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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que destacamos as principais questões geopolíticas mundiais. Hoje contamos com a análise de Maria Isabel Tavares, é professora de Direito Internacional da Universidade Católica do Porto. Maria Isabel Tavares, seja muito bem-vinda à Rádio Observador. Obrigado por ter aceitado este nosso convite. Vamos começar por falar de Donald Trump, que fala em abordar a Ilha de Kharg da mesma forma que abordou a questão da Venezuela. Maria Isabel Tavares, a minha primeira pergunta é se lhe parece possível uma abordagem semelhante e que implicações estão aqui em cima da mesa para o presidente norte-americano e também para o Irão.
Obrigada, José Rafael, pela sua pergunta. Realmente, tudo isto muda muito rápido. Essa foi a última novidade que tivemos, o presidente Donald Trump falar especificamente da Ilha de Kharg na Truth Social e ficarmos na dúvida se quando fala em tomar a Ilha de Kharg e faz esse paralelo com a Venezuela, há um paralelo que nos parece evidente. Ou seja, percebermos que a Ilha de Kharg, antes de 28 de fevereiro de 2026, era responsável por 90% das exportações de tudo o que tem a ver com o petróleo iraniano e, portanto, nesse sentido, percebemos esse paralelo com a Venezuela enquanto um exportador, produtor de petróleo. O que é que é bastante diferente? É que a Ilha de Kharg, se nós olharmos para o mapa, é uma ilha, é um rochedo, é bastante circunscrita, mas a sua localização pressupõe que os Estados Unidos, para uma operação militar que queira de fato manter o controle dessa ilha, significa, creio eu, a necessidade de ter tropas no terreno e o próprio acesso, seja por ar, seja por mar, como é que essas tropas chegarão à Ilha de Kharg. Por outro lado, o presidente Trump também acrescenta que, e desculpe-me a expressão, mas é exatamente o que diz, que não sabe se os americanos têm estômago para esta operação. E, portanto, parece que deixa no ar a possibilidade de, no fundo, o custo que isso significaria poder levá-lo a decidir não avançar com essa mesma operação.
É para já uma incógnita o que irá fazer então os Estados Unidos em relação à Ilha de Kharg. O que é certo é que o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão diz que o cessar-fogo está sem efeito. Maria Isabel Tavares, o que é que podemos esperar agora nos próximos dias? Se Donald Trump já anunciou um aumento da ofensiva frente ao Irão, que tipo de cenário geopolítico é que está aqui em cima da mesa com esta escalada de violência?
Sim, eu creio que refere bem essa ideia da escalada, porque é interessante que a Rússia, a China, a Índia, através de representantes, nomeadamente dos Ministérios dos Negócios Estrangeiros, venham pedir um desescalar do conflito. Por outro lado, sabemos que os negociadores do Qatar abandonaram agora Teerão, mas que terão trazido algumas propostas. E, por outro lado, a Arábia Saudita, nomeadamente, insiste na importância de se manterem canais diplomáticos abertos, nomeadamente através do Qatar e do Paquistão, que também continua empenhado. E, portanto, nós, de alguma forma vamos ter, creio eu, esta é minha análise, uma manutenção desta situação em paralelo. Por um lado, muitos atores insistindo na necessidade de continuar e de se prosseguirem em negociações, por outro lado, esta ideia de termos na mesma troca de tiros, por assim dizer, em que repare, os Estados Unidos atacando algumas infraestruturas, e isso sim, quer ontem, quer hoje, esperamos que o façam de uma forma, o presidente Trump fala de infraestruturas críticas. O que é que serão isso de infraestruturas críticas? Por outro lado, o Irão respondendo também e respondendo também atacando alguns Estados da região, nomeadamente aqueles onde existem as bases militares americanas. Portanto, a Jordânia, o Kuwait, o Bahrain, foram esses três que foram atacados esta noite. Há depois relatos de algumas intercepções ou não intercepções. O próprio Irão lança uma informação, não confirmada ainda, de que terá conseguido interceptar ou impedir um ataque de F-16 no seu próprio território, F-16 dos Estados Unidos. Portanto, nós vamos continuar com este jogo de sombras, creio eu. É certo que o presidente Trump, de um ponto de vista da possibilidade e da capacidade militar, tem capacidade para escalar definitivamente. A questão é se ele tem interesse e apoio político para o fazer. E mesmo sendo certo que não parece haver um plano de saída do Irão, por assim dizer, talvez esta manutenção da situação seja aquela que é menos má para o presidente Donald Trump nesta fase.
Ainda assim, o Estreito de Ormuz, que é um dos pontos centrais em toda esta batalha no Médio Oriente, decretou o fecho completo do canal após o recomeço do conflito armado, os ataques norte-americanos. Vamos regressar ao passado. Este continua a ser o espinho das negociações e a arma mais forte do Irão?
Repare, a minha questão aqui que sempre interessante a sua pergunta, José Rafael, se vamos regressar ao passado, e eu pergunto: a que passado? É que importa sempre recordar que no dia 27 de fevereiro de 2026, ou seja, antes dos Estados Unidos e de Israel lançarem a agressão contra o Irão, o Estreito de Ormuz estava aberto à navegação. E, portanto, é importante percebermos a que passado é que nos estamos a referir. Não é esse, com certezaO que o Irão propôs foi criar uma estrutura que alegadamente permitiria a navegação de determinados navios, desde que de uma forma articulada e negociada com as autoridades, nomeadamente a Guarda Revolucionária. E foi isso que o Irão disse que agora vai pôr em suspenso, por assim dizer. E eu diria que considerando também uma maior instabilidade de quais é que podem ser as reações dos Estados Unidos, se calhar isso também justifica, de alguma forma, este recuo do Irão, de dizer, e pediu especificamente a esses navios, que tudo aquilo que tivessem acordado tem que estar suspenso. Portanto, se formos ver os mapas que monitorizam o tráfego naquela região, percebemos que há ali uma paragem desses mesmos navios. Claro que os Estados Unidos dizem, e isso sim parece-me contraditório, que o Estreito de Ormuz não está fechado, que são os Estados Unidos que estão a bloquear o Estreito de Ormuz. Por que isto me parece contraditório? Porque na semana passada tivemos notícia de que uma das condições que alegadamente os Estados Unidos terão colocado na mesa das negociações para esta coisa que é o Memorando de Entendimento, que não sabemos muito bem o que é, sabemos que não é um acordo de paz, era precisamente a obrigação do Irão desminar o próprio Estreito de Ormuz. E por isso é que eu digo que é contraditório, porque ou está minado e então, na verdade, está fechado nesse sentido, porque há um risco de que sem o Irão guiar os navios, o estreito está fechado. Por outro lado, isso também revela que os Estados Unidos não têm o poder para desminar ou não sabem onde estão as minas. É muito contraditório, é bastante confusa esta questão, parece-me, neste momento. Eu diria que esta suspensão, este fecho completo que as autoridades iranianas anunciaram, deve-se precisamente a esta situação de escalada. Vamos ver. Eu sinceramente creio que se as coisas acalmarem, depois voltaremos, sendo que exceto passam aqueles que o Irão permite e depois os Estados Unidos permitem. Permitem ou não conseguem impedir.
E que tipo de calma é que estamos a falar?
Repare que usa a palavra calma ou acalmia, talvez, em relação a isto que estamos a assistir. Porque a tensão continua lá e, na verdade, as próprias presenças físicas, por exemplo, em relação à primeira pergunta que me colocou sobre cargo, nós sabemos que o Batalhão 82, que seria o mais vocacionado para essa missão, está na região. Portanto, nesse sentido nós percebemos a colocação de forças militares, toda a tensão na região, isso significa que a tensão se mantém, a existência desta troca de fogo, por assim dizer, se me posso exprimir assim, de uma forma mais recíproca, "tit for tat" e de uma forma constante, isso de facto aumenta a conflitualidade e aumenta uma instabilidade. Não é que a situação fosse estável, mas aumenta a instabilidade, porque de repente, repare, a propósito do próprio abate e da queda do helicóptero Apache, as autoridades iranianas negam veementemente ter sido elas a derrubar o helicóptero. E no entanto, nós sabemos que essa é a narrativa norte-americana e, portanto, nesse sentido os Estados Unidos não podem não reagir. Estas situações de tensão têm precisamente este risco acrescido, que é de repente um mal-entendido, uma situação, uma interpretação excessiva, que pode escalar para um confronto mais violento.
Maria Isabel Tavares, parece-lhe fazível o cenário, parece-lhe que Donald Trump possa estar a pensar numa invasão terrestre do Irão?
Eu acho muito difícil, considerando a narrativa, nomeadamente a narrativa eleitoral do presidente norte-americano e de não querer envolver-se em guerras eternas, em never ending war, esse é o termo utilizado, eu acho difícil que esse seja o objetivo. Por outro lado, também não deixa de ser verdade que, por exemplo, se nós compararmos os objetivos estratégicos de Israel e os objetivos estratégicos dos Estados Unidos, parece que para Israel nós temos claro quais são os objetivos deste ataque. Aliás, Israel diz que a guerra ainda não terminou e, portanto, o conflito com o Irão ainda não terminou. E por outro lado, vemos do ponto de vista da administração norte-americana, não conseguimos claramente identificar quais são os objetivos, porque repare, a minha pergunta seria: uma invasão terrestre para quê? Não só ela é contraditória com todas as narrativas, nomeadamente eleitorais e do apoio a MAG, etc. E sabendo nós que temos os midterms aqui à porta, mas por outro lado, com que objetivo? Qual era o objetivo? Porque para entrar, até isso é uma coisa interessante do ponto de vista da estratégia, só devemos entrar num conflito que sabemos que temos uma maior probabilidade de ganhar, mas para ganhar precisamos de saber identificar quais são os objetivos. E é isso que é muito perturbador, creio eu, nesta situação dos Estados Unidos, porque na verdade, é difícil até encontrar esses objetivos. Compreenda, se nós tivéssemos objetivos e depois fôssemos discutir se eles são lícitos, são ilícitos, são legítimos, quais são os apoios, são racionais ou não são racionais, mas nem sequer estamos nesse patamar. É difícil compreender o que poderia ser uma vitória, um ganho, com uma ocupação no território. Repare, nós muitas vezes temos tantas notícias todos os dias que nos esquecemosImediatamente depois dos primeiros ataques e com a morte, não só do Ayatollah Khamenei, mas também dos mais de 40 líderes, nós tínhamos a possibilidade de haver informações que diriam que os Estados Unidos estariam a fomentar que as milícias curdas, nomeadamente iranianas e iranianas no Iraque, entrassem pelo Irã e que promovesse essa alteração de regime. E já estamos onde parece que nenhuma dessas hipóteses, afinal, estava totalmente estudada, totalmente pensada. Recorde-se daquela passagem também do presidente Trump: "Todos aqueles que tínhamos pensado que poderiam assegurar uma transição de poder, foram mortos". Parece até uma falta de profissionalismo, de decência nas decisões militares e políticas desta operação, o que torna difícil a análise, obviamente.
Maria Isabel Tavares, temos ainda três minutos para abordar a situação na Ucrânia. Ataques ucranianos provocaram incêndios numa refinaria no sul da Rússia. Tem sido uma estratégia habitual por parte das forças ucranianas. O Kremlin defendeu esta quinta-feira a estabilidade do sistema bancário russo. Há ainda esta questão do Médio Oriente que acaba por, de certa forma, deixar passar em claro muito do que acontece na Ucrânia. A minha pergunta, Maria Isabel Tavares, é: que balanço é que podemos fazer do que está a acontecer na Ucrânia e está Zelenskyy a lutar para não ser esquecido? Temos dois minutos e meio para o final do programa.
Certo. Vou tentar ser sucinta e só dizer duas coisas que me parecem essenciais. Por um lado, esta insistência da Rússia na questão econômica e financeira, ou seja, tentar demonstrar que está robusto. Isto também já tinha acontecido no Fórum de São Petersburgo, em simultâneo, quando Zelenskyy lança a sua carta apelando a negociações diretas. Por outro lado, esta ideia que está presente nos dois conflitos de ataques com capacidades mais baratas, se quisermos, e também infraestruturas críticas, o que do ponto de vista das infraestruturas críticas levanta algumas questões do ponto de vista da legalidade, mas que são muito disruptivas na situação dos conflitos. Isto vemos quer em relação à Ucrânia, quer em relação ao Irã. Eu creio que esta concentração do presidente Trump e dos Estados Unidos no Irã pode representar uma oportunidade para a Ucrânia e para a Europa, se a Europa e a Ucrânia quiserem. Ou seja, nós tivemos a reunião no domingo com França, Alemanha, presidente Zelenskyy e também o Reino Unido, portanto, França, Alemanha, Reino Unido e presidente Zelenskyy. Temos uma reunião de reconstrução da Ucrânia nos dias 24 e 25 de junho, na Polônia, portanto, já a pensar mais na reconstrução da Ucrânia. E aqui pode ser uma oportunidade, porque os europeus o que têm dito é que é preciso que o presidente Trump se envolva. E se fosse possível o presidente Trump envolver-se dizendo que tinha de alguma forma conseguido fazer alguma coisa, mas ao mesmo tempo a Europa pôr o pé na porta e garantir que as condições são também negociadas e que é ouvida, eu creio que isso seria vantajoso e que pode representar uma oportunidade de uma mudança na situação de conflito da Ucrânia.
Muito obrigado, Maria Isabel Tavares. É professora de Direito Internacional da Universidade Católica do Porto. Fica por aqui o Gabinete de Guerra.