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E começa agora o Gabinete de Guerra das manhãs 360. Eu sou a Maria João Simões. A análise é de Francisco Proença Garcia, militar, professor universitário e investigador. Muito bom dia, bem-vindo.

Bom dia, como está?

Bom dia. Comecemos pela nova ronda de conversações em Istambul. Representantes dos Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha e França também deverão deslocar-se à Turquia para contactos com as delegações da Ucrânia e Rússia. Francisco Proença Garcia, o que podemos esperar da nova reunião em que só Moscovo irá apresentar o memorando que Kiev tanto pediu para conhecer antes do encontro?

Podemos esperar muito pouco.

Pois, as expectativas são baixas.

São muito baixas, mas temos que ver sempre o lado positivo. Pelo menos estão a conversar. Há três anos eles não conversavam. Agora já houve várias tentativas de mediação, de deslocar a intervenção do Papa Francisco, o próprio Erdogan, o engenheiro Putin, mas agora eles estão sentados à mesma mesa. Podem estar a ganhar tempo, de certeza, de ambos os lados, porque as operações que houve este fim de semana de um lado e de outro não mostram vontade de conversar, a não ser pressionar e mostrar capacidade militar e desgastar mais o adversário. Mas podemos esperar muito pouco. Mas da Rússia nós já sabemos, não vale a pena estarmos à espera de grandes memorandos, nós já sabemos exatamente o que eles querem. Não querem que a Ucrânia entre na NATO, querem uma Ucrânia neutral.

Querem grande parte do território.

Não, isso eles não vão perder. É mais fácil aquele velho ditado da geopolítica que o Celland falava, que um país mais facilmente perde as semanas do que território. Eles perderam milhares de rapazes, não vão agora ceder a Crimeia e muito dificilmente os outros quatro povoados que não controlam a neutralidade, mas onde têm uma presença militar significativa. Enquanto não conseguirem isso, eu acho que não vai haver evoluções significativas. Eventualmente, um cessar-fogo lá mais para frente. Estas negociações, a meu ver, são para se poder encontrar um cessar-fogo temporário e eventualmente conseguirmos libertar mais prisioneiros, como aconteceu da última vez. Pouco mais do que isso. Mas é alguma coisa.

Entretanto, como falou há pouco, a Ucrânia efetuou este domingo um ataque que atingiu mais de 40 bombardeiros russos em quatro bases aéreas. O Serviço de Segurança da Ucrânia calcula ter danificado mais de um terço dos bombardeiros estratégicos da Rússia. Que impacto pode isso ter no terreno e na véspera de um encontro em Istambul?

Bom, é um impacto significativo. Para já mostra determinação, coragem, capacidade de planeamento, capacidade de atuação na profundidade estratégica. Eles foram longíssimo e com uma tecnologia de mil dólares, no máximo, cada um daqueles drones. Foram cento e poucos drones lançados em cima das bases aéreas, anulando qualquer capacidade de resposta, porque as bases estão é preparadas para se defender de drones de grande dimensão, que precisam vir com mísseis, com as suas defesas aéreas. Estes drones, o sistema antidrone não foi capaz de os detetar. E eles anularam um terço da capacidade dos bombardamentos estratégicos. Veja, as centenas de milhões de dólares de prejuízo que eles têm e agora deixam de ter capacidade de intervenção. Eles veem a sua capacidade de intervenção significativamente reduzida. Vamos ver é qual vai ser a retaliação da parte da Rússia.

Exatamente.

Mas veja a diferença. Os ucranianos fazem alvos militares, os russos bombardeiam cidades. Completamente diferente.

Sobre o Médio Oriente, o Hamas diz que a proposta de cessar-fogo não oferece garantias para o fim da guerra em Gaza. Segundo o acordo, 10 prisioneiros vivos serão libertados e 18 corpos serão devolvidos em troca de vários prisioneiros palestinianos. Francisco Proença Garcia, acredita que as duas partes consigam pelo menos cumprir esta parte do acordo?

Mais uma vez.

Olhe que faço perguntas difíceis.

Não, Maria João pode me perguntar o que entender, eu depois dou-lhe umas respostas sinceras, quer dizer, é aquilo que eu sinto. Algumas são muito refletidas, outras é uma opinião simples. Mas veja, o que eles têm feito? Propostas de cessar-fogo, agora querem um alto de sete anos, quer dizer, vão ter sete anos para se reequipar, rearmar. Isso para Israel é inaceitável. Vão ter um cessar-fogo imediato. Não, veja, o ministro da Defesa diz que as operações são para continuar.

Exatamente, sim.

Apesar das propostas. Eles não libertam os reféns vivos ou infelizmente muitos deles mortos. E do outro lado, as operações militares não acabam enquanto não aniquilarem definitivamente, ou mais ainda, a capacidade de intervenção do Hamas. De maneira que vamos estar neste jogo do gato e do rato outra vez, tu não cedes, eu não faço. E vamos ver o que é que aí vem no plano de Israelita, da ocupação e da afirmação da sua soberania com colonatos em Gaza. Não sabemos exatamente. A única coisa que sabemos é que eles pretendem é que Netanyahu se mantenha no poder. Isso ele não vai sair.

No terreno, Israel negou, entretanto, qualquer responsabilidade pelo ataque de tanto se fala, a um centro de distribuição alimentar em Rafah, alegadamente levado a cabo por forças israelitas e que resultou em 30 mortos. O exército israelita diz que as suas forças não dispararam contra civis e que os relatos são falsos. O que pode ter acontecido aqui? Vamos saber?

Esta é a tal guerra da informação e da desinformação. Saber exatamente o que se passou. Não sabemos se foram forças do Hamas que fizeram tiros sobre a população e culparam os israelitas, se de fato houve um incidente provocado por Israel. O que é um fato é que nós sabemos que inocentes morreram. E veja, ninguém se preocupa com aquela população. O Hamas usa a população como escudo e muitas vezes como moeda de troca. Não quer saber se a população sofre, se não sofre, eles controlam a distribuição de alimentos, ocupam escolas, ocupam hospitais. E Israel vai encalce deles, onde quer que eles estejam, Israel vai atrás deles. E depois quem sofre é a população, muita delas inocente, sobretudo Crianças e as mulheres que ali estão. De quem é a culpa? A culpa é de todos nós que permitimos que aquilo aconteça. O 7 de Outubro aconteceu porque nós não estivemos atentos e Israel não esteve atento. E o que está a acontecer é porque nós permitimos que aconteça. A comunidade internacional não tem tido a força suficiente para parar aquilo que está a acontecer em Israel, nem para forçar o Hamas a entregar os restos mortais de alguns reféns e os reféns que ainda estão vivos. Nós é que estamos a falhar como comunidade internacional, porque não temos a capacidade de nos afirmar com peso. Bom, agora a União Europeia tem aquelas medidas, eventualmente ao corpo comercial, isso já havia de ter sido feito há meses. Porque isso tem impacto direto na vida de Israel, mas eles não vão parar. Não vão parar porque são terminados nos seus objectivos. O Hamas também não vai parar.

Pois não, esse é que é o problema.

Lá está, mais uma vez, é o sacrifício dos inocentes que ali moram e que estamos a formar terroristas para daqui a 10 ou 15 anos continuarem os ataques, porque quem nasce naquele ambiente, quem é criado naquele ambiente, não pode saber.

Não sabe ser de outra maneira. Claro.

E vai sempre contestar ao longo da vida.

E Francisco Lourenço Garcia, é também por isso que António Costa diz que a legitimidade moral de Israel está a desaparecer?

E o que nós vamos fazer quanto a isso? Veja, há uma componente muito interessante interna, da oposição interna e a clamar eleições. Porque uma coisa é o povo de Israel e a população de Israel, que todos nós estimamos e compreendemos a situação deles, a outra é o governo de Israel, o poder formal de Israel. O poder formal, de facto, está a perder a sua razão pelo exagero das suas intervenções. Mas, por outro lado, a população também se tem manifestado, ainda ontem houve manifestações sérias a pedir eleições, novamente a contestar, e que chega, e que querem que o poder de Israel faça tudo para que liberte reféns, mas ao mesmo tempo são uma grande democracia. Aliás, naquele Médio Oriente instável e com regimes ditatoriais, a única democracia muito semelhante à nossa, uma democracia liberal, é Israel. E só vai alterar a situação o dia que alterarem o poder em Israel, ou seja, através de eleições, retirarem Netanyahu. Se Netanyahu se mantiver, a guerra pode eventualmente fazer uma paragem temporária.

Mas será apenas temporária.

Exatamente, ele tem que se manter no poder, porque se ele sair do poder, em princípio tem que ser julgado e não sabemos o resultado do julgamento, mas há indícios de que a coisa pode correr muito mal. E ele vai se manter, é um homem que está há mais de 30 anos ligado ao poder. Vai ser muito difícil. Ele vai fazer todos os equilíbrios e as alianças convenientes que lhe surgirem para se manter no poder. E se for necessário continuar a guerra, está a ver? Sacrificando a sua população, os seus jovens e os do outro lado. Não interessa isso, o que interessa é a manutenção do poder. Com a narrativa, com a justificativa que ele entender, que é: vamos aniquilar o Hamas. Estão sempre a arranjar uma desculpa para as operações se manterem. Isso é que tem que acabar, mas tem que ser uma solução interna, porque já vimos que a comunidade internacional não consegue fazer nada. De maneira que tem que ser uma solução interna e acredito que será uma solução interna.

Segundo o Hamas, as Forças de Defesa Israelitas têm atualmente sob controle cerca de 77% da área da Faixa de Gaza. Francisco, uma coisa é ocupar, outra será administrar. E esquecendo a ideia da Riviera de Trump, será que Israel tem uma noção real do que implica ficar com o controle total da região?

Bom, eles devem ter uma noção real, mas por outro lado, se o Hamas diz que Israel controla mais de 70%, ou seja, consegue ocupar o território, resta ver como é que vai administrar, como é que afirma a sua soberania e como é que os outros reagem. Mas o Hamas, segundo as Forças de Defesa Israelitas, ainda tem 40 mil homens. Quer dizer, 40 mil homens em túneis, num ambiente de completa destruição, basta um sniper para parar uma companhia ou um batalhão. De maneira que enquanto ele tiver essa capacidade militar, Israel não vai parar. Depois de ocupar o terreno, como é que se administra uma população que se andou a hostigar? Primeiro tem que alimentá-la.

Exatamente, era para aí que ia.

E tratá-la. Mas eles depois de serem alimentados e tratados, vão olhar lá à volta e vão ter tudo destruído. Quem é que vai reconstruir aquilo? É Israel, é a comunidade internacional e as pessoas continuam a viver naquela Faixa de Gaza.

E a convivência, claro. Exatamente.

São sempre tropas de ocupação e tropas de ocupação são sempre rejeitadas pela população. E conquistar aqueles corações e mentes, uma coisa é conquistar a barriga para as pessoas terem alguma estabilidade, outra é convencê-los a aderir a uma administração israelita. De maneira que a guerra não vai parar. Quer dizer, pode parar a alta violência que temos tido agora, mas vamos ter operações sempre, ações furtivas, de guerrilha e de pequeno desgaste constante. De maneira que vai ser muito difícil para Israel administrar aquele território ou outro qualquer onde estejam os palestinianos. Uma coisa é ter ações punitivas e policiais, e impedir alguma violência, a outra é administrar. Vai ser muito difícil.

Francisco Lourenço Garcia, muito obrigada pela sua análise no Gabinete de Guerra. É sempre um gosto. Um bom dia, boa semana para si.

Também. Muito obrigado. Bom dia.