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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Vamos nos próximos minutos falar dos conflitos em curso, principalmente na Ucrânia e no Médio Oriente. Hoje conosco está o major general Isidro Morais Pereira. Muito boa tarde, obrigado por estar conosco.

Boa tarde.

Antes de falarmos destes dois conflitos, gostaria de analisar consigo o que disse hoje o primeiro-ministro português, que defendeu a produção de armamento em Portugal, no âmbito da estratégia da União Europeia. Diz que Portugal está disponível para ser parte ativa do aumento das indústrias de defesa na Europa, produzir armas e munições. Como é que vê esta definição de estratégia apresentada hoje por Luís Montenegro?

Acho que é uma excelente decisão, porque Portugal, face à existência do conflito na Europa, a uma distância considerável de Portugal, tem ótimas condições para ser a zona do interior. Além do mais, tem portos de águas profundas como Sines e outros portos também, a partir dos quais a produção portuguesa pode ser exportada para os locais de conflito e para outros países, para constituir reservas de guerra. Portanto, eu julgo que é uma excelente ideia. Aliás, a reindustrialização do país é algo que já vem sendo falado, não apenas por este Executivo, mas por outros que o antecederam. Nós temos que ter a noção de que hoje em dia é um setor que, além de estratégico, além de se enquadrar na necessidade que os países europeus têm de refazer a sua componente de defesa, melhorar a sua capacidade de produzir armas, manter reservas de guerra, para não terem que depender das vontades do parceiro norte-americano. Porque estas situações de demasiada dependência externa, constituem-se em termos geoestratégicos e geopolíticos, uma vulnerabilidade. Portanto, se Portugal pretende industrializar, esta é uma ótima oportunidade, até porque vai haver incentivos da União Europeia para o desenvolvimento dessa área do complexo militar industrial. Para além disso, outro aspecto muito importante, e eu gostava de deixar aqui, são dados. É sempre importante recorrer a dados. Uma munição de artilharia de 155 mm, calibre NATO, antes de fevereiro de 2022, ou seja, antes da invasão em grande escala da Ucrânia, tinha um custo aproximado de 450 dólares cada munição. Neste momento, ronda os 5 mil. E os custos de produção são basicamente os mesmos. O que significa que, para além do mais, apostar neste setor, hoje em dia, é algo altamente lucrativo. É algo em que vale a pena apostar porque acaba por se reverter em grandes dividendos pra economia nacional. Portanto, se há esse firme propósito, eu acho que é de louvar. E, depois, por outro lado, torna Portugal, de alguma forma, mais independente em termos estratégicos. Acho que é uma excelente ideia.

Olhar um pouco também para o que aconteceu em Amsterdão. Isso acaba por estar tudo ligado. Adeptos israelitas num jogo de futebol contra uma equipe dos Países Baixos, envolveram-se em confrontos com manifestantes pró-Palestina. Tudo terá começado com um ataque a um táxi por parte destes adeptos israelitas e queimaram também bandeiras pró-Palestina. E depois houve resposta de uma manifestação pró-Palestina, que também já estava convocada para contestar a presença desses adeptos israelitas em território dos Países Baixos. Vários feridos, pessoas hospitalizadas, muitas reações. Ursula von der Leyen a condenar, a dizer que não há espaço para o antissemitismo. O mesmo a dizer o rei dos Países Baixos, até com uma frase muito forte, dizer que os Países Baixos falharam com os israelitas, judeus, neste caso, durante a Segunda Guerra Mundial e que agora voltaram a falhar. Como é que vê toda esta situação que, claro, acontece também devido ao que está acontecendo no conflito entre Israel e Gaza?

Nós sabemos que as manifestações anti-Israel têm eclodido um pouco pelos Estados Unidos e pela Europa. Portanto, havia um ambiente de segurança, havia uma ameaça que parece que os Países Baixos não levaram devidamente em linha de conta. Quer dizer, quando os ânimos estão tão exaltados, isto merecia, por parte dos Países Baixos, a implantação de um sistema de segurança que naturalmente zelasse pela integridade física de todos aqueles que se envolveram neste tipo de batalhas campais.

Mas estamos aqui perante um conflito diplomático? Tivemos até notícias de que Israel queria enviar militares para os Países Baixos para garantir a segurança dos adeptos.

Israel, além do mais, o primeiro-ministro israelita enviou ordens para que aviões da companhia israelita se deslocassem aos Países Baixos para repatriar os adeptos do Maccabi Tel Aviv.

Maccabi Tel Aviv.

Maccabi Tel Aviv. E depois há notícias que nos devem alarmar. Ainda há cidadãos israelitas que não se sabe onde param, pelo menos três, nas últimas notícias que eu ouvi.

Terá sido desmentido pelas autoridades que, quanto à questão de desaparecidos, diz que não tem informação, mas que continua a investigar. Isto foi o que disse por último.

Vamos com calma. Este tipo de manifestações são absolutamente lamentáveis. Interessa, naturalmente, investigar quem começou, quem espoletou toda esta situação. Mas essas manifestações de antissemitismo têm que acabar, porque bem bastou a Segunda Guerra Mundial. A Holanda foi parceira nesta perseguição aos judeus. E eu, sinceramente, pensei que esses tempos tinham passado e que não se voltava a Fazer uma perseguição a um determinado povo. Neste caso são os judeus, mas a perseguição a um povo, a uma etnia, por via da religião ou por via das suas convicções, é algo que não é admissível no século XXI. E os países têm que tomar conta destas situações e têm que as punir severamente. Tem que se tomar medidas severas para que situações dessas não aconteçam, porque o que aconteceu na Holanda pode acontecer num país qualquer.

França vai ter na próxima semana um jogo contra Israel em território francês. Em Paris, já anunciou um grande reforço do contingente policial.

Em Paris tem que haver um cuidado muito especial, porque nós sabemos que França é um país que tem grandes minorias muçulmanas, e que podem ser ativadas em todo este processo. Esperemos que não e esperemos que a França seja capaz de colocar um dispositivo policial e militar, se for o caso, porque em França temos aqueles planos do Vigipirate, que têm a ver com o combate ao terrorismo, em que está previsto, inclusivamente, o recurso a militares zelando pela paz e pela segurança, ombro a ombro com as forças de segurança e com a gendarmerie, com a polícia francesa. Eu julgo que a França só tem que olhar para o que aconteceu e tudo fazer para que tal situação não se repita, porque isto é algo que é absolutamente incrível no século XXI.

Major-General Isilda Morais Pereira, ainda temos dois, três minutos para falarmos um pouco sobre o conflito na Ucrânia, até porque os Estados Unidos da América garantiram que vão apoiar uma negociação de paz entre Zelensky e Putin, já a apontar para um cenário desses. Esta é uma declaração de Matthew Miller, porta-voz do Departamento de Estado norte-americano. Que leitura faz desta declaração?

Eu desejo boa sorte. Eu não estaria otimista que se consiga. Das duas, uma: ou os Estados Unidos procuram aproximar as posições da Ucrânia e da Federação Russa, tendo sempre como pano de fundo o direito internacional e a Carta das Nações Unidas e o direito à soberania e à inviolabilidade das fronteiras. E isso é aceitável. Caso contrário, se o plano é congelar a linha da frente, declarar uma zona desmilitarizada e depois esperar que alguém zele pela segurança da mesma, parece-me que isso é um bocado utopia, pelo menos para já. Não me parece que o próprio presidente Zelensky, que tem dito de forma absolutamente clara que não está disposto a negociar a paz a sentar-se à mesa se a contrapartida for ceder territórios. E lá está, o direito internacional é para rasgar, para a gente fazer de conta que não existe e estamos a premiar o infrator. Matthew Miller ainda pertence a esta administração. Não sei se estão a querer tirar dividendos daquilo que é inevitável a partir do dia 20 de janeiro, porque todos nós sabemos que Trump tinha prometido que acabava com o conflito no dia seguinte à sua eleição. Isso não aconteceu. Agora, ele e a sua equipa vêm dizer que esse problema estará resolvido até à tomada de posse. Faltam dois meses. Só acredita neste tipo de declarações quem quiser, porque não é assim tão fácil pôr fim a um conflito por forma a que se encontre uma solução que seja, não direi do agrado de ambas as partes, mas com a qual ambas as partes possam viver. Parece-me que, neste momento, eu diria que a guerra vai continuar. Não me parece que possa haver paz. Daqui por dois meses, a Europa e as potências europeias têm que se preparar para decidir coisas importantes, quer dizer, se vão ou não continuar a apoiar o esforço da Ucrânia ou se vão deixar cair a Ucrânia mais uma vez. Isso é algo que é muito importante decidir. Os Estados Unidos, para já, não disseram que vão deixar de fornecer armamento. Aquilo que me parece é que Donald Trump e a sua equipa não estarão na disposição de enviar militares norte-americanos para se envolver neste conflito, isso tem sido dito pela equipa de Trump, e não estarão na disposição de pagar, sequer. Portanto, a Europa vai ter que pensar muito bem o que vai fazer com a Ucrânia, porque segundo diz Trump, ele tem-no dito e já o disse várias vezes durante a campanha eleitoral, que o problema deste conflito, porque é um conflito na Europa, é um problema sobretudo dos europeus. Ele até se refere claramente aos ingleses, aos franceses, aos alemães e aos polacos. É sobretudo um problema dos europeus. Portanto, é um problema com que os europeus vão ter que lidar. E têm dois meses para poder encontrar uma solução, porque isto de rasgar o direito internacional, fazer de conta que ele não existe e premiar o infrator vai dar mau resultado no futuro. Não tenho a mínima dúvida.

Major-General Isilda Morais Pereira, muito obrigado por ter estado conosco aqui na Rádio Observador nesta edição de Gabinete de Guerra.

Muito obrigado, Leo.