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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que destacamos as principais questões que marcam a geopolítica mundial. Hoje contamos com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno C., muito bem-vindo à Rádio Observador. Dia de hoje, 11 de setembro de 2026, marcado pelo aniversário dos ataques do 11 de setembro de 2001. Marcaram uma geração, mudaram o mundo, e é precisamente por aí que eu gostaria de começar, Bruno Cardoso Reis. Que efeitos é que ainda existem em 2026 do dia 11 de setembro de 2001?

Eu recordo bem onde é que estava. Estava, aliás, no início da minha carreira acadêmica de atenção a esses temas e tinha ido almoçar aos tibetanos, a um restaurante aqui na zona próxima do Marquês de Pombal, e quando entrei alguém disse que havia um avião que tinha chocado com uma das Torres Gêmeas. Eu, aliás, tinha estado em Nova York no ano anterior. Não visitei as Torres Gêmeas por acaso, porque estava um dia um bocado nublado e pensei: "Mais vale deixar pra próxima", que é uma lição também aprendida. Provavelmente há que aproveitar as ocasiões e não adiar. E depois, ao sair do almoço, alguém disse que houve um segundo avião que atingiu a torre. Eu fiquei com a ideia de que provavelmente seria um ataque terrorista, até porque tinha havido também um ataque anterior da Al-Qaeda ou de grupos ligados à Al-Qaeda com explosivos na garagem das Torres Gêmeas. Em termos de efeitos até hoje, eu acho que é realmente possível dizer que houve aqui uma viragem de fundo na política, na geoestratégia, na segurança global durante várias décadas, mas penso também que se pode dizer que se calhar estamos um bocadinho no fim, ou que já atingimos o fim desse ciclo, em particular a retirada norte-americana do Afeganistão ao fim de 20 anos de presença militar dos Estados Unidos e dos seus aliados, acho que marca um pouco o fim desse ciclo. Isso obviamente não quer dizer que não haja também efeitos mais duráveis, ou seja, por exemplo, a forma como se lida com a segurança nos aeroportos, o tipo de controle que existe, obviamente, foi muito reforçado, é muito mais demorado, portanto, esse tipo de chatices continuam conosco até hoje. Houve um enorme investimento, um enorme reforço nas capacidades de contraterrorismo, nomeadamente ao nível dos serviços de informações dos países ocidentais e não só. Agora, também não se conseguiu eliminar completamente a Al-Qaeda. Ela está muito enfraquecida. Bin Laden foi eliminado ao fim de 10 anos, em 2011. O seu sucessor, Ayman al-Zawahiri, foi eliminado há quatro anos, e já não era uma figura tão importante, tão carismática como Bin Laden, mas as suas filiais também continuam ativas, sobretudo aqui na zona do Sahel, a sul de nós, em África, quer no Sahel, quer na África Oriental. Portanto, realmente alguma coisa ainda resta da Al-Qaeda, alguma coisa resta dessas políticas antiterroristas. Agora, já não é claramente a principal prioridade da principal potência dos Estados Unidos e também, no fundo, o consenso hoje é que uma resposta muito militarizada no combate ao terrorismo provavelmente não é a mais eficaz e, sobretudo, não é a mais sustentável. E isso também parece bastante claro no caso dos Estados Unidos. Portanto, há algumas mudanças, acho que estamos num período diferente, com outras prioridades, mas foi muito impactante, alterou realmente as prioridades dos Estados Unidos durante várias décadas e, por essa via, também afetou muito a política internacional, a segurança internacional durante várias décadas.

Ainda podemos falar, Bruno, numa geopolítica mundial diferente antes e depois desses ataques de 11 de setembro?

Qual foi o impacto mais importante do 11 de setembro? Eu penso que foi, sobretudo, obrigar os Estados Unidos a voltarem a enfocar-se, a continuarem a enfocar-se no Médio Oriente. Nesse período, houve um artigo de um estratega muito influente nos Estados Unidos, Edward Luttwak, que tinha como título "The Middle of Nowhere", o meio de sítio nenhum. O conceito de Médio Oriente é, aliás, um conceito que vem de um estrategista americano, do Alfred Mahan, do início do século XX. Nós antes falávamos, por exemplo, em Próximo Oriente, mas o Médio Oriente tem muito a ver com essa ideia que é um lugar central em termos da geoestratégia da Eurásia, porque no fundo é o ponto de ligação de contacto ou de choque entre a Europa, a Ásia e a África também, o Norte da África. Mas além disso, depois tivemos a questão do petróleo, que ainda deu muito mais importância. Mas havia muito essa ideia de que o Médio Oriente estava a perder importância, os Estados Unidos estavam cada vez mais a ter mais autonomia em termos energéticos e que havia outras prioridades, por exemplo, a questão da ascensão da China. O presidente George W. Bush, que é eleito não chega a um ano antes, tinha como prioridade uma política externa mais modesta e mais focada, por exemplo, em rivais como a China e que desse menos atenção ao Médio Oriente. A verdade é que isso tudo foi descarrilado e isso mostra como os acontecimentos, os acasos, a contingência, os acidentes, os incidentes, realmente muitas vezes estragam os planos mais bem pensados. Em termos de impacto também mais durável, eu penso que foi sobretudo no Médio Oriente, e aí realmente não contribuiu nada para estabilizar a região. Os jihadistas não venceram, não conseguiram criar um grande califado. Houve uma altura que quase parecia que isso estava a acontecer com o chamado Daesh Entre 2014 e 2016, no Iraque e na Síria. O que aconteceu foi realmente uma desestabilização, mais conflitos armados. Os Estados Unidos derrubaram os Talibãs, mas eles, entretanto, recuperaram, mas o Afeganistão continua a ser um país muito problemático. No caso do Iraque, derrubaram Saddam Hussein, mas o resultado também foi uma sucessão de guerras civis, de conflitos armados que estão agora um pouco mais calmos, mas não se resolveram completamente e depois teve um impacto desestabilizador noutras regiões, noutros países da região, por exemplo, a Síria também. Portanto, realmente acho que o efeito maior e mais negativo foi no Médio Oriente e foi no sentido oposto àquilo que os Estados Unidos queriam, até é preciso dizer também com relativas boas intenções de ajudar a democratizar o Iraque e depois a partir daí outros países do Médio Oriente. A ideia de que o grande problema do Médio Oriente eram as autocracias repressivas e que a democratização seria rápida, fácil e levaria à pacificação da região e a boas relações com os países ocidentais, realmente nada disso se confirmou. O que temos realmente são Estados frágeis, muitas vezes fragmentados, a proliferação de grupos armados, de grupos violentos, jihadistas e não só, e portanto um agravar realmente da tendência para o Médio Oriente continuar a ser importante, muito por razões negativas, por razões de ser um foco de insegurança, de conflitos que muitas vezes depois contagiam também regiões vizinhas, afetam negativamente a economia global.

Bruno, 25 anos depois, há ainda lições a tirar do que aconteceu a 11 de setembro?

Eu penso que sim, aliás, na coluna desta semana para "O Observador", vou focar-me nessa questão. Eu acho que há, sobretudo, duas grandes lições genéricas e é importante dizer que são lições para os Estados Unidos, mas também para o resto do mundo. Uma é que é muito perigoso subestimar adversários, subestimar inimigos que parecem bastante fracos. A Al-Qaeda, de acordo com as melhores estimativas, teria poucas centenas de combatentes treinados, organizados aquando do 11 de setembro de 2001 e, no entanto, bastaram 19 desses combatentes realmente para causar, através de um ataque surpresa, de um método que nunca tinha sido usado antes. No fundo, já tinha havido muitos casos de pirataria aérea, mas nunca para usar esses aviões de passageiros carregados de combustível como uma espécie de arma, de míssil. E por causa disso, desse efeito surpresa, realmente conseguiram fazer o ataque mais eficaz, mais mortífero contra a potência militar mais poderosa do mundo desde o século XIX, desde 1812. Morreram quase 3 mil pessoas como resultado desses ataques. Portanto, acho que subestimar os inimigos é algo muito perigoso. Essa é uma lição muito importante para todos. E a segunda lição também é, e tem a ver um pouquinho com o que estávamos a falar antes, é que não há vitórias fáceis e em certo sentido cada vez elas são mais difíceis na política internacional. Há cada vez mais atores, há muitos elementos de inovação que funcionam como niveladores de poder e, portanto, mesmo as grandes potências, as grandes potências nunca foram omnipotentes, mas digamos que a sua capacidade de conseguir resultados com facilidade, rapidez, mesmo quando utilizam meios militares, claramente está muito limitada. Essa tem sido, aliás, a tendência desde 1945. Tivemos vários conflitos assimétricos em que grandes potências acabaram estrategicamente por perder. A União Soviética, por exemplo, no próprio Afeganistão, entre 79 e depois foi forçada a retirar em 1989, ou os Estados Unidos no Vietname, mas acho que o 11 de setembro é mais um exemplo disso. Este tipo de conflitos não convencionais, irregulares, grupos terroristas, guerrilha, etc., são realmente sempre muito difíceis de derrotar, mas acho que a lição vai até para além da dimensão do conflito armado. Em geral, está mais difícil para as grandes potências conseguirem o que querem na política internacional.

E é com essa ideia que terminamos este Gabinete de Guerra. Bruno Cardoso Reis, chegamos ao final do nosso tempo dedicado este episódio a esse 25º aniversário dos ataques de 11 de setembro de 2001, que mataram quase 3 mil pessoas quando as torres gêmeas caíram. Houve também um avião que atingiu o Pentágono e há ainda o caso do voo 93, que acabou por não atingir nenhum alvo que tinha sido indicado pelo grupo terrorista, devido também à ação de quem ia a bordo. Bruno Cardoso Reis, muito obrigado. Resta-me apenas agradecer a tua análise neste dia em que recordamos os ataques do dia 11 de setembro de 2001 e é desta forma que encerra o Gabinete de Guerra.