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E arranca agora o Gabinete Guerra das Manhãs 360, hoje com análise do especialista em relações internacionais Orlando Sá Mões. Muito bom dia, bem-vindo.
Muito bom dia.
Bom dia. Orlando, começamos pelas palavras do presidente francês, que lamentou os ataques mortais da Rússia, que lançou mísseis balísticos contra Kiev. Macron apela a uma ação forte se Moscovo continuar a recusar a paz. Que ação forte pode ser esta?
Parece-me que essencialmente ele está a repetir ou a citar Zelensky, que tem dito precisamente essa frase, e muitas vezes a propósito dos Estados Unidos. Como é que, diz Zelensky, um país tão forte, no sentido militar, mas também próspero, tem perante a situação uma reação tão fraca? É este aparente paradoxo dos Estados Unidos que creio que Macron está quase que a recitar. Até porque ele ao início também teve uma postura bastante apaziguadora e agora creio que se está a perceber, mais rapidamente que os Estados Unidos, que é preciso tomar opções um bocadinho mais contundentes. Ainda que a França, claro que é um dos países que encabeça agora a coligação dos que têm vontade de ajudar, dos predispostos, mas que ainda também não sabemos que opções, decisões têm feito assim tão graves e que correspondam para já a essas palavras. Esperemos que sim, mas o que é facto é que notamos na Alemanha a vontade do primeiro-ministro Merkel em ajudar que a União Europeia tenha uma posição mais maleável quanto às questões da posição do défice para um rearmamento. Sabemos que a própria Alemanha tem mantido reuniões de apoio logístico aos ucranianos e da forma de os ucranianos operarem a guerra. Notamos notícias dos bálticos com a questão de também terem medo e temerem a ligação através do Suwałki Gap. Portanto, da ligação que vai pela Lituânia até Kaliningrado. Não só com medo disso, estão também a tentar formar um conjunto de muros e de proteções ao longo das suas fronteiras. Agora, o que é facto é que estamos supostamente a falar de cessar-fogo e temos falado muito sobre cessar-fogo, mas eu tenho aqui um dado curioso. O número de drones dos 30 dias anteriores a começar-se a falar no cessar-fogo, que foi a 18 de fevereiro, é pouco mais de 3000. Nos 30 dias após, portanto estou a comparar 30 dias com 30 dias, desde que se fala de paz, tivemos 4776. Há um aumento de 50% nos ataques de drones. Estes ontem ainda mais graves, são mísseis balísticos em dois distritos de Kiev, o mayor anunciou, mas tal como aconteceu em Sumy, Kharkiv e naquela zona que corresponde à chamada casa de Zelensky, portanto, da zona onde ele nasceu. Em princípio, estes ataques foram com bombas de fragmentação. As tais que não têm tanta possibilidade de serem direcionados para alvos militares porque se espalham e que o mundo ocidental foi muito relutante em entregar à Ucrânia ou em deixar a Ucrânia usar. Estamos sempre naquela lógica de um passo atrás, em que não queríamos que os ucranianos utilizassem todas as capacidades, que os russos atacam até quando estão nestas negociações de cessar-fogo. Faz muito pouco sentido e portanto é o Macron a aperceber-se que temos que manter, ter uma posição de força e que não se pode reagir de outra forma, infelizmente, com a Federação Russa.
Entretanto, este fim de semana, milhares de pessoas participaram em protestos anti-Trump e anti-Musk, não só nos Estados Unidos como também na Europa. Orlando Sá Mões, isto terá algum impacto na forma como a administração Trump está a governar?
Impacto, infelizmente, se calhar não terá diretamente, mas que é um protesto muito importante, é.
Não se passaram muitos meses, não é?
Não, estamos ainda em muito pouco tempo de Trump a cumprir aquilo que prometeu durante a campanha, mas este protesto foi algo interessante, não só pela maneira como conseguiu juntar reclamações que até poderiam ser divergentes e muito alargadas. Alguns cartazes a dizer "Make America Think Again", portanto, o que é importante é voltarmos a pensar. E claro que se misturam aqui algumas das ideias que sempre foram mais democratas, digamos assim, relativamente a questões de clima, algum tipo de apoio social, mas achei interessante que muito do diálogo que encetaram foi baseado até na ideia de hands off. Portanto, de retirar as mãos, de ser um protesto pela negativa, porque normalmente, e perante os republicanos no governo, poderíamos dizer que a pretensão de quem faz agora protesto seria de alargar as possibilidades de o governo e as medidas do governo, ou seja, ser mais propositiva. E não, é uma manifestação inspiradora por ser precisamente de um retirar as mãos. Faz lembrar a fundação dos Estados Unidos e o não me pise, o "Don't Tread On Me". Foi pela negativa que os Estados Unidos sempre assumiram essa maneira de olhar para o governo, como interferindo menos perante um governo que está a interferir cada vez mais em tantas matérias, nomeadamente económicas Estas questões das tarifas são uma tentativa muito grande de tentar manobrar, controlar toda a economia mundial, centralizar a posição do próprio presidente dos Estados Unidos, que a partir de agora será o centro das atenções, porque terá os países a negociar com ele, a falar diretamente com ele. Portanto, foram um conjunto de manifestações interessantes por esta tentativa de mostrar ao governo, tal como no início da sua fundação, que deve ter opções mais limitadas e mais definidas na lei, ao contrário daquilo que está a acontecer. Eu digo aqui a lei como a Constituição, porque tanto do que tem acontecido choca contra a Constituição. Não só as tarifas, que são impostos e como tal deveriam ser mais por base do Congresso, muito embora ao longo do século XX isto tenha mudado naturalmente, e também aquelas ideias de um terceiro mandato. É este choque perante a fundação que acho que está em causa e, portanto, foi interessante de ver essas manifestações.
Sem dúvida. Ainda sobre Donald Trump, o presidente norte-americano vai receber hoje o primeiro-ministro israelita. Orlando, o que devemos esperar de mais um encontro entre Trump e Netanyahu? Parece-lhe que Trump vá pedir que pare com os ataques em Gaza?
Dificilmente. Pelo contrário, continua a ter a máxima contenção e escreveu a carta ao Irão, que agora também não quer negociar directamente. A situação vai ser de manter o apoio ao seu aliado. É o segundo encontro desde Janeiro e os temas serão muitos. Esperamos que os Estados Unidos pudessem fazer alguma pressão relativamente a esta falta de cuidado que continua a haver. Voltamos a ter uma ambulância atacada por Israel. Primeiro, fala num movimento suspeito, mas que estavam a cumprir todos os requisitos. As luzes estavam ligadas, as pessoas foram enterradas e é a partir daí que se consegue descobrir no vídeo aquilo que fez com que Israel tivesse que admitir o erro, porque esses trabalhadores que fazem ajuda humanitária estavam a cumprir todos os requisitos de visibilidade e de luzes. E temos que dizer, já estamos em 408 mortes deste gênero, o que não tem paralelo nem neste mesmo terreno, nem nesta mesma frente de guerra. Os números não são comparáveis, são multiplicados muitas vezes mesmo perante as investidas de 2009 e 2014, onde também houve este tipo de situações. Com isto também temos notado que Trump é diferente de Biden, porque mesmo Biden conseguia puxar um pouquinho mais pela contenção que é tão necessária neste ponto do globo. Aqui o que vemos é o contrário. É a formação de mais um corredor, que agora chama-se Morag. As divisões nos corredores vão acontecendo para segmentar, para mais facilmente controlar Gaza. Mas também esperamos que haja, de facto, alguma capacidade não só de contenção mútua, mas de introduzir outros temas. Creio que Netanyahu pode também estar preocupado com os negócios e com a articulação do comércio.
Do comércio, pois, claro.
Israel também retirou as tarifas que tinha perante os Estados Unidos, precisamente num movimento de esforço para ficar de fora da lista e não ficou. Israel está com 17%. E aqui dizer que estas tarifas têm sido tão difíceis de entender, de uma lógica que segue uma fórmula que não se coaduna com aquilo que se sabe sobre comércio internacional e sobre a necessidade que temos de comércio internacional num mundo interdependente e onde há o mínimo de especialização. E temos um esquecimento total daquilo que são os aliados. Não é só Israel com 17%, mas temos trocas importantes no Médio Oriente, em que vemos cobrar um país como o Irão 10%, que aparece na lista, ao contrário da Rússia ou da Coreia do Norte, mas o Irão aparece com 10% de tarifa imposta, enquanto que um país muito mais aliado, que compra aos Estados Unidos, que tem questões de proteção e defesa, como o Iraque, terá uma tarifa de 39%. Portanto, nada disto parece fazer muito sentido a nível político, para mais não dizer a nível económico, que é onde as tarifas se vão sentir e é onde ainda faz menos sentido do ponto de vista de prosperidade mundial. E por isso Netanyahu, além de continuar a pedir esta carta branca, muito provavelmente para estar nas suas várias frentes, multiplicar as frentes e evitar recomeçar os diálogos que são necessários para prolongar o cessar-fogo, por muito que ele queira prolongar um cessar-fogo, provavelmente, mas à luz do entendimento da primeira fase. O que me parece que Netanyahu possa querer e pedir a Trump é que force o Hamas a continuar a primeira fase, ou seja, uma troca de prisioneiros.
Prisioneiros por reféns.
Porque foi ainda assim a forma que encontrou e que se sentia confortável perante o Hamas. Seria apenas em libertações mútuas e isso correu relativamente bem, apesar de algumas trapalhadas, correu relativamente bem, foi a primeira fase. Ora, a continuação da primeira fase é algo que o Hamas não quer e portanto vamos estar provavelmente neste impasse mais uns dias.
Orlando Sá Moes, muito obrigada pela sua análise. Uma boa semana.
Boa semana, muito obrigado.
Um bom dia. Obrigada.
Obrigado.