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E começa agora o Gabinete de Guerra, hoje com a análise de Orlando Sá Moraes, especialista em relações internacionais. Muito bom dia, bem-vindo. Obrigada por ter aceitado o convite.

Muito bom dia e muito obrigado pelo convite.

Obrigada nós, Orlando. Um dia depois do encontro em Istambul, Zelenskyy acusou a Rússia de lançar um ataque selvagem sobre a cidade de Sumy. Houve pelo menos três mortos e mais de 20 feridos, incluindo um menor. O líder ucraniano fala em mais um ataque deliberado contra civis. Orlando, as ações falam por si, além das condições apresentadas na Turquia, isto mostra uma clara falta de vontade da Rússia em terminar com a guerra.

Sim, muito bom dia. Estamos, de facto, com o intensificar da guerra, ao mesmo tempo que as partes finalmente falam e foram três anos, desde março de 2022, sem um diálogo direto. É muito bom sinal que ainda assim se repitam. Já tivemos duas rondas, quem sabe chegaremos a uma terceira. Por outro lado, isso não tem diminuído a intensidade, pelo contrário. Enfim, são ações independentes, de um lado fala-se, do outro nem por isso. E aquilo que se nota é que a Rússia vai alargando o âmbito da sua ação. Isto daquela Crimeia há 11 anos, aos dois oblasts que ficaram nos Tratados de Minsk, Lugansk, Donetsk, mais tarde, 2022, já Zaporizhzhia, Kherson, e agora já parece que estamos ali mais a norte, Sumy, Kharkiv. Isto pouco a pouco, ainda hão de ir pelo sul, chegar a Odessa, fala-se em Chernihiv, a Rússia não vai largar. E mesmo nessas conversas que têm e que são positivas, tiveram feitos positivos, o retorno de uma pequena parte das crianças portadas logo no início da guerra.

Mas até nisso, conhecendo o presidente russo, não é melhor esperar para ver se vai mesmo acontecer?

Claro que sim. E foi aliás isso que fez lançar o mandado de captura sobre Putin. Essa ação não passou em claro, enquanto que os prisioneiros de guerra, que são situações mais naturais em guerra, também foram alvo de possível troca a ocorrer sobre aqueles que até estão com problemas físicos ou que estejam feridos, ou que tenham idade muito jovem, o que também é bom sinal. Ainda assim, aquilo que a Rússia chama exigências mínimas, foram exigências muito alargadas. Para além da questão da Ucrânia não poder ter as ideias que quiser, aquilo que a Rússia chama ideologia nazi a ser partilhada na Rússia, a Rússia fala do gás russo ter que passar a atravessar a Ucrânia outra vez. E portanto, para além das que já sabíamos, que a Ucrânia não pode pertencer à NATO, que não pode ter forças estrangeiras, começam a voltar à questão da língua russa ser lecionada nos territórios, assim como agora a questão do fim da lei marcial. E temos uma Rússia muito democrática a falar em eleições em 100 dias. É a Rússia a pugnar para que haja eleições. Nós somos muito favoráveis a eleições, sabemos que as condições neste momento não são das melhores. E depois introduziram também estas cláusulas da Rússia não vir a pagar reparações de guerra e da Ucrânia ter que aceitar isso. Estamos a ver é um alargar daquilo que a Rússia chama condições mínimas, que são cada vez mais máximas. E por aí a Ucrânia, de facto, pode continuar a estar bastante desesperada, ainda que nos últimos tempos também tenha conseguido, com grande criatividade e engenho, obter ganhos absolutamente impressionantes no campo de batalha e que darão filmes e livros quando forem estudados em pormenor, porque são absolutamente fantásticos e com grande impacto financeiro, que em guerra também é necessário. Com pouco investimento, conseguirem ganhos muito grandes a nível financeiro, porque os ataques aos bombardeiros ou agora à ponte da Crimeia.

Sim, tudo mérito da Ucrânia, sem dúvida.

Cuja reconstrução custa muito à Rússia.

Entretanto, o presidente da Câmara de Kiev acusou Zelensky de autoritarismo. Disse também que o país treza a isso. Orlando Sá Moraes, que leitura devemos fazer destas palavras do ex-pugilista Vitaly Klitschko?

Isto é uma tensão que já tem muitos anos. Ele ganhou em outubro de 2020. Na altura, o partido é um partido praticamente com o nome dele. A cultura democrática também não é muita. A Ucrânia ainda está a dar os primeiros passos e estamos a falar de alguém que ganhou com uma vantagem enorme frente o segundo, e tem muitos membros no aparelho e nos conselhos. Depois há um departamento anticorrupção que, no fundo, anda atrás de algumas das situações. Aqui nós, sem mais informação, é saber de que lado é que está essa corrupção. O Vitaly Klitschko acusa Zelensky de estar a fazer uma purga contra pessoas que também são seus subordinados, enquanto que Zelensky e as autoridades ou este departamento de anticorrupção, no fundo, vai demitindo pessoas no conselho da cidade, tenta juntar provas. Nós, sem estarmos a ver efetivamente a esta distância, é difícil. Aquilo que se nota é que Klitschko, como tem muita notoriedade, ele diz que essa notoriedade é uma proteção que tem, faz aqui uma espécie de contrapoder com as iniciativas de oposição a Zelensky. Aliás, nós estamos a falar desta situação de agora mais recente, mas há um mês, ele em várias entrevistas, estava disposto a ceder territórios ucranianos, falava de uma paz temporária. Ou seja, parece alguém que tem outra estratégia, outra voz diferente da Zelensky, que não me parece que seja melhor, porque parece até mais permissiva em relação a estas questões De ceder territórios, mas também pode ser apenas para ir dando umas vistas. Enfim, faz parte da democracia que haja várias vozes, a intenção e que não se consigam controlar uns aos outros. Também dizer que ele acusa a administração de Zelenski de ter uma camada militar por cima da autoridade dele enquanto presidente, que no fundo governa a cidade. Sendo uma cidade tão importante e em estado de emergência e de guerra, também é natural que possa ter que haver uma autoridade mais militarizada e de comando sobre o poder político. Desde que essa situação seja naturalmente muito momentânea e circunscrita à guerra e apenas em situação de emergência, porque naturalmente os poderes civis e democráticos devem ser os mais importantes de todos.

A terminar, e sobre o Médio Oriente, o Conselho de Segurança da ONU deverá votar esta quarta-feira uma resolução que exija o cessar-fogo permanente. É preciso que nenhum dos membros vete a proposta, mas Orlando, Benjamin Netanyahu voltou a insistir que a ofensiva em Gaza vai continuar até serem cumpridos todos os objetivos da guerra, sem exceções.

É preciso ver que aquilo que motiva esta resolução é a tal questão da Gaza Humanitarian Foundation, ou seja, uma das cláusulas seria voltar a ter a ONU a distribuir, a ter mais pontos de distribuição de ajuda humanitária em Gaza. Claro que fala na libertação de reféns, fala na situação catastrófica humanitária, mas é uma resolução que parece estar a pôr em causa a fundação, que como é israelita e americana, está a ser acusada indiretamente de não ser assim tão eficiente. Depois houve aquelas situações em que pode ter havido alguma confusão, há histórias muito conflituantes em relação a ter havido ou não violência nesses pontos. Os Estados Unidos, em princípio, vão votar. Eu acho que aquilo mais importante seria termos uma discussão séria sobre a forma mais eficiente de trazer ajuda para Gaza. Não está fácil.

E que essa ajuda chegasse às pessoas, não é?

E que essa ajuda efetivamente chegasse. Acho que aqui, ser da ONU ou não, a ONU diz que esta instituição não é imparcial, não é independente, mas nós também sabemos que muitas vezes a ONU, infelizmente, apesar de princípios tão inspiradores e ser o único sítio, a única plataforma do mundo onde todos falam com todos e importantíssima, também teve, por vezes, inclinações neste conflito e também nem sempre tem pugnado pela imparcialidade. Agora, claro, sabemos que o governo de Israel, infelizmente, não para, mesmo com todos os ex-primeiros-ministros de vários partidos estarem a tentar, tal como a sociedade civil, em protesto contra este governo, que não se deve confundir com Israel, e continua com uma agressividade muito grande e que, portanto, não vai ouvir e principalmente não vai ouvir esta resolução, mas também, em princípio, haverá o veto dos Estados Unidos e, portanto, também não irá avançar.

Orlando Sá Monjo, muito obrigada pela sua análise em mais um Gabinete de Guerra. Um bom dia.

Eu que agradeço. Muito bom dia e obrigado.

Bom dia. Obrigada nós.