Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Arranca aqui mais uma edição do "Gabinete de Guerra", hoje com o historiador Bruno Cardoso Reis para analisar os dados mais recentes da guerra na Ucrânia, que começou há 463 dias. Junta-se então à Judite França e também hoje ao Miguel Videira.

Guerra dos drones. A expressão tem ganho força nas últimas semanas ao ritmo dos ataques com recurso a estes equipamentos militares dos dois lados da fronteira. Da última noite chegam relatos de ataques a Kiev com 18 drones de fabrico iraniano. O The Kyiv Independent revela que a cidade russa de Kursk também foi alvo de ataques com drones na última noite. Bruno Cardoso Reis, boa tarde. O uso reiterado de drones representa uma nova fase da guerra?

Boa tarde. Acho que representa, certamente, um intensificar da guerra aérea. Na verdade, não são exclusivamente drones, há alguns mísseis de cruzeiro que também estão a ser usados, em particular pela Rússia, mas a Rússia tem o problema de que tem uma capacidade limitada e tem reservas limitadas desses mísseis, sobretudo os mais sofisticados. E portanto, aqui o meio mais barato, mais acessível, mais fácil para os dois lados de intensificar esta guerra aérea é realmente através do recurso a drones, no caso dos russos usando, nomeadamente, drones iranianos. Do lado ucraniano, também aqui a novidade é que há sinais crescentes de que, sem se comprometer completamente, no fundo esta linguagem não confirma nem desmente ou dando a entender que não será diretamente o governo ucraniano, mas parece evidente que há aqui um envolvimento ucraniano nestes ataques com drones no interior do território russo e isso tem sido feito de forma crescente como retaliação por estes ataques, como tentativa também de mostrar à população russa que a guerra existe e que tem consequências, e também para tentar criar problemas à própria rede logística russa, ou seja, estes ataques, sobretudo nas zonas de fronteira, obviamente afetam depois a própria capacidade de comunicações, de abastecimento, por exemplo, de combustível. Houve um ataque importante a uma refinaria das tropas russas já no interior do território ucraniano.

Este intensificar dos ataques com drones acontece ao mesmo tempo que há um menor envolvimento por parte das forças terrestres ou não há esta relação causal?

Do lado russo, ela corresponde muito, e aliás começou basicamente a partir de outubro do ano passado, mas houve agora uma nova aceleração, às dificuldades que a Rússia tem realmente com tropas no terreno, portanto em conseguir grandes avanços no terreno. Do lado ucraniano, do meu ponto de vista, corresponde sobretudo a esta fase preparatória de uma ofensiva que terá necessariamente que ser mais terrestre, de envolver tropas no terreno, se a Ucrânia quiser atingir aqueles objetivos que tem declarado, ou seja, procurar recuperar todo ou grande parte do território que perdeu desde a invasão russa, pelo menos desde fevereiro do ano passado, eventualmente até indo para além disso, procurando recuperar até a própria Crimeia.

O representante especial chinês para os assuntos asiáticos veio nas últimas horas dizer que o risco da guerra escalar é ainda elevado. Pede à Rússia e à Ucrânia que tomem medidas concretas para evitar um incidente nuclear. Este ainda é um risco, Bruno?

É um risco e surgiram notícias preocupantes sobre a possibilidade de um incidente orquestrado na central de Zaporíjia, ou seja, este receio de que Zaporíjia seja uma das zonas prioritárias nas ofensivas ucranianas. Isso faria algum sentido, embora tenham aí a dificuldade de ter bastantes defesas preparadas russas, mas era uma zona ideal para cortar a continuidade da frente russa, dividir a frente russa em duas, e permitiria também, à partida, depois tentar recuperar o controle desta central nuclear, que é a maior da Europa e que é muito importante, obviamente, para o abastecimento energético da Ucrânia, e que tem sido também uma das frentes desta guerra, a questão das infraestruturas críticas da energia. E portanto, há o receio de que a Rússia não queira deixar isso acontecer e que possa estar aqui a preparar um incidente. Ora, isso seria realmente de uma enorme gravidade e, portanto, é muito importante que a China, que tem assumido aqui algum protagonismo positivo nesta questão do nuclear, deixando muito claro que não apoiaria, rejeitaria completamente a possibilidade de utilização de armas nucleares táticas, que obviamente só a Rússia é que tem. Ou também esta questão, a preocupação com a segurança das centrais nucleares. Esse aspecto da posição russa realmente parece-me bastante positivo e creio que será algo de saudar e espero que tenha algum efeito, em particular sobre a Rússia, uma vez que a Rússia está realmente aqui numa situação de alguma dependência relativamente à China no contexto desta guerra.

Bruno, nessa perspectiva, a voz da China é, de fato, escutada pela Rússia, tem peso, continua a ter peso, tendo em conta que é apontado como um parceiro estratégico de Moscou?

Eu penso que tem peso. Não ao ponto da China poder simplesmente ditar à Rússia o que quer, porque provavelmente se isso acontecesse, o conflito já teria parado, a Rússia já teria deixado claro que iria negociar. A China tem deixado muito claro que é isso que pretende, que é travar o conflito o mais depressa possível, avançar para negociações e tentar normalizar as coisas, nomeadamente em termos desta guerra económica, que tem um efeito muito negativo sobre a economia global e portanto cria problemas à estratégia chinesa de prioridade ao desenvolvimento, ao crescimento económico. Portanto, não consegue impor, mas tem aqui algum peso e eu acho que a posição da China e a posição também da Índia, muito claras de rejeição da possibilidade de utilização de armamento nuclear, foram importantes no sentido de condicionar muito mais aqui esta chantagem nuclear que a Rússia procurava fazer e de reduzir a probabilidade disso vir a acontecer, de haver esse risco realmente de uma escalada para esse nível. Agora, obviamente, o risco não é zero e como digo, a China tem aqui uma influência acrescida, mas não manda na Rússia.

O secretário de Estado norte-americano está na Finlândia, Antony Blinken diz que os Estados Unidos vão apoiar os esforços, seja do Brasil, seja da China ou de qualquer outro país que queira participar num caminho para uma paz justa e duradoura. É possível que estes três atores consigam sentar-se à mesma mesa para redigir uma proposta de paz?

Eu acho que é muito importante que os Estados Unidos tenham esse tipo de linguagem, como também a própria Ucrânia. A Ucrânia começou por dizer que não queria negociações, o que se percebe neste contexto, e depois rapidamente, e muito por influência dos Estados Unidos, pelo aquilo que nós percebemos, mudou e desenhou um plano de paz com uma série de pré-condições. Portanto, é possível agora ter esse tipo de linguagem, que me parece fundamental pra desmontar a propaganda russa. Não é que a Europa ou os Estados Unidos não queiram a paz, não é que a Ucrânia não queira a paz, agora a paz não pode ser uma paz a qualquer preço, não pode ser uma rendição, não pode ser uma recompensa à agressão, não pode ser uma espécie de reconhecimento do regresso do direito de conquista, tem que ser uma paz, como diz Blinken, justa e duradoura. Ou seja, passa por respeitar aquelas condições que a Ucrânia tem colocado, de retirada das tropas russas, de abandono dos territórios ocupados, e depois também de garantias de segurança para a Ucrânia, para não se correr o risco de que numa paz apressada, se acabe por permitir à Rússia sair daqui com alguns ganhos e inclusive depois ter tempo para se rearmar, reequipar, mobilizar novas tropas frescas e voltar a atacar a Ucrânia no momento que considere mais conveniente.

Bruno, falas nos esforços diplomáticos tendentes a um processo de paz. Realizou-se a Cimeira da Comunidade Política Europeia na Moldávia. Tu sugerias este tema com esta designação: "A Cimeira e a Guerra ali ao lado". É também desta forma que se conduz a Ucrânia e a Rússia para um processo de paz ou a realização desta cimeira na Moldávia pode ser interpretada como uma provocação?

Eu penso que neste momento, para muitos elementos da elite russa, tudo é uma provocação. A própria Rússia tem esta retórica, esta propaganda incrível de dizer que está a ser atacada pelo Ocidente, quando nós sabemos ao mesmo tempo que os países ocidentais criam grandes limitações à Ucrânia na utilização de armamento, por exemplo, para fazer ataques na própria Rússia. Uma das razões pela utilização de drones, que leva à autorização de drones, que temos aqui falado, é precisamente resultado desses condicionantes que o Ocidente colocou precisamente para tentar evitar uma escalada e porque não está todo interessado no colapso da Rússia ou no caos na Rússia. Mas aqui o que é fundamental, do meu ponto de vista, é desde logo a mensagem de apoio à Moldávia. Ou seja, estamos a falar de uma cimeira que se realiza a uns 20, 30 quilómetros da fronteira com a Ucrânia, mais ou menos a essa distância desta região separatista da Transnístria, que é uma espécie de mini Donbass no leste da Moldávia, uma zona também com uma população que se identifica como russa e que tem sido apoiada no seu separatismo por tropas russas. Portanto, há tropas russas a 20 ou 30 quilómetros desta cimeira. É o país mais pobre da Europa, tem sofrido de ações também de destabilização pelos serviços secretos russos, que têm sido depois conhecidos, e portanto é muito importante esse apoio à Moldávia. É obviamente um sinal também de apoio forte à Ucrânia e procura ser um fórum mais alargado que inclua uma série de países. Já falei da Moldávia, da Ucrânia, mas países dos Balcãs Ocidentais, países do Cáucaso, por exemplo. Houve também um encontro paralelo entre a Arménia e o Azerbaijão, que têm estado em conflito, mas mediado pela França, pela Alemanha e pela União Europeia. Portanto, há aqui a procura de uma comunidade mais ampla que procura passar esta mensagem de rejeição deste revisionismo militar agressivo da Rússia e, por outro lado, procura também criar aqui pontes, estabelecer diálogo, passar uma mensagem de alguma solidariedade, de algum apoio a países que ainda não estão na União Europeia, que ainda não estão na NATO e, portanto, se sentem muito mais vulneráveis no contexto desta crise da ordem europeia, desta crise da paz europeia e portanto muito mais vulneráveis, por exemplo, a potências agressivas como a própria Rússia.

O caso da Moldávia, palco desta cimeira da Comunidade Política Europeia. Agradeço-te, Bruno Cardoso Reis, historiador, que nos ajudou aqui a analisar alguns dos dados mais recentes sobre a guerra na Ucrânia. Já passaram 463 dias desde o início do conflito.