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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. Major-General Isidro Morais Pereira, os seis helicópteros Kamov de combate a incêndios oferecidos por Portugal à Ucrânia há mais de um ano ainda estão cá. As autoridades estão à espera de indicações de Kiev. Isto é normal?
Sinceramente, nós sabemos que os helicópteros Kamov tiveram grandes problemas porque a cadeia de manutenção e o fornecimento de peças foi descontinuado. Houve uma grande dificuldade em manter essa frota de helicópteros operacional. Nós sabemos que a própria Ucrânia opera helicópteros desta natureza. Penso que não é normal, penso que é uma questão de criar uma forma de fazê-los chegar à Ucrânia, porque penso que, pelo menos das últimas informações que eu tive, a Ucrânia mostrou-se receptiva em receber estes helicópteros Kamov no estado em que eles estão, porque julgo que a Ucrânia tem capacidade para os manter e tem mecânicos que conhecem bem este tipo de aeronaves. Eu não percebo, sinceramente, qual é o entrave, qual é o obstáculo que impossibilita a transferência destas aeronaves para a Ucrânia. Se é um problema de transporte, resolva-se. Naturalmente que estes helicópteros não irão voar daqui para a Ucrânia, eventualmente, mas podem ser transportados, quer por navio para os portos da Polónia, quer por outros meios. Podem perfeitamente ser transportados e ser colocados na Ucrânia. Eu, muito sinceramente, acho lamentável que este apoio, que foi um apoio fornecido por Portugal, que estas aeronaves ainda não estejam a auxiliar o esforço de guerra da Ucrânia.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, revelou hoje que o Kremlin o tentou matar cinco ou seis vezes e diz que a Rússia vai tentar derrubar o governo ucraniano até ao final do ano. Como é que analisa esta revelação agora? Revela receios do presidente ucraniano e sinais de desunião do seu governo?
Não me parece que isso seja revelador de sinais de desunião do Executivo ucraniano. Esta questão das cinco, seis vezes, eu até julgava que tivessem sido mais, porque a própria Ucrânia, de há uns meses a esta parte, julgo que até foram os elementos do GUR, alguém do GUR que terá dito que o presidente da Ucrânia já foi sujeito a pelo menos 12 ou 13 atentados. Agora, o próprio presidente Zelensky vem dizer que já foi sujeito a pelo menos tentativas de assassinato uma dúzia de vezes ou meia dúzia de vezes. Esta notícia é algo que tem que ser interpretado à luz daquilo que está a acontecer neste momento. Todos nós sabemos que parte do apoio militar que estava previsto ser fornecido à Ucrânia, fundamentalmente munições de artilharia, está a ser desviado para o conflito que opõe Israel ao Hamas. Neste momento, o conflito ucraniano saiu também do espaço mediático, o que acaba por ter reflexos negativos na quantidade de apoio que o Ocidente tem vindo a dar ou tem vindo a prestar à Ucrânia. Eu julgo que este tipo de notícia, há uns dias, pelo presidente Zelensky, numa entrevista que deu à Bloomberg, em que disse precisamente que neste momento o Kremlin estaria a arquitetar uma forma híbrida da guerra, fazendo cair o Executivo da Ucrânia. E também sabemos quais foram as reações de Medvedev. Medvedev, inclusivamente, até veio de forma jocosa dizer que já estava tudo a ser preparado. Inclusivamente, já estavam a pedir à senhora norte-americana que esteve no Maidan de 2014 a fornecer alimentos aos ucranianos, como nós muito bem sabemos, e que os militares russos envolvidos nesta conspiração já estavam a pedir a essa mesma senhora o fornecimento de tortas para serem distribuídas aos manifestantes pró-russos que iriam fazer cair o governo ucraniano. Eu penso que isto tem que ser interpretado não propriamente como um perigo iminente de existir uma tentativa de golpe de Estado para depor o presidente Zelensky, mas parece-me que é uma necessidade que a própria Ucrânia tem de voltar a colocar-se na agenda mediática mundial, porque a Ucrânia necessita de apoio. Todos nós sabemos que o conflito que opõe a Rússia à Ucrânia e vice-versa, a Ucrânia só tem hipótese de sair vencedora desta contenda se continuar a contar com o apoio ininterrupto das potências ocidentais, designadamente dos Estados Unidos. E dos Estados Unidos também, as notícias não sendo completamente animadoras, mas de alguma forma são notícias positivas, porque tudo indica que, pelo menos até dezembro, este diferendo que opõe a Câmara Baixa, o Congresso Americano ao Senado, quanto à aprovação dos 66 mil milhões de dólares que a própria Casa Branca quer ver aprovados em ajuda militar À Ucrânia e ao mesmo tempo está a colocar cerca de 12 a 13 milhões para o melhoramento das barreiras da fronteira entre os Estados Unidos e o México, que é uma aspiração republicana, que os republicanos querem pôr em prática. Aquilo que parece é que, pelo menos a dar por boas as informações que vamos colhendo nos Estados Unidos, é que pelo menos até dezembro este problema estará resolvido, porque se não for resolvido, penso que a Europa vai ter que substituir de alguma forma os Estados Unidos, porque senão a Ucrânia vai acabar por ser vencida. Não há qualquer hipótese da Ucrânia sair vencedora se não tiver o apoio ininterrupto dos países ocidentais. E há um comprometimento político. Eu ainda não me esqueci de qual é a posição dos políticos europeus e do Ocidente alargado. Nós não podemos pura e simplesmente esquecer que a Ucrânia existe e que continua a existir uma guerra, e uma guerra séria. Aliás, ontem. A Rússia já há alguns tempos não levava a cabo ações de bombardeamento sobre estruturas de transformação de energia e sobre estruturas de produção de energia da Ucrânia. Mas aproximou-se o inverno e tal como nós estaríamos à espera, ou como era esperado, até pelos próprios serviços de informação ucranianos e informações norte-americanos, a Rússia iria pôr em pé novamente uma campanha de bombardeamento procurando criar grandes dificuldades à vida das populações ucranianas, principalmente nesta estação de inverno que é extremamente difícil pro povo ucraniano.
Charles Michel está hoje em Kiev para assinalar 10 anos do movimento Maidan. Uma visita do presidente do Conselho Europeu a três semanas do começo das negociações pra adesão da Ucrânia à União Europeia é um bom empurrão?
É, a presença de altos dignitários das organizações às quais a Ucrânia quer aderir e que tem mostrado uma vontade férrea de o fazer. Aliás, tem posto em marcha uma luta sem quartéis contra a corrupção, que é endêmica praticamente em todas as repúblicas da antiga União Soviética. A presença de líderes ocidentais em Kiev deve ser sempre interpretada como um sinal de apoio à causa ucraniana, porque o povo ucraniano já decidiu de que lado é que quer estar. O povo ucraniano quer estar do lado do Ocidente, quer aderir à União Europeia, quer fazer parte do clube da União Europeia e quer fazer parte da NATO. E aquilo que o Ocidente tem prometido à Ucrânia é que o caminho pode ser árduo, não vai haver uma via verde simplificada, mas aquilo que tem sido dito, quer pela senhora von der Leyen, quer por Charles Michel, quer por todos os outros altos dignitários da União Europeia e também da NATO, é que as portas estão abertas e que a Ucrânia se for capaz de levar a cabo as reformas necessárias e terminadas as hostilidades, porque isto é importante ser dito, uma vez terminadas as hostilidades, as portas estão abertas. Isto é muito bem-vindo e é bom sinal que líderes europeus e do mundo livre, do Ocidente alargado, como hoje tanto gosta de se designar, visitem com frequência Kiev. Ainda ontem esteve lá o secretário Lloyd Austin.
O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30, tem nova edição depois da síntese das 16h30 e está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.