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Bem-vindo, Major-General João Vieira Borges, a mais um "Gabinete de Guerra". Obrigado por se juntar a nós novamente. E vamos começar pela situação no Médio Oriente e por aquilo que se passou hoje no campo de refugiados de Jenin, na Cisjordânia. Vários diplomatas foram alvo de disparos do exército israelita, entre eles estava também um português. A União Europeia já apelou a Israel para investigar, mas o que se passou está a ser altamente condenado a nível internacional. No atual contexto, com Israel a aumentar os ataques na Faixa de Gaza e impedir a entrada de ajuda, este incidente ganha mais relevância?

Muito boa tarde. Ganha mais relevância, certamente. Nós já tínhamos uma situação muito crítica da parte de Israel, criticado explicitamente pela maioria dos países europeus, pela própria União Europeia, como vimos ontem na reunião. E esta situação vem na pior altura, certamente pra Israel. Independentemente de ter uma postura diferente do que tem noutro conflito com a Rússia, aqui obviamente há de dar explicações, há de haver inquéritos, o que pressupõe que não terá sido premeditado, obviamente, mas faz parte de todo um processo criticável da parte de Israel, não só da ocupação de Gaza, mas também de tudo aquilo que se passa na Cisjordânia, mas também de tudo aquilo que nós estamos a ter agora informações que se poderá passar também no próprio Irão, o que vem escalar todo o conflito. Sinceramente, relativamente à postura dos Estados Unidos, nunca sabemos. Pode mudar de um dia pra outro, como pode mudar de uma hora pra outra, mas aquilo que também vemos é que há da parte da administração Trump, um certo afastamento, não só durante a própria visita que fez ao Médio Oriente, o fato de não ter visitado no dia de Israel, mas também o fato de não se ter pronunciado sobre uma série de ações que obviamente têm a ver com o apoio militar, têm a ver com os ataques deliberados a determinado tipo de objetivos, têm a ver com a brutalidade, têm a ver com aquilo que têm sido os relatórios das Nações Unidas, como foi ontem, relativamente às 14 mil crianças em risco nas próximas 48 horas. Há um afastamento da administração Trump, o que pressupõe que obviamente está preocupada também com esta situação e que Netanyahu está em roda livre, infelizmente.

E de resto, têm sido vários os países a condenar as ações de Israel e este intensificar do conflito na Faixa de Gaza. Isto significa que, neste momento, estamos perante o maior isolamento de Israel e de Netanyahu?

Certamente. De Netanyahu, seguramente, até em termos internos, é alvo de muitas críticas, mas em termos externos, quer a pessoa de Netanyahu, quer o Estado de Israel, têm sido alvo de críticas. As críticas, comentários, ações concretas, como foi o caso do governo do Reino Unido, com suspender as negociações do livre-comércio, com a própria revisão do acordo comercial, devido a esta situação, como eles chamaram, catastrófica. A União Europeia votou a própria revisão do acordo de cooperação comercial com Israel. Nós vimos ontem Kaja Kallas a ter um discurso muito complicado, da mesma maneira. O próprio ministro dos Negócios Estrangeiros português, o que levou aí a algumas reações, também foi muito duro. E se me permite, até para fazer a ligação entre aquilo que é a crítica externa e interna, o próprio antigo primeiro-ministro Olmert afirmou que Israel estava muito próximo de crimes de guerra. Portanto, até mesmo internamente, um ex-primeiro-ministro tem um discurso deste tipo.

O certo é que, e o senhor major-general fazia referência a isso, ontem houve notícias de que Israel estaria a preparar um ataque às infraestruturas nucleares do Irão. A confirmar-se, qual poderá ser o objetivo desta iniciativa de Israel?

O objetivo vem de longe.

Claro.

Digamos que, como nós sabemos e acompanhamos estes conflitos há muitos anos, é uma linha vermelha pra Israel todo o processo de enriquecimento nuclear, independentemente de ser com destino civil ou não, é uma linha vermelha pra Israel. Para Israel, obviamente, a estabilidade da região só se consegue se não haver nenhuma potência nuclear, porque caso haja, obviamente mudará todo o cenário de dissuasão na região e Israel ficará numa situação muito frágil. E, portanto, independentemente daquilo que têm sido as ações da administração Trump, nomeadamente aquando da visita agora ao Médio Oriente, com uma proximidade através do Catar ou próprio Irão, dizendo que o Catar desenvolveu um esforço muito importante para que se desenrolassem negociações e para que fossem ao encontro daquilo que é o próprio discurso do Irão, de que obviamente não havia um escalar em termos de armamento nuclear para a versão militar, independentemente das palavras, pois a realidade é outra e certamente que Israel tem mais informações do que todos nós. Certamente saberá aquilo que está a ser feito no Irão e, portanto, as ações serão justificadas a posteriori. Agora, que vai criar grande instabilidade, é seguro, que por outro lado, vai criar um clash, uma divisão Relativamente à postura desta administração norte-americana e vai pôr em causa toda aquela visita ao Médio Oriente, porque obviamente todo o sucesso da visita não foi só em termos económicos, foi também em termos políticos e portanto a dimensão política aí será certamente afetada.

E de resto há instantes ficámos a saber que Benjamin Netanyahu vai dar uma conferência de imprensa mais logo, será a primeira desde dezembro do ano passado. Não temos poderes para adivinhar o que ele irá dizer, mas senhor Major-General, certamente terá a ver com tudo isto, com todas estas iniciativas israelitas, não só internamente como também externamente.

Seguramente. Eu acho que a questão da assistência humanitária fará parte do discurso e portanto irá justificar exatamente com o escudo humano que tem usado o Hamas e portanto isso estará sempre ligado. Relativamente ao Hamas e à destruição com alguns efeitos colaterais, irá justificar que os efeitos colaterais são mínimos, tendo em conta aquilo que tem sido a aprendizagem e a associação em termos tecnológicos com a inteligência artificial. Poderá não entrar nestes pormenores, mas irá justificar que todos os ataques têm impacto mínimo, portanto, assistência humanitária, os ataques e em termos de dimensão internacional, obviamente que irá falar do Irão, no caso de se vir a concretizar o tal ataque ou de estar previsto o tal ataque. Eu penso que não andará muito longe disto. Obviamente que espero que fale da questão dos reféns e que fale também daquilo que foi o insucesso dos sucessivos acordos, que quando estão prestes a ser assinados, como foi recentemente, penso que anteontem, há sempre qualquer coisa, e há sempre uma justificação. Espero que dê essa mesma justificação ao povo israelita, porque a questão dos reféns é uma questão que internamente tem um impacto enorme.

Senhor Major-General João Vera Borges, vamos agora olhar também para o conflito entre a Rússia e a Ucrânia, a começar pelo telefonema que tem marcado a semana, o telefonema entre Donald Trump e Vladimir Putin. No seu entender, esta ligação telefónica coloca-nos mais perto ou mais longe de um cessar-fogo entre a Rússia e a Ucrânia, daquilo que se sabe?

A intenção era colocar mais perto, mas a realidade é bem diferente da teoria. E portanto, aquilo que eu vejo da parte dos ucranianos é um sinal de que os combates vão continuar, tendo em conta aquilo que foi a postura e aquilo que vamos sabendo, a postura de Trump e aquilo que vamos sabendo. Uma questão é o telefonema de duas horas com o Putin. A seguir ao telefonema, ele diz sempre que corre bem. Mas depois a seguir começamos a ter os discursos de segunda linha, ou seja, vem dizer que se afasta se não cumprirem, vem dizer que afinal deu indicação a Putin para apresentar uma proposta que fosse aceite pelos europeus. Portanto, ele está a dar ao infrator está a dar a oportunidade ao infrator. O infrator é que vai apresentar a proposta, porque obviamente ele também tem consciência, certamente, que aquilo que foi Istambul em 2022 se mantém. Não alteraram absolutamente nada, independentemente daquilo que se passou nestes três anos. E portanto, pelo menos que haja cedência. No fundo, é essa a mensagem. Por outro lado, ele tem noção clara de que a Rússia está numa posição mais favorável em termos militares e portanto, tem um cuidado muito grande relativamente à Rússia ou de não acusar a Rússia, inclusivamente de incentivar a Rússia, dizendo que depois da paz, obviamente que vai reforçar as ligações económicas e que é muito importante para a Rússia. Portanto, em vez de ser a postura europeia de que vai ter sanções já e que vai pressionar. Não, é o contrário. Portanto, ele incentiva a Rússia, no sentido de alterar ligeiramente as suas condições. Continuamos a ter uma postura de Trump, mais próxima do lado da Rússia do que mais próxima do lado da Ucrânia. E portanto, isto faz com que, obviamente, da parte dos ucranianos, eu não veja grande esperança, independentemente da pressão a nível interno, no referendo que foi feito, nos inquéritos que foram feitos, 62% dos eleitores acreditam que devia fornecer armas à Ucrânia e à administração Trump. Portanto, independentemente dessa pressão, que é importante, essa pressão interna, Trump continua mais ou menos com a mesma postura. Se me permite, eu penso que aquilo que se vai passar, obviamente, é a tentativa de Trump ganhar tempo e ir conquistando território para conseguir atingir, pelo menos conquistar no terreno os quatro oblasts, para além da Crimeia, e portanto esperar pela Cimeira da NATO em 24 e 25 de junho, se não me engano, em Haia, e aí vamos ter as grandes decisões, quer estratégicas, quer políticas.

De resto, o senhor Major-General fazia referência a isso, à questão de Donald Trump se recusar a aplicar novas sanções à Rússia, ao contrário do que fez ainda ontem a União Europeia e o Reino Unido. Como é que podemos entender este contraste na forma de abordar o regime de Vladimir Putin?

Entendemos como Trump está longe do conflito, como dizia, pode-se afastar em qualquer momento, não é o conflito dele, pelos vistos é o conflito de Biden, como ele sempre refere. Ele não quer criar clivagens com a Rússia, enquanto que a União Europeia, obviamente, tem a guerra às suas portas e portanto, grande parte dos países da União Europeia obviamente sabem o que é a ameaça de Putin. E portanto, para ele está longe, a Europa, para os europeus está muito perto e portanto as sanções à Rússia só pecam porque vêm tarde e vêm a espaços. Este 17º pacote de sanções Que é o maior até agora em termos daquilo que tem a ver com o combate à frota sombra. São 342 navios, que a Rússia usa para contornar restrições comerciais e que inclusivamente a Hungria agora não se opôs. Ainda não percebi, sinceramente. Há aqui qualquer coisa de concessões à Hungria a outro nível, mas este 17º pacote, que além disso também tem medidas de sanções específicas relacionadas com a guerra híbrida, com violações de direitos humanos e outras questões relacionadas com armas químicas. Aquilo que nós questionamos é por que não é antes. Isto é sempre a espaços. Há aqui questões que o cidadão comum europeu não consegue perceber. Depois vamos pro 20, depois vamos pro 25, por que não o fizeram antes? Portanto, tem sido esta a postura da União Europeia, tem sido uma postura de enfrentar a Rússia a espaços e pedir quase autorização para tomar medidas e pedir quase autorização para fornecer determinado tipo de armas. Isso põe sempre a Rússia numa posição cimeira a todos os níveis, seja politicamente, seja militarmente. Os Estados Unidos têm posturas completamente diferentes em função das administrações e agora com Trump, sinceramente, é uma postura de afastamento. Portanto, não quer, de maneira nenhuma, ficar associado ao conflito ou à paz, ou eu me afasto deste conflito. O problema é que prometeu que em 24 horas resolvia este conflito, que resolvia o conflito em Gaza, e portanto, os dois conflitos estão mais acesos do que nunca, isso também para Trump não é uma boa notícia, certamente, e daí ele estar sistematicamente irritado, e ter reações de manhã diferentes das reações que tem à tarde. Já nem sabe, não é bem estratégia que está em causa, aqui já tem a ver com a postura pessoal de Trump em face das reações que vai tendo.

Senhor Major-General, só muito rapidamente para terminarmos e olhar também para esta visita de Vladimir Putin à região de Kursk, que foi a primeira visita desde que as forças russas conseguiram reconquistar o território, que esteve ocupado durante mais de seis meses pelas tropas ucranianas. É também uma manifestação de força por parte do presidente russo esta visita?

Sim, é claramente uma manifestação de força e também escolhida com oportunidade. Durante este período da cimeira de Varsóvia era importante mostrar à União Europeia e mostrar aos Estados Unidos que um dos seus objectivos, que era a reconquista da região, foi atingido. Nada melhor do que ir ao local, nada melhor do que mostrar-se, apesar de ter sido a cerca de 100 km, portanto fora do alcance da artilharia, mas independentemente disso, é para o exterior uma demonstração de força e para o interior o reforço ou a tentativa de reforço da coesão em torno dos seus objectivos. Isso está sempre presente com Putin e com o seu governo, isso faz parte do processo. Não é novidade, nem a iniciativa, nem a questão do timing escolhido. Faz parte do processo, muito embora, se me permite, em termos militares, há aqui outras informações, e essas informações são claras, de reunião, deslocamento de forças russas para a frente de Kharkiv, que está frágil, quer Sumy, quer Kharkiv, e portanto aquilo que se espera é pressão novamente sobre a União Europeia, sobre os Estados Unidos, e é uma pressão feita no terreno, com forças, alertando para uma nova fase de operações, certamente para o verão, que será muito complicado para a Ucrânia, mas para a Rússia faz parte do processo de pressão, como sempre.

Major-General João Vieira Borges, muito obrigado por ter vindo a mais um Gabinete de Guerra, que está de regresso amanhã. Até à próxima. Obrigado.

Boa tarde.