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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que damos destaque a dois dos conflitos ativos no globo, um no Médio Oriente, outro na Ucrânia. Para tal convidámos Orlando Sá Moisés, especialista em Relações Internacionais. Orlando Sá Moisés, muito obrigado por ter aceitado este nosso convite. Vamos começar por falar no conflito no Médio Oriente, embora aqui com um olho nos Estados Unidos, até porque há uma delegação da Arábia Saudita que está de visita aos Estados Unidos e estiveram reunidos com Donald Trump. E é muito sobre esse encontro que vamos falar, até porque Donald Trump diz que os Estados Unidos estão reunidos com esta comitiva. Há muitas trocas e muitos negócios em cima da mesa, sendo um deles a venda de aviões de combate para a Arábia Saudita, os F-35. Um cenário que envolve a Arábia Saudita, mas aqui Donald Trump fez questão de também fazer uma menção a Israel. Diz que Telavive até vai ficar feliz com este negócio da venda de aviões de combate à Arábia Saudita. Orlando Sá Moisés, a minha pergunta é: que forma é que há de Israel ficar feliz com a venda destes aviões à Arábia Saudita?
Boa noite, muito obrigado pelo convite. Temos aqui uma visita do príncipe herdeiro a Washington, DC, que no fundo é a resposta ou continuação àquela primeira visita de Trump à Arábia Saudita, naquele périplo que ele fez, depois foi ao Qatar, depois foi aos Emirados, numa série de visitas nas quais, na altura, até criticámos não ter passado por Israel. E aqui mais uma vez, tivemos nas perguntas dos jornalistas a presença de perguntas nesse sentido. E então, como é que fica com Israel? Até houve quem perguntasse: "Mas os F-35 vão ser mesmo iguais aos de Israel?" É de facto uma boa pergunta e parece-nos que se calhar Israel possa estar até desconfortável, porque Trump diz que vão ser muito semelhantes. Claro que Israel queria que fossem de um calibre, ele utilizou esta palavra, abaixo, ou seja, que não tivessem o grau tecnológico, que no fundo é aquilo no qual Israel consegue estar numa posição um bocadinho acima, porque já se sabe que em termos de quantidade e em termos da possibilidade de mobilizar forças, quer a Arábia Saudita, quer o Irão, podem ter uma certa vantagem sobre Israel. Israel está mais bem apetrechado do ponto de vista tecnológico. Ora, uma Arábia Saudita que agora consegue estes novos acordos pode ficar mais equiparável e é natural que Israel não esteja assim tão feliz. Mas Trump vê isto desta maneira mais agregada, olhando para a estabilidade da região e parece que a Arábia Saudita pode lhe dar um pouco devido, se calhar, à sua dimensão na região, influência. Trump olha para a possibilidade de a Arábia Saudita lhe dar a estabilidade que ele precisa, numa oportunidade para delegar algumas das suas funções a outros interlocutores. Ele nesta viagem, quer a Emirados, quer ao Qatar, já parecia querer espraiar o âmbito destes acordos de defesa. Não são nunca bem um tratado muito fundamentado, isso teria que passar pelo Congresso, mas como disse e bem na sua pergunta, estamos a falar de um conjunto enorme de áreas, até de algumas terras raras, mas também dos chips que vão ser dos data centers, porque há uma grande preocupação com a inteligência artificial e a Arábia Saudita quer avançar nesse ramo. Mas também poderá haver acordos no âmbito nuclear para uso civil, muita coordenação de informações e acima de tudo os aviões. De facto, uma Arábia Saudita apetrechada com F-35 é algo que nos deveria deixar também em alerta. Estamos num mundo mais perigoso e em que este rearmamento pode ter algumas consequências. Estamos a falar de um regime altamente fechado, que é criticado do ponto de vista dos direitos internacionais e dos direitos humanos, e bem. Tem agora recentemente um pico nas execuções de muitos dos seus presos e por questões que se calhar nos nossos países ocidentais não seriam alvo de penas tão duras e tão severas. Eles dizem que estão sempre a reformar o sistema judicial e a modernizar, mas não se vê no concreto nada de muito novo. O regime continua a ser altamente repressivo e com punições gigantescas e também centralizado. Não há propriamente uma assembleia a quem este príncipe herdeiro responda. Quando muito, ao rei, ao seu pai. Esta visita não foi, portanto, uma visita de Estado, porque não é o chefe de Estado, mas quase. Trump acabou por lhe dar toda a pompa e circunstância. Enfim, temos que estar atentos, porque de facto o equilíbrio tem sido mais dotando Israel de alguns armamentos que simbolizavam esse avanço, mas neste momento os novos equilíbrios poderão ser de outra ordem. Esperemos que Trump saiba o que está a fazer.
Donald Trump que disse ainda que os Estados Unidos querem um acordo com o Irão e confirma contactos aqui em plano de fundo, a indústria nuclear, seria um fator de apaziguação no Médio Oriente, Orlando Sá Moisés?
Ele tenta ir buscar um pouco estes apoios a todo lado. Fala no deal e diz que está aberto a isso. E depois fala genericamente em abertura. "Nós queremos no fundo fazer acordos com todos." Ora, até com o Irão há esses contactos. Nós pensamos, sempre imaginamos as relações cortadas há muito tempo. Ele até voltou a dizer que a Guerra dos Doze Dias foi apenas uma pequena escaramuça. O príncipe herdeiro até se riu nessa altura, porque não foi apenas uma escaramuça. Estamos a falar de facto de duas visões que seriam opostas E em que os Estados Unidos desde, no fundo, até quase antes do final da Segunda Guerra Mundial, vai fazendo acordos com a Arábia Saudita precisamente para contrabalançar a influência do Irão, por muito que depois, na década de 50 e 60, tenham tido também boa relação com os dois, mas estávamos num mundo muito diferente e em que o Irão ainda não tinha alimentado um conjunto de grupos que tentam fazer um regime à sua imagem e semelhança em toda a volta de Israel, que são os chamados proxies e que são considerados grupos terroristas. Ora, por isso mesmo, os Estados Unidos, eu percebo que queiram também normalizar, exigiu também mais uma vez a normalização da relação com Israel ao príncipe saudita, mas o que é fato é que ele, mais uma vez, parece querer comprar tempo, querer dizer: "Não, tem que haver um caminho muito seguro para a solução dos dois Estados para podermos entrar, mas queremos entrar". Estão estes países a tentar querer renover a sua imagem e dar também uma imagem que possa ser passível desses acordos. Trump vê também negócios em tudo, como sabemos, e portanto, mais uma oportunidade de ter influência através desta forma de estar muito negocial. Enfim, se for para chegar à paz, o que é fato é que foi precisamente os Estados Unidos terem um conjunto de armamento aéreo muito superior ao do Irão, que possibilitou que essa guerra dos 12 dias não continuasse no tempo e fosse circunstancial, circunscrita às centrais que estavam possivelmente a produzir componentes para possíveis armas nucleares do Irão. E foi por isso, digamos assim, a guerra foi tão circunscrita. Se houvesse uma resposta maior, não sabemos. Será que Trump também aposta aqui numa certa suavização do próprio regime e alteração? Não sei. Ele às vezes diz essas coisas, quer acordos com todos. Desta feita, quem ficou para trás foi claramente Israel, que vê Estados com os quais tem relações muito difíceis, ou melhor, que não tem relações, a se apetrecharem e a tornarem o seu armamento mais sofisticado e avançado.
Orlando Samões, temos ainda tempo para falar da guerra na Ucrânia. Foi declarado estado de emergência em Donetsk após ataques de drones ucranianos a duas centrais energéticas com danos. Este ataque a infraestruturas de ambos os lados continua a ser um dos principais cenários nesta guerra na Ucrânia. É expectável que continue também, sobretudo agora com o aproximar do inverno?
Sempre falámos que o inverno pode tornar a guerra um pouquinho mais lenta e sendo esta guerra de atrição, em que se vai conquistando um quilómetro ou recuperando um quilómetro, aqui a Ucrânia atacou as centrais térmicas de Donetsk como se estivesse a atacar território que de fato está na mão da Rússia, embora que não seja de direito. E portanto, a Rússia também acaba por ter que recuar. A questão das centrais e das centrais térmicas fazem parte das redes de abastecimento de energia que, como temos visto, é a ênfase atual desta guerra. A Rússia também tenta destruir a capacidade energética e depois de produção de energia da Ucrânia. A Ucrânia responde da mesma maneira. Também deu público como tem utilizado os ATACMS, teve aquele ataque também nas margens do Mar Negro. Conseguiu, através de sistemas antidrone, também limitar a ação da Rússia, mas a Rússia vai respondendo e já sabemos que isto é sempre pergunta e resposta e a guerra vai avançando neste tic for tac. O esforço de Zelensky, podemos dizer que tem sido até parecido com este esforço dos sauditas hoje, que é comprar aviões. Desta feita não foi aos Estados Unidos, foi à França. E ele tem ido à França comprar 100 Rafale, que foi o número que nos foi apresentado, que é um número gigantesco. Vai demorar alguns anos, mas que já são aparelhos praticamente de quinta geração também, comparáveis aos F-35. Isto antes de ter passado pela Alemanha, também à procura de novas capacidades, da Suécia, a apostar hoje com o rei de Espanha e também a tentar procurar melhorias nos seus sistemas e mísseis de defesa aérea, estes através do tal sistema Pearl, ou seja, que vão ser comprados aos Estados Unidos. Portanto, nesta nova logística para comprar aos Estados Unidos, mas com apoios dos estados que ainda estão, e que esperemos que continuem a estar, do lado da Ucrânia, ao mesmo tempo que anuncia uma nova negociação de empréstimos com o FMI e que temos uma Finlândia apostadíssima em se mostrar cada vez mais aliada na Ucrânia. Enfim, também fazem fronteira com a Rússia e portanto pedem a utilização dos bens financeiros que estão congelados na Bélgica e que são russos, e que sabemos que a Bélgica está com algumas reticências naturais, porque não pode ficar com toda a responsabilidade caso isso venha dar origem a processos judiciais.
E Orlando Samões, estamos a chegar ao final do nosso tempo, temos ainda dois minutos e a questão dos ativos russos congelados é a minha última pergunta, até porque o governo espanhol é a favor do uso desses ativos russos para apoiar a Ucrânia, uma garantia de Pedro Sánchez, que esteve reunido com Zelensky, já fez referência a esse mesmo encontro. Que impacto é que teriam esses ativos russos em toda esta questão? Temos dois minutos até o final do programa.
Eu creio que mais do que retirar esses ativos russos, que pertencem a pessoas e que podem ter, naturalmente, algum direito de propriedade. A Bélgica é que ficou com as instituições que os detêm, mas a Bélgica é uma espécie de fiel depositária. Poderia-se tentar, e creio que a ideia da União Europeia é essa, lançar uma espécie de empréstimo que tivesse como colateral esses ativos para não serem usados diretamente e, portanto, o retorno desses ativos poder ser utilizado em favor não só da reconstrução da Ucrânia, mas também na possibilidade do financiamento da Ucrânia. Ora, isto já estaríamos a prever a possibilidade de podermos punir a Rússia no futuro, mas de esquecer que estes ativos não são bem da Federação Russa, são de algumas pessoas, entidades e empresas, e por isso teremos que estar todos muito mais articulados entre os 27, entre aqueles que quiserem fazer parte, como um conjunto de países que poderá responder caso haja, que poderá haver processos no futuro pela utilização indevida de valores, de dinheiro, que pertencentes indiretamente à Federação Russa estão em nome de outras pessoas. Ora, o mundo ocidental pugna e luta por este tipo de direitos financeiros, pela não arbitrariedade da utilização dos fundos uns dos outros. E portanto, é natural que a Bélgica tenha esta relutância e que tente aliançar no mesmo movimento os outros Estados como corresponsáveis para proceder a este ou levantamento ou de termos apenas uma situação em que estes ativos sirvam de colateral para um futuro empréstimo de ajuda à Ucrânia. A ideia é boa, mas é preciso ter cuidado com ela.
Muito obrigado, Orlando Samões. O Gabinete de Guerra fica por aqui. Está de regresso amanhã à antena da Rádio Observador.