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Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Eu sou o Luís Soares e conosco temos hoje o Major-General Isidro Morais Pereira. Boa tarde, bem-vindo mais uma vez ao nosso Gabinete de Guerra. E começamos pelo Médio Oriente, porque há aqui várias notícias que mostram uma possibilidade de estar iminente um acordo de paz entre Israel e o Hamas. Acredita, Isidro Morais Pereira, tendo em conta as notícias que vêm surgindo, que poderá haver um acordo à vista?
Nós sabemos que estes últimos dias, hoje estamos em dia 13, temos ainda mais cerca de seis dias da administração Biden. E sabemos que a pressão por parte da administração Biden tem sido uma pressão enorme sobre o executivo israelita no sentido de chegar a acordo com as forças do Hamas, da Faixa de Gaza, por forma a conseguir a libertação de um conjunto de reféns que ainda não sabemos bem qual é. As últimas informações que consegui obter é que o próprio Hamas continua a não libertar uma lista de reféns que ainda possam estar vivos. Continua a haver aqui algumas dificuldades. Agora, por parte de Israel, há um receio de que nesta ponta final da administração Biden, que a própria administração Biden não vete uma eventual resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas, tendente a obrigar Israel a abandonar a Faixa de Gaza e os territórios, eventualmente, até do Líbano, antes daquilo que estará previsto. Portanto, parece-me que esta pressão final por parte dos Estados Unidos está a ter uma influência grande. Agora, que possa haver um acordo consolidado e que esse acordo permita a libertação integral de todos os reféns, não me parece que isso venha a acontecer. E até a minha opinião vai no sentido de que mesmo que neste momento possa haver um acordo, ele não vai ser mais do que um acordo temporário, porque mal a administração Trump tome posse, e se não houver uma libertação integral dos reféns, principalmente daqueles que têm cidadania também americana, eu julgo que vai haver aqui pesadas medidas. Não direi que os Estados Unidos venham a intervir diretamente nas operações na Faixa de Gaza ou no sul do Líbano, mas que dê completa carta-branca a Israel pra poder atuar dentro da Faixa de Gaza e completar as operações tendentes à destruição completa pelo menos dos operacionais do Hamas. Portanto, se me perguntar se vai de fato ser assinado um acordo tendente à libertação de reféns, eventualmente poderá acontecer, mas eu, na minha ótica e na leitura que faço, na posse da informação que consegui obter, é que ela não passará de algo temporário. Vai ser algo temporário, porque Israel está a ser, por outras palavras, forçado pela administração Biden a concordar com uma situação que não lhe é favorável. O Hamas continua sem libertar uma lista clara de quantos reféns estão vivos, quem são e os respectivos nomes. E há aqui uma grande pressão por parte do executivo norte-americano para que nesta ponta final, nesta última semana, nestes últimos sete dias que restam, que se consiga um acordo que conduza à libertação de reféns e à acalmia na Faixa de Gaza, à retirada das forças israelitas da Faixa de Gaza, à entrada de mais ajuda humanitária, portanto, todas aquelas condições que nós sabemos. Parece-me que vai haver um acordo e sabemos que Benjamin Netanyahu ontem enviou mais uma vez um alto responsável israelita, designadamente David Barnea, que é o próprio líder do Mossad, que estará presente em Doha hoje a tentar ultimar os preparativos pra assinatura de um eventual cessar-fogo. Vamos ver.
A verdade é que os Estados Unidos admitem que poderá haver um acordo ainda esta semana, é o que diz o conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos.
É, o conselheiro nacional dos Estados Unidos diz isso, e diz porque está naturalmente ciente daquela pressão que eu referi, que tem sido imensa sobre o executivo israelita. E de fato, há um receio grande, porque repare bem, se nestes últimos sete dias, um dos países que pertence às Nações Unidas propuser uma votação em sede do Conselho de Segurança das Nações Unidas, uma resolução a obrigar Israel a retirar, e se os Estados Unidos não vetarem, o que vai acontecer é que essa resolução vai passar. E mesmo que a futura administração Biden tente revogar esta resolução, nunca vai conseguir, por uma razão muito simples: por causa do sistema de vetos. Porque se a administração Trump tentar revogar uma eventual situação dessa natureza, vai haver sempre países que vão vetar, como a China, como a Rússia Vão opor-se naturalmente a essa situação. E isto ficará para sempre uma chaga a pender sobre o governo israelita. Esse é o grande problema que se coloca neste momento ao Executivo israelita. Por isso é que eu acho que de alguma maneira, Israel poderá concordar, eventualmente, até com condições que à partida não lhe sejam francamente favoráveis. E que possa haver aqui um acordo de cessar-fogo que eu digo, muito sinceramente, na próxima semana ou daqui por alguns dias, vamos ver essa situação revertida, porque a administração americana vai mudar e tem outra posição, como nós sabemos, relativamente à questão israelita.
Deixe-me colocar aqui outra questão que vai ao encontro daquilo que estava a dizer, senhor Major-General, que tem a ver com o fato do ministro das Finanças de Israel ter caracterizado esse acordo ou eventual acordo como uma catástrofe para a segurança nacional de Israel. O governo de Netanyahu ficará debilitado se realmente houver acordo e houver algum entendimento, poderá ser prejudicial para Netanyahu?
Vamos ver. Pode ser prejudicial, principalmente para Netanyahu e para aqueles das alas mais radicais, que têm como possibilidade que ele continue a ser primeiro-ministro, que não irão ficar certamente satisfeitos. Agora, toda esta situação tem que ser devidamente enquadrada e é uma situação temporária. O acordo pode ser assinado, mas nada garante que, por exemplo, eu vou dar imensos exemplos de acordos de cessar-fogo que passado pouco tempo são quebrados por uma das partes. Ninguém garante que Israel, neste momento, não concorde com um cessar-fogo e que esse cessar-fogo normalmente é implementado em fases, como nós sabemos, este não será exceção a isso. Nada impede que Israel na próxima semana quando depois do dia 20 diga assim: "Não, não concordo com isto porque aconteceu isto ou aquilo, ou aqueloutro" e fica tudo em águas de rocalhão, para usar esta expressão muito portuguesa.
Claro.
É aquilo que eu acho. Eu acho que quando um país está a ser encostado à parede, o que acontece? Israel está a ser encostado, quer dizer, está a ser forçado a concordar com algo que não concorda de princípio, porque todos nós sabemos que neste momento grande parte não apenas do Executivo israelita, mas também partes significativas até da oposição israelita, começam a olhar para trás e para algumas decisões que foram tomadas no passado, como aquela que até a qualquer um de nós surpreendeu, a troca de um simples sargento das Forças de Defesa de Israel, trocado por mais de mil presidiários palestinianos. Isso foi abrir a caixa de Pandora. Isso foi algo que os israelitas hoje reconhecem como profundamente errado, quando o princípio da troca é de um por um. É esse o princípio que se aplica normalmente nos conflitos armados. Não quer dizer que aqui fosse aplicado tout court, mas quer dizer, esse princípio levou a que o próprio Hamas pusesse de pé um 7 de outubro, porque agora vamos nos pôr nos sapatos dos líderes do Hamas. Se no passado foi possível trocar um israelita por mais de mil palestinianos, claro que o Hamas começou a planear: então se nós conseguíssemos, em vez de um, fazer reféns às centenas, nós praticamente poderíamos exigir este mundo e o outro. Esse foi um precedente que foi aberto e que Israel, finalmente, ou grande parte, não direi toda a população israelita, como é óbvio, aqueles que têm os seus familiares feitos reféns, aquilo que mais querem, alguns até estavam dispostos a dar a vida, até trocariam de posição só para verem os seus familiares regressarem de boa saúde às suas famílias. Mas grande parte dos israelitas já reconheceram que isso foi um erro profundo e que não estão dispostos a repeti-lo no futuro. E o que está a acontecer neste cessar-fogo, nesta negociação, está a acontecer, não direi a troca de um por mil, mas continuamos aqui com uma grande desproporção. Quer dizer, continua-se aqui a aplicar um sistema parecido com o qual Israel não concorda em princípio. Aquilo que eu acho é que eventualmente Benjamim Netanyahu, tendo receio que nestes últimos sete dias possa eventualmente ser aprovada uma resolução que não interessa a Israel em sede do Conselho de Segurança das Nações Unidas e que os Estados Unidos não vetem, pelo menos esta administração, é evidente que Benjamim Netanyahu poderá ser levado a concordar com condições que não são as melhores para Israel. Agora, nós temos que pensar que falta uma semana, daí que Israel depois cumpra integralmente aquilo com que se comprometeu.
Já será outra grande questão.
Já será outra grande questão, porque nós sabemos que muitas vezes os acordos de cessar-fogo são respeitados uns dias e depois acabam por não ser respeitados. E parece-me que no caso israelita poderá acontecer eventualmente.
É isso. Senhor Major-General, vamos também olhar um pouco para o conflito entre a Rússia e a Ucrânia numa altura em que continua a falar-se sobre o financiamento da NATO por parte dos países membros. A Rússia fez uma declaração a dizer que não vai atacar os países da NATO, foi o que disse o diretor do Departamento dos Assuntos Europeus do Ministério Russo dos Negócios Estrangeiros. O que significa exatamente esta declaração?
A Rússia, neste momento, está a querer limpar um pouco a face e a imagem, porque a Rússia tem levado a cabo um conjunto de ações de guerra híbrida, desde destruir as ligações dos cabos de fibra óptica no Mar Báltico, até destruir os cabos de ligação e fornecimento de energia entre os países bálticos e a Finlândia. Tem levado a cabo ações indiretas procurando incendiar aviões de transporte. Tem feito uma série de peripécias, tem ameaçado invadir o espaço aéreo várias vezes de países pertencentes à NATO. Aqui há uns meses atrás, há um drone, um MQ-9 Reaper norte-americano que acabou por se afundar nas águas do Mar Negro, provocado por um toque de um caça russo. E neste momento a Rússia quer mudar a percepção do Ocidente relativamente a essa questão. O que a Rússia quer agora vender ao Ocidente é que a Rússia não é uma ameaça para o Ocidente, quando neste momento a percepção que os países ocidentais, incluindo os países da NATO como um todo, o próprio Secretário-Geral da NATO tem dito, em sede da União Europeia, também os grandes responsáveis, os mais altos dignitários têm dito praticamente o mesmo. E são cada vez mais as vozes a dizer que se a Rússia, por qualquer motivo, conseguir levar esta sua contenda na Ucrânia por diante e sair vencedora de alguma forma, que é uma questão de tempo para invadir, por exemplo, os países bálticos, que também fizeram parte da antiga União Soviética, como nós sabemos, eram repúblicas da antiga União Soviética, e eventualmente até ir mais longe no Ocidente, naquilo que é a NATO. Portanto, todos nós sabemos da ambição imperialista da própria Rússia. À Rússia, esta imagem neste momento não lhe interessa, e não lhe interessa particularmente neste momento, por quê? Porque muito possivelmente estamos na antecâmara de negociações. Já se fala num primeiro telefonema aprazado entre Vladimir Putin e o próximo presidente norte-americano, que tomará posse dentro de sete dias, Donald Trump. Já há países a oferecerem os seus bons ofícios e o seu território para uma futura reunião. Quer a Suíça, quer a própria Sérvia já puseram à disposição o seu território para essa finalidade, como nós sabemos. E no introito de negociações, não interessa à Rússia ter essa imagem de um país que, para além de querer a Ucrânia, quer muito mais. Quer muito mais que a Ucrânia, quer fundar um império e ter uma atitude hostil perante a NATO. Portanto, nós sabemos que, e se formos realistas, a única ameaça séria que a Rússia, e era preciso que isso acontecesse, porque era preciso que o líder russo e grande parte daqueles que o rodeiam perdessem completamente o juízo. Porque a Rússia, a única coisa que tem e que é o maior fator de poder neste momento, é ter armas nucleares, porque o resto da Rússia, a economia russa está como nós sabemos. Não direi que está por um fio, mas é uma questão de mais dois a três semestres, quando muito. E a Rússia sabe que está numa corrida contra o tempo e que há o seu opositor, que é a Ucrânia, que também está numa corrida contra o tempo. Naquilo que Vladimir Putin aposta, é que a Ucrânia poderá sucumbir antes da própria Rússia chegar ao seu limite. E o seu limite é o colapso da sua economia. Portanto, neste momento a Rússia quer mostrar ao mundo que não é uma ameaça a mais ninguém e que o único problema é a Ucrânia, pelos motivos que ele tem dito e que tem repetido mil vezes, que a Ucrânia não tem razão de existir, que a Ucrânia precisa de ser desnazificada e que a Ucrânia não tinha um tratamento igual para os ucranianos e os ucranianos com origem russa. Portanto, nós sabemos quais são as razões invocadas e neste momento parece que o Kremlin está a espalhar um tipo de campanha de desinformação, no sentido de granjear uma melhor imagem no mundo ocidental e fazer crer que não é, de facto, um bicho-papão e que não é uma ameaça ao Ocidente. Mas isto não passa de narrativa, atenção, porque as intenções não mudaram, nós sabemos.
Claro. Major-General Izidro Morais Pereira, muito obrigado pela sua análise no "Mais Um Minuto de Guerra". Eu sou o Luís Soares, estamos de regresso amanhã.