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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, onde fazemos o ponto de situação dos conflitos na Ucrânia, também no Médio Oriente, hoje com a Madalena Meyer Resende, especialista em Relações Internacionais. Bom dia, Madalena.

Bom dia.

Bom dia. Há um acordo de cessar-fogo de última hora ou das últimas horas, assinado entre Israel e o Líbano, mediado pelos Estados Unidos. O governo libanês vai ser chamado a controlar as zonas que agora são controladas pelo movimento Hezbollah. Vai ser possível cumprir este acordo?

É um acordo importante, uma vez que representa uma derrota importante do Irão e de facto parece ser não um acordo de paz pleno, mas uma tentativa realmente de transformar este cessar-fogo, que nunca foi muito respeitado, num processo mais duradouro, em que há um acordo entre os Estados Unidos, Israel e o próprio Líbano de realmente expulsar o Hezbollah do sul do Líbano. As dificuldades são que o exército libanês é um exército bastante fraco e que este patrulhamento da fronteira de Israel a cargo deste exército é difícil e não vai ser propriamente óbvio que consiga tomar controle e expulsar o Hezbollah.

O próprio governo libanês também é muito frágil, não é? Isso também pode dificultar a implementação de um acordo.

Com certeza, exatamente. Esta é uma tentativa de transformar aquilo que é quase um Estado falhado, num Estado que é capaz de manter a soberania sobre as suas fronteiras e em cooperação com os Estados Unidos e com Israel, diminuir substancialmente o poder do Hezbollah, que tem vindo a declinar, obviamente, visto hoje em dia que só tem praticamente operacionais iranianos. Mas de qualquer maneira, continua a ser um acordo frágil, uma vez que o Hezbollah é também um ator político interno e continua em guerra com o Estado israelita. E penso que aqui a diplomacia americana fez um bom trabalho no sentido de conseguir separar realmente esta frente libanesa da guerra entre os Estados Unidos, Israel e o Irão. E este é mais um sinal de que essa estratégia poderá ter bons resultados.

É um acordo sempre frágil, como dizia a Madalena, que pode mudar a qualquer instante. Nas últimas horas, há a notícia da morte de um soldado da UNIFIL, cuja nacionalidade permanece desconhecida, assim como as causas da sua morte. É importante saber a nacionalidade deste soldado e também as causas da sua morte. E pergunto, Madalena, se isso pode condicionar a aplicação do acordo de paz ou acordo de cessar-fogo no sul do Líbano.

Como eu disse, é um acordo tentativo, o cessar-fogo de abril sempre foi violado parte a parte. Este é um processo diplomático e político em que os Estados Unidos servem como mediador e garante, e obviamente que continuará a ser violado. A questão é a escala e o resultado macro, no sentido do enfraquecimento efetivo do Hezbollah a médio prazo. Portanto, penso que estes episódios, infelizmente, vão continuar a acontecer.

Ben-Gvir, o ministro do Interior de Israel, já se manifestou contra este acordo de cessar-fogo. O governo israelita está dividido, Madalena, ao ponto de até poder desfazer-se ou não?

Isso é uma pergunta de...

Que convida a uma resposta muito especulativa.

Exato. É difícil de prever, mas de facto há divisões óbvias dentro do governo israelita e as fações mais duras quereriam um acordo ainda mais favorável a Israel. Penso que este é uma via que, de qualquer maneira, é uma vitória já para Israel sobre o Irão e sobre o Hezbollah.

Muito bem. Vamos olhar para a questão iraniana. Há um cessar-fogo precário também em vigor e há negociações em curso, mas sem um acordo de paz definitivo. E nas últimas horas houve notícia de algum azedume na conversa ou nas conversas entre os aliados Trump e Netanyahu. Madalena, o que é que está nesta altura a bloquear um acordo de paz efetivo para o Irão?

Eu penso que isto, de facto, é um momento clássico de impasse, ou seja, há negociaçõesPorque a escalada é demasiado perigosa e cara, mas obviamente que há ataques parte a parte, que nenhuma das posições parece querer negociar a partir da situação em que está. Eu penso que este meio-termo em que ambas as partes estão simultaneamente a combater e a negociar faz parte, não é propriamente muito surpreendente. Mas obviamente que o facto de estarmos perante um conflito em que há repercussões no Líbano, no Kuwait, no Bahrain, no Estreito de Ormuz, continuam a querer dizer que os Estados Unidos estão dispostos a pagar este preço e a exportar este preço para os seus aliados na região, e que esta situação vai permanecer, sendo que, obviamente, o que parece também é que o Irão está numa situação de fraqueza e de também divisão interna que não permite chegar a uma conclusão ao nível diplomático.

Portanto, vamos continuar numa situação de impasse que poderá ser desbloqueada com o aproximar das midterms nos Estados Unidos, Madalena, ou não é um fator que condicione a assinatura de um acordo de paz para a região?

Surpreendentemente, a verdade é que Donald Trump tem-se mostrado muito resistente, no sentido de não aceder a um acordo eventualmente fraco sobre as questões fundamentais, sobre as questões nucleares, para obter uma paz relativamente rápida. Isso significa que ele aparentemente decidiu que está disposto a perder eleitoralmente por causa das consequências negativas econômicas que este conflito está a ter e, portanto, que as considerações eleitorais não são tão importantes como nós pensaríamos talvez há umas semanas ou meses. Portanto, as midterms aparecem aqui como, obviamente, um horizonte que importa, mas que não determina completamente, ou não em parte significativa, as negociações. Isso é uma novidade para uma administração que se dizia absolutamente não disposta a investir muito na paz para fora das suas fronteiras e de se tornar garante, de certa maneira, de uma ordem internacional que, aparentemente, essa tomada de posição é o contrário do que estão a fazer agora, e mesmo podendo sofrer consequências eleitorais importantes.

Vamos olhar para o conflito na Ucrânia. Kiev desafia Vladimir Putin com um bombardeamento massivo no coração da Rússia. Este é um conflito que também está há muito tempo num grande impasse, mas pode estar aqui num momento de viragem, Madalena, ou não?

Sem dúvida. Acho que este desenvolvimento da intensificação dos ataques ucranianos de longo alcance na Rússia, e exatamente as refinarias de São Petersburgo, que são a mais de 1100 km da fronteira ucraniana, são absolutamente cruciais para demonstrar a capacidade da Ucrânia de infligir custos muito altos a uma grande potência como a Rússia. Juntando a isso que Zelensky ontem, na conferência de imprensa com o Macron e o Lutta, disse que São Petersburgo é um alvo legítimo e, portanto, isso também nos indica, pelo menos, como os ucranianos estão a ter controle sobre a narrativa da guerra. É óbvio, desde o Dia da Vitória, em que Zelensky basicamente autorizou que estas celebrações do Dia da Vitória tivessem lugar.

Já não é só, Madalena, a Ucrânia já não é só o país que resiste, já é também o país que ataca, é isso?

Exatamente. Estes ataques às refinarias russas, e nomeadamente em São Petersburgo, mostram que a Ucrânia tem capacidade de atacar a Rússia, e são, obviamente, uma enorme derrota moral para a Rússia e, penso eu, que querem dizer que a Rússia, quer queira, quer não queira, terá que vir a negociar. E portanto, é óbvio que a Ucrânia está a tentar transformar estes ataques militares em capital diplomático e que está a criar custos reais para Moscou e para também o descontentamento aparente que parte da elite russa está a ter em relação à guerra na Ucrânia.

À guerra na Ucrânia. Esta manobra militar ucraniana deveria, na sua opinião, ser acompanhada de um esforço diplomático maior nesta altura, no sentido de pressionar a Rússia e quem é que poderia protagonizar esse movimento diplomático?

Pois, não sabemos. Penso eu, estamos na fase em que Zelensky está a demonstrar que está numa fase ofensiva, que mesmo na linha de contacto entre as forças russas e as forças ucranianas, há perdas do lado russo e que a negociação terá, obviamente, lugar com a Ucrânia em situação de poder, digamos assim, e que isso terá, eventualmente, quando as negociações tiverem lugar, peso nos resultados depois dessa própria negociação.

Muito bem. Madalena Meira Resende, muito obrigado por se ter juntado a nós neste gabinete de guerra. Muito obrigado e bom dia.

Obrigada.

Bom dia.

Obrigada, bom dia.