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Falhou, terminou sem acordo a negociação direta entre Estados Unidos e Irão, sob mediação do Paquistão. O desfecho foi conhecido ainda desta madrugada. O vice-presidente dos Estados Unidos, J. D. Vance, explica que um dos temas que impossibilitou o entendimento foi a questão nuclear. Já o chefe da diplomacia iraniana afirma que dificilmente seria possível chegar a um acordo apenas num dia de negociação. É tema central deste gabinete de guerra e a nossa convidada Madalena Mayer Resende, investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais, professora associada na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Bem-vinda, professora. E agora? Aparentemente, não ficou agendada uma nova ronda negocial. Este desfecho abre caminho à continuação das hostilidades?
Não, penso que não. Penso que este cessar-fogo irá continuar. Penso que isto foi realmente o fim da guerra. Aliás, quando a guerra começou, Donald Trump anunciou que iria durar cerca de seis a oito semanas. Foi mais ou menos isso o que aconteceu. E agora, de facto, o que está em cima da mesa é a negociação entre estas duas potências, com este enquadramento regional que de facto também é novo, e não era expectável que em 24 horas se chegasse a algum entendimento, uma vez que as duas partes estavam muito distantes uma da outra. A questão, obviamente, da concepção de uma forma dos ocidentais fazerem a sua inspeção mais profunda da questão nuclear no Irão é decisiva. Portanto, o que está aqui em causa é encontrar um quadro em que isso seja possível. Mas eu diria que o facto de eles estarem à mesa a tão alto nível já é, em si, muito revelador do resultado desta guerra e da vontade de continuar com estas negociações.
A senhora professora fazia referência ao programa nuclear. O New York Times escreve que o que impediu este acordo foi a recusa de Irão de entregar cerca de 400 quilos de urânio altamente enriquecido, a abertura plena do Estreito de Ormuz e a exigência de Teerão de desbloquear os $ 27 bilhões iranianos congelados na sequência das sanções internacionais aplicadas ao Irão. São questões ultrapassáveis? Acha que será possível chegar a um entendimento por parte de Teerão e particularmente em relação às exigências dos Estados Unidos quanto ao programa nuclear? São exigências aceitáveis por parte de Teerão?
Eu penso que a questão nuclear, que esteve na base de todo este conflito há várias décadas, continua a ser a questão de fundo. Agora, o que está em cima da mesa de forma mais urgente é, obviamente, a reabertura do Estreito de Ormuz. E aí vimos já ontem um avanço no sentido em que dois navios de guerra dos Estados Unidos atravessaram o estreito. E o que está em cima da mesa, de facto, também é encontrar uma fórmula de reabertura do Estreito de Ormuz, em que os Estados Unidos, apoiados com as potências asiáticas e as potências europeias que dependem do fluxo energético que vem do Golfo, se juntem nesta tarefa de manter aberta a navegação no Estreito de Ormuz. Penso que isso está no centro das negociações. Aqui a força vai também, mais uma vez, ter impacto no resultado final e talvez mais eloquente do que o fim desta ronda é a passagem dos dois navios pelo estreito e o envio de mais forças militares por parte dos Estados Unidos para a região para manter a pressão sobre o Irão. Portanto, obviamente, a questão nuclear é a que vai demorar mais tempo a ser resolvida, penso eu. Mais urgente é esta abertura, que, como sabemos, tem efeitos muito importantes na economia mundial.
Que tem sido usado como arma de guerra por parte de Teerão. No final deste encontro, o vice-presidente dos Estados Unidos, J. D. Vance, disse que o regime de Teerão tem mais a perder com a ausência de um acordo do que propriamente os Estados Unidos. É de facto assim?
Não, neste momento, os Estados Unidos também têm um objetivo central de reabertura do Estreito, que é importante. Provavelmente, não vão ceder de forma muito profunda às exigências dos 10 pontos de Teerão. E, portanto, essa negociação vai ser, com certeza, uma negociação mais longa, mas obviamente os Estados Unidos têm todo o interesse em restabelecer a navegação e retirarem os benefícios do investimento militar que tiveram na região e que vai continuar a ser provavelmente muito intenso, apesar da guerra, das hostilidades terem acabado, mas marcaram de forma muito efetiva a sua nova posição na região ao entrarem numa guerra com Israel contra o Irão. Isso é o dado que agora está a mudar as dinâmicas diplomáticas No Golfo e a criação de novas alianças, nomeadamente Paquistão, Arábia Saudita, Turquia, e que permitem aos Estados Unidos, mais uma vez, reescrever um pouco a sua política no Médio Oriente.
Professora, hoje é também dia de eleições na Hungria, um tema que está a marcar este domingo. A maioria das sondagens aponta para a vitória de Péter Magyar, de centro-direita. A confirmar se significa o fim da dinastia de 16 anos de Viktor Orbán como primeiro-ministro. E será que significa também, professora, uma mudança nas relações de Budapeste com a União Europeia? Péter Magyar é um europeísta?
Enfim, o Péter Magyar não tem propriamente um discurso menos nacionalista do que Viktor Orbán, isso é verdade. Isso também demonstra a maneira como Orbán mudou, de certa maneira, a retórica e todo o discurso político na Hungria. Mas é verdade que o que é importante aqui será o fim do regime de Orbán, de 16 anos no poder, da sua deriva autoritária, da construção de uma autocracia, apesar de ser competitiva eleitoralmente, mas, de facto, o controle do Estado por um partido e pelos seus eleitorais, e a haver essa mudança, que não é de todo certa, o que interessa aqui é que a Europa consegue vislumbrar um fim a esta experiência que põe em causa os seus princípios fundamentais de democracia e de Estado de Direito. E também, de certa maneira, faz com que se torne claro que as suas posições, no sentido de retirar os fundos importantes, 16 mil milhões de fundos que têm sido retidos e que a Hungria não tem podido usar e que provocaram também uma crise económica, está a ter resultados e que a Europa está, de certa maneira, a resistir a esta onda de populismo autocrata. E, portanto, Magyar pode não vir a ser o europeísta mais convicto, mas irá, com certeza, mudar de forma muito clara as relações de Budapeste com a União Europeia.
Se bem percebi, a senhora professora não dá como certa a derrota de Viktor Orbán neste ato eleitoral.
Provavelmente, no ato eleitoral poderá ser derrotado, mas outra coisa bastante diferente é depois conseguir traduzir isso em assentos no Parlamento e traduzir depois isso também num governo que seja capaz de governar e desfazer todo o aparato estatal que Viktor Orbán construiu, e institucional, e que torna muito difícil a reversão do seu regime e da forma como ele veio a reorganizar toda a economia e a sociedade húngara a favor do seu regime. Portanto, é provável que haja uma derrota eleitoral, mas a questão é a magnitude desta, se chega a uma maioria absoluta e depois a dois terços que sejam capazes de reverter as mudanças constitucionais que Orbán fez e que sejam capazes também de, mais uma vez, restaurar o Estado de Direito e uma economia de mercado, de facto, mais justa para todos os húngaros. Portanto, eu acho que talvez a vitória eleitoral seja a parte mais fácil, apesar de também não ser certa em termos absolutos.
E também por isso Péter Magyar ainda ontem apelava uma vitória que permita uma representação parlamentar de dois terços, precisamente para ter esse peso que permita desfazer algumas das mudanças na arquitetura do regime húngaro. A confirmarem-se as sondagens e a vitória de Péter Magyar, o que em sua opinião motiva este desejo de mudança de governo? Esta questão das relações com a União Europeia tem algum peso no eleitorado?
Tem algum peso. Enfim, a questão dos fundos tem, com certeza, bastante peso. Os resultados do fim destes fundos têm sido, em conjunto com outros fatores, com certeza, uma crise económica que os húngaros sentem bastante nos seus bolsos, e esta profunda corrupção do Estado húngaro, que tem vindo a ser aprofundada ao longo dos últimos 16 anos, mas que se torna mais inaceitável perante um declínio da capacidade económica dos húngaros. E, portanto, o aparecimento deste político que vem da família política que era um próximo até de Viktor Orbán, Péter Magyar, para além do seu carisma pessoal e da sua capacidade de vencer Orbán nos próprios argumentos que ele usa, vem também, de certa maneira, personificar o sentimento dos húngaros de traição em relação do seu líder, que tem enriquecido os seus e toda uma máquina partidária à volta do seu clã, e que os húngaros sentem como profundamente injusta e que querem a todo o custo, aparentemente, reverter. E, portanto, penso que esta situação de descontentamento geral, que já se fazia sentir em certas partes da população desde a última eleição, se tem vindo a alargar a novos grupos sociais e foi muito efetivamente canalizada por este novo líder político, que pela sua forma direta de campanha eleitoral e de apelo aos húngaros, tem sido capaz de bater o próprio Viktor Orbán no gênero do discurso populista que ele inventou, de certa maneira.
Vamos ver se as sondagens se confirmam e como a senhora professora aqui põe em evidência qual a dimensão da vitória de Péter Magyar. Professora Madalena Mareiro Resende, muito obrigado por ter estado conosco na análise a estes dois temas que vão marcando este domingo, o desfecho das negociações diretas entre Estados Unidos e Irão, que terminou sem entendimento, e também este ato eleitoral na Hungria, que pode ditar o afastamento de Viktor Orbán.