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Começa agora o Gabinete Guerra das Manhãs 360 esta segunda-feira. A análise é de Francisco Proença Garcia, militar, professor universitário e investigador. Muito bom dia, bem-vindo.

Bom dia, good morning.

Bom dia, como está? A delegação do Hamas já está no Egito. As negociações começam hoje, vão estar presentes a delegação de Israel, também uma delegação dos Estados Unidos, com o enviado especial de Trump, Steve Witkoff, e o genro do presidente, Jared Kushner. Francisco, as expectativas estão mais altas do que nunca. Acredita que seja desta que se chega a um acordo?

Como sabe, eu sou otimista.

Vai ser.

Espero que seja finalmente desta. Ou seja, aquilo que nós temos vindo a dizer ao longo destes dois anos. Faz amanhã dois anos que houve o massacre. Nós não nos podemos esquecer disso. Ainda há reféns retidos e nós esquecemos disso. Mas foi a pressão da grande potência mundial, que são os Estados Unidos, que conseguiu, vamos ver com que resultados, mas pelo menos se conseguirmos o resultado da libertação de reféns, é um grande resultado. A libertação de um lado, reféns, a libertação de presos do outro lado. Se já conseguirmos só isso, é um ganho significativo. E há aqui um papel importante a destacar, que normalmente nós não damos muita importância, que é o genro de Donald Trump. Ele é que já tinha sido o homem dos Acordos de Abraham e agora, em princípio, foi ele o homem que redigiu ou deu grande contributo para a redação deste acordo, destes cinco pontos. Isso é importante. Isso traz-nos esperança, porque é uma ligação direta e o envolvimento direto do presidente dos Estados Unidos. Vamos ver se ele não se cansa. Mas se conseguirmos esses dois objetivos de libertar os reféns que estão lá há dois anos e libertar prisioneiros, isso é um grande ganho. O resto, depois, vai levar algum tempo, bastante tempo.

Uma fonte do Hamas diz que o grupo tem estado a recolher os corpos dos reféns israelitas, os que morreram na Faixa de Gaza, e para isso o grupo terrorista estará a exigir a Israel que suspenda os ataques, dizendo que não é possível concluir a recolha sem isso. Podemos confiar no que diz o Hamas, Francisco?

Se nós pudéssemos confiar no que diz o Hamas, não estávamos a discutir o seu desaparecimento por completo e não estávamos a excluí-los dos acordos, ou seja, a desmantelá-los definitivamente. Eles não são de confiança. É lógico que eles vão usar toda a argumentação para que os bombardeamentos parem, mas não há confiança. Não podemos esquecer que são um grupo terrorista e que faz agora dois anos, foram eles que iniciaram isto. Israel foi longe demais na sua resposta, mas o governo israelita, não são os israelitas, foi o governo israelita que poderá ter ido longe demais na sua resposta, mas não nos podemos esquecer que o Hamas é um grupo terrorista e que fez o que fez e que desculpou isto. E veja, é o grande vitorioso. Porque também não se fala nisso. O grande vitorioso em que aspeto? Poderá ser desmantelado politicamente, não vai estar no governo, isso é o que está escrito. Vamos ver depois como é que é no final. Ainda está hoje a fazer exigências e, veja, sobretudo, colocou o problema novamente nos media. Há dois anos, com aquele massacre, foi chamado outra vez a causa palestiniana e agora consegue uma vitória política. Está a rastros militarmente, ao fim de dois anos, mas consegue uma vitória política significativa, que é o reconhecimento por uma maioria significativa dos países do Estado da Palestina, com que Israel saia de lá, com que os palestinianos não tenham que ser expulsos do seu território. Isso foi uma vitória significativa do Hamas. Agora, não pode capitalizar isto. Tem que ser desmantelado. Estas coisas a gente sabe como é que são, nunca vai ser completamente desmantelado, mas pelo menos nesta fase inicial, ele tem que ser afastado do processo de paz.

Trump deixou o alerta e diz que o Hamas enfrenta a aniquilação completa se o grupo se recusar a ceder o poder e o controle de Gaza. E Netanyahu assegura que o Hamas será desarmado a bem ou a mal. Sobre isto, Francisco, nada mudou, não é?

Sobre isso, nada mudou. Há dois anos que andamos a falar nesse desarmar completo e consta que eles ainda têm cerca de 10 mil combatentes. Por isso é que eles estavam agora na cidade de Gaza, destruíram a cidade de Gaza, mas eles continuam a ter subterrâneos, continuam a controlar os serviços de alimentação, da água, e mantêm 10 mil homens armados. De maneira a desmantelá-los completamente, vai ser um processo moroso. Agora pode ser com esta anistia que os mais jovens ainda queiram combater, porque estão ainda, como se diz na gíria, com o sangue na guerra, mas os mais velhos certamente querem a paz e voltar às suas famílias e vão aproveitar a anistia. Os seus comandantes, se houver essa tal anistia, alguns ficarão no território, outros preferirão ir para o exílio, mas eu acho que a grande maioria vai ficar no território e aproveitar esta anistia. Agora vamos ver é quanto tempo é que isto dura. Eu sou otimista quanto à libertação de reféns.

Quanto ao resto, a ver vamos, não é?

Isto há décadas. Quando eu nasci, já havia este problema e não é um problema que se vai resolver, nós sabemos disso. Apesar do Trump dizer que isto há 3 mil anos que decorre, não sei se essas declarações são interessantíssimas, e ele agora foi o salvador. Ele tem um papel determinante neste processo. Agora vamos ver os resultados ao longo das próximas semanas e a estabilização de tudo isto e quais são as forças internacionais que lá vão colocar e quem é que as vai comandar. Tudo isso vai ser muito complexo.

Sobre a Guerra da Ucrânia, o anticampeão mundial de xadrez e um dos mais destacados opositores de Putin, Garry Kasparov, lançou um novo aviso à Europa. Diz que o presidente russo está a testar a Europa e que poderá tentar uma invasão terrestre num país báltico ainda este ano. O ativista, que está exilado, disse ainda que Gaza é a maior distração e que o verdadeiro desfecho do equilíbrio global se vai decidir na Ucrânia. Francisco Proença Garcia, como é que a Europa deve reagir a estas declarações?

A Europa deve reagir como tem estado a reagir, mantendo-se coesa, mantendo-se firme na sua atuação. A atuação do Putin vem-nos trazer isso, trouxe mais unidade à Europa. Houve uma quantidade de medidas que nós, ao longo destes três anos e meio, quer a coesão na NATO, o alargamento da NATO à Finlândia, à Suécia, e o aumento da coesão nas políticas públicas de defesa dentro da Europa foi significativa. Agora, se o Putin está a beneficiar de toda a situação que afaste a atenção sobre a Ucrânia Ele testar o artigo quinto da NATO é muito arriscado. Há uma possibilidade, ali nos Bálticos, de ele fazer a ligação da Bielorrússia a Kaliningrado e isolar os países bálticos. Aquilo é um corredor onde há grande concentração de forças da NATO, mas se ele isolar os Bálticos da Polónia, é uma coisa de pequena extensão. Só que isso é um risco tremendo, isso será o disputar de uma terceira guerra mundial, de uma forma cinética da ação física violenta. E eu penso que não é isso que o Putin quer. O Putin testa as nossas defesas, testa a nossa coesão, testa a nossa resiliência. Se sentir fragilidade, ele vai esticando a corda como se diz, vai esticando. Se nós nos mantivermos coesos, e eu espero que nós nos mantenhamos coesos, e houve agora uma mudança significativa do apoio, pelo menos no discurso norte-americano em relação à Ucrânia. E a Ucrânia tem estado a bater brilhantemente, veja o desgaste, um terço das refinarias e da capacidade de produção de produtos refinados russos foi afectado. Eles já estão com problemas internos de distribuição de gasóleo e de gasolina. Isto começa a afetar também muito a economia russa. É mais discussão, menos discussão, também já tivemos vários generais a dizer que isso era em 2027, outros em 2030. Espero que isso não aconteça, mas ele vai continuar a testar com os drones, com o ciber, com a desinformação e depois no campo cinético vamos ver até onde ele pode chegar. Mas vai continuar a fazer isso.

Entretanto, Zelenskyy voltou a pedir mais proteção, sobretudo aérea, depois do ataque russo com drones a um comboio de passageiros em Sumy, que provocou 30 feridos, e do ataque em Lviv e Zaporizhzhia, que fez dezenas de feridos também, pelo menos cinco mortos. Francisco, que ponto de situação se consegue fazer sobre o que se passa atualmente no terreno?

É aquilo que se tentava verificar. Agora abrandou um pouco, no último mês, a intensidade dos ataques russos, que era sempre o maior ataque, depois no fim de semana seguinte era o maior ataque.

Exatamente, estamos sempre a dizer isso.

Agora baixámos um pouquinho, mas são centenas de drones que atacam as cidades e as infraestruturas críticas e de abastecimento de energia agora que se aproxima o inverno. Esse crime de atacar um comboio de passageiros. Estamos em guerra, nós sabemos que estamos em guerra, mas a população civil deve ser o máximo possível afastada e poupada. O Putin tem outras regras, que nós temos que nos habituar às regras dele, temos que as contrariar, mas é o que ele sei. Ele não vai parar a guerra, ele vai testar, mas a Ucrânia tem estado a bater de uma forma extraordinária. Agora estamos a transferir a sua tecnologia antidrone. Porque eles têm sido criativos e semanalmente progridem muito com as suas pequenas startups e na defesa, porque nós temos o dinheiro e eles é que se estão a defender, porque o material que nós lhes fornecemos não é o suficiente. Agora, os russos vão continuar, agora é Zaporizhzhia e depois há de ser Kherson, depois há de ser Kyiv. Eles não vão parar, os bombardeamentos são constantes. E esses ataques, quer com drones, quer com mísseis, por mais defesa que nós vamos dar, por mais Patriots que nós dermos, por mais aviões que nós dermos, os ataques não vão parar. E nós conseguimos é mitigar o efeito desses ataques, mas não vão parar.

Francisco Louçã Garcia, muito obrigada pela sua análise no Gabinete de Guerra. Um bom dia para si e boa semana.

É sempre um gosto.

Muito obrigada, o gosto é nosso. Obrigada.