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Este é o Gabinete de Guerra das manhãs 360. Eu sou a Maria João Simões, a análise é do Miguel Baumgartner, especialista em relações internacionais. Olá, Miguel, bom dia, bem-vindo.
Olá, Maria João, muito bem-vinda também.
Obrigada. Trump disse que travou o maior ataque desde a Segunda Guerra Mundial para dar lugar ao diálogo, mas depois da recusa do Irão, o Pentágono garante que continua tudo a postos. Além disso, Trump voltou a dizer que esta é a última oportunidade de Teerão assinar um bom acordo antes de uma decapitação militar. Miguel, esta diplomacia de pressão ainda pode resultar? O Irão não percebeu já como é que o Trump funciona?
Eu acho que nós temos que voltar àquilo que vocês estavam a conversar com o Paulo há bocado, que é a questão do preço do petróleo e é nomeadamente a questão dos mercados. E é para os mercados que Donald Trump tem falado ultimamente. Donald Trump faz as ameaças e constrói a narrativa de que mais ou menos está em controle daquilo que é as ações no Médio Oriente, esperando, efetivamente, que a questão do Estreito de Ormuz e a questão também do Irão possa, de alguma forma, voltar à mesa das negociações e esperando que o Irão aceite voltar à mesa das negociações e depois, a pressão e a ideia de que vai fazer um ataque muito forte, inclusive a última informação era que esse ataque seria feito conjuntamente com Israel, acaba por não acontecer. Ele suspende o ataque dizendo que estamos próximos a uma negociação ou de que essas negociações estão a decorrer, quando nós sabemos que não estão a decorrer negociações absolutamente nenhumas, de que o Irão neste momento tem aproveitado todo este tempo e todo este compasso que os Estados Unidos vão tendo e que vão andando pra frente e pra trás, não sabendo muito bem mais o que fazer e não sabendo muito bem também como sair desta guerra. E depois temos a variável do preço do petróleo, que vai subindo e vai descendo. Depois Donald Trump, quando vê que o preço está muito alto, como foi a questão da semana passada, vem anunciar que suspendeu o ataque, porque espera agora que consigam, de alguma forma, chegar a bom termo naquilo que é a negociação. Não havendo negociação e não havendo, acima de tudo, e esta que é a questão. Repara, Maria João, há umas semanas atrás, a questão era o Estreito de Ormuz. Nós falamos uma das vezes, eu e tu, de que nós já não estávamos na Primeira Guerra, estávamos na Segunda Guerra. A Primeira Guerra era sobre o nuclear, os mísseis balísticos e os proxies, e esta Segunda Guerra é sobre a questão. Exatamente. Agora repara que ele neste final de semana, quando diz que suspende o ataque de domingo, volta a falar da questão do nuclear e diz: "Bom, para que eles não possam ter uma bomba atômica ou pelo menos para que eles não continuem a desenvolver o programa nuclear". Portanto, isto já está assim um pouco pelo o que vier. Se não for a questão da bomba nuclear, então é a questão, pelo menos, do programa. E é isso que demonstra que Donald Trump e os Estados Unidos estão numa situação muito complicada, que é: têm por parte dos países da região, nomeadamente a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e Israel a dizer que não se pode parar, que tem que se continuar a fazer um forcing para, de alguma forma, forçar o braço do regime e forçar este regime a voltar à mesa das negociações, mas desta vez, vindo à mesa das negociações com vontade de negociar. E depois, há outros países, nomeadamente o Egito, a Turquia e o Paquistão, que tentam efetivamente, de alguma forma, encontrar aquilo de denominador comum. Terminando, só dizendo isso, que é interessante. Omã e o Irão conseguem, de alguma forma, negociar ao longo deste tempo todo a possibilidade de como é o controle da passagem no Estreito de Ormuz, prevalecendo aquilo que é a posição do Irão sobre a passagem pelo canal marítimo norte, portanto, aquele que fica mais próximo à costa do Irão. E Donald Trump vem e anuncia essa negociação sobre a reabertura do Estreito de Ormuz, fazendo-se passar como o grande arquiteto dessa negociação, o que não é verdade. Os Estados Unidos estiveram completamente fora desta negociação. Da mesma forma, que a possibilidade de nós voltarmos à mesa das negociações nos próximos dias, e como tu muito bem disseste, que Donald Trump diz: "É desta vez que eu lhes vou dar a última oportunidade", não parece. O Irão, neste momento, está em controle da narrativa, daquilo que é efetivamente o compasso destas negociações, e os Estados Unidos começam a não ter como justificar militarmente o porquê de serem mais fortes, mas não conseguirem transformar isto numa vitória política. E depois, do outro lado, temos também Israel e Netanyahu, que está desesperado, à espera que os Estados Unidos efetivamente aceitem voltar novamente aos ataques, porque também tem eleições internas e precisa de alguma coisa que o faça de novo voltar a subir nas sondagens.
Mas Miguel, o certo é que com o foco total em Ormuz e nesta situação toda que se passa no Médio Oriente, a Rússia está a aproveitar para acelerar a produção de mísseis balísticos. O Ocidente consegue gerir estas duas frentes sem deixar a Ucrânia completamente desprotegida?
O famoso S-8000. A Europa, neste momento, tem um problema, e repare nisto, e os Estados Unidos têm um problema também. Se nós formos verificar o número de mísseis gastos pelos Estados Unidos nesta guerra do Irão, é tão brutal, é tão grande, sem uma justificação. E o que eu digo sem justificação, que é aquilo que eu dizia há pouco, que é: não se conseguiu transformar uma capacidade militar numa vitória política A Europa não tem a quantidade de mísseis Patriots, que são os chamados interceptores dos mísseis balísticos, suficiente para fornecer à Ucrânia. Nem nós aqui da Europa fazemos a produção dos mesmos. A Ucrânia está a desenvolver um míssil muito próximo, portanto um interceptor muito próximo daquilo que é o modelo do Patriot, mas estará aparentemente, segundo a informação que consta, disponível para começar a sair para testes em fevereiro ou março de 2027. E neste momento, o que a Rússia percebeu é que a capacidade de ter interceptores por parte da Ucrânia, nomeadamente naquilo que é a guerra em profundidade, faz com que a Rússia lance efetivamente um ataque brutal em termos de quantidade, mas também em termos daquilo que são os alvos. Nós estamos a assistir a ataques a alvos civis o tempo inteiro, mas do outro lado também estamos a ver a Ucrânia a atingir aquilo que são refinarias, aquilo que são, por exemplo, os armazéns da Wildberries, dizendo que efetivamente esta empresa, que chamemos de Amazon da Rússia, em grande parte também faz distribuição de material militar. Efetivamente, acaba por acontecer de que isto rompe um pouco a economia russa. Mas de alguma forma, mesmo naquilo que é chamada a linha da morte, que é aquela frente de batalha que estava de alguma forma congelada, tem havido algumas conquistas importantes por parte da Rússia. E isto é importante, porque algumas cidades, pequenas cidades, é certo, mas caíram, e naquele triângulo das chamadas cidades fortaleza, há uma concentração, ou havia, efetivamente, depois os números, infelizmente, com as mortes vão baixando. Mas havia ali uma concentração de qualquer coisa como 110 mil homens da Rússia para tentar forçar com que essas cidades fortaleza, que impedem, de alguma forma, um progresso muito mais forte e mais acelerado por parte do exército russo, pudessem cair. O que me parece é que a Europa está de mãos atadas, porque não tem essa capacidade militar. Agora, Volodymyr Zelensky pedia efetivamente que os países que pudessem fornecer os chamados Patriots e esses mísseis interceptores, que o pudessem fazer, países que não estivessem em risco ou que tivessem algum estoque, e isso está a ser organizado. A Alemanha, por exemplo, andou a fornecer Patriots quando os Estados Unidos já não forneciam. Mas o problema é que nós continuamos dependentes, Maria João, do chapéu de proteção dos Estados Unidos. Não só na questão nuclear, temos esta ideia de que a Europa está protegida por razão das armas nucleares norte-americanas, não só nesta ideia de que se acontecer alguma coisa, vêm aí os primos americanos, as tropas nos ajudar, mas nomeadamente estamos dependentes deste guarda-chuva também na produção militar para o uso da Europa. E, portanto, a Europa terá mesmo que decidir o quanto antes o que é que quer fazer da vida. Porque andamos aqui de reunião em reunião, de livro branco em livro branco, de decisão em decisão por parte da União Europeia, onde é que já lá vai aquela decisão que era o rearmar a Europa do ano passado, e depois a lentidão de decisão e a lentidão de começar a desenvolver, a construir e a equipar-se é morosa e obviamente que a Rússia vai aproveitando e neste momento a Rússia está a voltar a estar por cima desta guerra, o que até há umas semanas nós víamos que a Ucrânia estava a ter capacidade de infligir a Rússia de uma forma como não antes tinha feito.
Miguel, a terminar, gostava só de falar da Faixa de Gaza. Que ponto de situação podemos fazer depois de ministros israelitas mais extremistas, como por exemplo o das Finanças, terem pedido a Netanyahu para rejeitar o plano proposto pelo Conselho de Paz e a intervenção de uma força internacional?
Temos aqui duas coisas. Isso aí, nós já estávamos à espera, porque aquilo que é o pensamento da extrema-direita israelita é efetivamente esta ideia expansionista de Israel. E a ideia de que quer a Faixa de Gaza, quer também a Cisjordânia, porque nós vemos o que está acontecendo na Cisjordânia, são efetivamente território para juntar ao Estado de Israel. E portanto, esse ponto não se consegue sair. Relativamente ao acordo, é uma narrativa construída na tentativa de Donald Trump aparecer com uma vitória pífia ali, quando não consegue outra vitória. Então este Board of Peace demorou quase um ano para chegar às mesmas conclusões de que chegou atrás, que é fazer este desarmamento num tempo quase recorde, mas depois ficam perguntas, que é: a quem é que vai o Hamas entregar as armas?
Exatamente, essa é a grande questão.
Que força internacional é que vai vir aí? Porque se falou durante muito tempo que o Egito ia trazer uma força de segurança e até se falou da possibilidade da Indonésia, país também muçulmano, trazer então a força militar. Ninguém, permito-me esta expressão um pouco mais portuguesa, ninguém se chegou à frente. Toda gente ignorou e de alguma forma tentou se desviar desse intento. Não existe quem queira entrar para controlar as forças. E depois tem outra coisa que é: "Ah, vai ser criado", diz Donald Trump neste processo de paz, neste documento, que é um documento que, na minha opinião, não tem absolutamente pernas para andar, porque esquece dois pontos. Primeiro, esquece o ponto essencial, que é dizer: caminha-se neste acordo para a criação do Estado da Palestina. E enquanto não se começar a dizer isso, e obviamente que o presidente americano não quis dizer, porque sabe muito bem qual seria a posição de Israel, nós não vamos realmente conseguir construir nada. E depois é outra questão, que é este governo tecnocrático. Mas o governo tecnocrático vai fazer o quê, com que dinheiro e com qual objetivo? Portanto, parece-me só mais a construção de uma narrativa e é por isso que Netanyahu praticamente ignorou de uma forma enorme este acordo e obviamente que Ben-Gvir veio fazer aquele papel que sempre faz, que é dizer que Israel não vai aceitar nenhum acordo de paz.
Miguel Baumgartner, muito obrigada pela tua análise. Boa semana.
Muito obrigado. Obrigado por me convidar. Muito obrigado.