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Temos mais um encontro do Gabinete de Guerra aqui na tarde em direto, hoje com o Coronel Carlos Mendes Dias, a juntar-se aos nossos membros residentes, Judite França, Bruno Vieira Amaral e Vanessa Cruz. Vanessa, Volodymyr Zelensky apresentou oficialmente o novo Ministro da Defesa da Ucrânia, isto num dia em que os deputados da União Europeia deixaram críticas à NATO.

Deixaram essas críticas e vou pegar já nessa deixa, Coronel Carlos Mendes Dias. Temos críticas às declarações de Jens Stoltenberg sobre a guerra na Ucrânia. Há eurodeputados que dizem que não é verdade que a Ucrânia esteja a fazer assim tantos progressos e que há falta de atenção da NATO a outras partes do planeta também em conflito. Há um desequilíbrio na atuação da Aliança Atlântica?

Sim, objetivamente, sim. Mas deixe-me dizer que essa questão da demissão, embora obviamente havia que encontrar o momento, não era o momento ideal, e embora o seu Ministro da Defesa não fosse individualmente acusado, o próprio ministério que estava em causa. Eu recordaria apenas aqui que, para além da questão dos uniformes, já se falava em comissões exageradas quando se dava a importação de munições, também quando se dava a importação de produtos alimentares, também quando se dava a importação de material médico e, portanto, seria quase incontornável esta ideia associada à corrupção. E depois, por outro lado, mais recentemente, os deputados reativaram a tal declaração de ativos que é preciso apresentar, mas adiaram esta implementação um ano. Aliás, era preciso haver esta declaração para que o FMI pudesse libertar parte da verba relativa a uma ajuda económica de cerca de 14,5 bilhões de euros. Mas quer dizer, isto obviamente que não só tem impacto nas opiniões públicas, mas também nos líderes políticos parceiros, quer pertençam à aliança, quer não, no apoio à Ucrânia. E aliás, foi esse um dos assuntos, eu já o disse num órgão de comunicação social, que Blinken foi tratar, ou pelo menos foi manifestar preocupação ao senhor presidente Zelensky. Nós jogamos às vezes um pouco com as palavras. E também estamos um bocadinho a jogar com as palavras do secretário-geral da NATO, que como sabem, tenho verbalizado várias vezes, às vezes foi um bocadinho imprudente naquilo que diz contrariando a própria ação dos países que pertencem à NATO e é pela NATO que ele responde e não pelos países. Repare, quando Blinken foi a Kiev, vários comentadores e outras pessoas disseram que Blinken teria dito que de fato havia avanços significativos que era preciso continuar. Não. A palavra de Blinken foi avanços encorajadores, que significa tanto sim como não, o que demonstra uma certa prudência. E relativamente às preocupações da NATO, a NATO tem uma área de atuação estabelecida no seu conceito. A área de atuação é no Atlântico Norte, objetivamente, não é em África nem noutros sítios, e portanto, essa preocupação de estar a colocar mais de parte outro tipo de conflitualidade por apoio à Ucrânia, julgo que até acaba por ser um pouco injusto, ou pelo menos não vislumbro objetivamente o que se quer dizer. Agora, há uma razão. Há razão na crítica, no sentido em que, objetivamente, e vou lançar o dado, já há quase 100 dias da designada contraofensiva, e há, de facto, avanços ucranianos, nos sítios que nós já conhecemos, em Robotyne, Verbove, mas que são avanços de 5 km e avanços na frente de Velyka Novosilka, tudo na frente de Zaporizhzhia, mas eu vou dizer mais a leste, avanços de 11 km, para além das pequenas perdas que teve no norte. Mas quer dizer, esses são os dados objetivos e, portanto, não são esses grandes avanços. Houve avanços, mas não são esses grandes avanços. Agora a NATO estar a colocar de lado outras áreas, como NATO, não é outro tipo de organização, porque nós sabemos que há mais de 100 conflitos no mundo, 100 conflitos militares. Relativamente à NATO, não vejo como. Quer dizer, podíamos esperar na última semana ainda um maior reforço do flanco leste, mas é preciso haver meios para isso. E, portanto, onde está a NATO, não vejo a colocação de parte das preocupações da NATO com outras áreas de conflitualidade. E mais uma vez, recordo, e mesmo o artigo quinto, que evoca o tal ataque armado é considerado o ataque a todos os membros, são ataques que ocorrem na Europa ou na América do Norte. É isto que diz o tratado. Portanto, a todos alargarem isto a outros espaços, parece-me abusivo e vai mesmo contra o Tratado de Washington.

Coronel Carlos Mendes Dias, há críticas também que têm intenção política, críticas feitas por Jens Stoltenberg, por exemplo, em relação à estratégia da China. O plano de paz de Pequim, por exemplo, foi classificado por Stoltenberg como tendo falta de credibilidade. Está a ser menosprezado o papel e o poder da China?

Não, eu julgo que não. Eu julgo que não e obviamente até é de senso comum. E julgo até que isso é mais uma afirmação pouco feliz do senhor secretário-geral da NATO, que não tem que ver diretamente com este assunto, porque mais uma vez representa uma aliança militar, com determinadas finalidades. E, portanto, é desses assuntos que eu penso que o senhor secretário-geral da NATO deveria ser mais discreto, embora possam ser tratados, obviamente, no segredo dos gabinetes, porque há sempre associações que se possam estabelecer. Não é só o plano de paz da China. Todos os planos de paz, com exceção, obviamente Desse caminho para a paz promovido pelo seu presidente Zelensky e pela Ucrânia, que é o país que representa, e pela Federação Russa, com exceção desses dois, que são mais objetivos. Os outros planos de paz não são bem planos. E o plano chinês também tem, do meu ponto de vista, mais essa fragilidade. Isto é, por exemplo, a China julga que duas grandes potências não devem andar em conflito militar. Consta no plano. A China é respeitadora da integridade territorial e soberania política de todos os países do mundo. Consta no plano. A China coloca de lado o uso de todo e qualquer tipo de armamento nuclear. Consta no plano. A China diz que os grandes corredores comerciais que propiciam o funcionamento das cadeias de fornecimento não devem ser afetadas por qualquer conflito. Consta no plano. Ora, vamos lá ver. Certo, todos nós concordamos com isto, mas o âmago da questão não é isto. E o mesmo se passa com o plano de paz apresentado pelos países africanos. O que está em causa, verdadeiramente, no plano de paz, é um outro lado ou o outro lado ceder. Toda gente sabe da minha opinião, e a minha opinião é que a Ucrânia deve manter a sua integridade territorial, que não haja dúvidas sobre isto. É o seguinte, é que um lado diz que só começa a negociar quando o outro sair. E o outro diz que só começa a negociar quando o primeiro reconhecer as novas realidades territoriais. Este é que é o âmago da questão. E, por conseguinte, os planos de paz que não caminhem nesse sentido com maior objetividade, eu vou chamar assim, são mais roteiros para a paz do que planos de paz. E, portanto, se isso significa credibilidade ou não, se isso significa credibilidade, todos os caminhos ou todos os chamados planos de paz até agora, do nosso conhecimento, carecem de credibilidade e não só os chineses. Se, de facto, não é isto o entendimento de credibilidade, o senhor secretário-geral da NATO devia estar calado sobre estas matérias, obviamente, porque não é do seu foro.

Vamos agora ao novo ministro da Defesa da Ucrânia. Já aqui temos falado no Gabinete de Guerra sobre Rustem Umerov. Hoje voltamos a ele. Já prometeu tolerância zero contra a corrupção. De resto, Volodymyr Zelensky logo avisou que o mais importante é, de facto, a transparência e a confiança. É desta, senhor general, que isto pode correr bem?

Sim, não há hipótese. Se há um ministro que é colocado de parte pelas razões de desconfiança relativamente à corrupção, a designação de outro ministro por parte do Parlamento ucraniano, por indicação do seu presidente Zelensky, obviamente que não tem outra solução. Até tenho algum prurido em utilizar a palavra solução, não é? Porque todos eles deviam ser movidos à corrupção. E nós parece que já estamos a encarar como normalidade. Não, é para acabar com ela. Obviamente, isto associa-se com os critérios de adesão à NATO, os critérios de adesão à União Europeia, etc. Mas foi para acabar com ela que foi designado o novo ministro. Eu julgo que o mais importante, desse ponto de vista, é a questão de ser um tártaro da Crimeia, e há aqui uma associação com memória histórica e das dificuldades dos tártaros quando Catarina II, do tempo do Império Russo, vem para a Crimeia ocupar a Crimeia. Dá até possibilidade de escolha aos tártaros, mas a maior parte deles não acredita nas palavras de Catarina II e grande parte foge para a Turquia, depois há a deportação dos tártaros por parte de Stalin, etc. Julgo que há aqui esta mensagem que pode ser vista mais indireta, porque relativamente à corrupção, à mensagem e à atuação do novo ministro, não há dúvidas. Se souber, acaba para não haver mais, porque se isto não acontecer, é tão só a palavra de quem é nomeado, mas também a palavra que contribuiu para a nomeação, que são colocadas em causa e, portanto, a credibilidade internacional perde-se. Pese embora, e peço desculpa por isto, não estamos no mundo de anjinhos e todos nós sabemos muitas vezes algumas flexibilizações menos curiais e menos éticas que às vezes têm que ser feitas, mas no conjunto a mensagem é direta. Portanto, o seu presidente Zelensky não podia sustentar mais o anterior ministro da Defesa e fez o que tinha a fazer.

A França, entretanto, entregou 150 drones Delair à Ucrânia, escolhidos por Kiev. O país tem feito progressos nesta estratégia de guerra. Esta quantidade e este tipo de drones vão permitir um maior controle do espaço aéreo ucraniano?

Não, o controle do espaço aéreo entendido em sentido lato, não. Vão é permitir uma maior utilização do espaço aéreo e o gastar pelo empenhamento da arma anti do outro lado, seja míssil, seja sistema canhão, para, no fundo, tentar atingir esses drones. Os drones, é uma evidência também que têm desempenhado um papel importante e para além de levar a guerra a outros sítios, em primeiro lugar, sem custos de natureza humana para quem os utiliza, porque pode ter custos de natureza humana para os outros, isto é a guerra. E depois tem permitido outra situação, que é, de facto, muitas vezes, nós dizemos drones de grande alcance, e alguns sim, é verdade. E o setor privado ucraniano Graças ao empreendedorismo, a sua engenharia adaptada tem permitido este movimento dos drones. E é por isso que a Federação Russa anuncia que até agora já destruiu 6467 drones, para termos uma ideia do que está. Mas o advento do drone também permitiu outra coisa: permite levar a guerra à irregularidade com menos custos. O que eu pretendo dizer? À guerra feita na Rússia por grupos que estão na Rússia, de operações especiais, ou não sendo militares, são grupos de natureza irregular e que no quadro da Rússia, ou no quadro do espaço russo, utilizam o drone a 100, 120, 130 km para atacar bases logísticas, aeronaves, como foram em recentes casos, etc. Que nós extrapolamos logo como alcance dos drones, mas efetivamente não é isso. Portanto, quer é que os drones de pequeno alcance e na capacidade que a Ucrânia vem demonstrando em colocá-los do lado dos grupos irregulares que estão a atuar na Rússia, em primeiro lugar. E em segundo lugar, a mesma capacidade quando recebe, por exemplo, 100 drones por mês australianos e coloca-os também nos grupos irregulares que estão a atuar na Rússia, porque são drones de 100, 120 km e a grandes distâncias, Moscovo, etc, são drones que não têm esse alcance, porque nas zonas fronteiriças, como é óbvio, e estou a falar destes drones, é muito difícil. Terceira questão: a importância que muitos desses drones têm nos baixos escalões, isto é, são drones de reconhecimento. Reparem, um pelotão, uma pequena unidade de carros de combate, tem o drone na frente, o drone reconhece as posições inimigas, coordenadas, obviamente, não só para a unidade, mas para o sistema de artilharia e, portanto, vai limpando ou procurando, quer com o sistema de artilharia, quer depois com outro drone, eu vou chamar drone de combate, procurando limpar, passo as aspas, terreno à frente. Isto não é exclusivo ucraniano nesta segunda parte. A Rússia tem utilizado isto muito a norte com os drones Orlan, esses de reconhecimento, e os drones de combate, os Lancer, até esgotar o seu stock. Ainda não está esgotado, mas obviamente corre-se riscos. Enquanto a Ucrânia, neste tipo de empreendedorismo de setor privado, de facto, está muito efervescente e já tinha alguma superioridade antes da guerra relativamente ao drone. E eu recordaria que é tão importante que a Ucrânia, para o desenvolvimento desses drones, alocou este ano 1 bilhão de dólares para desenvolvimento e emprego dos drones.

Coronel Carlos Mendes Dias, tínhamos aqui ainda um último ponto na nossa ordem de trabalhos para hoje. É o segundo dia da visita do secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, à Ucrânia. Já falou dele também aqui hoje no "Gabinete de Guerra". É a terceira vez que vai ao território desde que o conflito começou. E o dia de hoje fica marcado pela presença na guarda fronteiriça ucraniana e por esse anúncio, já foi ontem, mas claro que está a marcar também o dia de hoje, do fornecimento das munições de urânio empobrecido. É um armamento que causa bastante controvérsia. Qual é que é a posição do Coronel Carlos Mendes Dias sobre isto?

A questão do urânio empobrecido eu vou chamar uma questão tão velha quanto nova. A justificação do urânio empobrecido, ou das munições do urânio empobrecido, não pode ser graças àqueles comentários do gênero: "bem, os russos utilizam também e utilizam termobárica, portanto, eu também utilizo o que tenho" e outras coisas do gênero. Se é escavar um fosso, é um fosso para a barbárie. E ainda mais, acaba por ser um fosso que às vezes pode se confrontar com o direito. E portanto, eu recordaria que mesmo o exercício da legítima defesa, e é nesse exercício que a Ucrânia e seus parceiros estão a exercer, existe, porque a legítima defesa pode ser legítima defesa alheia feita por outros. Este exercício tem uma componente objetiva, e esta componente objetiva é que essa resposta tem que estar enquadrada ou tem que estar recortada pelo princípio da proporcionalidade. E esta é que é a ideia fundamental. E, portanto, se alegamos o direito para tudo, deixem-me alegar também o direito para isto. E desse ponto de vista, do critério da proporcionalidade, estou de acordo. Agora, não podemos é também dizer pelo fato de eu comer peixe como tal pesado, que agora devo sujeitar os outros ao urânio empobrecido. Isto é uma conversa barbárie. Dito isto, o urânio empobrecido são projéteis perfurantes, e eu vou falar rapidinho, que são eficazes contra os carros de combate e outros veículos blindados. Isto é, eles têm uma densidade maior até que o chumbo e até aquecem muito. E é por isso que perfuram com maior facilidade. A exposição do corpo humano à radioatividade é quase nula. Por quê? Porque o urânio empobrecido é um isótopo, urânio 235, que é o enriquecido, e o 238, que é empobrecido. Isótopo quer dizer que tem o mesmo número de protões, o mesmo número atômico, estão na mesma posição na tabela periódica, têm o número de massa diferente, protões mais neutrões, e, portanto, têm o número de neutrões diferentes, o que significa que o urânio emite principalmente, julgo eu, partículas alfa, e essas partículas alfa não têm energia para atravessar a pele. De qualquer maneira, é perigoso, como o outro, se inalado ou digerido. E aqui que pode haver algumas questões De acordo com a ONU, julgo que é o Instituto de Pesquisa e Desarmamento, estas munições não são consideradas armas nucleares, não correspondem à sua definição legal. E à altura, discutimos isto, estou a recordá-lo agora, a propósito dos carros de combate Challenger 2 britânicos, o Ministério da Defesa britânico é que diz que a maior parte dos estudos refere que não tinha impacto na saúde da maioria das pessoas, ou melhor, tinha impacto, mas muito provavelmente baixo. Portanto, a minha opinião, conjugando isto tudo, é que sim. E também julgo, e aqui vou especular um bocadinho, que a Rússia também tem estado a utilizar, mas isto, por favor, é mais uma opinião e, portanto, isso na cautela. Há uns sinais ou outros, mas eu não tenho a certeza disto e portanto peço a vossa compreensão. Mas é isso que se passa com as munições de urânio empobrecido. Só inaladas ou digerido e feito, as partículas é que nos pode causar algum dano. E, por conseguinte, qualquer dano é de nós aligeirarmos, mas é isto que se passa. No conjunto, no meu ponto de vista, se ponderarmos o todo, eu não estou contra a utilização deste tipo de munições, este particular tipo de munições.

Já ajudou muito aqui a compreender este tipo de armamento, coronel Carlos Mendes Dias, aqui também com análises sobre o novo ministro da Defesa da Ucrânia e outros pontos neste Gabinete de Guerra, que vai ficar disponível em podcast já daqui a pouco. Obrigada, coronel Carlos Mendes Dias. Até à próxima.

Muito obrigado eu, Irma. Boa tarde.

Rádio Observador.