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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço onde analisamos os principais focos de conflitos e tensão geopolítica. Hoje contamos com a análise do investigador de História Militar Pedro Nascimento. Seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Obrigado por ter aceitado este nosso convite, Pedro Nascimento. Vamos começar por falar da situação no Médio Oriente. O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão diz que as negociações com Oman sobre o Estreito de Ormuz estão a progredir de forma positiva. Marco Rubio afirma que houve progressos nas negociações com o Irão e há mesmo quem diga que para quarta-feira pode haver fumo branco num possível acordo. Será desta que temos razões para estarmos otimistas?

Olá, José Rafael, e cumprimento todos os ouvintes. É por isso que estas negociações merecem tanta atenção. Repare-se no cuidado que ambos tiveram com as palavras. Por um lado, o Marco Rubio fala em progressos, por outro, o Irão admite conversações, mas eu creio que nenhum dos dois quer assumir uma negociação direta. E isto acontece porque na geopolítica a perceção é muitas vezes tão importante como a realidade. Ambos querem um entendimento para reduzir a tensão no estreito, mas nenhum quer transmitir a ideia de que foi obrigado a sentar-se à mesa pelo outro. Por isso a diplomacia está a avançar, pelo que parece, mas a narrativa continua a ser uma arma de guerra. Esta diferença de linguagem é muito importante e não é inocente. Mas indo mais diretamente à questão das negociações em si, isto para ir procurar uma resposta àquilo que me perguntou sobre se teremos fumo branco, há aqui um ponto particularmente relevante: é que o Irão já disse que o estreito não regressará simplesmente à situação anterior à guerra. Portanto, neste momento não estão apenas a discutir a reabertura de uma rota, estão a discutir quem terá autoridade prática sobre essa rota também e em que condições. Porque o Irão está a tentar transformar esta capacidade de bloqueio do estreito, que tem demonstrado, numa vantagem política. E se conseguir obter algum tipo de reconhecimento do seu papel especial nesta gestão do estreito, eu arrisco dizer que pode mostrar isto não como uma cedência de um acordo, mas como uma vitória estratégica. Portanto, eu diria que há progresso, talvez, segundo as últimas informações, mas eu evitaria confundir progresso com normalização ao ponto de podermos chegar a fumo branco, porque o objetivo imediato é reduzir o risco sobre a navegação no estreito e tudo que está relacionado com os mercados energéticos. Mas a questão nuclear, a rivalidade com Israel, a presença americana na região, tudo isso é que são os grandes fatores de instabilidade e continuarão por resolver.

E abordava aí a questão do comércio, que passa pelo Estreito de Ormuz, mas não só. O grupo rebelde Houthi continua, de certa forma, a provocar o caos junto ao Estreito de Ormuz e não só. Que balanço é que podemos fazer desta ação dos Houthis, um proxy do Irão, que tem atacado sobretudo portos da Arábia Saudita, tem conseguido alterar a rota de vários navios ligados ao comércio do petróleo. Que balanço é que podemos fazer desta ação dos Houthis e se qualquer tipo de acordo vai também afetar a forma como os Houthis se mexem no Médio Oriente?

José Rafael, isso há de sempre afetar, uma vez que a ligação estreita que tem com o Irão e funcionando como proxy estará naturalmente sob as instruções de Teerão. Mas o balanço que nós devemos fazer em relação aos Houthis eu creio que se torna ainda mais preocupante, porque nós já não estamos perante uma força que está instalada no Iémen e que lança drones e mísseis a partir do Mar Vermelho, porque há indícios de uma cooperação operacional muito mais profunda com as milícias pró-iranianas no Iraque. Há várias fontes regionais citadas pela Reuters que afirmam que os Houthis participaram em ataques lançados a partir de território iraquiano contra alvos sauditas. Ora, eu tive a oportunidade de ler hoje uma análise que foi publicada pelo Ynet, que vai mais longe e sustenta que os especialistas em drones dos Houthis estarão a trabalhar com milícias iraquianas em estruturas apoiadas pelo Irão. É claro que esta alegação deve ser tratada com prudência, porque parte da informação regional e às vezes é tendenciosa, mas é coerente com a tendência mais ampla de integração entre os grupos aliados do Irão. E do ponto de vista militar, isto altera bastante o mapa, altera consideravelmente, porque um ataque que é lançado a partir do Iraque percorre uma distância menor até Israel ou até a Arábia Saudita do que um ataque proveniente do Iémen. E isto, naturalmente, reduz os tempos de alerta e complica a interceção e obriga os sistemas de defesa a vigiar cada vez mais direções. E há ainda uma vantagem aqui para o Irão, é que a autoria dos ataques torna-se mais difícil de determinar, porque pode haver a tecnologia dos Houthis, os operadores podem ser do Iémen, as milícias iraquianas sob a direção iraniana na mesma operação. Portanto, todas estas ambiguidades dificultam uma resposta, porque Israel e Estados Unidos terão de decidir se atacam o Iémen, o Iraque ou diretamente o Irão. Portanto, o balanço desta ação dos Houthis é significativo, que eles não conseguem vencer os adversários, eu não estou a ser incoerente com aquilo que disse da última vez que estive aqui no Gabinete de Guerra, mas conseguem alargar o teatro de operações. E isto, até na sequência do que disse, acaba por perturbar o comércio e integra-se numa rede regional que acaba por ser muito mais sofisticada E o seu principal resultado é obrigar as potências que são muito superiores, Estados Unidos e Israel, a dispersar recursos e a reagir a uma força que é relativamente pequena.

Vamos continuar a falar do Médio Oriente, mas virar atenções para Gaza, até porque o Qatar está a responsabilizar Israel pelos atrasos na implementação de um plano para Gaza, que envolve também o desarmamento do Hamas e a retirada de tropas israelitas do enclave, e deixa este apelo à pressão internacional. Esta iniciativa do Qatar e a possível pressão internacional pode vir a ter efeito sobre Israel?

O Qatar parece que agora pode argumentar que existe uma base negocial concreta e que por isso mesmo passa a bola pro lado de Israel, digamos, porque afirma-se que o Hamas terá aceitado definitivamente um processo de desarmamento. Mas há uma diferença essencial entre aceitar um princípio de desarmamento e começar efetivamente a entregar as armas. E o Hamas condiciona a implementação a um cumprimento prévio das obrigações israelitas. José Rafael, isto parece um regresso ao passado. Eu debato-me com este tema e remeto-me mentalmente para um ano atrás, quando estava aqui também a falar no Gabinete de Guerra no verão e estávamos ainda a falar disto. E parece que ainda estamos no mesmo ponto, porque aqui nós estamos novamente perante o problema da sequência. Quem é que dá o primeiro passo? Quem é que verifica o desarmamento? Quem é que garante que Israel vai retirar? Quem é que assume a segurança de Gaza? Nas negociações, o mais difícil raramente é chegar a um acordo de princípio. Isso até costuma ser relativamente célere. O mais difícil é mesmo construir uma confiança suficiente para haver execução. E é precisamente aí que costumam fracassar os processos de paz. E é precisamente por isso que a pressão internacional, como eu referia, poderá ser necessária e deve ser. Um acordo deste gênero não vai sobreviver apenas com declarações políticas. Eu já disse isto no passado, precisa de uma fiscalização, precisa de forças de estabilização externas, precisa essencialmente de condições claras pra qualquer violação. Portanto, a posição do Qatar aqui ganha mais força e eu creio que Netanyahu terá mais dificuldade em justificar o não fazer com base na ausência de um interlocutor palestiniano que esteja disposto a ceder. Ainda assim, um pouco como disse relativamente ao primeiro assunto que abordamos, isto é apenas parte do problema, porque continua totalmente em aberto uma governação futura de Gaza, a reconstrução, o destino das forças e tudo mais.

Vamos avançar, falar também sobre a guerra na Ucrânia. Dois temas para abordarmos numa única questão. Estamos a aproximar-nos também do final do nosso tempo. Temos ainda três minutos e meio para falarmos sobre Vladimir Putin, que quer alterar o acordo militar com a Bielorrússia para facilitar a troca de armamentos, numa altura em que Zelensky diz que vai avaliar os diplomatas ucranianos pela capacidade de garantirem mais armas para a guerra. Do lado ucraniano, Pedro Nascimento, estamos a ver um consolidar de forças enquanto nação à procura de defender-se e o que é que nos diz esta mudança de Putin em relação à Bielorrússia?

Começando mesmo por aí e pelo menos seguindo as fontes que habitualmente sigo, não é difícil nós tirarmos aqui uma leitura relativamente a estes atos. Digamos que a alteração do acordo visa facilitar uma cooperação técnico-militar entre Moscovo e Minsk, as transferências de armamento. Isto tudo deve ser entendido como mais um passo na integração da Bielorrússia na retaguarda militar russa. Não tenho dúvidas relativamente a isso. Não é apenas uma questão burocrática. Tentar reduzir obstáculos às trocas de armamento naturalmente que vai facilitar a manutenção, o abastecimento, uma produção conjunta e circulação de material. E pra Rússia, isso oferece uma profundidade logística muito próxima da Ucrânia e da fronteira oriental da NATO. É muito importante nós vermos isto, porque é difícil nós às vezes fazermos afirmações que não soam demasiado alarmistas e sendo levadas a sério. Eu volto a repetir: este acordo oferece uma profundidade logística muito próxima da Ucrânia e da fronteira da NATO. Portanto, sabem perfeitamente o que estão a fazer. E pra Lukashenko, este acordo garante proteção, essencialmente, e acesso às capacidades russas. Mas tem um custo, porque a Bielorrússia torna-se progressivamente menos autónoma do ponto de vista militar. Quanto mais integradas estiverem as estruturas dos dois países, mais difícil é separar uma decisão bielorrussa de uma decisão estratégica tomada por Putin. Mas eu creio que Lukashenko sabe isso e está disposto a pagar esse preço. Quanto à Ucrânia, eu acho que estamos numa fase da guerra bem diferente, felizmente para a Ucrânia, mas colocaria aqui o ponto mesmo na questão diplomática e das alterações políticas que têm tentado encetar. E vemos, por exemplo, que a exoneração da embaixadora em Washington mostra que há uma orientação para produzir consequências políticas concretas. Portanto, a mudança ocorre precisamente quando a Ucrânia procura mais armamento, mais sistemas Patriot, e tenta preservar o apoio militar americano num relacionamento que nós sabemos que é muito difícil. E esta é a embaixada mais importante pra um país cuja defesa depende em grande medida do armamento e da inteligência dos Estados Unidos. Por isso, esta substituição, neste momento, é uma mensagem pra todo o corpo diplomático. Já não basta manter estas boas relações institucionais ou organização de encontros e tudo, é preciso trazer resultados militares concretos. E eu diria que isto revela, pela fase em que estamos, eu não quero que o termo pareça demasiado forte, mas quase que uma militarização da política externa da Ucrânia, porque a diplomacia passa a ser avaliada por critérios mais próximos de uma cadeia logística militar. Quantos mais mísseis, quantos mais sistemas de defesa, quantos mais acordos de produção forem assinados, quanto tempo demora o material a chegar, tudo isso vai ter uma influência completamente diferente. Por isso a Ucrânia está a transformar as embaixadas numa extensão do seu esforço de guerra. É perfeitamente compreensível, mas também demonstra que a frente diplomática, mais uma vez, tem uma importância extremamente decisiva, quase tanto como a frente militar.

E é com essa ideia que encerramos o Gabinete de Guerra de hoje. Muito obrigado pela análise. Pedro Nascimento é investigador de História Militar. Fica por aqui o Gabinete de Guerra, está de regresso amanhã à antena da Rádio Observador.