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Gabinete de Guerra esta manhã com a análise de António José Telo, historiador e antigo professor catedrático na Academia Militar. Bem-vindo e muito obrigada por ter aceitado o nosso convite, professor.
Bom dia.
Bom dia. Começamos pela guerra da Ucrânia. A Rússia voltou a fustigar Kiev com vagas sucessivas de mísseis balísticos. Há para já relato de 15 mortos, mais de 50 feridos. Professor José Telo, esta insistência russa em atacar a capital tem como objetivo esgotar definitivamente a defesa aérea ucraniana antes do inverno?
Insere-se numa prática que infelizmente já dura há muito tempo, que é a prática de intensificar os ataques sobre as zonas urbanas e sem grandes preocupações sobre os alvos atingidos. É sempre possível invocar que um prédio de habitação estava a ser utilizado para fins militares ou que tinha militares no prédio, etc. Portanto, é uma prática que a Rússia vem incentivando e que vem incentivando, em certa medida, aliás, porque tem a utilização dos seus drones muito baratos, que são utilizados para ataques de saturação e que esses ataques produzem alguns efeitos. Quanto às defesas antiaéreas ucranianas, é evidente que elas têm debilidades neste momento, nomeadamente em termos de intercepção de mísseis balísticos, que são os mais perigosos, de facto, e que a Rússia aposta tudo nestes ataques de saturação. E faz isto também na perspetiva de eventuais negociações que poderão abrir em breve para transmitir uma mensagem de que, apesar da sua fraqueza no campo de batalha, continua a poder infligir danos significativos à Ucrânia.
E que capacidade têm ainda os aliados para ajudar Kiev?
A capacidade, repare, a ajuda é uma pequena parte daquela que é possível. A capacidade está debilitada porque toda a Europa está debilitada. A Europa andou ao longo dos anos a desarmar-se durante 30 anos, pelo menos 30 anos, e como tal agora está a pagar o preço disso. E é um preço pesado, não só em termos de quantidade, mas sobretudo em termos de qualidade. A grande dificuldade para a Europa é fornecer material de qualidade que funcione nas defesas para a defesa aérea da Ucrânia. Aliás, é significativo que uma parte, eu diria dois terços do equipamento utilizado, ou é de tecnologia ucraniana, ou é de incorporação de tecnologia ucraniana por cima do produto original que recebem. Ou seja, a indústria ucraniana que tem feito em pouco tempo uma evolução de facto incrível neste campo, tem adquirido capacidades que não tinha e neste momento está a utilizar em larga medida essas capacidades. E em certas áreas, nomeadamente na área da defesa antidrone, é dos Estados mais avançados no mundo do ponto de vista qualitativo e tecnológico, que aliás exporta neste momento a sua tecnologia, nomeadamente para os países do Médio Oriente, que também precisam urgentemente dessa tecnologia.
Precisamente sobre o Médio Oriente, Trump diz que as negociações estão a avançar bem, mas que se o Irão recuar, a opção de um ataque de grande escala continua em cima da mesa. Professor, esta estratégia de diplomacia sob pressão, sob chantagem, ainda pode vir a funcionar com o regime de Teerão ou serve apenas para consumo interno e para pressão sobre o mercado petrolífero?
É a única estratégia que pode funcionar. Eu acho, sem dúvida curioso, os observadores que dizem: "É preciso negociar". É preciso negociar, obviamente, mas simplesmente está mais que provado que uma negociação sem pressão sobre Teerão não funciona absolutamente nada. Teerão nisso tem grande prática de negociações e por isso simplesmente só cede sob pressão, não cede de outra maneira. Agora, repare, deixe-me dar-lhe um exemplo, é interessante porque é um exemplo da NATO. Já lá vão uns anos, é certo, mas quando foi a guerra da ex-Jugoslávia, em que a NATO inteiro interveio contra a Sérvia, portanto, contra o núcleo central da ex-Jugoslávia, o que a NATO fez em termos do ataque aéreo foi atingir o sistema elétrico. Ou seja, geradores, distribuidores, centrais elétricas foram atingidas e passado algum tempo, a Sérvia aceitou as condições da NATO. Portanto, foi utilizado pela NATO depois do fim da Guerra Fria, na guerra da ex-Jugoslávia. Quando digo utilizado pela NATO, evidente que era uma ação que era dirigida pelos Estados Unidos e coordenada pelos Estados Unidos, mas em que participaram todos os países da NATO pela primeira vez, aliás, a própria Alemanha participou, reunificada, participou nessa ação com meios bélicos. Portanto, temos aqui um exemplo de uma utilização, nomeadamente de paralisar o sistema elétrico de um país, neste caso a Sérvia, um país europeu, para conseguir obter um resultado político. Feito, espique-se, pela NATO. Quando os Estados Unidos falam nisso, é uma possibilidade real e é uma possibilidade que tem a potencialidade de paralisar o país, sobretudo paralisar em termos da sua capacidade de defesa e da sua indústria de defesa e da sua produção, e que é uma ameaça que já foi utilizada recentemente. E já não menciono, obviamente Período da Segunda Guerra Mundial. Mas a agente da ameça é utilizada depois que ela referia, portanto, contra a Sérvia.
Ontem, em Teerão, também deixou um aviso, disse que Washington tinha de mudar de comportamento ou que iria sofrer baixas pesadas. Professor Getel, Trump está preso numa guerra que não está a conseguir ganhar, mas que também não se pode dar ao luxo de perder?
Cláudia, sem dúvida, os planos que existiam foram sendo revistos e alterados. Também sem dúvida, ao contrário da maior parte, muitas pessoas procuram ignorar, o Irão está enfraquecido. Ou seja, esta guerra tem pesado duramente no Irão. Isso é evidente em termos da economia.
Economia, claro.
Taxas de inflação que se aproximam dos três dígitos. Portanto, é uma coisa óbvia e evidente. E é evidente também em termos das suas capacidades, sobretudo no Estreito de Ormuz. Qual é aqui a dificuldade? É que o alvo, os navios que passam no Estreito de Ormuz, é um alvo muito fácil, que pode ser atingido por drones ou mísseis que são lançados a mais de 200 km de distância. Portanto, de modo nenhum é fácil anular essa capacidade. Do que se trata aqui, e neste momento é a opção que os Estados Unidos consideram e que têm em cima da mesa, é de tentar uma outra aproximação, atingindo tão duramente a sociedade iraniana, o seu funcionamento, que aliás já está fortemente atingido, que ela seja obrigada a aceitar aquilo que é elementar e que neste momento são os dois objetivos que são avançados, não só pelos Estados Unidos, mas também pela NATO, que é o fim do programa nuclear e a abertura do Estreito de Ormuz. Portanto, a opção está aí. Eu devo dizer que pelos sinais que temos, e tudo que temos em termos abertos, em termos não confidenciais, são sinais. Pelos sinais que temos, os Estados Unidos não têm neste momento no terreno, na zona do Médio Oriente, um dispositivo suficiente para obter um resultado decisivo em relativamente pouco tempo, se mudar a sua aproximação, se mudar a sua manobra em termos da intervenção sobre o Irão. Portanto, estas afirmações são feitas, como muito bem disse, fundamentalmente para o mercado. E olhe, têm funcionado. Há pouco tempo o crude do barril estava cerca de $100.
$100, exatamente, e ontem baixou logo. Ontem não, na segunda-feira.
Está 80 e tal, 83, 84. É uma descida significativa, elas funcionam até não só devido às afirmações, mas também devido ao facto de o Ormuz não estar completamente enchado de navios. Continuarem a passar alguns navios, pouco, mas de qualquer modo passam alguns, e mais do que isso, as produções alternativas que abastecem o mercado ocidental terem aumentado nos últimos tempos. Portanto, há aqui um efeito conjugado. Isto de facto tende-se a transformar numa guerra de usura. Nestas guerras de usura é uma questão de tempo. O tempo há de ditar a partida a favor de um ou de outro, a favor do que primeiro ceder. Com um agravante, que é uma agravante das mais significativas neste conflito, que é uma profunda decisão, quer do lado americano, quer, sobretudo, do lado iraniano, em que o Irão criou e o regime islâmico do Irão criou ao longo do tempo também, muitas décadas, um sistema militar e um sistema de uma guarda pretoriana, que é a guarda revolucionária islâmica radical, que não tem a lógica normal, que tem uma lógica de sacrifício e que promove uma lógica de sacrifício, e como tal é imprevisível, com o agravante de que a decisão está descentralizada. Portanto, mesmo a guarda revolucionária islâmica não funciona com uma cabeça, tem muitas cabeças. Tem muitas cabeças que têm autonomia para decidir por si. E como tal, mesmo que seja feito um acordo, mesmo que, como já foi feito, foi assinado, é muito duvidoso que esse acordo seja respeitado. Haverá sempre alguns-
Uma dessas cabeças
...um indivíduo que vai tomar a decisão, há algum que decide: "Não, nós ganhamos, temos é de insistir, vamos lá afundar mais um petroleiro, vamos afundar mais um navio", e pronto. E isto tem acontecido até agora. Portanto, enquanto o Irão não tiver um controle diferente sobre a sua própria guarda revolucionária islâmica, é muito complicado.
É tudo muito incerto. Sim. Professor António José Telmo, muito obrigada pela sua análise em mais um Gabinete de Guerra. Um bom dia para si.
Um bom dia também para a senhora.
Muito obrigada.