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Estão reunidos os membros do Gabinete de Guerra, o historiador Bruno Cardoso Reis, o coordenador do doutoramento em História e Defesa do ISCTE e Academia Militar e ainda também o Bruno Vieira Amaral e a Vanessa Cruz. Vanessa, hoje entre os pontos na ordem de trabalhos temos a visita, mais uma vez, do secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, à Ucrânia e também o armamento que a Coreia do Norte pode vender à Rússia.
Bruno, bem-vindo. A Coreia do Norte terá tanto armamento que funcione para vender à Rússia? Quando falamos do regime norte-coreano é sempre difícil ter certezas sobre o que lá se passa, sobre a realidade, mas se for verdade, não é sinal de que o plano da Rússia para a guerra na Ucrânia está a falhar?
Realmente, a Coreia do Norte é conhecida até como Estado ermita. É o Estado mais isolado do mundo, é uma ditadura totalitária, regida por uma monarquia comunista, portanto, é realmente muito difícil ter informação rigorosa. Mas apesar de tudo, em relação à questão do armamento, eles fazem muita questão de divulgar a informação que pelo menos parte dela pode ir sendo verificada. E portanto, a opinião da maior parte dos analistas é que realmente a Coreia do Norte tem capacidades significativas, sobretudo em termos de produção de munições, de artilharia, de obuses, de equipamento de artilharia, de lança-foguetes, de foguetes, de mísseis de relativo curto alcance, porque realmente é aí que grande parte dos recursos do Estado estão concentrados. Aliás, nos últimos dias, o líder norte-coreano até visitou uma série de fábricas de produção de munições e de equipamento militar para lançar este slogan de que há que reforçar a produção, portanto, mostrar aos seus amigos russos que eles têm capacidade de resposta e conseguem aumentar a produção para responder também às necessidades russas. Além disso, a Coreia do Norte tem uma outra vantagem, que é basicamente todos os seus sistemas de armamento serem de origem soviética e portanto são basicamente compatíveis, por exemplo, em termos de calibre, com os sistemas que a Rússia também utiliza. Desse ponto de vista, pode ser uma ajuda com algum significado. Enfim, não sabemos exatamente que reservas a Coreia do Norte tem. Imagino que eles não queiram propriamente entregar tudo à Rússia, precisam ter reservas significativas, até em linha com a sua cultura estratégica extremamente paranoica. Portanto, terão de fazer aqui um esforço de aumento de produção. Mas sabemos também que a vida humana ou qualidade de vida não é uma grande prioridade do regime, portanto, imagino que consigam fazer algum reforço dessa produção. Isto também mostra, por fim, que a Rússia claramente precisa de mais munições, que tudo aquilo que o regime vinha dizendo, que é que tinha reservas suficientes, que o reforço da capacidade de produção na indústria militar russa seria suficiente para responder a esta guerra mais prolongada, mais intensa do que aquilo que estava previsto, não é exatamente verdade e portanto aí também não há muitas alternativas. Há muito poucos países, mesmo entre aqueles que não cortaram relações com a Rússia, que estejam dispostos a fornecer armamento abertamente, porque isso provocaria uma rutura com o Ocidente. Entre os poucos que já não têm muito a perder, que já são um Estado pária que tem péssimas relações com o Ocidente, está precisamente a Coreia do Norte.
Bruno, hoje teve início a terceira visita do secretário de Estado norte-americano a Kiev e as primeiras palavras de Antony Blinken foram: "Queremos certificar-nos de que a Ucrânia tem o que precisa". Além de ser expectável o anúncio de um novo pacote de apoio, vês nestas palavras e na duração da viagem, de dois dias, uma posição de força ainda mais vincada contra a Rússia?
Penso que é a terceira ou a quarta visita de Blinken. É bastante importante que estas visitas continuem a verificar. Não há nenhum país mais importante para a Ucrânia em termos do seu apoio do que os Estados Unidos. Não é porque os países europeus não apoiem a Ucrânia, ao contrário do que dizem, por exemplo, o Trump e os seus seguidores nos Estados Unidos. O apoio em termos de montante financeiro é mais ou menos equivalente. A Europa até apoia ligeiramente mais do que os Estados Unidos, mas o apoio europeu é sobretudo humanitário, económico, é apoio aos refugiados. Também há algum apoio militar, obviamente, é logo a seguir aos Estados Unidos o apoio militar mais significativo, mas os Estados Unidos sozinhos ultrapassam todo o resto do apoio militar à Ucrânia e a razão para isso é que realmente os Estados Unidos têm, em termos de reservas de guerra, de quantidade e qualidade de equipamento, também da dimensão da sua indústria militar, estão muito longe, não só dos países europeus, mas de qualquer outro país. Os números aí são esmagadores. Os Estados Unidos sozinhos investem tanto em defesa quanto os 14 países seguintes, que são os maiores a investir em defesa no mundo. Portanto, é realmente impossível, desse ponto de vista, substituir os Estados Unidos. Sabemos que, infelizmente, este apoio não é completamente consensual nos Estados Unidos, pelo contrário, há republicanos que apoiam esta colaboração com a Ucrânia, esta ajuda militar à Ucrânia, mas também há republicanos influentes, e eu já referi um, o Donald Trump, que são bastante hostis a isso. Isso tem algum impacto também nas sondagens. Há sondagens contraditórias, há sondagens nos últimos meses que mostram 65% dos americanos a dizer que querem continuar o apoio, outras que mostram que afinal já vai nos 55%, os que dizem que o apoio já foi suficiente. Mas claramente o que essas sondagens também mostram é que é um apoio bastante volátil Isso é expectável em termos de política externa. Por regra, aquilo que dizem os especialistas em sondagens, em opinião pública, é que, ao contrário da política interna, na política externa as opiniões são bastante volúveis, são bastante moles, é o termo que é utilizado, e portanto, são muito susceptíveis de serem influenciadas também pelos líderes. Sob esse ponto de vista, haver uma presença visível de líderes americanos como Antony Blinken a defender o apoio à Ucrânia, é realmente muito importante. Espera-se que ele anuncie um novo pacote da volta de mil milhões. Seria fundamental se realmente essas palavras fossem para tomar literalmente à letra, ou seja, se realmente isto também significasse que os Estados Unidos estão a repensar algumas linhas vermelhas em termos do tipo de equipamento que fornecem à Ucrânia, que sempre me pareceram bastante artificiais. Na fase muito inicial da guerra ainda se podia perceber um pouco que os Estados Unidos tivessem alguma prudência para perceber melhor se realmente Putin tinha deixado de ser um ator racional e se havia aqui um risco de escalar e racional, mas acho que isso já é claro que não é exatamente assim, dentro de certos limites. Putin, de facto, não quer escalar a guerra, porque isso seria completamente contrário aos interesses do seu regime. Acho que realmente há algumas linhas vermelhas que provavelmente deveriam ser revistas, até porque é claro que a própria Rússia não está parada. É claro que em termos de alguns sistemas de armamento começa a haver dificuldades em continuar a abastecer a Ucrânia em quantidade, pelo menos, e portanto acho que essa questão de fundo ser o que a Ucrânia precisar, se é mesmo para levar a sério, poderia ser aqui uma viragem significativa.
Bruno, e o Kremlin reagiu a desvalorizar esta visita e ao mesmo tempo houve um míssil russo que atingiu um mercado numa cidade da região de Donetsk, a coincidir com esta viagem de Antony Blinken, um conselheiro de Zelensky aponta para 16 vítimas mortais. Terá sido uma coincidência este ataque coincidir com a visita do secretário de Estado norte-americano?
Eu acho que são muitas coincidências. Já falamos aqui inúmeras vezes disso. Não me recordo de uma visita de um líder internacional importante à Ucrânia, começando logo com a do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, que não tenha sido acompanhada desse tipo de ataques. E aqui, realmente o que há que destacar é: é verdade que numa guerra, sobretudo numa guerra com grande nível de intensidade, é muito difícil evitar mortes civis. Muitas vezes elas são referidas por este termo, que eu percebo que é terrível, de danos colaterais, mas no fundo o que isso significa é que, apesar de tudo, os beligerantes procuram e têm essa obrigação em termos da lei da guerra e o mais possível evitar essas mortes civis. Às vezes isso não é possível, mas pelo menos procura-se na escolha de alvos reduzir a probabilidade de atingir civis. Ora, o que nós vemos repetidamente nos ataques russos é que claramente não é assim. Eu não sei se aqui o objetivo era o mercado. Os russos gabam-se de ter equipamento militar extremamente eficaz, portanto, à partida, se atingiram o mercado, provavelmente o alvo era um mercado. Mas mesmo que não fosse, vamos imaginar que havia algum equipamento militar, algum alvo militar legítimo próximo desta zona, deste mercado. É evidente que não se fazia o ataque às 14h, quando o mercado está a decorrer, quando há imensos civis a circular por todo lado, em qualquer parte do mundo. Fazia-se um ataque, por exemplo, durante a noite, durante a madrugada, para minimizar a probabilidade de atingir civis. É evidente que a Rússia não fez isso, não fez isso neste caso e não fez isso em múltiplos outros casos. Durante muito tempo ouvíamos alguns comentadores a dizer que era preciso esperar e ter relatórios de entidades independentes, etc. Hoje em dia, o que não faltam são relatórios de entidades independentes das Nações Unidas, da Organização de Segurança e Cooperação na Europa, da Cruz Vermelha, de várias ONGs, a documentar exaustivamente todo o tipo de crimes de guerra pela Rússia e numa quantidade muitíssimo superior a alguns crimes de guerra que também foram documentados por parte da Ucrânia.
Bruno, passamos aqui para outro ponto na nossa agenda para hoje. Voltamos a falar do líder do grupo Wagner. O porta-voz dos serviços de informações ucranianos diz que é preciso esperar mais tempo para confirmar a morte de Yevgeny Prigozhin. Diz que tem 100% de certeza em relação ao número 2 do grupo, que morreu mesmo, mas não em relação a Prigozhin. Em que ponto é que estão as teorias da conspiração?
O que mostra é que os ucranianos são relativamente céticos em relação à informação vinda da Rússia, e eu percebo. Nós temos de nos recordar que eles foram invadidos depois da Rússia passar meses e meses a dizer que não ia haver invasão nenhuma, que aquela concentração de tropas não existia, ou que se existia era por causa de exercícios, ou que já estavam a retirar. Isto tudo na véspera da invasão. De facto, a credibilidade da Rússia, especialmente na Ucrânia, é bastante baixa. Eu percebo que haja alguma desconfiança a todo o tipo de informação que vem da Rússia. Agora, também temos este outro problema, que é que isso também corresponde a uma estratégia do Kremlin. O Kremlin tem uma estratégia de desinformação que passa por alimentar todo o tipo de hipóteses, mesmo as mais disparatadas, para depois no final vir dizer: "Bem, não podemos chegar a nenhuma conclusão". Eu acho que aqui os sinais todos apontam, inclusive a prática bem documentada pelo regime russo de assassinar indivíduos que eles consideram como opositores, como uma ameaça ao regime. Nenhum deles foi tão longe, ameaçou tão seriamente o regime de Putin como Prigozhin com aquela marcha desde Rostov no Don até Moscovo. Eu acho que os sinais todos apontam para uma decapitação deliberada do grupo Wagner, inclusive do seu próprio líder. Agora percebo que não se possa aqui ter certezas absolutas, inclusive por causa disso, porque não se pode confiar, de facto, na informação oficial que vem da Rússia. Apesar de tudo, eu diria, quanto mais tempo passa, mais improvável me parece que Prigozhin, de alguma forma, tivesse escapado ou que isto fosse algum tipo de encenação, porque eu não acredito muito, as pessoas até podem mudar um pouquinho a cara, até com operações plásticas, mas eu acho que é muito difícil mudar de personalidade e acho que todos percebemos que a personalidade Prigozhin era estruturalmente alérgica à discrição, a passar despercebido. Eu acho que imaginar que ele vai passar semanas, meses, anos em silêncio, sem dizer absolutamente nada Se ele tivesse feito isso há uns meses atrás, provavelmente nada disto tinha acontecido, parece-me pouco crível. Portanto, acho que quanto mais tempo passa sem o Prigozhin aparecer a falar, mais provável se torna que realmente ele tenha mesmo morrido na queda daquele avião.
Bruno, último ponto agora, o Tribunal da União Europeia confirmou hoje as sanções de Timchenko, o bilionário russo que é um dos homens mais próximos de Putin, e também de um outro bilionário, Dmitry Pompeyansky. O cerco está sempre a apertar-se para estes multimilionários e pessoas próximas de Vladimir Putin, mas com consequências que fazem valer a pena?
A questão é se estamos a falar de será que estes oligarcas vão forçar Putin a mudar de posição, não parece. Ou seja, o regime de Putin o que fez foi deixar muito claro que a oligarquia trabalhava para ele e não o contrário. Podiam ganhar muito dinheiro, podia haver uma grande tolerância em relação à corrupção sistemática, desde que obviamente os próprios líderes do regime também recebessem a sua parte, mas isso não significava que eles recebessem ordens dos oligarcas, como havia a percepção que acontecia no período do antecessor de Putin, de Yeltsin. Certamente, eles não gostarão disso, certamente terão mais acesso a Putin do que as pessoas normais, embora mesmo aí as notícias que temos é que Putin se isolou muito mais, sobretudo depois da pandemia, mas não parece que eles tenham capacidade de fazer grande pressão. Putin está determinado a deixar um legado e para ele é também claro que o legado corresponda a uma visão extremamente conservadora, nacionalista e imperialista da história russa. Os grandes líderes russos para Putin são os czares, o Pedro, o Grande, a Catarina, a Grande, e mesmo o Stalin, que expandiram muito o território russo. Portanto, o legado dele é o que quer que se meça em mais quilômetros quadrados para a Rússia. Não me parece que ele se deixe afetar por oligarcas. Agora, na medida em que isto tem um efeito indireto na economia russa, isso tem algum impacto. Por exemplo, sabemos que a economia russa, ao contrário também do que diz a propaganda, está a passar por dificuldades, a moeda está em queda livre. Vimos que há uma série de, em termos de rendimentos de impostos, houve uma queda muito acentuada também e, portanto, tudo isso, menos atividade econômica, menos investimento, mais incerteza, tudo isso reduz os recursos que o Estado russo tem para conduzir a guerra e nesse sentido tem algum impacto. Mas o problema das sanções é sempre que esse impacto é relativamente limitado, é cumulativo, portanto, exige a passagem do tempo e em muitos casos, e sobretudo em regimes autoritários, por muito elevado que seja o custo, seja para a economia, para a população em geral, não há condições para isso traduzir numa alteração de política, porque os líderes, a elite do regime está determinada a avançar numa determinada linha que considera corresponder aos seus interesses e ignora os custos mais amplos que isso possa ter.
Bruno, está feito o Gabinete de Guerra por hoje, aqui com o historiador Bruno Cardoso Reis. Amanhã voltamos naturalmente a abrir novos Gabinetes de Guerra nas manhãs 360 e também depois na tarde em direto. Rádio Observador, Vila Franca de Xira.