS mais próximo dos cidadãos, das suas comunidades e que respondam aos desafios e às necessidades reais da população. Talvez só para terminar, penso que sai também reforçado o papel que a medicina preventiva e agora, que não se pôde, mas também as medidas de promoção da saúde, acompanhamento de grupos mais vulneráveis e que se possa agir mais nas causas dos problemas e não tanto quando estes problemas de saúde já se desenvolveram, já estão ativos e são de muito mais difícil resolução. Dando um exemplo muito concreto, reforçar que os cuidados estejam, de facto, centrados nas pessoas. Por exemplo, uma dificuldade que temos vindo a lidar é como é que pessoas com multimorbilidades podem se ligar, por exemplo, com vários serviços. E esta colaboração interprofissional e integração dos vários serviços. Portanto, há aqui, de facto, muitas lições que se aprenderam e que podem ser importantes para o futuro.

Muitas lições, Pedro, e esta de que tantos utentes recorriam como primeira opção às urgências hospitalares, em vez aos cuidados de saúde primários, centros de saúde ou unidades de saúde familiar. Esta tendência pode mudar depois da experiência que estamos a ter agora?

Sim, é provável que alguns aspectos mudem, porque como disse o Daniel, havia uma resistência, seja de médicos, seja de doentes, à utilização de meios de consulta à distância, de comunicação remota, que agora, por causa de outro medo maior, conseguiu vencer alguns desses medos. E se se instalar a lógica de que afinal corre tudo tão bem ou se calhar até melhor nalguns casos, por ser uma consulta à distância do que ser presencial, isso pode depois instalar-se como sendo um novo aspeto. Concordo com tudo o que a Sónia disse e vou só adicionar um aspeto importante, que é: nós passamos o tempo todo a queixar-nos do que devia ser feito e ainda não foi feito. Agora, vale a pena talvez reconhecer que esta boa resposta dos cuidados de saúde primários, apesar de todos os defeitos que temos posto no nosso sistema de saúde, é também reflexo de um aumento que houve dos médicos de família nos últimos anos. Os vários governos têm dito que os querem aumentar. Têm aumentado devagar, nunca chegamos a cobrir a população toda como é desejável, mas temos vindo a aumentar. Saiu há poucos dias um relatório da OCDE sobre os cuidados de saúde primários, há dois ou três dias, e no contexto da OCDE há apenas oito países que aumentaram a percentagem do número de médicos de família que têm no sistema. E Portugal foi um desses. Eu acho que a boa resposta que estamos a observar hoje dos nossos cuidados de saúde primários a tratar os doentes de Covid e a manter tudo o resto de uma forma que não criou ainda nenhuma disrupção grande no sistema, é provavelmente também reflexo desse investimento que foi feito e que importa continuar a manter para o futuro. Portanto, estamos num bom caminho. Vamos continuar, até porque já começamos a ver o retorno dessa lógica de investimento nos cuidados de saúde primários e no crescimento do número de médicos de família.

Muito bem, última e rápida pergunta para o Daniel Pinto: será que é desta que os médicos de família vão cobrir toda a população portuguesa?

Eu diria que provavelmente ainda não vamos conseguir isso, porque de facto formar médicos é difícil e aquilo que tem acontecido nos últimos anos é que não tem sido fácil aumentar o número de capacidades formativas e às vezes por coisas relativamente simples, como, por exemplo, falta de pessoal administrativo. O número de médicos de família, como disse o Pedro Pita Barros, aumentou bastante nos últimos anos, mas se nós olharmos para o número de pessoal administrativo, por exemplo, nos centros de saúde, ele não aumentou assim tanto. As instalações físicas, sobretudo na área de Lisboa, que é a área mais carenciada, também não aumentaram assim tanto. E, portanto, se de repente caísse aqui um presente de 500 ou de 1000 médicos de família, nós não tínhamos secretários clínicos nem espaços físicos onde os pôr a trabalhar. E, portanto, há aqui provavelmente que, além de olhar para os médicos de família, que têm vindo a aumentar, e isso é positivo, olhar também para o resto das condições que são necessárias para ter um centro de saúde a funcionar, porque um centro de saúde não são só médicos, há mais profissionais. Precisamos de psicólogos, de nutricionistas, de outras pessoas, até porque em Portugal os médicos de família fazem muitas tarefas que noutros países são atribuídas a outros profissionais de saúde. E, portanto, nós precisamos de mais pessoas nos cuidados de saúde primários, médicos de família, claramente, mas também outros profissionais.

Ou seja, há um caminho ainda para ser feito. Daniel Pinto, muito obrigada por ter vindo ao gabinete de crise trazer estas reflexões connosco. A Sónia Dias e o Pedro Pita Barros vão, como sempre, voltar para a semana à mesma hora. Estamos a fechar e fechamos com o futebol pós-pandemia. A primeira Liga Portuguesa voltou esta semana. Foi na quarta-feira à noite que Porto e Famalicão deram o pontapé de saída para os jogos que faltam. Até ver, e digo até ver, os encontros são à porta fechada e os adeptos estão, também eles, a aprender a sofrer de outra forma. A repórter do Observador, Mónica Peixoto, assistiu ao encontro ao lado dos adeptos portistas. Quem não sabe, não diria que eles estiveram fora do estádio. Boa tarde e até para a semana.