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Arranca aqui a segunda edição do dia de Gabinete de Guerra. Vamos analisar algumas das notícias e temas relacionados com os conflitos em curso, em particular no Médio Oriente. Hoje é nosso convidado o professor Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Boa tarde, professor. Começamos com Donald Trump, que diz que estão a decorrer negociações com o Irão. O ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano diz que não. Hoje, de resto, há pouco, dei a notícia, o secretário de Estado do Tesouro norte-americano antecipa que pode ser selado um acordo em torno da navegação no Estreito de Ormuz já amanhã. Afinal, quem é que está a mentir? Porque seguramente alguém está a mentir. E por quê, professor? Boa tarde, bem-vindo.
Boa tarde, Miguel. Curiosamente, eu acho que ninguém está a mentir. É uma solução fora da caixa. E por quê? Estão todos é a faltar um pouco à verdade. Vamos pôr isto desta maneira: Trump realmente fala em negociações e elas têm prosseguido, nunca pararam, na minha opinião, são paralelas ao conflito e estão certo abertos canais de negociação. Agora, será uma negociação indireta. O que o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão referirá é que não tem havido duas pessoas na mesma sala a conversar frente a frente. E isso terá, de acordo com as fontes, sido a realidade, sempre através de intermédios contactos, atores, nomeadamente o Paquistão e o Qatar, que acabam por colocar na mesa, numa e noutra, as evoluções que existem de um lado e do outro. Mas o que aqui está em causa? Para Donald Trump está muito. Naturalmente, ele tem agora um conjunto de objetivos a alcançar. Por outro lado, tem um certo fator tempo que o pressiona e do lado do Irão a questão é particularmente complexa, porque ainda se acrescenta uma guerra interna e daí a necessidade de Araqchi ir referendo que não, ir dando algum tipo de alimentação interna à facção que diríamos mais radical, aquela facção de linha dura, porque Araqchi enquadra uma facção mais pragmática que procura uma solução, enquanto que a linha dura, liderada pelo presidente e pela guarda revolucionária, tem objetivos de forçar um pouco mais esta situação. E portanto, nesse sentido, poderemos encontrar aqui uma solução e essas negociações entre o Irão e Omã estão, de certo modo, a seguir uma linha que já foi proposta pelos Estados Unidos em conjunto com o Qatar, que é ter uma rota de entrada controlada pelo Irão e ter uma rota de saída controlada por Omã. Aqui a grande questão acabará sempre por quem define exatamente que tipo de navios é que poderão entrar, aqueles navios que não serão friendlies de acordo com o Irão, se for dado esse poder ao Irão, é realmente algo extraordinário dentro do contexto global. E por outro lado, o pagamento ou não de algum tipo de portagens, que agora a proposta do Irão e Omã parece ser na direção de umas taxas de utilização. Podemos chamar do que for, mas a verdade é que será bastante complexo chegar a uma solução dentro deste enquadramento.
Donald Trump ameaça com a decapitação do regime caso o Irão não se renda ou chegue a um acordo. Quais são as opções da Casa Branca nesta altura?
Está num momento complexo. Ficou num momento muito complexo. Já falámos várias vezes aqui do não conhecimento dos objetivos políticos, portanto, será sempre um pouco mais difícil conseguirmos avaliar. No entanto, aqui há quatro caminhos óbvios. O da negociação, pura e simples, num sentido aberto, o de regressar ao memorando de entendimento, agora de uma forma mais esclarecida, porque deixaram ali alguns artigos muito dúbios, e depois algo mais cinético, seja ele o isolar o Irão, mas é algo que poderia ter êxito, mas que se prolongaria muito no tempo e envolveria bastante tipo de forças que os Estados Unidos não têm de momento e que poderia não corresponder aos interesses temporais de Donald Trump, muito preocupado com os Middle Terms, mas também com o corte do fluxo do supply do petróleo. E por outro lado, temos ainda um eventual ataque, a utilização da força per si. Repare que essa modalidade de ação é determinante. A verdade é que depois implica um conjunto de meios e dedicação e de permanência no local que pode ser que os Estados Unidos não pretendam e Donald Trump definitivamente não pretende. Mas vários tipos de situações ainda podem ser criadas neste momento, mesmo sem escalar significativamente, até porque já houve vários estudos do CENTCOM que escalando poderá não conseguir alcançar esses objetivos determinantes, exceto se for usada a máxima força, e aí, sim, os Estados Unidos terão toda a capacidade para impor as suas razões, mas há várias dimensões que acaba por perder também fazendo um esforço nesse sentido.
E na perspectiva de Teerão, que opções tem nesta altura o regime, o que espera alcançar Teerão?
Teerão é uma situação bastante mais complexa. Por um lado, demonstrou uma resistência à dor extraordinária, muito ligada à ameaça existencial que existia sobre o regime. O regime está mais forte, houve um aproveitamento, como disse o chefe de Estado-Maior do Exército, durante este período, para recuperar capacidades, fala-se em 70% dos mísseis balísticos, e portanto, de alguma forma, o Irão está numa posição, eu não diria similar, mas numa boa posição, tendo em conta a que já esteve na sequência dos ataques. E tem aqui um conjunto de armas que vai fazendo uso e que poderá levar a um aumento de influência internacional. Tem três "choke points" que acaba por controlar de uma forma mais ou menos direta. Estamos a falar de Ormuz, com impacto muito intenso. Estamos a falar de Bab-el-Mandeb, através dos Houthis, que tem sido mostrada através de ataques diretos a interesses da Arábia Saudita. Cria restrições e não será fácil ter uma ação determinante que elimine esta ameaça. E por fim, na região do Suez, com o ataque que houve ao porto na Arábia Saudita, em que acaba por limitar e demonstrar que poderá haver uma escalada nessa direção. Ora bem, isso através de ataques diretos, através dos proxies, como já vimos vários ataques de proxies iranianos no Iraque, pode ir conseguindo alcançar algum tipo de sucesso. Repare que o Irão não necessita de ganhar a guerra. O Irão tem como objetivo criar um custo tal ao seu oponente, em especial aos Estados Unidos, mas também a Israel, que o leve a pensar que não vale a pena prosseguir com o ataque. E esse custo poderá ser em várias dimensões. Eu diria que a dimensão económica será sempre, naturalmente, uma dimensão preocupante. Por outro lado, ao escalar na região, acaba por levar os países do Golfo, seja a Arábia Saudita, seja os Emirados, seja o Qatar, a terem alguma parcimônia no apoio a este tipo de ações, principalmente pela preocupação que têm de retaliação que exista sobre os seus interesses, seja nas infraestruturas críticas, que seria sempre uma fase natural, infelizmente, da escalada do conflito, seja diretamente nas bases norte-americanas e obviamente que os sacos de mortos a regressarem aos Estados Unidos será sempre uma imagem que Donald Trump procura evitar. E para terminar nesta vertente, tenho que trazer algum tipo de enquadramento global. Repare que a força que é transmitida através do apoio da Rússia e através do apoio da China, mais direto, menos direto, mais visível, menos visível, mas a verdade é que ele existe e que de alguma forma apoia diretamente este combate híbrido e este combate com características diferenciadas, no sentido de combater uma força mais capaz como a dos Estados Unidos. E portanto, há aqui uma certa margem e o Irão pretende definitivamente assegurar não só a sua segurança, mas também uma saída com bastante "empowerment" dentro da reorganização do poder regional, dentro da reconfiguração do poder do Médio Oriente.
O senhor professor há pouco dava conta que há duas correntes no regime iraniano, uma mais radical, outra mais moderada. As posições assumidas por estas duas correntes são conciliáveis ou, de facto, há o risco, não sei se o senhor professor usou esta expressão, de desmoronamento do regime por força da oposição destes dois movimentos?
Não serão facilmente conciliáveis. É uma luta de poder que vai evoluindo e que eu julgo agora, que puxou esse tema, que inclusivamente está a ser aberta uma terceira via. Começamos a identificar algum tipo de sinais que mesmo dentro do hard line há uma luta de poder bastante grande entre os apoiantes do presidente Khamenei e do comandante da Guarda Revolucionária Islâmica, Vaidi. Portanto, mesmo aí poderá haver uma luta e nomeadamente a tentativa de Khamenei de assumir a liderança do país. Nesse sentido, não me parece muito fácil que se encontre aqui uma linha comum. Mas pragmáticos têm outro tipo de armas, têm uma arma talvez com apoio mais forte por parte da população, uma capacidade de chegar, mesmo dentro do espectro político, a adversários do regime, pela perceção que poderá receber apoio a nível internacional. E esse apoio poderá vir da China, porque a China não irá continuar a ver com bons olhos o encerramento de Ormuz e a qualquer momento poderá tomar uma ação também ela decisiva sem ser do interesse do Irão. Nesse sentido, não me parece que a curto prazo possa haver uma Uma unidade, mas por outro lado, há uma questão do que será feito no dia seguinte, caso a Hardline, nomeadamente através da guarda revolucionária, venha a perder. Repare que tem a capacidade de controlar não só algum tipo de forças convencionais, como também estamos a falar dos serviços secretos, serviços de informações e, portanto, não seria muito fácil prosseguir com o regime, sem ter o controle deste tipo de forças. Portanto, com Vahedi e com este tipo de elementos a liderar a guarda revolucionária, não será fácil um futuro de unidade nacional, definitivamente.
Professor, para fecharmos este gabinete de guerra, vamos ainda olhar para o conflito no leste da Europa. Volodymyr Zelensky tem enfrentado contestação pública, alguma turbulência política e no terreno os russos têm tido alguns ganhos táticos, mau momento para a Ucrânia?
Não é um momento muito positivo. Zelensky, de facto, tem enfrentado aqui uma contestação política tremenda, mas mesmo dentro das manifestações, se nós repararmos, ainda não foi pedida a cabeça de Zelensky. Há a percepção que algo não está correto, há uma grande preocupação com a demissão de Fedorov, que a demissão de Syrytsky e mesmo a nomeação de Kumara. Já agora, Kumara vem de uma ala política que já não considera Zelensky como essencial no futuro da Ucrânia, mas há aqui realmente um enfraquecimento no plano interno, que a demissão agora da embaixadora nos Estados Unidos acaba ainda por agravar. Mas, por outro lado, a nível internacional, é o único interlocutor que é reconhecido e tem tido algumas provas de capacidade demonstrada, e a forma como foi recebida na Casa Branca muito recentemente demonstra perfeitamente isso. Repare que recebeu o apoio do novo líder, do Primeiro-Ministro do Reino Unido, o Rutman, recebeu inclusivamente de vários atores europeus o apoio de defesa aérea, segurança marítima, de produção combinada de armamento, no caso do Reino Unido, inclusivamente do Stonecloak, importantíssima na defesa do anti-jamming dos drones, que é uma arma determinante nesta fase da guerra, mas que agora tem que enfrentar uma tática diferente da Rússia e há sempre estes momentos em que o sucesso relativo da Ucrânia agora enfrentou uma reação por parte da Rússia, seja através do bypass, um controle das linhas de comunicação e um certo ataque direcionado às linhas logísticas e de reforço militar e que coloca alguma dificuldade no terreno. Mas julgo que a Ucrânia passou momentos bem mais complexos e nós não estamos a ver grandes avanços, apesar de agora o direcionamento ser para Sloviansk e Kramatorsk. Não temos sentido um avanço definitivamente que ponha em causa a cintura da fortaleza, aquela zona completamente blindada que tem sido inexpugnável e a curto prazo não prevemos qualquer tipo de ruptura dessa linha, o que permite, com algum sucesso tático, ir mantendo o regime. Agora, Zelensky necessita rapidamente de encontrar uma solução política para ultrapassar esta onda de contestação e encontrar uma nova estratégia que estava a ser seguida com bastante sucesso, de capacidade em profundidade e com isso levar a guerra ao interior da Rússia e apenas por aí poderá manter pressão sobre o regime de Vladimir Putin, isso apenas por aí continuará a manter algum tipo de iniciativa, o que é essencial naturalmente para a condução do conflito.
Professor Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School, o nosso convidado da segunda edição do "Dia de Gabinete de Guerra", em que olhámos para o conflito do Médio Oriente, as negociações ou ausência delas entre Estados Unidos e Irão, e também para o que se vai passando no leste da Europa neste conflito que opõe a Rússia à Ucrânia. Professor Jorge Rodrigues, obrigado pela sua disponibilidade e pela sua presença neste gabinete de guerra.
Obrigado, Miguel.