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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Contamos com a ajuda de António José Telo, antigo professor catedrático de História da Academia Militar. Bom dia mais uma vez. Obrigado por se juntar a nós novamente, já mais de 24 horas depois das explosões em Caracas. António José Telo, já conseguimos perceber melhor aquilo que se passou nestas últimas 24 horas?
Bom dia. Sim, há algumas coisas que se tornam evidentes. Uma delas parece-me muito significativa: é que existe uma ampla cumplicidade dos Estados Unidos com uma parte das Forças Armadas da Venezuela. Na Venezuela e no regime de Maduro, as Forças Armadas eram essenciais, eram o pilar do regime e estavam desenvolvidas justamente para isso, misturando-se com os negócios e gerindo praticamente tudo que era politicamente importante no país. E, aparentemente, uma série delas decidiram que Maduro já não tinha futuro e que era importante aproximarem-se da força que seria claramente a força dominante a seguir. Os militares, como regra geral, são muito práticos, são muito pragmáticos, compreendem a relação de forças e a sua tendência é para evitar batalhas inúteis e para evitar sacrifícios inúteis. Como tal, é compreensível que uma parte substancial das Forças Venezuelanas tenha feito isso. É justamente isso que permite aquelas afirmações surpreendentes na conferência de imprensa do presidente Trump, quando ele diz que vai root da Venezuela diretamente e, portanto, o governo de transição ou a força que irá gerir este período transitório, não sabemos muito bem por quem, será nomeada diretamente pelos Estados Unidos. Isto era impossível de fazer, tendo em conta que não há forças dos Estados Unidos que estejam permanentemente na Venezuela, não há, pelo menos oficialmente, botas no terreno na Venezuela, se não houvesse uma cumplicidade ampla por parte das Forças Armadas Venezuelanas. Não será a totalidade, mas justamente estou também convencido, embora neste momento ainda não seja possível prová-lo, que os ataques que são feitos naquela noite a bases militares da Venezuela são feitas justamente às bases que apoiavam Maduro, dando um sinal claro: "Atenção, vocês ou adquirem realismo e pensam no que vos espera, ou então não vos espera muita coisa, vocês serão aniquilados como está a acontecer nesta noite". Já agora, os ataques noturnos foram de fato feitos com arte. Os Estados Unidos já deram provas e não é para admirar que não tenha havido nenhuma baixa por parte das Forças Aéreas Americanas. Lembremos que no ataque que foi feito ao Irão, por forças americanas que envolveram mais aparelhos, foram 200 aparelhos envolvidos naquele ataque ao Irão, não foram só os sete bombardeiros, foram 200 aparelhos que estavam no ar nessa noite. E o que aconteceu é que nenhum avião do Irão levantou voo, nenhum míssil do Irão foi disparado e a preocupação do Irão foi, nos dias anteriores, retirar os seus aviões do país, mandá-los para o Paquistão e para outros países vizinhos, justamente para evitar que fossem destruídos em terra.
Mas isso pode querer dizer, António José Telo, que os Estados Unidos poderão apoiar a continuidade do regime, ainda que não com Maduro, mas por exemplo, com Delcy Rodríguez na Venezuela?
Aí está a grande dúvida: o que os Estados Unidos pensam fazer? O que teoricamente deviam fazer, o que seria de esperar expectável que fizessem, era ao fim ao cabo apoiar os candidatos que foram eleitos nas eleições anteriores da Venezuela. Há provas evidentes disso, inclusive atas das mesas de voto em que a oposição a Maduro obteve 70% dos votos ou perto de 70% dos votos, e que esses candidatos, que viram a eleição ser roubada pelas manipulações de Maduro, assumissem agora a transição. Simplesmente, há dois fatores que impedem isso. Aliás, o presidente Trump justificou dizendo que neste momento seriam incapazes de gerir a transição porque não tinham influência no poder, no terreno, na Venezuela. Ora bem, o poder no terreno na Venezuela são os militares. Portanto, de fato, a influência da oposição que ganhou as eleições anteriores nos militares é reduzida. No entanto, estou convencido que a principal razão não é essa. A principal razão é que esses candidatos que ganharam, esses venezuelanos que ganharam as eleições, estão relativamente próximos de países europeus e dos poderes europeus. E a última coisa que Trump pretende é pôr num governo de transição indivíduos que vão ouvir principalmente o que os europeus lhe dizem e não o que os Estados Unidos lhes dizem Portanto, essa hipótese está afastada. Qual é a alternativa? Não há muitas. A alternativa é justamente apoiar e fazer um entendimento e procurar um entendimento com o que é o regime, o que são as unidades militares. O regime, no essencial, foi unidades militares que se aproximaram dos Estados Unidos permitindo que isto acontecesse, passando informações, garantindo que não iriam intervir. Aliás, segundo parece, as únicas baterias que abriram fogo foram baterias de armamento ligeiro, que eram da milícia e não das forças militares. E de facto, as bases que foram atacadas tinham o que de melhor as Forças Armadas da Venezuela tinham, que eram também as unidades justamente que eram força pretoriana do presidente Maduro. Portanto, aparentemente os Estados Unidos optaram por isso: trazer uma força de transição que será nomeada por eles a partir de alguns exilados venezuelanos fora do país e a partir e com o entendimento com unidades militares venezuelanas no próprio território, que possam garantir a transição. Transição para onde? Isso está por se ver.
E de resto, ontem, na conferência de imprensa, de certa forma, podemos considerar que Donald Trump tirou algum tapete à oposição ao regime venezuelano?
Não tirou o tapete à oposição civil, sem dúvida, que ganhou as eleições. E claramente, na prática dos dirigentes eleitos, principalmente Juan Guaidó, que por trás dele tem Maria Corina Machado, não foram mencionados sequer por Trump. Trump está a afastar a hipótese de entregar o poder a esses indivíduos em termos da transição. O que significa que a transição vai seguir um caminho próprio e, sem dúvida, não será uma democracia de tipo ocidental ou pelo menos de tipo europeu que vai prevalecer na Venezuela. Se será uma democracia mesmo de outro tipo, veremos. É também um ponto de interrogação. Agora, o que essencialmente os Estados Unidos vão tentar fazer é criar um governo, uma força de transição que, de facto, obedeça às suas indicações e se obedeça sem levantar problemas, que permita a renovação ampla da indústria do petróleo e não só, e que faça o que os Estados Unidos querem, gerindo de uma maneira tão pacífica e tão estável quanto possível, uma transição difícil para algo que não se sabe muito bem o que será, mas precisamente será uma perduração dos vários gangues, quadrilhas e máfias que de facto atualmente já dominam a sociedade venezuelana. De qualquer modo, seriam muito difíceis de controlar sem uma força militar significativa no terreno. O treino dessa gente é muito pouco, o armamento é obsoleto, mas são muitos. São largos milhares que vivem dos negócios que o regime lhes permitia. E essas são a força militar no terreno neste momento, para além das unidades regulares, que uma parte significativa claramente se passou para o lado americano.
António Chaitel, que herança nos vai deixar este episódio para o futuro? Donald Trump poderá sentir-se legitimado para fazer o mesmo noutros países, nomeadamente na América Latina, para ter uma atuação semelhante?
Os Estados Unidos de Donald Trump não precisam de se sentir legitimados, porque eles estão a criar uma nova legitimidade. Tudo isto é feito nesse sentido. No sentido de dizer: "Os senhores esqueçam as regras até aqui, esqueçam essa instituição moribunda que são as Nações Unidas", que aliás, diga-se, tem sempre um quadro jurídico, nomeadamente em termos do direito internacional, que é muito violoso. Por exemplo, as Nações Unidas são as primeiras, desde o princípio, devo acrescentar, a dizer: "A lei internacional não se aplica por igual a todos, porque há uns, que são os grandes, que têm direito de veto". Portanto, qualquer coisa que seja aprovada no Conselho de Segurança, que é a única entidade das Nações Unidas que pode aprovar, autorizar o uso da força, mas qualquer coisa que seja aprovada no Conselho de Segurança pode ser vetada por um dos grandes. Se é uma coisa minimamente importante, quase certeza que haverá pelo menos um que vai vetar. Portanto, as Nações Unidas são os primeiros a dizer: "Olha, internacional, sim, está bem, mas aplica-se aos pequenos, aos grandes só se aplica se eles quiserem, se não quiserem, olhem, podem apresentar um veto e isso acaba tudo". O processo terminou aí. Trump não precisa dessa legitimidade. Ele está a criar uma nova legitimidade e nisso, nessa criação da nova legitimidade pela qual se rege, ele não só vai alterar o funcionamento do sistema internacional e está a fazê-lo, como vai também criar uma nova prática interna, nomeadamente um dos pontos mais tensos daquela reunião, daquela conferência de imprensa de ontem foi justamente quando se falou do Congresso, em que aí: "Sim, foi informado, mas é uma verdadeira peneira, tudo que saiba vai contar ao exterior, como tal é preciso ter cuidado nestas operações, não se pode dar uma informação muito completa, etc". Portanto, ele está a criar uma nova legitimidade, tal como fizeram, diga-se Como fazem normalmente os regimes que querem inovar. Napoleão também criou uma nova lei, um Código Civil e uma Constituição, que eram coisas que antes não existiam e que a partir daí perduraram. Ainda hoje se mantêm, evidente, com modificações e atualizações. Trump está a fazer isso. Ele não se preocupa com a legitimidade do antigamente. Ele está a criar uma nova legitimidade e nisso tem uma grande vantagem: tem o apoio da segunda maior economia mundial, que é a China, e tem o apoio, também nessa vertente, dos dois maiores poderes militares depois dos Estados Unidos, que é a China e a Rússia. Como tal, a hipótese de tentar deter esse processo é muito duvidosa, sobretudo tendo em conta a extrema confusão em que está a Europa. A Europa, infelizmente, está profundamente dividida. Mas o que é triste, mais do que curioso, é que a divisão dá-se entre os betinhos do politicamente correto, que não querem avançar com a integração europeia, porque têm medo dos resultados desse avanço, que era extremamente necessário nesta altura para a Europa poder adaptar-se ao novo mundo, e por outro lado, as forças a que Trump chamou os partidos patrióticos, que também a última coisa que querem é avançar na integração europeia. Querem uma Europa das pátrias, uma Europa de Estados. Ou seja, a integração europeia já basta, mais não. Ou seja, vença quem vença, a Europa perde. Infelizmente, estamos nessa situação. Vença quem vença em Bruxelas, e neste momento é o politicamente correto que domina, mas a Europa perde. A Europa não consegue dar os passos que precisava de dar, nomeadamente aumentando e aprofundando a integração europeia, para poder responder aos desafios do momento presente. E ela que já estava decadente, coitadinha, e já ninguém ligava muito, e o que ainda tinha era uma herança histórica, pura e simplesmente vai se apagar. Se falamos em futebol, vai passar pra 15ª divisão. Atualmente, aliás, é isso que acontece. Atualmente, tudo que a Europa consegue fazer é quando Trump as chama: "Meus meninos, agora podem vir. Venham cá tirar a fotografia que isso já está tudo decidido". E elas vão. E Trump faz isso, pura e simplesmente, porque quer humilhar esta direção europeia, quer mostrar a toda gente que eles não podem nada, que não conseguem nada e que são incapazes e incompetentes. É isso que ele quer provar, ele quer humilhar para que não haja ninguém na Europa que tenha a ideia triste para Trump e para os americanos, de dizer: "A Europa tem que avançar na integração europeia, sob pena de não conseguir fazer nada neste mundo". Inclusive, os betinhos do politicamente correto o que dizem é: "Ai, Jesus, isto vai estragar a nossa união a 27". Mas eu pergunto: para que serve uma união de 27 se só dá fraqueza e não dá força? No momento em que a Europa precisa de força, os 27 e o método de funcionar da unanimidade, pura e simplesmente só serve pra enfraquecer a Europa, não serve pra mais nada. É pra quê? Pra arruinar a Europa mais depressa. É pra isso que serve. Quer dizer qualquer coisa? Desculpe.
Não, e lhe colocar aqui uma última questão que tem a ver com o que falou da relação com a China e com a Rússia. A China veio pedir a libertação imediata de Maduro, a Rússia também exige explicações por parte dos Estados Unidos. Qual é que poderá ser o impacto de tudo isto também na relação entre os Estados Unidos, a China e a Rússia?
É muito pequeno. Eu não acredito que os Estados Unidos tenham feito isto sem antes ter um acordo prévio com a Rússia e com a China. E que esse acordo possivelmente faz parte de um outro entendimento mais geral. Portanto, a Rússia e a China tinham que fazer um protesto formal, oral, como não podia deixar de ser. Tem que aproveitar o direito internacional pra dizer: "Não, isto vai contra tudo que está previsto nas Nações Unidas e o direito internacional", mas tudo isso é fogo de vista, é fogo de artifício, que vai dar cor ao ambiente e ao cenário, mas de fato, de pouco serve. No que é importante, estou convencido que havia um entendimento prévio, uma luz verde prévia, quer da Rússia, quer da China, para esta operação. Não conhecíamos os pormenores, evidente, não conhecíamos as datas, não conhecíamos nada disso, mas o entendimento prévio que permitia aos Estados Unidos avançar sem grandes problemas. Aliás, vou lhe dar um exemplo. O próprio Maduro se gabou que a Rússia lhe tinha fornecido 5 mil mísseis antiaéreos. Teoricamente eram 5 mil, na realidade só chegaram umas centenas, mas eram mísseis antiaéreos que tinham um alcance de 1000, 1500 metros, ou seja, era completamente impossível atingirem os aviões americanos que operavam a altitudes diferentes. Como tal, é um exemplo desse falso apoio russo e chinês, sobretudo, que quando perceberam o que estava a passar, pura e simplesmente decidiram dar uma luz verde aos Estados Unidos, possivelmente recebendo em troca algumas garantias em relação à distribuição futura do petróleo venezuelano. Para onde é que no futuro a Venezuela irá exportar o petróleo, que do ponto de vista, sobretudo da China, era uma das suas preocupações principais. Portanto, essas reclamações e essas tiradas são compreensíveis. É o mínimo que podem fazer pra manter as aparências, mas de fato, o efeito real disso é muito pequeno ou nulo.
António José Telo, muito obrigado por ter vindo a este gabinete de guerra, antigo professor catedrático de História na Academia Militar. Um resto de um bom domingo.
Igualmente pra si, Adeus.