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Gabinete de Guerra esta manhã com a análise do coronel José do Carmo. Bom dia, bem-vindo coronel.
Olá, bom dia.
Bom dia. Começamos pela reunião do G7 em França, onde vimos Macron ladeado por Donald Trump e Volodymyr Zelenskyy. Putin não deve ter gostado muito, mas coronel, o que fica deste encontro e também da reunião à margem da cimeira entre Trump e o presidente ucraniano. Entretanto, Zelenskyy admitiu que pode voltar a reunir-se com Trump ainda esta quarta-feira.
O que fica é que Zelenskyy, não só Zelenskyy, toda a gente precisa de um mediador. E Trump, com todos os seus defeitos, é de facto o único mediador que é reconhecido como tal por ambas as partes e, portanto, parece ser a única pessoa, neste momento, capaz de colocar na mesa as duas partes, nomeadamente a Rússia, sobre a qual Trump tem alguma credibilidade, pelo menos ela advém das cedências ou da maneira como se deslocou da sua posição de aliado da Ucrânia para mediador, digamos assim, se colocou à parte. E por isso tem essa capacidade, é algo que se lhe reconhece e obviamente que quando a Ucrânia está num momento em que a sua capacidade negocial é maior, porque de facto tem conseguido conter na maior parte da frente os avanços russos e está a colocar em causa a própria profundidade russa.
Então Zelenskyy afirmava que a Rússia não está a ganhar esta guerra.
Não está a ganhar porque já devia ter ganho em três dias, como se dizia. E já lá vão mais de quatro anos, não está a ganhar e está inclusive a sofrer no seu território golpes que não estava à espera quando iniciou isto. Não está a ganhar. Neste momento é o momento ideal para fazer negociações. A Ucrânia está numa posição que é a melhor dos últimos tempos e é natural que queira aproveitar isso, que lhe dá alavancas para umas negociações. Precisam de um mediador. Eu acho que é daí que vem esta capacidade de Trump de estar lá, porque de facto ele pode ser a pessoa que dispõe a mesa e leva as partes a sentar-se.
Sobre o Médio Oriente, os serviços secretos norte-americanos afirmam que a guerra no Irão permitiu que Teerão tenha adquirido o poder de controlar o estado do estreito de Ormuz, de acordo com três fontes dos serviços secretos. É uma arma mais poderosa do que qualquer bomba nuclear. Coronel, esta avaliação das secretas não é a prova de que a tecnologia militar dos Estados Unidos foi derrotada não só pela geografia, mas também pela paciência estratégica de Teerão?
Não, eu acho que foi derrotada essencialmente pela falta de estômago, como o próprio Trump disse. Os Estados Unidos não têm estômago para uma guerra. Foi derrotada não pela capacidade do Irão. O Irão pode fazer muitas coisas, obviamente. Hoje em dia para bloquear um estreito basta uma ameaça. Nem sequer é preciso grandes meios para o fazer. Basta uma ameaça. Os seguros não cobrem, os navios não passam. Isso é o que basta. Aliás, neste momento, segundo algumas notícias, tem estado a acontecer, inclusive, no estreito de Ormuz, ataques de drones a navios. Tem sido notícia pelos Estados Unidos, segundo consta, não há notícias confirmadas, mas fala-se nisso. O que parece haver aqui é a falta de vontade dos Estados Unidos de irem até algumas consequências numa guerra que lançaram com objetivos e chegou o momento em que decidiram saltar fora, porque não têm estômago para uma guerra a esse nível. Portanto, neste caso, sim, o Irão, pela sua capacidade de sofrer e não se importar em encaixar danos que seriam devastadores para qualquer outro país. Não se importam, porque não se importa muito que o povo sofra. E como não se importa, está nesta capacidade de impor, de sair por cima. É como Hegel dizia, que num confronto entre dois homens, aquele que se dispõe a morrer é o que acaba por ser o senhor, porque o outro rende-se. A relação senhor e escravo começa aí. Há um que aceita a morte e por isso sai por cima, porque não morre, e outro que se rende porque não quer morrer. Basicamente é isto.
Entretanto, o Irão diz que vai responder de forma severa aos ataques israelitas de ontem no sul do Líbano. Coronel, a assinatura do acordo de paz é na sexta-feira ou se calhar devemos dizer só na sexta-feira. Vai aguentar até lá?
O Irão está numa posição ótima neste momento, porque tem os Estados Unidos do seu lado, basicamente. Os Estados Unidos neste momento passaram para o lado do Irão, digamos assim, pelo menos aparentemente. Estão a constranger Israel, já impediram um ataque.
Podemos dizer que também estão do lado do Hezbollah?
Sim, factualmente estão, porque no fundo o Hezbollah está num território onde não deve estar, não está armado, é uma unidade do Irão. E os Estados Unidos neste momento estão a defender, aliás, eu até escrevi um artigo sobre isso no Observador, estão do lado do Hezbollah, objetivamente. Se há nisto um plano maior que ninguém conhece, aliás, ninguém conhece, como até os próprios congressistas e senadores americanos não conhecem e estão neste momento muitos a pedir onde é que está o memorando de entendimento, onde é que está o texto, o que é que está ali previsto. Porque aquilo que se sabe, ou que se julga saber, é no fundo uma capitulação americana. A América vai para uma guerra com um aliado, a meio da guerra apunhalam o aliado pelas costas e passa-se para o outro lado. É uma coisa que já aconteceu na Ucrânia e pelos vistos está a acontecer agora também ali. Portanto, neste momento, sim, objetivamente os americanos estão a ser aliados do Irão e de Israel, provavelmente a troca da promessa de investimento de um trilhão de dólares que o Catar promete fazer nos Estados Unidos. Não sei se será isso, mas pelo menos é uma explicação possível.
Coronel José do Carmo, muito obrigada pela sua análise. É mais um Gabinete de Guerra. Um bom dia para si.
Um bom dia para si. Obrigado.
Obrigada.