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Este é o primeiro encontro do Gabinete de Guerra esta semana aqui na tarde em direto, o Bruno Vieira Amaral e a Vanessa Cruz recebem o Major-General Isidro Morais Pereira. E Vanessa está a ser um arranque de semana marcado por essa reunião surpresa dos 27 ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia que se realizou em Kiev.

Um encontro inédito, o primeiro na Ucrânia e o primeiro fora do bloco comunitário. Major-General Isidro Morais Pereira, bem-vindo. Temos uma reação do Kremlin, mas deixe-me já agora também contextualizar aqui, porque o que sai desta reunião é um compromisso de longo prazo para com a Ucrânia, foi o que disse o chefe da diplomacia europeia. Mas tivemos ainda antes destas declarações, logo uma reação do Kremlin dizendo que há sinais de cansaço do Ocidente no apoio à Ucrânia. Vê esses sinais, até pelo futuro da ajuda dos Estados Unidos estar nesta altura suspenso。 Pergunto-lhe isto, até porque o acordo de financiamento provisório norte-americano que foi alcançado este fim de semana deixou de fora as medidas de apoio a Kiev.

Sim, vamos lá ver. Eu acho que do outro lado do Atlântico estamos a assistir, sobretudo, a ações de política interna. Quer dizer, esta questão do apoio à Ucrânia acaba por ser uma consequência das lutas internas pelo poder, fundamentalmente protagonizadas pela facção extremista do Partido Republicano, aqueles que são mais apoiantes de Donald Trump, e a fazerem a um braço de ferro. Mas que, tal como Joe Biden referiu, isto é um problema que se resolve. É evidente que os Estados Unidos, em último caso, vão olhar para aquilo que são os seus interesses vitais, quer dizer, e para os Estados Unidos, neste momento, não é vital que a Rússia saia vencedora desta contenda, muito antes pelo contrário. Aliás, os americanos, os Estados Unidos nunca foram capazes de protagonizar ou estar envolvidos de forma indireta numa guerra que acaba por enfraquecer de forma decisiva um dos seus maiores adversários em termos da geopolítica mundial e da estratégia. Isto de fato acaba por sair muito barato aos Estados Unidos. Passadas estas pequenas querelas internas, a solução avizinha-se e naturalmente que é preciso conhecer bem a forma de funcionar da democracia norte-americana pra perceber que o poder não está todo na Câmara Baixa, como nós sabemos. O poder está na Câmara Baixa e na Câmara Alta. A Câmara Alta é controlada pelo Partido Republicano, porque tem a maioria. E a Câmara Baixa tem a maioria republicana. Mas quer dizer, há outras medidas, há outras políticas que os republicanos gostariam de ver implementadas, independentemente de quem é neste momento o presidente. O presidente neste momento é um democrata, de hoje amanhã poderá ser um republicano, eventualmente, não sabemos quem. Mas o que é fato é que o Congresso, durante mais algum tempo vai ser controlado pelos democratas. Isto é um trade off. Quer dizer, a Câmara Baixa não pode esticar demasiado a corda, porque senão chega a um ponto que vê todas as suas medidas reprovadas pela Câmara Alta, ou seja, pelo Senado norte-americano. Portanto, acho que é preciso contextualizar um pouco. A 25 de agosto, a Federação Russa e o Kremlin pôs em marcha ou reformulou a sua política de informação, as suas ações de propaganda. E nessa política de informação ou propaganda constam fundamentalmente seis temas e um deles, que são os importantes para aquilo que interessa agora é: a Ucrânia é incapaz de protagonizar uma contraofensiva com sucesso. Aliás, e é isso que temos ouvido. É isso que temos ouvido, quer vindo da Rússia, quer vindo das suas caixas de repetição também no Ocidente, porque nós sabemos que há caixas de repetição. Portanto, a Rússia, como é hábito, como já era hábito no tempo da União Soviética, tem naturalmente agentes infiltrados, tem pessoas devidamente pagas pra fazer espalhar aquilo que lhe interessa. E o outro aspecto muito importante é que o Ocidente vai acabar por cansar de apoiar a causa ucraniana, porque não vale a pena, porque de qualquer forma a Rússia vai acabar por sair vencedora. Portanto, estes dois temas, dos seis, são os temas fundamentais. E é isso que estamos a ouvir. E de fato, pela primeira vez e de forma concertada, o Ocidente, agora através da União Europeia e através do designadamente Josep Borrell, toma uma iniciativa com pés e cabeça pra contrariar estas ações de propaganda da Rússia, a mostrar que a União Europeia está unida e que continua fortemente empenhada em apoiar, quer militarmente, quer financeiramente a Ucrânia.

Major-General Isidro Morais Pereira, é isso que sai com mais força desta reunião hoje em Kiev, é que o apoio por parte da União Europeia está de pedra e cal?

Não, é exatamente isso. O apoio por parte da União Europeia, o firme propósito da União Europeia é, para além do apoio militar e o apoio financeiro, fundamental, no sentido de demonstrar a solidariedade dos 27 para com a Ucrânia O retrato disso é o próprio Josep Borrell dizer que esta guerra é uma ameaça existencial, não apenas para a Ucrânia, mas para todos nós. E ele próprio diz que é preciso ter uma estratégia de longo prazo para poder apoiar a Ucrânia, para fazer com que a Ucrânia saia vencedora desta contenda, para que a Ucrânia possa naturalmente fazer parte deste grupo, destes 27, seja integrada na União Europeia e que é na NATO. Portanto, eu acho que esta iniciativa é completamente singular e única, porque até agora a União Europeia nunca reuniu os seus responsáveis pela pasta das relações externas ou dos negócios estrangeiros de cada país, nunca reuniu fora do próprio espaço da União Europeia. Isto é um sinal forte e claro, não apenas para os ucranianos, para mostrar à população ucraniana, para lhes dizer assim: "Não desanimem que nós estamos aqui para vos apoiar", mas também para passar uma mensagem ao Kremlin de que não vale a pena estarem com esse tipo de propaganda, porque nós não vamos desistir de apoiar a Ucrânia, porque esta guerra também é nossa. Não é uma guerra nossa de boots on the ground, mas é uma guerra que nós apoiamos. E até hoje, é bom dizê-lo, a Ucrânia nunca pediu a nenhum país soldados. Nunca pediu nem à União Europeia, nem à NATO, para ser ajudada com contingentes militares dos países aliados.

Já que fala em soldados, Major-General Isíдоро Moraes Pereira, do lado russo, temos aqui agora a notícia de que o filho de Yevgeny Prigozhin estará a tentar assumir o controle do grupo Wagner. É o que indica hoje o think tank norte-americano Instituto para o Estudo da Guerra. Terá alguma hipótese de ser bem-sucedido ou seria estranho estar a promover o filho do líder da recente rebelião em vez de Andrei Turchak, que tem sido apoiado por Vladimir Putin?

O Andrei Turchak foi apoiado, naturalmente, pelo Kremlin e designadamente por Vladimir Putin. Eu disse várias vezes nos comentários que tenho feito que o grupo Wagner não iria desaparecer. Putin iria encontrar dentro da organização alguém que lhe fosse suficientemente leal, em quem ele confiasse, porque ele necessita deste tipo de organizações para continuar o esforço de guerra na Ucrânia e não ter que recorrer a uma mobilização fundamental daqueles que vivem nas zonas mais a oeste da Rússia, designadamente na Rússia Branca, na Rússia de São Petersburgo, na Rússia de Moscovo. Portanto, estas companhias mercés privadas, designadamente o grupo Wagner, que têm uma experiência muito grande de combate ou remanescente, aquilo que resta dos mercenários do grupo Wagner, são instrumentais para aquilo que Putin pretende. Ele já encontrou o homem certo para o lugar certo. Não me parece que Vladimir Putin vá chamar Andrei Turchak e diga: "Olha, afinal enganei-me, não és tu. É o filho do antigo líder do grupo Wagner". Não me parece. Isso parece-me uma fantasia. Até porque é a primeira vez que se ouve falar no filho de Yevgeny Prigozhin. Isto é um ilustre desconhecido que eu saiba, a não ser que haja aqui uma história por trás que eu desconheça. Agora, Turchak não, Turchak até é conhecido por ser uma figura destacada no grupo Wagner, um dos líderes do grupo Wagner e que se recusou a participar na intentona, naquela marcha sobre Kiev. Portanto, é um homem que acabou por merecer a confiança de Vladimir Putin. Putin acaba por lhe dar até protagonismo em termos até do governo da Rússia e entregar-lhe uma força militar adestrada. E não apenas isso, quer dizer, vai lhe entregar naturalmente meios financeiros, vai lhe entregar recursos, equipamento e armamento para reconstituir este grupo Wagner. E tudo indica que Vladimir Putin está muito interessado em reintroduzir o grupo Wagner no teatro de operações da Ucrânia. Aliás, já há notícias de que cerca de 600 mercenários do grupo Wagner foram reintroduzidos na região de Bakhmut, que muito bem conhecem. Portanto, sinceramente, não me parece que o filho de Yevgeny Prigozhin seja uma escolha possível para chefiar o grupo Wagner. Mas isso é a minha opinião.

O Ministério da Defesa do Reino Unido diz que a Rússia enfrenta ameaças simultâneas no sul da Ucrânia. Que análise, ponto de situação faz do terreno nesta altura?

Não é preciso ser um grande especialista militar para perceber que a Crimeia e o sul da Ucrânia são instrumentos fundamentais no decurso das operações e naquilo que pode ser a luz ao fundo do túnel. O corte da continuidade da ponte terrestre que liga o Donbass à Crimeia é fundamental, porque permite dividir o dispositivo das forças russas no teatro de operações da Ucrânia em dois, e bater o inimigo por partes. E todos aqueles que ficarem para oeste correm o risco sério de ser privados de recursos Como Sun Tzu dizia: "Uma das formas de ganhar a guerra é privar o inimigo dos recursos". Isso é uma forte possibilidade se os ucranianos conseguirem avançar mais cerca de 15 a 18 km para sul, uma das artérias logísticas que permite levar os abastecimentos e tudo aquilo que as forças russas necessitam para combater, trazer de Rostov-on-Don para a frente sul, passa a ser flagelada diariamente pelos sistemas HIMARS e M270. Tudo aquilo que nós sabemos nos últimos tempos, a Crimeia tem sido flagelada praticamente diariamente, quer com drones, quer com mísseis Storm Shadow, quer com mísseis SCALP-EG franceses, a própria esquadra do Mar Negro. Tudo aquilo que são ações, fundamentalmente da Força Aérea Russa e outras ações, eram todas coordenadas a partir da Crimeia. E esta importância da Crimeia é fundamental. A Crimeia é naturalmente associada a todo o sul. Portanto, é decisivo neste momento, no contexto daquilo que pode ser o curso das operações, é fundamental tudo aquilo que vai acontecer a sul. Vou lhe dar um exemplo. No dia em que a Alemanha acabar, e vai acontecer mais dia, menos dia, acabar por fornecer os mísseis Taurus que foram prometidos, nós podemos contar os dias que a Ponte Kerch vai continuar a funcionar, porque isto são mísseis que têm alcance suficiente para lá chegar e são mísseis que foram concebidos para atacar alvos como pontes, como bunkers fortemente entrincheirados ou fortemente protegidos. É um míssil que, além de ser capaz de se deslocar a 15 metros do solo a velocidades da ordem dos 900 km/h, é stealth, é praticamente invisível aos radares e naturalmente que terá as consequências que a gente sabe. Portanto, cortando as duas artérias de abastecimento logístico fundamentais, que é a Ponte Kerch e a M4, que vem de Rostov-on-Don, passa por Mariupol, ainda no Oblast de Donetsk, transita para o Oblast de Zaporizhzhia, para Berdyansk, Melitopol e depois segue para Kherson. A partir daí, o que vai acontecer é que a Rússia vai ter uma dificuldade tremenda em abastecer as suas tropas. Aliás, já está a ter neste momento. Não é por acaso que a Rússia está a investir recursos em modernizar ou em refazer a linha de caminho de ferro que vem do porto de Berdyansk, que ainda é um dos portos do mar de Azov, que ainda continua mais ou menos a funcionar, a recuperar a linha férrea que vem de Berdyansk até Tokmak. É fundamentalmente para fazer escoar o apoio logístico, que neste caso é transportado por grandes navios. Face à impossibilidade de utilizar quer a M4, quer hoje ou amanhã, a Ponte Kerch. Quando os britânicos olham para o sul da Ucrânia e classificam-no como decisivo naquilo que concerne ao futuro das operações, têm toda a razão. Eu também analiso da mesma maneira.

É este o ponto de situação que conseguimos fazer agora do terreno. Major-general Isidro Morais Pereira, obrigada pela sua análise, não só desta perspectiva daquilo que se está a passar no território ucraniano, mas também sobre o filho de Yevgeny Prigozhin, que pode vir a liderar o grupo Wagner. E ainda esta iniciativa inédita da União Europeia que esteve hoje em Kiev a mostrar que o apoio está de pedra e cal. O pacote de ajuda é de 5 mil milhões de euros para o próximo ano e mais virão. Também voltaremos a contar com o major-general Isidro Morais Pereira noutras ocasiões. Obrigada.

Muito obrigado eu.

Rádio Observador, Vila Nova de Gaia, 88.1