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E este é o último encontro desta semana no Gabinete de Guerra da tarde em direto com o Bruno Cardoso Reis, o Bruno Vieira Amaral e a Vanessa Cruz. Vanessa, depois da presumível morte do líder do Grupo Wagner, além da reação de Vladimir Putin, também o presidente bielorrusso já quebrou o silêncio e Moscovo ordena que membros de organizações paramilitares também prestem juramento.
Começamos já por aí, Bruno Cardoso Reis, bem-vindo. O timing que Putin escolhe para assinar este decreto a visar organizações paramilitares pode ser interpretado como um controle e reorganização já do Grupo Wagner por parte de Moscovo?
Olá, boa tarde, Vanessa. Eu penso que é relevante. Dá a ideia que há aqui alguma relação e que não será uma pura coincidência. A minha interpretação é que, de facto, o Grupo Wagner desempenhava funções importantes para o Estado russo, em termos de desinformação dos média e de ciberataques híbridos. É um dos grupos que foi ligado, por exemplo, à desinformação durante a eleição de Trump em 2016, mas sobretudo em África. Tem uma função muito importante em África e no Médio Oriente, começando com a Síria, mas entretanto está ativo na Líbia, no Sudão, no Mali e na República Centro-Africana, ligado, por um lado, a regimes golpistas e, portanto, à sua aproximação à Rússia em troca da proteção a esses regimes e depois também à exploração de recursos naturais desses países como uma forma de multiplicar os lucros. Uma das questões que se debateu desde o início é: em termos da guerra da Ucrânia, o grupo já se tinha retirado da linha da frente, já tinha cumprido a sua função de servir de carne para canhão na zona de Bakhmut e dar algum tempo às forças russas para irem construindo estas linhas defensivas e preparar-se para a ofensiva ucraniana sem empenhar tropas regulares, pelo menos não em grande quantidade. Aí a questão já estava de alguma forma resolvida. Vamos ver se depois conseguem resolvê-la em termos de recrutamento e de alguma maior iniciativa e autonomia que o grupo revelava, mas pelo menos tem a vantagem de acabar com estas tensões com os militares. Mas de facto, em África, essa substituição não é assim tão evidente. Há outros grupos, mas estão numa fase muito mais incipiente de desenvolvimento. O que parece claro aqui é que seja o Grupo Wagner reconstituído, eventualmente até com figuras que de alguma forma terão sido cúmplices nesta eliminação de Prigozhin. É uma especulação que se pode fazer, não temos obviamente dados, mas uma possibilidade é reconstituir o Grupo Wagner, sobretudo para estas funções externas, mas com gente da confiança de Putin e uma prova, manifestação dessa confiança e obediência será este juramento, porque sabemos que há setores do Grupo Wagner que acham que Putin é culpado pela eliminação de Prigozhin, tendo deixado isso claro desde que aconteceu a queda do avião. Ou então os outros grupos também ficar muito claro que só poderão continuar a funcionar se aceitarem muito claramente, e até publicamente e formalmente, aquilo que foi sempre uma linha vermelha que Prigozhin deixou de respeitar ou de perceber, que era que realmente eles podiam ter aqui alguma margem de manobra, mas sempre ao serviço do regime de Putin, sempre em estrita lealdade àquilo que eram os interesses, que eram as prioridades, que eram as ordens de Putin. E portanto acho que sim, acho que é significativo desta reconstituição deste campo, deste instrumento da ação externa russa que são estes grupos militares supostamente privados, mas na verdade muito ligados aos serviços de informações e ao Estado russo.
Bruno, o presidente da Bielorrússia, Lukashenko, não acredita que Putin seja o responsável pela queda do avião e diz que nunca discutiu questões de segurança com o líder do Grupo Wagner. Tínhamos a informação de que Prigozhin se tinha exilado na Bielorrússia. É crível que nunca tenham falado sobre o assunto?
Eu acho que vale a pena ver estas declarações de Lukashenko. Lukashenko muitas vezes é um pouquinho mais revelador do que eventualmente Putin, sempre teve muito este estilo também, tendo um certo humor negro. Ele aqui veio dizer que se Prigozhin e outros elementos da Wagner queriam ter alguma segurança, deviam ter ficado na Bielorrússia. Ele disse lá: "Aqui eu garanto a sua segurança". Se calhar até é uma mensagem também para aqueles que ainda restam lá e que podem prestar alguma assistência às forças bielorrussas. Se ficarem por cá, não têm razões para ter receio, pelo menos enquanto me servirem os meus interesses, diria eu. Mas o que é mais interessante é que, por um lado, temos de perguntar: mas Lukashenko avisou várias vezes Prigozhin depois de isto ter acontecido, depois do golpe contra Putin, por quê? Se fosse um atentado, se fosse algo que tivesse origem na Ucrânia, fazia muito mais sentido ter avisado antes, porque entretanto, como eu já referi, basicamente o Grupo Wagner deixou de ser um fator relevante na frente ucraniana. Se fosse o Ocidente, por exemplo, por causa das questões em África, já tinha razões para ter feito isso há muito tempo, pelo menos desde 2014. O que é que mudou para Lukashenko fazer estes repetidos avisos a Prigozhin para ter cuidado? Claramente foi o golpe contra Putin. E depois mesmo essa questão, obviamente o Lukashenko não ia aqui para dizer a verdade ou aquilo que realmente pensa, cortar as pontes que precisa de manter com o Kremlin, com o Putin, mas a forma como ele coloca a questão acaba por ser de uma espécie de humor negro, porque ele não diz bem que é impensável que Putin assassine pessoas ou que seja impensável que Putin lidasse com Prigozhin desta forma. Ele diz só: "Isto parece-me pouco profissional". É um assassinato pouco profissional, muito explosivo para aquilo que seria o estilo, imaginamos nós, de Putin. Acaba por ser ao mesmo tempo bastante revelador. Ele de facto não diz: "Não, isso é impensável", como seria normal, por exemplo, em relação a um líder ocidental. É impensável que ele mande assassinar pessoas assim sem mais nem menos, sem um processo judicial, sem nada. Mas realmente acaba por ser interessante nestas diferentes nuances e acho que podemos continuar a considerar como mais provável que realmente tenha havido aqui uma operação de decapitação desta liderança da Wagner pelo regime de Putin, obviamente sem termos certezas absolutas e até haver novos dados, mas para já, de facto, as probabilidades apontam nesse sentido, em termos de circunstâncias, de maior interesse em eliminar Prigozhin do contexto em que aconteceu.
Sendo que, Bruno, o Kremlin já veio negar ter dado qualquer ordem para matar Prigozhin, fala numa mentira absoluta, diz que a queda do avião tem de ser abordada com base em factos e não em especulações. O problema é que a Rússia pode criar os factos que quiser. Como é que nós, Ocidente, vamos alguma vez ter certezas sobre o que se passou?
Se a Rússia tivesse realmente razões para querer convencer o mundo de que isto, ao contrário do que seria normal suspeitar, não foi de facto algo ordenado pelo Estado russo, tinha uma solução fácil para isso, que era convidar uma equipa internacional para fazer a investigação. Aliás, até faria todo sentido, uma vez que o avião é da Embraer, desde logo envolver o mais possível a empresa brasileira. Diga-se que estes jatos têm excelente fama. Aparentemente, só houve um outro caso de um avião destes que caiu nos 20 anos em que estão ao serviço, e aí ficou demonstrado que teria sido erros dos pilotos, mas isso seria um gesto fácil para todos nós pensarmos: "Bem, se calhar desta vez não é mesmo Putin". Ao contrário de vários outros casos em que nós temos bastante bem documentado que Putin realmente tentou ou conseguiu ou tentou realmente assassinar indivíduos russos que ele considera traidores e que até ameaçaram muito menos o regime do que fez Prigozhin, por exemplo, o próprio Navalny. O próprio Navalny e a Bellingcat, que é o site de jornalismo de investigação, conseguiu documentar exaustivamente o envolvimento dos serviços secretos russos na tentativa de envenenamento de Navalny e o próprio Navalny, com base nesses dados, conseguiu entrevistar e gravar uma confissão de um dos agentes envolvidos dos serviços de informações russos na sua tentativa de assassinato. Temos aqui razões, um histórico para achar que haveria fortes suspeitas. É evidente que o Estado russo não vai dizer que fomos nós. Como também nunca reconheceu isso em relação ao Navalny, apesar destas provas esmagadoras, como também este é o mesmo Estado russo que na véspera da invasão da Ucrânia estava a garantir que não estava a haver invasão nenhuma e que não ia haver invasão nenhuma. Alguém alguma vez pensou que sendo o Estado russo, eles a seguir iriam dizer: "Sim, fomos nós realmente que sabotámos o avião ou pusemos uma bomba no avião"? É evidente que isto não é inesperado e não tem nenhuma credibilidade e o único culpado por não ter nenhuma credibilidade é o Estado russo, tendo em conta este histórico de assassinato de dissidentes, de opositores, de indivíduos que eles consideram como uma ameaça ao Estado russo.
Bruno, mas o Kremlin também já veio dizer que Putin pode não ir ao funeral porque tem a agenda muito preenchida. Isto pode ser entendido como uma quase admissão de culpa?
Não sei. Nesta linha de um Estado um pouco mafioso, que lida com os traidores desta maneira, até na tradição da máfia, Bruno, e tu que conheces bem essa tradição até fílmica, de "O Padrinho" e tudo isso, até é costume, no fundo, os mandantes fazerem questão de ir ao funeral das suas vítimas. Mas enfim, aqui aparentemente não será essa a prática. O Estado russo quer talvez mostrar aqui alguma distância e alguma respeitabilidade. Agora, acho que isso não é aqui realmente a questão fundamental. Imagino que Putin tenha uma agenda preenchida, embora a verdade é que, pelo menos a agenda pública, não parece assim tão preenchida, ele não se encontra assim com tanta gente. Não sei se mesmo isso merece assim tanto crédito. Acho que é simplesmente um sinal de distanciamento em relação a Prigozhin. Quer a presença, quer a ausência, acho que neste caso não é aqui um fator fundamental. Pode alimentar alguns comentários, algumas piadas, eventualmente algumas ironias, mas acho que não é um fator fundamental de interpretação daquilo que realmente aconteceu.
E ainda há muitas questões sem resposta sobre esta queda do avião onde seguiria o líder do grupo Wagner, Prigozhin. Bruno Cardoso Reis, mais uma vez obrigada pela tua análise. Não vais este fim de semana, estarás no "Cinco Continentes" também este fim de semana, depois das notícias das 11h30 de amanhã, certo?
Depois das 11h.
Depois das 11h. Exato, notícias das 11h. É isso. Até amanhã, Bruno. Obrigada.
Até amanhã.
Rádio Observador