Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

"Um ataque terrorista", é assim que o Ministério da Defesa russo classifica, em comunicado, o ataque ucraniano da última madrugada com recurso a drones. Teve como alvo a região do Tartaristão. Treze pessoas morreram. Foi atingida uma refinaria. As autoridades de Moscovo denunciam que foram também atingidas áreas residenciais. É por aqui que começamos a segunda edição do dia de Gabinete de Guerra. E nosso convidado, como o João aqui referia, o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, boa tarde, bem-vindo. Adequou-se o uso da palavra terrorista a esta ação militar ucraniana?

Não, isso é um perfeito disparate, tendo em conta que a Rússia, desde o início desta campanha, diariamente faz ataques deste tipo. Portanto, exatamente do que a Rússia se está a queixar não é muito evidente. Ainda há poucos dias vimos um vídeo absolutamente chocante de um vendedor ucraniano a ser perseguido por um drone russo. Alguém que era evidente, porque esses drones têm capacidade de vigilância, que não tinha qualquer tipo de função militar. Portanto, para qualquer pessoa de boa fé, multiplicam-se as provas. Tivemos vários relatórios das Nações Unidas, de várias outras organizações, começando com os massacres em Bucha, que demonstram isso mesmo. Agora, a questão que importa perceber é: isto são vítimas civis de danos colaterais, que é uma palavra terrível, mas que existe por alguma razão, porque realmente o que é um crime de guerra, aqui a questão do terrorismo não faz nenhum sentido, mas o que é um crime de guerra realmente é um país visar deliberadamente civis, como a Rússia tem sistematicamente feito, procurando deliberadamente atingir alvos civis. Não é um crime de guerra atingir civis se isso for feito involuntariamente, se for como resultado de uma ação de um ataque que tem um alvo militar e que depois acaba por provocar baixas entre civis, mas de forma involuntária. Em todo caso, a mim parece-me que há aqui sinais de que a Ucrânia está, no mínimo, a relaxar as suas regras de empenhamento, está a avançar com ataques civis, até porque eles também estão a ser mais eficazes, têm cargas explosivas maiores, etc. A Ucrânia alega que, neste caso, o objetivo visado, e também utiliza até vídeos para defender esse argumento, era realmente uma refinaria importante nesta região autónoma do Tartaristão, no interior da Rússia, e portanto, que as vítimas civis não foram deliberadas. A existirem, a confirmarem-se, terão sido involuntárias, terão sido estes danos colaterais. Agora, independentemente de se poder achar que esta estratégia ucraniana faz mais ou menos sentido, que a Ucrânia devia ter, se calhar, mais cuidado. Por exemplo, o próprio Papa já alterou um pouco o discurso para sinalizar a sua preocupação este domingo com mais vítimas civis em ataques de ambos os lados. Em todo caso, há que sublinhar que isto, ainda assim, não tem nada a ver na escala, na frequência e com aquilo que a Rússia tem feito desde o início da guerra. E sobretudo, é isso, o discurso russo é que não faz nenhum tipo de sentido, é mais uma vez uma manifestação desta postura russa desde o início da guerra, que a Rússia tem ter o direito de poder atacar em paz o país vizinho sem que este tenha o direito de se defender, de retaliar.

Durante muito tempo, ficou a sensação de que as iniciativas militares da Ucrânia eram condicionadas pelo receio do que poderia vir a ser a resposta da Rússia a uma ação mais ousada, um ataque com consequências mais gravosas. Pairou, por exemplo, em vários momentos, a ameaça nuclear. Tendo em conta a natureza dos ataques de Kiev nos últimos dias, mais profundos, com mais vítimas, pergunto, portanto, se Kiev perdeu o medo?

Acho que os próprios ucranianos foram testando essas linhas vermelhas com alguma prudência. Eu desde o início do conflito que disse que me parecia que não fazia nenhum sentido levar a sério esse tipo de chantagem nuclear. E sobretudo, seria sempre inaceitável e continua a ser inaceitável. A Rússia não pode dizer: "Bem, houve aqui treze mortes civis e, portanto, nós vamos largar uma bomba atômica", que pela sua própria natureza poderá provocar um número enormíssimo de mortes civis ou provocar contaminações radioativas que afetam civis, inclusive até fora das fronteiras da Ucrânia. Não é por acaso que desde 1945 isso nunca aconteceu. Os Estados Unidos nunca usaram bombas atômicas no Vietname ou no Iraque ou no Afeganistão, como a própria União Soviética também não as utilizou noutros contextos, por exemplo, no próprio Afeganistão também. Portanto, esse tipo de pseudo argumento russo ou de chantagem nunca seria aceitável. Agora, não quer dizer que não houvesse aqui algum cuidado. E é verdade que sim, que a Ucrânia foi testando essas linhas vermelhas e percebendo que no fundo, é algo que eu tenho insistido, que a escalada, a retaliação russa realmente existe, mas é basicamente esta guerra aérea indiscriminada contra os civis ucranianos e que está condicionada basicamente por dois fatores, que tem pouca a ver com os ataques ucranianos ou com o nível de apoio ocidental. Tem a ver sobretudo com a disponibilidade russa de meios de ataque, de mísseis balísticos, drones e com a eficácia maior ou menor das defesas ucranianas. E isso, mais uma vez, se tem confirmado nestes últimos tempos.

Bruno, para fechar, pego na posição ontem assumida pelo primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, que declarou oposição ao plano elaborado pelos Estados Unidos para a Faixa de Gaza e aceite pelo Hamas. Que impacto para o futuro dos territórios palestinianos esta posição assumida pelo chefe de Governo israelita?

No fundo, confirma que Donald Trump não conseguiu alterar aquilo que tem sempre sido a postura de Netanyahu, que é recusar negociar de boa fé uma solução de dois Estados. Portanto, ele vai voltar a afirmar essa questão, que é completamente incompatível com o plano de paz Trump, que não sendo completamente explícito para qualquer pessoa que leia, nomeadamente o ponto final desse plano de 20 pontos aponta claramente nesse sentido. Em relação à questão mais específica, também se confirma aquilo que aqui fomos falando, que é o ponto fundamental, o ponto mais difícil na evolução deste plano de 20 pontos é a questão do desarmamento do Hamas, porque o Hamas surge como um movimento de resistência armada. Aliás, é isso que quer dizer Hamas, movimento de resistência islâmica. Se fosse só islamista, se fosse só mesquitas, fundamentalismo e fanatismo religioso, não seria preciso surgir este movimento com este nome, já havia a Irmandade Muçulmana antes. E realmente os termos deste acordo davam um enorme flanco, criava um enorme problema também eleitoral ao próprio Netanyahu, que vinham falar de desarmamento do Hamas, mas em termos de armas pesadas. Ora, essas armas pesadas neste momento não são um fator relevante. As armas pesadas que o Hamas já teve, que eram os famosos foguetões com que atacava a população civil israelita, basicamente já foram destruídos. São, apesar de tudo, um alvo mais fácil de localizar e destruir do que as AK-47, do que as armas ligeiras, que são, no entanto, uma arma indispensável do movimento de guerrilha como o Hamas e que podem causar muitos mortos e que são cruciais para o controle da população. E portanto, aí realmente percebe-se que Israel não aceite uma espécie de desarmamento parcial do Hamas como sendo a interpretação correta do acordo. Portanto, eu acho que há aqui dois aspetos: um que não é aceitável na posição de Israel, mas que também não é propriamente inesperado e que tem sido sempre a posição do governo Netanyahu, e outra que é bastante mais compreensível e que mais uma vez mostra que esta diplomacia trumpista, apressada, sempre procurando chegar a acordos, muitas vezes ignorando as preocupações dos aliados ou os cuidados com as implicações de determinadas palavras, de tudo aquilo que é uma diplomacia mais profissional. O fato de Donald Trump sistematicamente ignorar isso, depois tem este custo, que é passar seu tempo a anunciar acordos de paz que depois não têm condições para ser aceitos pelas partes ou quando são aceitos, como foi o caso do acordo entre os próprios Estados Unidos e o Irã no Estreito de Ormuz, depois não têm condições para serem implementados na prática.

É a postura que, neste caso, vem aumentar, vem acentuar o clima de indefinição relativamente ao futuro de Gaza e também na Cisjordânia. Havemos de falar na Cisjordânia, onde se tem intensificado a expulsão de palestinianos por colonos judaicos. Foi o Gabinete de Guerra de segunda-feira, segunda edição do dia, com o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, obrigado, até breve.

Obrigado.