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Gabinete de Guerra está com a Rádio Observador, no programa em que todos os dias falamos dos conflitos em curso, destaque para a Ucrânia e para o Medio Oriente, concretamente a Faixa de Gaza. Conosco está o Bruno Cardoso Reis, historiador. Eu sou o Miguel Cordeiro e vamos começar hoje pela Faixa de Gaza, até porque quase dois meses depois de ser interrompida a passagem da ajuda humanitária, hoje volta a entrar ajuda em Gaza, ajuda humanitária, comida, equipamento médico, tudo a chegar a Gaza, ainda de forma muito limitada, mas Israel já permitiu a entrada desta ajuda humanitária. Bruno, no meio de todo este caos, nesta situação importante para todas as pessoas que estão na Faixa de Gaza receber esta ajuda dois meses depois.

Sim, a situação humanitária estava realmente a tornar-se dramática e realmente falamos aqui disso várias vezes. Ou seja, começou a ter implicações na relação de Israel com alguns aliados próximos e nomeadamente na Europa, em que nem todos os países são aliados próximos de Israel, alguns são até críticos bastante acesos, mas mesmo países como a Grã-Bretanha, a Alemanha, começaram a mostrar grande incômodo, a fazer críticas e a ameaçar até com medidas contra o governo de Israel. E realmente a questão de base é sempre a mesma, ou seja, é verdade que Israel tem o direito a defender-se, é verdade que o Hamas é uma organização terrorista que não quer saber da população civil, que há de fato informações de que em muitos casos utiliza ou procura utilizar e condicionar a ajuda humanitária, apropriar-se parte dela, etc. Mas tudo isso, no fundo, remete para o mesmo ponto fundamental que é numa guerra, mesmo numa situação de legítima defesa, não vale tudo. A população civil não pode ser tratada da mesma forma que os combatentes armados e portanto, isso é uma regra básica da lei da guerra desde há muitos séculos e era fundamental realmente que Israel mostrasse que tinha alguma preocupação com salvaguardar as condições de vida da população civil, que já está aqui numa situação extremamente difícil há muito tempo e que foi piorando ainda nos últimos meses.

Acontece que enquanto a ajuda humanitária entra, ainda de forma limitada, também hoje há ordem para se retirarem todas as pessoas da zona norte da Faixa de Gaza para mais uma ofensiva de Israel. Portanto, apesar da entrada de ajuda humanitária, nada vai travar aquilo que Israel tem feito ainda neste território.

Sim, isso é uma questão distinta. Israel pode continuar a considerar que precisa de fazer ações militares. No fundo, como comentamos também, parece agora estar a apostar numa estratégia realmente de ocupação, enfim, voltar a ocupar Gaza, que foi abandonada pelo exército israelita e portanto ficou entregue às autoridades palestinianas de fato, que a partir de 2007 foram o Hamas, mas depois de um golpe também bastante violento contra os outros partidos palestinianos, em particular contra a OLP. Uma estratégia clássica convencional de ir ocupando sistematicamente o território, garantindo que não há elementos armados e depois manter lá uma presença. Agora, aquilo que falta nessa estratégia tradicional contra a insurreição, de contraguerrilha, de contra terrorismo, isso está nos manuais, é que ela precisa ter também uma dimensão política, ou seja, se não se conseguir separar o movimento armado da população, se a população ou pelo menos uma parte importante dela continuar a dar cobertura e a fornecer também novos recrutas, isso significa que o conflito se vai prolongar e é essa muitas vezes a experiência realmente em situações de guerra de guerrilha e realmente a situação é que o atual governo de Israel parece apostar sempre em soluções militares, ignorando o fato que Israel tem tido muitas vezes sucessos militares ao longo das últimas décadas, mas sem uma resposta política, o conflito não se tem resolvido. Continua a haver muitas vezes incidentes extremamente violentos, nomeadamente o 7 de outubro, vitimando também cidadãos de Israel. Portanto, do ponto de vista do próprio interesse de segurança de Israel, parece evidente que esta componente devia também existir e aliás, há muitos críticos na própria elite israelita, até no partido do próprio Netanyahu, o antigo ministro da Defesa demitiu-se por causa disso e vários chefes militares também de forma pouco típica, vieram colocar essa questão e entretanto alguns também saíram por causa disso.

Entretanto, há a situação dos funcionários da embaixada israelita em Washington que foram assassinados, mortos a tiro. Donald Trump falou logo em situação de antissemitismo. Netanyahu diz que já entrou em contato com os familiares das vítimas. Como é que vês este incidente e também aquilo que têm sido as reações dos principais líderes perante este incidente?

Ainda há poucas semanas eu estive nesta zona onde estão vários museus, também vários tribunais e basicamente a delegação do FBI aqui para a cidade fica literalmente na esquina desse museu. Por acaso não visitamos esse museu, mas visitamos um ao lado, o National Building Museum, que é aliás onde muitas vezes ocorrem os bailes presidenciais, aqueles que se chamam "Inaugural Posse" mas é uma zona extremamente central de Washington e basicamente é um ataque terrorista que por acaso acabou por atingir dois membros do staff, não são diplomatas, são membros do staff da Embaixada de Israel, mas podia ter atingido qualquer pessoa que tivesse ido a um evento naquele museu. Basicamente, é claramente um ato terrorista e é claramente um ato antissemita, que visa um museu que está ligado à comunidade judaica e que aparentemente, pelo que percebemos também as últimas informações, terá sido um ato isolado A pessoa terá evocado a luta palestiniana, a Intifada, como aparente justificação, mas obviamente isso não torna este ato menos um ato terrorista, nem menos antissemita. Ou seja, esta ideia de que toda a população judaica ou qualquer evento ou qualquer instituição judaica automaticamente está associada ao governo de Israel, ao que está a acontecer na Palestina, realmente não é outra coisa senão um preconceito racista, que não é validado pelos factos. Há muitos judeus aqui nos Estados Unidos que não concordam com o que está a acontecer ou têm críticas a certos aspetos, concordando com outros. E mais uma vez, mesmo aqueles que concordam com o que está a acontecer, à partida isso não justifica serem mortos a sangue frio. Portanto, se nós achamos que os civis na Palestina não podem ser visados quando o alvo devia ser o Hamas, aqui também não podemos considerar normal ou de alguma forma aceitável que até pessoas por acaso ligadas à embaixada, mas eu volto a dizer, não havia forma de saber isso, simplesmente estavam pessoas a sair daquele evento neste museu judaico, não há forma de saber que têm algum tipo de responsabilidade ou ligação ao que está a acontecer em Gaza que justificasse minimamente o que aconteceu. Portanto, vamos ver agora se isso tem algum impacto aqui em termos da posição dos Estados Unidos. À partida, ela é bastante próxima, mas nos últimos dias tem havido sinais de distanciamento entre Donald Trump e Netanyahu. Como sabemos, ele foi à região, foi às Arábias e não parou em Israel. E até há notícias de que mesmo em termos do processo negocial, tem havido aqui algumas diferenças de pontos de vista, seja na forma de lidar com o Irão ou até no fato de os Estados Unidos terem conseguido a libertação de um refém de dupla nacionalidade negociando através do Qatar com o Hamas, sem envolver Israel.

Há pouco falavas das relações entre Israel e os restantes países, alguns aliados que têm vindo a deixar de ser, e o posicionamento que têm tido nessas relações. Há agora este incidente dos tiros que foram disparados contra diplomatas. A China já veio exigir uma investigação a tudo o que aconteceu. Pode tornar-se um irritante ainda maior esta questão, até porque há imensos vídeos e imagens daquilo que acabou por acontecer.

Mas não percebi. A China?

A China pediu uma investigação, sim. Quanto a tudo isto, exigiu que fosse feita uma investigação. Foi essa a situação.

Mas qual é o incidente que envolve a China? Não percebi, desculpe.

Os tiros contra diplomatas em Jenin.

Exatamente. Contra toda aquela delegação diplomática, que também incluía, aliás, um cidadão português, um diplomata português. Parece-me bem que haja essa investigação, seja exigida pela China, seja exigida pelos restantes países, ou seja, realmente não é suposto isso acontecer. Essa caravana estaria identificada. Há esta indicação da parte de Israel de que ela se terá eventualmente desviado da rota. Teremos de ver se isso aconteceu ou não, se confirma ou não. Mas à partida, mesmo que tenha acontecido, só parece indicar que há aqui, de facto, regras em termos de uso da força que são excessivamente relaxadas. Ou seja, não é porque há algum tipo de veículo numa determinada zona que ele automaticamente pode ser assumido como sendo um alvo legítimo. Um veículo do Hamas ou algo assim. Ainda por cima estamos a falar da Cisjordânia e não da Faixa de Gaza, nem sequer é um território controlado pelo Hamas, é um território onde há uma presença do Hamas como de outros movimentos armados, mas à partida nunca foi um território controlado pelo Hamas, portanto ainda menos justifica essa questão e tudo isto só aumenta as críticas, as preocupações, esta ideia de que inclusive na própria Cisjordânia há uma escalada no nível de violência, à violência inaceitável por parte de colonatos israelitas que não só estão a ocupar ilegalmente território palestiniano, como ainda por cima estão cada vez a usar mais violência contra os palestinianos. Mas além disso, também mesmo da parte do Estado de Israel, parece haver aqui uma resposta também cada vez mais militar com a justificação da presença destes grupos, que obviamente esses serão um alvo legítimo, mas voltamos ao mesmo ponto, não se pode transformar tudo isto num campo de batalha simplesmente com o argumento que há lá eventualmente alguns grupos terroristas. Portanto, aí parece-me incompreensível a posição da China e imagino que se calhar, de forma mais ou menos vocal, todos os outros países envolvidos, todas as outras embaixadas envolvidas também queiram esclarecimentos.

Claro. Vamos falar um pouquinho da situação na Ucrânia, até porque Donald Trump tem aqui umas declarações citadas no Washington Post que diz que Putin não quer acabar com a guerra por achar que está a vencer, que não está interessado nesta altura em colocar um ponto final na guerra. Declarações ao Washington Post em destaque, admite esta posição de Vladimir Putin e com esta posição de Vladimir Putin e com Donald Trump a assumir isto, fica tudo em standby naquilo que são as negociações. Como é que vês esta declaração de Donald Trump a assumir publicamente esta intenção de Vladimir Putin e a assumir que está tudo parado por causa disto também?

Parece confirmar realmente esta ideia de que haveria aqui uma espécie de desinteresse da parte de Donald Trump. Ou seja, ele fez aquelas declarações completamente descabidas de que ia resolver isto em 24 horas. Falámos aqui disso várias vezes e eu arrisquei a previsão de que isso não me parecia nada realista. Era um conflito que se arrasta há muitos anos, que tem implicações enormes para os dois lados É considerado vital para os ucranianos que querem manter a sua real independência, a sua possibilidade de aproximação ao Ocidente, é vital para o regime russo, para Putin, que apostou aqui muito do seu crédito e que tem esta obsessão com o estatuto de grande potência, também afirmado por via militar. Agora, a questão realmente são as implicações. Se é simplesmente os Estados Unidos deixarem de se envolver neste processo negocial e de pressionar nesse sentido, é uma questão, aí eu atrevia-me a dizer que se calhar até é útil, porque realmente a forma um bocado caótica, desinformada, como muitas vezes os Estados Unidos têm agido, o facto do seu emissário, do enviado especial Steve Witkoff, que não tem nenhuma experiência nestes temas, na Rússia, na Ucrânia, muitas vezes parecer estar a repetir basicamente a narrativa, a desinformação russa, a propaganda russa realmente não era nada de útil. Vamos ver se não tem implicações em termos de, por exemplo, impedir a Ucrânia de continuar a obter armamento ou pelo menos munições e peças para a manutenção, por exemplo, do equipamento americano que já está no país ou mesmo cooperação ao nível das informações da intelligence. Temos tido informações contraditórias. O Marco Rubio terá dito que não, que isso não estaria em questão, mas vamos ver se realmente isso não fica em questão, porque aí sim poderíamos ver uma espécie de aproximação entre os Estados Unidos e a Rússia. Eu diria que no último dia, desse ponto de vista, foi preocupante ouvir Donald Trump naquele encontro, naquela nova emboscada de diplomatas com o presidente da África do Sul, com o Cyril Ramaphosa, por exemplo, a dizer que o G7, que é o grupo que reúne as principais economias ocidentais mais também com a presença da União Europeia e que tem servido muito para a coordenação estratégica, sobretudo económica, da guerra económica contra a Rússia neste contexto, devia voltar a ser o G8, ou seja, devia voltar a ter a Rússia, e que se isso acontecesse não teria havido invasão nenhuma. Ora, a Rússia saiu do G8, foi expulsa do G8 por causa da invasão da Crimeia, portanto, a primeira fase da agressão russa contra a Ucrânia. De facto, nada disso faria sentido e parece ser um sinal que apesar de todos estes problemas, Donald Trump não desiste desta obsessão de conseguir algum tipo de compromisso vantajoso com Putin.

Bruno Cardoso Reis, muito obrigado por mais uma participação no nosso Gabinete de Guerra. Estamos de regresso amanhã, de manhã e à tarde, para continuar a analisar os conflitos em curso.

Obrigado. Bom trabalho.