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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Falamos de conflitos em curso, com destaque para o conflito entre Rússia e Ucrânia, e também o que se passa no Médio Oriente. Vamos começar pela Ucrânia, precisamente, e com a questão das armas de longo alcance, a possível utilização dentro de território russo. Tem sido discutido ao longo dos últimos dias, reuniões entre Ucrânia, Reino Unido, Estados Unidos da América. Ainda hoje, Zelensky alertou os aliados sobre a demora na permissão da utilização de armas de longo alcance. É o tema em destaque neste Gabinete de Guerra, hoje com a especialista em relações internacionais, Daniela Nunes. Muito boa tarde, Daniela. O que pode mudar, de facto, neste conflito, com a possibilidade da Ucrânia utilizar armas de longo alcance dentro da Rússia?
Olá, Miguel, boa tarde pra ti e para os nossos ouvintes também. Eu diria que duas grandes consequências serão as mais evidentes a partir do momento em que o levantamento desta restrição aconteça. Em primeiro lugar, e obviamente, uma inflamação forte da retórica, mas também da atitude russa perante não apenas a Ucrânia, mas também perante o Ocidente e, em particular, perante a Europa. E em segundo lugar, uma mudança, embora eu não possa prever a magnitude dela, mas eu diria que uma mudança pelo menos significativa ao nível da efetividade dos esforços ucranianos no terreno. Os mísseis de que estamos a falar conseguem atingir alvos a mais de 500 km, ou seja, isso significa que a Ucrânia poderá infiltrar, digamos assim, os seus exercícios ofensivos muito mais rápida e eficazmente, entrando em território russo com muitíssimo mais profundidade do que aquilo que consegue fazer enquanto esta restrição estiver de pé. E o que podemos passar a verificar ainda, nessa lógica, é um equilíbrio entre a dinâmica defensiva e a dinâmica ofensiva da guerra para o lado das forças ucranianas. Ou seja, se até aqui, ou mais especificamente até ao dia 6 de agosto e até ao golpe ucraniano em Kursk, assistíamos a um comportamento fundamentalmente defensivo da parte da Ucrânia, e obviamente justificado pelas questões que já todos sabemos ao nível das suas capacidades e da disposição de material bélico em quantidades inferiores às da Rússia, podemos agora passar a ver uma atitude de maior iniciativa da Ucrânia, se estas armas de longo alcance vierem mesmo a estar à sua disposição. E nesse caso, a lógica ucraniana já não será apenas a da contenção, mas a da tomada da dianteira, pelo menos em parte, dos eventos no terreno. Por outro lado, a Rússia obviamente vai recorrer à narrativa do envolvimento ocidental, do envolvimento da NATO e, muito especificamente, do envolvimento americano de forma direta na guerra. E isso, como todos sabemos, para o Kremlin justifica uma ameaça de Terceira Guerra Mundial. Como é a promessa do embaixador russo em Washington. Até aqui, nada de novo. E eu, para ser franca, até esperava uma resposta pior por parte do Kremlin a estas notícias. Esperava, nomeadamente, que fosse utilizado o trunfo do armamento nuclear, que sabemos que é um trunfo ao qual a Rússia recorre frequentemente quando as coisas não lhe correm exatamente como planeado, ou quando começa a ver que a Ucrânia, porventura, pode estar a conseguir qualquer coisa que a Rússia não foi capaz de prever. Portanto, eu até esperava que a questão do nuclear fosse quase imediatamente posta em cima da mesa como forma de conter o levantamento desta restrição. Vamos lá ver o que vão ser as próximas ações do Kremlin.
Neste conflito, seguimos sempre por fase. Houve uma altura em que a Ucrânia precisava de armamento para o terreno. Houve o período dos caças e precisava de defender o espaço aéreo, o período de poder avançar, utilizar armamento contra a Rússia a partir da Ucrânia. E agora a questão do longo alcance surge também como uma questão, e Zelensky a definir como importantíssima nesta fase do conflito. É a próxima grande necessidade da Ucrânia, visto que estamos aqui a falar, e espera-se uma decisão quanto a isto nos próximos dias.
Sim, é o próximo grande passo e deixa-me dizer-te também, Miguel, que Zelensky tem batido muito nessa tecla, e aquilo que temos visto até aqui, e que aliás é perfeitamente compreensível, é que existem fundamentalmente duas grandes posições, duas grandes dinâmicas entre a Ucrânia e os aliados. A posição ucraniana, e a de Zelensky, muito especificamente, que é a de pedir e de alertar constantemente para a necessidade de apetrechar cada vez mais as forças ucranianas no terreno, porque como comecei por dizer, a Rússia está muito mais apetrechada, quer do ponto de vista dos recursos humanos, quer também do ponto de vista material, mas existe também a postura e a atitude, eu diria que obrigatoriamente mais prudente dos aliados, e muito especificamente por parte dos Estados Unidos, e em particular, como temos visto também hoje e ontem, a postura do secretário de Estado, Antony Blinken, que é aquela que tem que conter um bocadinho os apetites do Ocidente de injetar cada vez mais a Ucrânia com este tipo de material. Nenhum de nós quer uma Terceira Guerra Mundial. Efetivamente, com o fomento e com a melhoria dos materiais e da ajuda que é enviada e com que a Ucrânia é guarnecida por parte do Ocidente, por parte dos Estados Unidos, isso obviamente fomenta uma hostilidade na Rússia que pode resultar, mais tarde ou mais cedo, numa guerra que envolva diretamente os Estados Unidos, que envolva diretamente o Ocidente e, portanto, uma guerra internacionalizada e globalizada, que é o que ninguém quer. De qualquer das formas, o equilíbrio é difícil. O equilíbrio entre evitar uma guerra global, internacional, mundial, e não permitir que a Rússia, e isto sob o ponto de vista militar, material, bélico e também geográfico, porque sabemos que a geografia também joga a favor da Rússia, isto contra a muito mais pequena Ucrânia, sob todos os pontos de vista, é um equilíbrio difícil entre o saber que é necessário fornecer e guarnecer a Ucrânia, mas ao mesmo tempo evitar uma guerra. E é por isso que se justifica a demora destes passos todos que referias que têm vindo a ser dados, lentamente, mas que no fundo têm vindo a ser dados da parte dos aliados e da parte, sobretudo, dos Estados Unidos, no sentido de ajudar a Ucrânia, por um lado, mas ao mesmo tempo evitar inflamar muito as coisas com a Rússia. Eu costumo dizer isto várias vezes, inclusive aqui em comentário ao Observador, a Rússia tem uma coisa que nós no Ocidente não temos, que é um líder, um homem ao leme Disponível para iniciar uma guerra mundial e disponível para utilizar armamento nuclear. Portanto, é preciso gerir tudo isto com pinças.
Enquanto esta discussão acontece muito no panorama diplomático, no terreno temos a Rússia a continuar a atacar infraestruturas energéticas na Ucrânia, mais uma vez essa estratégia que já vimos em anos anteriores na aproximação do inverno, e ao mesmo tempo, já desta tarde, Zelenskyy a apontar para o que está a ser uma contraofensiva russa em Kursk, que está em andamento, mas que seria algo que a Ucrânia já esperaria. Portanto, ataques à infraestrutura energética por parte da Rússia, tentar recuperar terreno em Kursk, esta é a intenção e os objetivos da Rússia para esta fase da guerra.
Sim, é verdade, é como dizes. Deixa-me só acrescentar que os últimos ataques russos não foram apenas a infraestruturas energéticas, mas também a infraestruturas civis. E já agora acrescentar que ontem morreu um bebê ucraniano na sequência de um destes ataques russos. Fundamentalmente, a lógica de atacar infraestruturas energéticas da Ucrânia é aquela que já disseste, Miguel, que é esvaziar uma das principais fontes de sobrevivência num contexto de qualquer inverno na Ucrânia. Portanto, os russos sabem, como sabemos todos nós, que está aí à porta o tempo frio e a descida drástica das temperaturas e uma necessidade, eu diria mesmo vital, de aquecer as cidades ucranianas e de aquecer a casa dos ucranianos. Portanto, a Rússia está a tentar minar essa possibilidade. Nesta madrugada que passou, por exemplo, foram seis as regiões ucranianas onde alguma infraestrutura energética importante, portanto, de maior relevo, foi alvo dos bombardeamentos russos, ou seja, numa estratégia de não circunscrever este tipo de ataque a uma zona ou a um oblast, mas de ampliar este esvaziamento, como digo, das fontes de energia da Ucrânia. E acrescentar ainda também, como dizias, que paralelamente a Rússia também está, ou tem estado, e já agora diga-se de passagem com algum sucesso, que também é importante sublinhar isso, a realizar exercícios contraofensivos em Kursk, portanto, em resposta à ofensiva ucraniana de 6 de agosto, está a fazê-lo via norte e via sul e está a conseguir empurrar, digamos assim, as forças ucranianas naquele que foi um exercício que pelo menos durante um mês e picos, conseguiu colocar a Ucrânia na dianteira, portanto na frente dos acontecimentos. Mas esta dinâmica, infelizmente para os ucranianos, está a mudar. Agora vamos ver como é que a questão das armas, do armamento de longo alcance pode ou não pode mudar esta dinâmica, mas o que é facto é que a Rússia está a ter sucesso nestas operações contraofensivas.
Falemos também um pouco do que se passa no Médio Oriente, as atenções centradas em Gaza e com o ataque israelita a uma escola, a escola bombardeada em Gaza, a informação de que seis funcionários da ONU, das Nações Unidas, morreram. Há muitas reações ao longo do dia de hoje, mas António Guterres já falou e diz que é totalmente inaceitável. O embaixador israelita acusa Guterres de estar a distorcer a realidade. Temos aqui mais um conflito diplomático que surge de uma ação de Israel em Gaza, com funcionários da ONU a morrerem neste ataque israelita.
Em tudo o que acabaste de dizer, duas coisas permanecem rigorosamente iguais, Miguel, desde o dia 7 de outubro. A primeira diz respeito à inconsequência de Israel e a segunda diz respeito à invalidez de qualquer que seja a apreciação, a chamada de atenção, o apelo, o ultimato, enfim, o que quisermos, da parte de figuras como António Guterres, mas também de outros líderes e figuras, personalidades importantes associadas às Nações Unidas ou outras organizações, em relação à inconsequência israelita. E até te digo mais, relativamente ao que foi a reação de António Guterres, que é a que está a ser mais badalada, eu acho que nós podemos ir ainda mais longe a esta altura e acho que podemos dizer que a figura de António Guterres, como aliada da própria ONU e de outras instituições ocidentais, e não só, estão neste momento completamente desacreditadas. E eu não estou, de forma nenhuma, a retirar ao cargo do secretário-geral da ONU e à própria ONU o respeito e o prestígio que lhe são devidos. Mas quer dizer, o que isto significa pra mim é que a cegueira israelita conseguiu muito mais, para além do que aquilo que nós estamos a ver de catastrófico em Gaza. Conseguiu, de uma forma gradual, desde 7 de outubro, manchar, de alguma forma, a capacidade, a liderança, o pioneirismo e até o exemplo, que eram característicos de instituições como as Nações Unidas e algumas figuras, como é o caso de António Guterres, e manchou-os sobretudo perante os inimigos destas instituições e também da ordem liberal pelas quais elas se regem. E, portanto, se hoje existe uma percepção de impotência e quase de vazio discursivo associado à figura de António Guterres e outras, o que devo dizer é uma tristeza. Essa percepção é da responsabilidade de Israel e, muito concretamente, da responsabilidade deste executivo liderado por Netanyahu. Paralelamente, outra das consequências, em relação a este ataque a esta escola, que eu prevejo poder ter algum impacto na dinâmica, sobretudo humanitária, dos acontecimentos em Gaza, é o desligamento de algumas organizações e de algumas instituições, nomeadamente as próprias Nações Unidas, face à possibilidade e à efetividade de concretizar os apoios, as ajudas, os esforços que estas organizações têm vindo a tentar, pelo menos, desenvolver e levar até Gaza. Ou seja, o que isto quer dizer é que já se tornou evidente que já não é seguro atuar em nome de um agente externo, internacional, humanitário e isento, como as Nações Unidas, em sítios como a Faixa de Gaza. E conforme vimos com este ataque, em que se perderam seis vidas de seis funcionários da ONU, mas noutros episódios também, os funcionários destas instituições já não estão seguros e já não podem prever com toda a certeza que o seu trabalho e o seu empenho vão fazer a diferença. Portanto, está aqui em causa A própria integridade física destas pessoas, o que não pode acontecer, nem mesmo num conflito à escala do Israel-palestiniano. E eu julgo que os primeiros e os únicos afetados por esta que pode vir a tornar-se uma dinâmica de desligamento serão os mesmos de sempre. Serão os palestinianos, que já estando em situação miserável, podem ver-se ainda mais desprovidos da pouca ajuda que têm vindo a receber e que tem vindo a ser possível oferecer no terreno. Dá-me só 30 segundos para acrescentar aqui uma questão rapidamente.
Para terminar.
Para terminar, em relação ao embaixador israelita das Nações Unidas, e isto também confere alguma continuidade àquilo que estava a dizer, não nos podemos esquecer que Israel é liderado por um governo com um conjunto de clones espalhados pelo mundo inteiro. E esses clones são obviamente estes embaixadores, estes representantes de uma linha dura que defende, como o próprio embaixador israelita nas Nações Unidas, e eu estou aqui a utilizar a expressão do embaixador, essa guerra justa contra os terroristas. É nestes termos que o Executivo de Netanyahu, como de resto estes seus representantes além-fronteiras, colocam o que se está a passar em Gaza. Portanto, eu diria que o que estes embaixadores e estas figuras têm vindo a fazer é, de alguma forma, replicar a postura e a retórica de Tel Aviv, o Executivo liderado por Netanyahu, e é aqui que Israel peca. Peça no exercício de justificar o seu direito à legítima defesa através de uma razão que é plausível, que é o combate ao terrorismo, mas ao mesmo tempo através de uma metodologia absolutamente errada e em desconformidade e numa total desproporcionalidade relativamente ao que é o direito e a lei internacional.
Guerra na Rádio Observador, hoje com Daniela Nunes. Estamos de regresso amanhã para continuar a analisar os conflitos em curso.