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Está no ar o primeiro Gabinete de Guerra desta semana, na tarde em direto, e começa com os membros residentes hoje todos reunidos: o historiador Bruno Cardoso Reis, a Judite França, o Bruno Vieira Amaral e a Vanessa Cruz. Vanessa, arrancou hoje a Assembleia Geral da ONU em Nova Iorque, que vai contar com o discurso de Volodymyr Zelensky.
Que está pela primeira vez presente nesse encontro mesmo por lá e ainda vai reunir-se com o presidente norte-americano Joe Biden na quinta-feira. Bruno Cardoso Reis, bem-vindo. Expectativas para esta assembleia geral diferente e como já disse Marcelo Rebelo de Sousa, que também está por lá, com Zelensky presente, a guerra, claro, é tema inadiável.
Boa tarde. Sim, por muito que se diga que há outros temas na agenda global, a verdade é que este é um tema muitíssimo importante. Ou seja, esta é uma guerra que tem impactos muito para além daquela região do Leste Europeu, em vários níveis. No fundo também é quase um pouco como um sismo. No momento atual não é muito bom usar esse tipo de imagens como metáfora, mas é o que me ocorre, que ajuda a revelar linhas de fratura, fragilidades na arquitetura, na ordem internacional e também a emergência destes blocos de uma Segunda Guerra Fria, um bloco mais próximo dos Estados Unidos e outro mais alinhado com potências autoritárias como a China e a Rússia. Tudo isso vai ser bastante observado e obviamente com Zelensky presente, ainda mais. Isso mostra também que a guerra tem corrido suficientemente bem para Zelensky não ser tão indispensável no terreno, na Ucrânia, poder viajar mais, ele tem feito mais isso. E esta reunião, que é o grande encontro anual diplomático global, tem a vantagem para a Ucrânia de permitir encontros, sobretudo com líderes de regiões mais afastadas, onde Zelensky dificilmente se pode deslocar com facilidade, são viagens mais demoradas, onde também não é tão seguro que seja assim tão bem-vindo, como a América Latina, como África, como certas regiões da Ásia, e portanto é útil desse ponto de vista. Vai ser também interessante ver alguns outros atores. Por exemplo, a China não envia o Wang Yi, o novamente ministro dos Negócios Estrangeiros e o chefe das relações externas do partido, vai enviar um vice-presidente com funções relativamente simbólicas. Portanto, parece haver aqui um certo sinal de desvalorização da Assembleia Geral. Por exemplo, o Brasil, por costume, até um pouco como compensação simbólica não fazer parte do Conselho de Segurança, tem o primeiro discurso na Assembleia Geral e geralmente o presidente brasileiro, ou muito frequentemente o presidente brasileiro vai em pessoa fazer esse discurso. É uma ocasião de dar maior visibilidade ao Brasil e também há alguma expectativa em torno do discurso de Lula. As informações que vêm da imprensa brasileira é que ele vai fazer uma crítica à ordem vigente e vai apelar a uma grande reforma. Imagino que insista na questão da reforma do Conselho de Segurança, possivelmente também fala das questões ambientais, mas vamos ver se ele insiste naquelas declarações mais polêmicas, por exemplo, sobre a invasão russa da Ucrânia. Realmente é um evento marcante e que vai ser observado com especial atenção este ano, no contexto de uma política global muito mais conflituosa do que tem sido costume ou do que era costume até aqui há poucos anos.
Bruno, há pouco falavas do chefe da diplomacia chinesa e ele começa precisamente hoje uma visita de quatro dias à Rússia. Depois dos encontros de Putin com os líderes norte-coreano e bielorrusso, a China fez questão de separar as águas e dizer que esses encontros não têm nada a ver com Pequim. No entanto, a cooperação continua a existir, só que bilateral.
Sim, é realmente interessante que a grande figura neste momento em termos da ação externa chinesa, uma vez que o próprio ministro dos Negócios Estrangeiros foi afastado. Ele voltou a assumir a pasta acumulando com a pasta de chefe das Relações Externas do Partido, que no Partido do Estado Chinês é mais importante do que ser ministro dos Negócios Estrangeiros, mas ele está aqui a acumular. E é interessante que realmente ele até se encontrou, também é importante sublinhar isso, com o Conselho de Segurança Nacional do presidente Biden, o equivalente norte-americano, a pessoa que junto do presidente coordena toda a ação externa, a parte da defesa, a parte da diplomacia, etc, o Jake Sullivan. Há aí algum esforço para mostrar que não há uma completa quebra, que há algum esforço para procurar uma normalização mínima ou pelo menos uma certa redução da tensão da escalada nas relações entre os Estados Unidos e a China, e que esta visita à Rússia não significa um agravar da crise com os Estados Unidos, mas é significativo realmente que ele opte por ir passar uns dias à Rússia e não passar uns dias em Nova Iorque, na Assembleia Geral das Nações Unidas. Isso, do meu ponto de vista, mostra que realmente a China quer deixar claro que não tendo aqui um alinhamento completo com a Rússia, não vai deixar cair a Rússia, continua interessada nesta parceria estratégica. E é normal que assim seja, uma vez que a Rússia está numa posição de muito maior dependência da China do que era o caso no passado e é possível à China impor condições muito mais vantajosas, por exemplo, para a importação de gás natural, petróleo. Vai ser interessante, no entanto, observar se há aqui o anúncio de algo novo. Por exemplo, o presidente Putin tem pressionado muito a China para se iniciar ou se acelerar a construção de um segundo gasoduto a ligar os campos de gás russos à China, que permitiria Pelo menos duplicar as exportações de gás e compensar as perdas que a Rússia tem sofrido por causa das sanções europeias. O gás é muito mais difícil de reexportar sem esta estrutura de gasodutos do que era o caso do petróleo. E a China não se comprometeu até agora com isso. Portanto, será interessante ver se nesse campo ou noutros, haverá o anúncio de algum reforço concreto da cooperação entre a China e a Rússia.
Bruno, Zelensky demitiu seis vice-ministros da Defesa a pedido do novo ministro. Quer isto dizer que os vices não caíram logo no início do mês, quando o Meroff assumiu funções. Era necessária esta renovação da equipa, um canal de televisão ucraniano dá conta de que serão transferidos para outros cargos.
Eu acho que aí a palavra-chave é mesmo essa renovação. Foi assim que esta nomeação de um novo ministro da Defesa foi apresentada, ainda por cima num contexto em que houve alegações de corrupção, aparentemente, ou pelo menos até agora, não envolvendo diretamente o ministro ou os vice-ministros. Mas em todo o caso, no fundo, aqui a mensagem que Zelensky procurou passar era tolerância zero e o máximo de ação energética da parte da tutela para evitar que estas coisas se voltassem a repetir, para encontrar novos e melhores métodos de controle de recursos, toda esta gestão da logística num contexto de guerra, que já se sabe que é um pouco propício, porque são sempre compras urgentes, envolvendo grandes montantes, é sempre propício, infelizmente, à corrupção. Portanto, imagino que eles tenham optado por manter a equipa neste período de transição, para facilitar a transição, para facilitar a passagem da pasta, apesar que tudo é um contexto de guerra em que as coisas não podem simplesmente parar ou ficar à espera que as pessoas se habituem às novas funções. Mas parece-me natural que para passar uma mensagem clara de renovação e até para conseguir levar a cabo essa renovação, é normal que o novo ministro queira uma equipa também nova e, portanto, parece-me relativamente lógico, uma continuação lógica de toda esta agenda de renovação da chefia do Ministério da Defesa para dar prioridade também a esta tarefa de combate à corrupção.
E esta semana arranca também, Bruno, com as audições no Tribunal Internacional de Justiça da ONU e arranca com a Rússia, que já classificou este processo como irremediavelmente falhado. Já vens falando aqui no Gabinete de Guerra dos constrangimentos do processo, que pode ser difícil nunca tocar consequências. O que é que retiras daquilo que foi dito hoje nessa audição?
Eu acho que essa posição russa é bastante reveladora, que no fundo é tentar deslegitimar, descredibilizar um tribunal que tem dezenas de juízes de múltiplos países, inclusive muitos deles do tal sul global, por exemplo, do Brasil, que a Rússia diz sempre que esses é que são os países que contam agora no futuro, são os países que realmente veem as coisas como elas são, de forma objetiva, e não os países ocidentais. Portanto, é realmente uma posição que será paradoxal desse ponto de vista. Também será paradoxal dizer que realmente não há condições para o processo avançar. Se a Rússia tivesse provas concludentes daquilo que afirma, e deveria ter provas absolutamente concludentes para poder justificar uma invasão nesta escala, toda a destruição e morte causada, supostamente porque haveria um genocídio em curso na zona do Donbass. Ora, eu já citei, aliás, aqui os números, que são de um relatório das Nações Unidas, de acordo com as próprias autoridades separatistas, nos anos 2020 e 2021, portanto, imediatamente antes da invasão, eles reportaram, estou a citar agora de memória, mas menos de 10 mortos por ano nesse tal conflito genocida. Ora, isto são as autoridades pró-russas, os aliados da Rússia nesta região. Portanto, imagino que isso crie problemas depois à Rússia em termos de produzir provas de que estava aqui em curso um genocídio em grande escala que justificasse uma invasão. E foi exatamente isso que levou a Ucrânia a colocar a questão a este tribunal da Haia, para forçar a Rússia a apresentar essas provas publicamente. A Rússia foi dizendo inicialmente que não teria problemas em fazer isso perante um organismo independente. É difícil imaginar um organismo mais independente do que este tribunal internacional, que como eu digo, tem dezenas de juízes indicados por países de todo o mundo, desde a China ao Brasil, à Índia.
Bruno, o Centro de Resistência Nacional da Ucrânia diz que o Kremlin quer levar trabalhadores da Coreia do Norte para territórios ocupados na Ucrânia, para auxiliarem na reconstrução destas áreas. Poderá ser este um dos termos das negociações entre Kim Jong-un e Putin?
A resposta mais rigorosa é: nós não sabemos exatamente, porque isto são regimes completamente fechados. A Coreia do Norte sempre foi assim, um regime completamente totalitário em que a palavra da dinastia Kim faz a lei, em que não há qualquer necessidade de prestação de contas. E na Rússia já havia tendências autoritárias e repressivas, mas elas reforçaram-se ainda muito mais com a guerra. E temos aquelas declarações do porta-voz do Kremlin a dizer que não foi nada assinado. Mas imaginamos que em termos do que é habitual na política internacional, como houve aqui todo este aparato destes dias de visitas, de eventos, num contexto ainda por cima de guerra Simplesmente para se ficar bem na fotografia. Imagina-se que há aqui acordos mais concretos. O próprio Putin e o próprio Kim referiram-se, por exemplo, no local do encontro, que é um cosmódromo, um local do programa espacial russo. Referiram-se ao interesse nessa dimensão, nessa área. Sabemos que a Coreia do Norte tem tido algumas dificuldades em desenvolver os seus satélites espiões militares, mas realmente a Coreia do Norte não tem muito para oferecer em contrapartida, por exemplo, da transferência de tecnologia mais madura espacial russa, tirando artilharia, obuses, munições de artilharia, já falamos disso, mas também realmente a própria população norte-coreana. Há aí um precedente, porque há acordos deste tipo para a presença de trabalhadores norte-coreanos na China e isso também poderia ser uma contrapartida relativamente fácil, uma vez que obviamente essas pessoas não têm a liberdade de escolher nem o líder da Coreia do Norte, nem onde querem trabalhar. Facilmente o regime podia realmente obrigar os trabalhadores norte-coreanos a ir trabalhar para estas zonas ocupadas da Ucrânia, onde aparentemente há grande dificuldade em conseguir voluntariamente trabalhadores, nomeadamente russos.
Ainda um ponto de situação sobre o terreno. A Ucrânia diz que recuperou 2 km² de território perto de Bakhmut na última semana. Está também confirmada uma explosão na sede do governo separatista de Donetsk. Estamos numa fase boa para a contraofensiva ucraniana?
Eu acho que pelo menos a Ucrânia continua a ter iniciativa e continua a conseguir alguns avanços. Já conseguiu recuperar mais território do que aquele que a Rússia conseguiu ocupar naquela sua grande vitória na ofensiva de primavera em torno de Bakhmut. Isso são dados objetivos. Agora, é verdade que não conseguiu, em nenhum dos casos, romper as linhas defensivas russas. Não há sinais de que esteja iminente um colapso das defesas russas. Isso pode acontecer, mas não temos indicações nesse sentido. Em relação a este ataque à sede deste governo separatista, aparentemente terá sido através da utilização de mísseis. A Ucrânia, na maior parte dos casos que nós temos notícia, por exemplo, ainda agora no ataque a Sevastopol, tipicamente ataca sobretudo alvos militares. A mesma coisa no interior do território russo, bases aéreas, etc. Aqui é um alvo político, mas também político-militar. É a partir de lá que é coordenado o esforço destas milícias separatistas pró-russas, que são uma parte do esforço de guerra russo. Em todo o caso, será uma relativa escalada, porque estando numa zona mais urbana, mais habitada, há sempre o risco de atingir civis, à partida será um alvo relativamente legítimo, mas com estes problemas e obviamente eu tenho que ser coerente e se acho que a Rússia não deve, e faz isso sistematicamente, atacar alvos em zonas urbanas onde há populações civis, há horas em que a probabilidade de atingir muitos civis é muito elevada, também não me parece que a Ucrânia deva fazer isso. Acho que isso é algo que, em termos da legitimação do esforço de guerra ucraniano, é importante. É compreensível, se calhar, que a Ucrânia se sinta tentada a fazer isso, a retaliar da mesma forma, mas acho que deveria evitar isso, porque isso também seria mau para a sua imagem e para a sua legitimidade, por exemplo, juntos dos aliados ocidentais.
Bruno, temos que ficar por aqui, porque o nosso tempo está mesmo a terminar, mas fica aqui um bom ponto de situação sobre o terreno e também sobre essa frente mais diplomática, sobretudo com a Assembleia Geral das Nações Unidas, que começou hoje em Nova York. Obrigada, Bruno. Até amanhã.
Obrigado.