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Este é o Gabinete Guerra das Manhãs 360, esta quinta-feira com a análise de Miguel Baumgartner, especialista em relações internacionais. Bom dia, Miguel, bem-vindo.

Olá, Maria João, bom dia.

Olá, Miguel. Trump já esteve reunido com Xi Jinping, a quem deixou muitos elogios no final do encontro. Já o líder chinês apelou para que os dois países sejam parceiros e não adversários, num mundo que diz ter chegado a uma encruzilhada. Miguel, quem é que precisa mais deste encontro? Os Estados Unidos por causa do Irão ou a China por causa de Taiwan? Ou por outros motivos também.

Essa pergunta é extremamente interessante, até porque vamos recuar quase 10 anos. 2017 é a primeira vez que os dois se encontram. Nessa altura, os Estados Unidos chegavam muito mais fortes. Por quê? Porque nessa altura sua economia estava muito melhor, nessa altura também politicamente estavam muito melhor posicionados. Nessa altura nós falávamos muito mais da China, ainda como um país a ocupar os seus espaços internacionalmente. Nessa altura apontávamos à China até questões de direitos humanos, direitos, liberdades e garantias, tudo isso estava em cima da mesa. Hoje, passado quase 10 anos, nós olhamos de uma forma completamente diferente. Hoje a China ocupou o seu espaço no sul global, é o maior parceiro econômico de inúmeros países, como por exemplo, o Brasil, tem uma capacidade econômica extraordinária, tem uma capacidade industrial extraordinária e tem uma coisa muito interessante. Neste momento tem na mão aquilo que é a grande capacidade da refinaria das terras raras, que depois são essenciais para o desenvolvimento econômico e tecnológico, que por exemplo, os Estados Unidos querem fazer. Mas também conseguiu fazer parcerias políticas e econômicas um pouco por todo o mundo, nomeadamente com o Irão. E obviamente que nós vimos que estas recusas constantes do Irão e de alguma forma o Irão a responder aos Estados Unidos sempre chutando para canto quando estamos a falar, por exemplo, da questão do nuclear, ganhando tempo ou atrasando um processo que de alguma forma já poderia mais ou menos estar resolvido os pontos essenciais que depois seriam discutidos para os pontos da paz. Obviamente que isso foi sendo trabalhado para que permitisse aos Estados Unidos chegarem enfraquecidos e com a necessidade de fazer duas coisas: a necessidade de ter uma parceria econômica efetiva e profunda com a China, porque neste momento, e veja-se, por exemplo, Maria João, repara quem é que vai com Donald Trump. Tens o Tim Cook da Apple, tens o presidente da Mastercard, da BlackRock, da Goldman Sachs, tens Elon Musk, que inclusive foi no avião com Trump. Tu tens, portanto, todos os presidentes das grandes empresas, nomeadamente das empresas tecnológicas, que foram com Trump. Portanto, esta reunião é muito mais comercial, muito mais olhar na parceria econômica e na estratégica em termos da China ser não só um parceiro econômico, mas nomeadamente se poder ter a China como fornecedor daquilo que são os bens essenciais para esse desenvolvimento econômico e depois o dinheiro que a China tem, para de alguma forma investir nestas empresas. E portanto, neste ponto é muito mais comercial. Mas dentro desta possibilidade de termos aqui acordos comerciais, por isso é que essa frase também é muito interessante de Xi Jinping, quando ele diz: "Nós devemos ser parceiros e não rivais, portanto, nós devemos trabalhar juntos". Esse também é muito o pensamento chinês. Os chineses não são de confronto. É muito nesse sentido, que há interesses de parte a parte. Obviamente que os Estados Unidos têm o interesse que a China possa de alguma forma facilitar para resolver a situação do Irão, que Donald Trump quer resolver o quanto antes. E a China quer uma garantia por parte dos Estados Unidos de que quando a China quiser apertar o cerco a Taiwan, quando a China quiser não anexar militarmente, que eu não acredito que a China vá fazer isso, eu acredito que a China vá fazer a mesma coisa que fez em Hong Kong, portanto, é asfixiar economicamente de alguma forma, fazer até um bloqueio, se tu quiseres, que os Estados Unidos não se metam no assunto. E portanto, nós sabemos que já desde a primeira administração de Donald Trump, Donald Trump teria, de alguma forma, não vou dizer afirmado, mas teria de alguma forma indicado à China que não teria interesse em envolver-se numa questão de Taiwan, se efetivamente a relação entre os Estados Unidos e a China fosse profícua. E como é que ela pode ser profícua na questão comercial? E como Donald Trump é um empresário que é presidente dos Estados Unidos, interessa-lhe muito a questão comercial, interessa-lhe muito a questão do investimento chinês nos Estados Unidos e, portanto, não é uma reunião política, eu diria, é uma reunião comercial que depois terá, se correr bem, haverá aqui facilitação política em alguns pontos de quarta parte.

Miguel, entretanto, depois do Reino Unido e França, a Austrália também se vai juntar à missão defensiva para garantir a segurança da navegação no Estreito de Ormuz. Que diferença podem estes países fazer? O que nos diz o facto e também o que nos diz o facto de a Austrália preferir integrar uma missão liderada por europeus, em vez de se ter juntado a Donald Trump?

Porque a missão que os europeus estão a fazer é uma missão defensiva, uma missão de proteção. E a Austrália precisa, porque todo aquele lado da Ásia e do Pacífico precisam desesperadamente de combustível. Portanto, a Austrália quando entra, juntamente com a França e com o Reino Unido, é num projecto defensivo para fazer a passagem daqueles que eles chamam os comboios, para saírem do estreito. E a ideia, efetivamente, é de proteção. Quando os Estados Unidos pediu a participação, nomeadamente de países da NATO e depois alargou a outros países, como por exemplo, o Japão, que também tem imenso interesse, aí daria sempre a ideia de que esses países estariam a juntar ao país beligerante que atacou o Irão. E portanto, ninguém queria ficar com esse ônus, até porque a maior parte dos países, como tu sabes, condenou a atuação de Donald Trump. Portanto, a participação da Austrália, que é importante e que tem uma capacidade naval interessante, junta-se à França e ao Reino Unido, que mesmo estes três países juntos, não têm a mesma capacidade naval e militar que os Estados Unidos têm. Mas é para dar a ideia, acima de tudo, de que nós estamos a ver aqui um projecto que não é só um projecto europeu, mas que é um projecto mais alargado. Se fores pensar, por exemplo, naquilo que foram as reuniões que houveram em Londres, mas também em França, com aqueles mais de 40 países, aí tinhas incluído o Canadá e a Austrália, que são países importantes neste projecto que Macron e que Keir Starmer quiseram fazer, que era trazer vários países de vários pontos do globo para não dar a ideia de que isto era só uma atuação europeia ou que isto era a NATO a participar, mas sem dizer que é a NATO a participar. E, portanto, a participação da Austrália é estratégica, primeiro porque tem capacidade naval e tem capacidade militar, mas também é por razão do interesse daquela zona do globo, ali do Indo-Pacífico, que é extremamente importante e onde também os Estados Unidos têm um interesse político importante.

Miguel Baumgartner, muito obrigada pela tua análise no Gabinete de Guerra. Bom final de semana, Miguel. Obrigada.

Bom dia, obrigado. Igualmente.