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Começa agora mais um Gabinete de Guerra das Manhãs 360, hoje com a análise do coronel José do Carmo. Bom dia, bem-vindo.
Olá, bom dia.
Bom dia. Começamos pela porta-voz da Casa Branca, que diz que Donald Trump está extremamente frustrado com os dois lados do conflito entre Rússia e Ucrânia e que está farto de reuniões, quer ação. Sobre o convite para ir a Paris este sábado reunir com líderes europeus e Ucrânia, diz que poderão enviar um representante se sentirem que o resultado será produtivo. Coronel, isto reforça a pouca importância que Trump tem dado à Europa neste processo de paz?
Sim, quando o Donald Trump diz que está frustrado com ambos os lados, na verdade, ele está a dizer que está frustrado com o outro lado. Ele neste momento não está do lado da Europa nem da Ucrânia. Neste momento, ele está do lado da Rússia, pelo menos objetivamente, não sei se sentimentalmente também, mas objetivamente está. E portanto, esta campanha de pressão que tem feito basicamente sobre a Europa e sobre a Ucrânia e que tem sido bastante audível nos soundbites que emite sobre as características ideológicas ou até sobre o querer da Europa. Donald Trump está numa campanha de pressão máxima, que no fundo é a campanha de pressão máxima também da Rússia em termos mediáticos, em termos de guerra psicológica, fazendo crer que está numa ação imparável e imbatível. Trump está a verificar que o seu método de negociação, que no fundo consiste em pressionar a parte mais fraca ou pelo menos a parte que parece mais fraca, não está a funcionar como ele pretendia, embora se note por parte também da Ucrânia, colocar na balança ou colocar na mesa das negociações algumas situações que parecem impensáveis ou pareciam impensáveis aqui há um tempo, nomeadamente as eleições e referendos, etc.
Entretanto, os Estados Unidos sugerem criar uma zona econômica livre na região do Donbass. Seria uma área neutra, sem ucranianos nem russos. Zelensky diz que não está convencido, até porque, coronel José do Carmo, coloca-se a questão: quem é que iria governar essa zona?
São ideias que são lançadas para a mesa, que no fundo têm muito a ver com a economia, mas depois esbarram sempre nos problemas. Primeiro, nas exigências básicas.
Nas questões mais práticas, não é?
Sim, de ambos os lados. A Rússia não vai obviamente recuar dali. Como é que se vai garantir que a Rússia não volta a avançar para além, nem que seja com pretexto qualquer ou infiltrar pessoas, como fez na Crimeia. O problema é, mesmo que se avançasse para uma solução criativa desse tipo, que seria uma situação de fato, não de direito, mas de fato, a Rússia tem rejeitado sistematicamente e literalmente todos esses pontos que incluem um recuo de suas posições maximalistas. Ainda nesta semana, Lavrov voltou inclusive a definir pontos como a exigência que a NATO recue para fronteiras anteriores. Recue em termos de países que estão neste momento na NATO, deixem de estar ou deixem de ter forças da NATO dentro do seu território. No fundo, está a recuar para situações em que já não só exige coisas à Ucrânia, exige coisas à NATO. E portanto, no fundo, sente que tem na Casa Branca um aliado, e não sei até que ponto ele o é, mas de fato este método de negociação de Donald Trump pode funcionar muito bem em negócios, quando se pressiona alguém que não quer perder dinheiro ou quer perder o menos dinheiro possível. Quando se joga com valores, com soberania, com terra, não parece funcionar. Ele não está rodeado de pessoas que levem este assunto em conta e o resultado é este.
Pela primeira vez, a Dinamarca classificou os Estados Unidos como potencial ameaça à segurança nacional. Coronel, isto é inédito na relação entre os dois aliados da NATO, ainda agora falava da NATO, mas também mostra que, ao contrário de outros países, Copenhaga não tem medo da reação de Washington.
Pois, no fundo, os dinamarqueses, como os nórdicos, às vezes são bastante pragmáticos. Às vezes não são muito, mas às vezes são pragmáticos. No fundo, os Estados Unidos começaram com esta campanha de bullying em relação à Dinamarca. A Groenlândia é dinamarquesa. E os Estados Unidos lançaram esta campanha de pressão sobre aliados, entre aspas, neste momento há dúvidas, com a ideia de que queriam a Groenlândia, queriam atacar o Canadá. Agora, a resposta a um bully, e sabemos todos isto desde a escola primária, a resposta a um bully nunca é ceder ao bully. No fundo, o bully só recua quando confrontado. Passa-se isto com os Estados Unidos ou pelo menos com esta técnica de negociação, entre aspas, de Donald Trump, que é uma técnica bastante agressiva. E o mesmo com a Rússia. Portanto, os bullies não param quando a vítima cede. Continuam, aumentam. Portanto, a Dinamarca está a fazer aquilo que deve. Não é que tenha grande poder, pelo menos hard power, para se opor a qualquer decisão americana nessa área, não tem, obviamente, mas às vezes enfrentar o bully é o suficiente para ele recuar.
Sobre o Médio Oriente, o Hamas diz que é inaceitável o desarmamento total do grupo, é retirar a alma aos palestinianos. Coronel José do Carmo, isto compromete a segunda fase do acordo.
Mas já se sabia que ia acontecer.
Claro, era expectável.
O Hamas fez de tudo para atrasar a passagem à segunda fase, foi para ganhar tempo e obviamente não quer desarmar. E também quem é que vai desarmar? A questão é esta: quem é que vai desarmar o Hamas? O Qatar e a Turquia entraram neste processo garantindo que o Hamas, que no fundo são os porta-vozes, que têm eventualmente alguma leverage sobre o Hamas, garantiram que o Hamas ia fazer isto tudo, ia seguir esse caminho, ia seguir esse roteiro, mas o Hamas não quer fazer isso, obviamente, e também se está a ver que ninguém consegue. Tirando Israel, que tem uma questão existencial em mãos, quem é que vai realmente atacar o Hamas para lhe tirar as armas? É difícil. Não estou a ver nenhum país entrar ali e atacar o Hamas e morrerem soldados de países democráticos, não estou mesmo a ver. Eu acho que está aqui uma questão: a Turquia quer colocar tropas nessa zona.
Sim, exatamente.
Portanto, isso será uma pressão no sentido de que se mais ninguém consegue, o Hamas não quer, têm que ser os turcos. E Israel não pode aceitar os turcos ali, porque é um inimigo existencial de Israel neste momento.
Pois. Coronel José do Carmo, muito obrigada pela sua análise neste Gabinete de Guerra. Um bom fim de semana para si.
Igualmente.
Muito obrigada.