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Gabinete de Guerra, Rádio Observador. Neste programa de segunda a sexta, duas vezes por dia, fazemos habitualmente a análise aos conflitos em curso, ora na Ucrânia, ora no Médio Oriente e em outras partes do globo. Mas hoje vamos detalhar também a vida e obra do Papa Francisco e o impacto que teve também na mediação de conflitos, na mensagem, na palavra que foi tendo sempre sobre os diferentes conflitos, não só na Ucrânia, nem no Médio Oriente, nas diferentes partes do globo. Conosco está em linha Bruno Cardoso Reis, colunista do Observador, é historiador. Bruno, muito boa tarde. Obrigado por mais esta participação no Gabinete de Guerra. De fato, o Papa Francisco nunca se escondeu, nunca evitou falar sobre os conflitos e ter sempre uma mensagem de paz, de luta pela paz. Sempre que tinha a oportunidade de falar e de fazer essas comunicações, deixar esse apelo à paz.
Sim, um dos primeiros temas que eu trabalhei, aliás, na minha investigação, foi precisamente a questão da diplomacia do Vaticano em relação a Portugal, mas também a outros países. Mas há realmente muito essa tradição dos papas como mediadores de conflitos ou como defensores da paz. Podemos pensar no Bento XV, por exemplo, na Primeira Guerra Mundial, que fez uma série de esforços para realmente pôr fim ao conflito, apelos à paz, esforços para facilitar a troca de prisioneiros e também, no fundo, a troca de informação sobre prisioneiros entre os dois lados do conflito. Mas, portanto, essa é uma longa tradição. No caso do Papa Francisco, falámos dele aqui algumas vezes, sobretudo em relação à Ucrânia, mas mesmo em relação a Gaza. Enfim, às vezes com alguma controvérsia, que também acontece muitas vezes com estes apelos à paz. Lá está, aconteceu também, por exemplo, nestes apelos do Bento XV durante a Primeira Guerra Mundial, ou depois do Pio XII na Segunda Guerra, que é esta ideia de que muitas vezes há a ideia de que o Papa devia tomar posição em favor de um determinado lado, em nome da justiça, de uma guerra justa, e não propriamente tomar uma posição mais imparcial, de simples apelo à paz, porque a ideia de que a paz também não pode ser feita a qualquer preço. Mas no fundo é muito essa a mensagem tradicional do Papa e como eu também aqui referi várias vezes, por exemplo, em relação aos apelos relativamente à Ucrânia, parecia-me, apesar de tudo, mais positivo ter um grande líder religioso como o Papa Francisco, de facto a apelar à paz, em vez de ter, como por exemplo, é o caso do patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, no fundo alguém a apelar à guerra, a defender a guerra, a promover a guerra, a tentar dar uma legitimação religiosa, nesse caso, ainda por cima a uma guerra de agressão, no caso da Rússia contra a Ucrânia. Também sabemos que, por exemplo, nesse caso, de facto, esses apelos não foram eficazes. Havia também um pouco esta ideia, que eu penso que faz algum sentido, que o Papa Francisco, por exemplo, ao contrário do seu antecessor, Bento XVI, tinha aqui algumas diferenças. Por um lado, não tinha o histórico de ser um grande pensador teológico como Bento XVI. Também não tinha a habilidade diplomática, sobretudo do Papa João Paulo II, mas mesmo Bento XVI. Era alguém que tinha uma visão muito mais profética da função do Papa, no fundo, alguém a quem cabe fazer este tipo de apelos, mais do que propriamente ter aqui uma função muito ativa de mediação de conflito muito detalhada. Apesar de tudo, ele realmente depois acabou por optar por nomear, aliás, alguém que aparece agora na lista de possíveis sucessores do Papa Francisco, também poderemos eventualmente falar disso, que é o Cardeal Matteo Zuppi, que era uma espécie de enviado especial para estas missões de paz, inclusive na Ucrânia. Enfim, sabemos que realmente o Papa também não teve sucesso com esse modelo, mas a verdade é que mais ninguém teve. Portanto, como eu também tenho referido em relação à Ucrânia, é um contexto em que uma vitória militar é muito difícil, mas uma verdadeira paz também é muito difícil, sobretudo porque de um dos lados, do lado da Rússia, é difícil ver alguma boa fé nesse tipo de processos.
A posição de líderes religiosos em tempos de conflito é sempre importante, até porque muitos conflitos começam precisamente por diferenças religiosas, por discussões em torno da fé e em torno das religiões. O Papa Francisco, tanto na questão do Médio Oriente como na questão da Ucrânia, mas principalmente a ter um papel de apontar o foco, apontar também, de certa forma, aquilo que é a preocupação da comunicação social para outros conflitos, nunca esquecendo conflitos, por exemplo, como existem em África, a tentar manter sempre esses conflitos também naquilo que é a bolha mediática, podemos dizer assim.
Sim, o Papa Francisco é o primeiro papa que vem de fora da Europa. Vem da Argentina, como sabemos, mas é o primeiro papa, pelo menos na história, que não seja a história ainda no período da Antiguidade. Mas há muitos e muitos séculos, se quisermos, que vem de fora da Europa. E, portanto, ele tinha muito também a consciência desse papel, no fundo, de aparecer um pouco como a voz, muitas vezes, de zonas mais periféricas, mais esquecidas, e levava realmente esse papel muito a sério Inclusive nesta questão dos conflitos armados, historicamente acontece muitas vezes também que a religião aparece como um pretexto nesses conflitos. Se calhar mais vezes do que como a razão de fundo. Mas muitas vezes, realmente, as religiões são usadas para mobilizar, se quisermos, tropas, mobilizar pessoas para um conflito, para tentar legitimar esse conflito. E, desse ponto de vista, é importante que, pelo menos há mais de um século que na Igreja Católica há essa prioridade, uma mensagem de paz e procurar ter mais esta função de mediação, denúncia de injustiças, procurar ajudar as pessoas que são vítimas dos conflitos armados, em que há sempre muitas vítimas civis, aliás, cada vez mais, à medida que foi avançando o século XX, muitos refugiados, muitos prisioneiros de guerra, etc. E, portanto, realmente, o Papa Francisco teve um papel importante e como referias, de facto, muitas vezes chamando a atenção para conflitos esquecidos, que também às vezes procuramos falar aqui, aqueles que têm um impacto brutal em termos humanitários, mas muitas vezes, porque não envolvem grandes potências, porque são em zonas mais distantes, mais periféricas, menos relevantes.
Porque há menos acesso também da imprensa a esses conflitos?
Exatamente. Conflitos como já falamos aqui várias vezes, do Sudão, da guerra civil no Mianmar, por exemplo, toda a enorme violência, por exemplo, que tem sido vítima o Haiti, etc. Portanto, são realmente conflitos a que muitas vezes o Papa Francisco foi fazendo referência.
De facto, sendo aqui uma figura transversal, mesmo entre os diferentes conflitos, hoje vimos reações quer de Zelensky, quer de Vladimir Putin. Logo dos primeiros a reagir, Zelensky recordou momentos em que Francisco rezou pela paz em Kiev. Coloca-se também ao lado dos católicos em luto, Zelensky, recorda uma vida dedicada a Deus, às pessoas e à Igreja. Quem reagiu também foi Vladimir Putin, o líder da Rússia recorda Francisco como um homem notável, de quem vai guardar a memória mais brilhante. Isto é uma reação de Vladimir Putin. Esta capacidade, de facto, de unir polos completamente distantes no meio de um conflito também é importante e perceber se, de facto, o conflito pode entrar aqui numa pausa, tecnicamente se isto pode acontecer, por causa da morte do Papa Francisco durante algum período.
Acho isso pouco provável. Há esta característica, que é um pouquinho também o que define o poder, se quisermos, do Papado, da Santa Sé, é que realmente é, em termos territoriais, o Estado mais pequeno do mundo, é uma pequena enclave. A Cidade-Estado do Vaticano é uma pequena enclave no meio da cidade de Roma. Mas apesar de haver aquela famosa frase atribuída ao Stalin: "Quantas divisões é que tem o Papa?" Quando estavam a dizer que havia que ter cuidado, por exemplo, no contexto da Segunda Guerra Mundial, com o que se fazia em Roma, para não haver uma reação hostil dos católicos. Mas a verdade é que a "União Soviética" do Stalin caiu, apesar de todas as divisões militares que tinha e o Papado continua aí, basicamente há 2000 anos e realmente tem esta dimensão. Ainda agora vimos, por exemplo, o vice-presidente J.D. Vance, por acaso até é católico, mas aconteceu com outros responsáveis americanos, que é alguém que costuma vir à Europa dar lições aos europeus, muitas vezes ser bastante crítico, no limite o insultuoso, e no fundo apesar de serem conhecidas as divergências dele, ter uma visão muito mais conservadora do catolicismo, fez questão de ser recebido pelo Papa e não foi para fazer críticas. Portanto, realmente é um pouco uma figura relativamente consensual, até porque apesar de tudo, a Igreja Católica continua a ser a confissão religiosa com mais pessoas a nível mundial, mais de mil milhões e, portanto, há muito esta ideia de que os líderes políticos, por regra, procuram pragmaticamente não ser vistos como hostis, pelo menos não abertamente, não publicamente em relação ao Vaticano. Agora, por que eu acho que no caso da Rússia e da Ucrânia não é muito provável? Porque realmente a Rússia, em particular, sempre resistiu muito a qualquer aproximação ao Vaticano. Vários papas procuraram isso, inclusive o próprio Francisco, que se ofereceu, aliás, para ir a Moscovo e a Kiev para tentar mediar o conflito e isso foi sempre recusado. E há aqui uma dimensão religiosa no regime russo de colagem à Igreja Ortodoxa Russa, que passa também por uma certa oposição a qualquer excessiva proximidade ao catolicismo. Mas enfim, vamos ver, pode ser que Putin veja aí alguma vantagem na sua imagem. No caso da Ucrânia, como sabemos, há uma componente também católica importante da população, que na parte ocidental da Ucrânia são os chamados uniatas, ou seja, é um daqueles exemplos de igrejas que têm ritos diferentes, ou seja, neste caso, ritos ortodoxos, mas que estão em comunhão, como se diz, com o Papa, ou seja, que no fundo, aceitaram subordinar-se ao Papa e portanto são uma corrente específica dentro do catolicismo.
Foi também por razões religiosas que foi anunciado no início deste fim de semana, ou seja, neste período de Páscoa, foi anunciada uma trégua, e aqui temos de utilizar aspas para definir trégua, mas foi anunciada essa trégua para o período da Páscoa, sendo que já hoje foi dito que já estavam a retomar as hostilidades entre Ucrânia e Rússia. Podemos de facto falar em trégua? O que podemos dizer sobre aquilo que aconteceu este fim de semana, este anúncio feito e aquilo que foi cumprido ou não durante os dias de Páscoa?
Infelizmente, parece ser mais um daqueles exemplos de um suposto cessar-fogo ou trégua anunciado unilateralmente pela Rússia, sem qualquer tipo de preparação ou coordenação, e que depois, na prática, ou parece ser uma manobra de propaganda e/ou eventualmente até de procurar algum tipo de impacto de mobilização das tropas ucranianas pra depois continuar o conflito como de costume. Ou seja, realmente não houve aqui nenhuma paragem no conflito, não houve realmente e efetivamente um cessar-fogo. E isto só mostra como era fundamental algo que não está a acontecer, mesmo no processo negocial, que é um cessar-fogo que implica uma negociação detalhada, cuidadosa, perceber-se exatamente como é que se vai parar o conflito, em que termos, de que forma é que se vai controlar essa cessação do conflito, quem é que vai monitorizar isso. Portanto, haver aqui um mediador ou mediadores que tenham a credibilidade e também a capacidade de fazer essa monitorização pra, no caso de haver violações, também se perceber exatamente de onde é que vêm e como travar isso rapidamente. Portanto, nada disso aconteceu neste caso e é mais um destes pseudo-cessar-fogo, neste caso com uma justificação religiosa que realmente é algo que Putin valoriza muito no seu regime há este processo de aproximação, de colagem à Igreja Ortodoxa Russa, tentativa de legitimação por via de um nacionalismo mais tradicionalista, também na dimensão religiosa.
Falando aqui do conflito do Oriente Médio, hoje há uma frase polêmica do ministro das Finanças em Israel. Diz o ministro Bezalel Smotrich que recuperar os reféns não é a coisa mais importante. Esta frase surgiu hoje numa entrevista a uma rádio: "Temos de dizer a verdade, trazer os reféns não é a coisa mais importante. É obviamente um objetivo muito importante, mas se queremos destruir o Hamas para que não aconteça outro 7 de outubro, precisamos de entender que não podemos ter uma situação em que o Hamas permaneça em Gaza." Como é que avalia esta frase do ministro das Finanças de Israel, que já teve respostas, familiares dos reféns criticaram este ministro, falam numa vergonha?
No fundo, é só dizer publicamente e de uma forma mais clara aquilo que já era bastante evidente e que aqui várias vezes comentamos, que há um setor, provavelmente a maioria do governo atual, até porque já vários ministros saíram, e também a oposição mais moderada, mas há um setor e claramente estes líderes, como Smotrich, dos partidos da direita mais radical, da extrema-direita israelita, que de facto, pra quem é bastante evidente que a prioridade é a continuação da guerra, que defenderam no passado e defendem processos de limpeza étnica, que acham que qualquer acordo com os palestinianos é um erro. E portanto, realmente a conclusão lógica disso é que a libertação de reféns não é prioridade, porque aquilo que temos visto é que basicamente todos os reféns que foram libertados com vida, foram libertados através dos dois acordos de cessar-fogo. E portanto, de facto, é essa a conclusão lógica, mas no fundo isso fica aqui bastante claro. O facto de isso ter ido publicamente, provavelmente quer dizer que o ministro está convencido que essa é a linha que está a prevalecer, que é possível defendê-la publicamente, ou seja, que a oposição dos familiares dos reféns e uma parte da sociedade israelita, precisamente com essa ideia, de que havia que dar prioridade a um acordo até para se conseguir a libertação dos reféns que ainda restam com vida, de facto não é a prioridade do atual governo israelita.
Mas chegar a essa situação de terminar ou garantir que o Hamas não continua na Faixa de Gaza, tem sido esse o desafio, ou pelo menos o objetivo apontado pelo governo israelita nesta fase, no ponto em que estamos e tendo ainda reféns sobre o controlo do Hamas, como é que está esse objetivo de Israel? Isso é de facto um objetivo real, algo concreto que pode ser definido como objetivo, que possa acontecer?
Sim. A questão aqui é, em termos militares, Israel tem conduzido com muita eficácia as suas operações, embora com mais eficácia em relação, por exemplo, ao Hezbollah do que em relação ao Hamas, porque tem muito melhores informações e também um objetivo mais realista, se quisermos. Neste caso, o objetivo é maximalista, é a completa eliminação do Hamas. Ora, isso é de facto muito difícil com este género de movimentos, que são movimentos muito enraizados, que se enraizaram, aliás, durante muitos anos, quando o Netanyahu tinha como prioridade combater a Fatah e a Autoridade Palestiniana e deu um pouco carta-branca ao Hamas pra ir governando Gaza, obviamente isso até ao 7 de outubro, mas portanto, isso deu tempo também ao Hamas pra se enraizar muito profundamente na região. A maior parte dos dados que temos apontam para haver aqui agora uma oportunidade pra cortar essa relação entre a população civil, quer por convicção, quer por medo, quer por necessidade, essa dependência em relação ao Hamas, que é crucial pro movimento, pra poder, por exemplo, compensar as perdas, conseguir novos recrutas, preparar eventualmente novos ataques a Israel. Portanto, no fundo, é dos manuais militares neste tipo de conflitos, a prioridade ser cortar a ligação entre estes movimentos armados e a população civil. E isso faz-se por via militar, mas também por via política, ou seja, era preciso haver aqui um processo político dando alternativas melhores e viáveis, realmente ao Hamas ser um movimento que controla e na prática governava a Faixa de Gaza. E portanto, isso é que parece continuar a faltar nesta linha dura, em que a única aposta parece ser sempre e apenas a dimensão militar. E portanto, desse ponto de vista, podemos ver aqui Israel mais uma vez a fazer aquilo que fez muitas vezes ao longo destas muitas décadas, que é ter grandes vitórias militares, mas depois não consegue transformar isso numa paz durável pra os israelitas, pra os palestinianos, pra a região, porque de facto não consegue transformar essa vitória militar numa vitória política. No passado, muitas vezes isso aconteceu porque não havia soluções políticas viáveis do outro lado, mas aqui parece bastante evidente que não há vontade de avançar nessa via por parte do governo Netanyahu.
Jornalador Bruno Cardoso Reis, em mais uma edição do Gabinete de Guerra na Rádio Observador, estamos de regresso amanhã.