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Foi sorte de pouca dura. Pouco tempo depois de ter sido anunciado um acordo de cessar-fogo entre Israel e o Hezbollah, foram noticiados pelo menos 12 ataques ao sul do Líbano. Sendo que desta manhã há também a notícia da suspensão das negociações entre o Irão e os Estados Unidos, segundo duas agências de notícias estatais iranianas. A decisão do regime de Teerão prende-se com a violação de um dos pontos do memorando de entendimento, que prevê a cessação das intervenções militares em todo o território, incluindo o Líbano. São temas para este gabinete de guerra com o historiador Bruno Cardoso Reis, às sextas-feiras, sempre em formato mais reduzido. Boa tarde, Bruno. Começava por te perguntar se é de alguma forma surpreendente este acordo de cessar-fogo alcançado pelo Hezbollah e por Israel.
Boa tarde a todos. Eu acho que não é muito surpreendente e também, infelizmente, não é muito surpreendente que já haja também notícias que não está a ser respeitado. Ou seja, no fundo, há que dar alguma razão a Donald Trump quando ele dizia que no Médio Oriente, um cessar-fogo é mais um ceasefire ou um lesser fire. Portanto, não é uma completa cessação de hostilidades, é uma redução da intensidade das hostilidades. Vamos lá ver é quais são as implicações disso, ou seja, se isso será aceito como normal pelo Irão e pelos Estados Unidos e não irá pôr em questão a implementação de outros aspectos do acordo, nomeadamente o mais importante, que é a questão da segurança da navegação, da normalização da navegação em segurança no Estreito de Ormuz, ou se isso vai ficar em questão. No fundo, essa é a grande preocupação pro resto do mundo também, até para uma série de países da região, nomeadamente os países do Golfo, que dependem muito também do estreito pra poder continuar a exportar petróleo.
Sendo que desta manhã é essa a informação avançada por duas agências estatais iranianas, de que de facto o regime de Teerão decidiu suspender as negociações com os Estados Unidos no âmbito do memorando de entendimento assinado há algumas horas.
Sim, isso não surpreende muito. Francamente, sempre me pareceu que este seria o cenário menos mau, ou seja, haver um acordo mais formal de cessar-fogo, que de facto permitisse criar algumas condições de segurança mínimas no Estreito de Ormuz e vamos ver se isso se concretiza. Ainda assim, temos sempre de esperar pela implementação. E que criasse aqui uma estrutura pra se continuar a negociar, sendo que não me espantaria que essas negociações fossem arrastando sem resultado, fossem sendo suspensas. O problema crucial sempre é perceber se apesar disso, o cessar-fogo, sobretudo o cessar-fogo no Estreito de Ormuz, se irá manter ou não, se irá sendo prolongado. Se isso acontecer, acho que apesar de tudo, é um cenário menos mau, que resolve um problema muito importante que foi criado por este conflito entre o Irão e os Estados Unidos e que estava a chegar a uma fase em que, de acordo com a maior parte dos analistas económicos, especialistas no mercado de energia, etc, iria entrar numa fase ainda mais complicada de gestão de estoques, de segurança de abastecimento e de preços também.
Haverá aqui alguma relação entre este anúncio da suspensão das negociações no âmbito do memorando de entendimento alcançado por Israel e pelo Irão, pelos Estados Unidos e pelo Irão, e este acordo de cessar-fogo entre o Hezbollah e Israel? Sendo que a suspensão decorre precisamente da suspensão, segundo o regime iraniano, decorre precisamente do facto do Líbano continuar a ser alvo de ataques por parte de Israel.
Sim, acho que é uma demonstração de insatisfação do regime iraniano com o facto de não haver um real cessar-fogo no Líbano, mas esse também é um dos grandes problemas deste acordo. É como é que se faz um acordo de cessar-fogo que abrange o Líbano e abrange Israel, ou melhor, abrange o Hezbollah, porque na prática é o Hezbollah que é o beligerante, mas sem que essas partes estejam envolvidas, tenham assinado o próprio acordo, portanto, no fundo, se sintam formalmente obrigadas por este acordo. É quase assumir aqui uma espécie de relação de protetorado. Ora, a verdade é que, sobretudo no caso de Israel, isso depende muito dos cálculos políticos de Netanyahu e realmente ele precisa muito ou tem muito a ganhar com o apoio de Donald Trump no contexto político também eleitoral. Mas a verdade é que este acordo, este cessar-fogo é extremamente impopular em Israel, é rejeitado pela esmagadora maioria dos israelitas, que nomeadamente não percebem como é que não se resolve ou como é que não há aqui nenhuma referência, por exemplo, à questão do desarmamento do Hezbollah, como é que essa questão simplesmente foi deixada cair. E a explicação é simples, é que pra Donald Trump, no fundo, os aliados não interessam nada, interessa ele, os interesses políticos e econômicos dele, o seu protagonismo. E portanto, se nós achávamos que havia uma exceção para os países do Golfo, que inclusive lhe ofereceram aviões, o Catar custou centenas de milhões de dólares, ou para Israel, a verdade é que isto confirma que não é assim. Realmente pra Donald Trump, só conta mesmo Donald Trump.
Não são conhecidas muitas informações que nos ajudem a perceber o exato contexto deste cessar-fogo alcançado por Israel e pelo Hezbollah. Pergunto, Bruno, se é inédita esta negociação entre este movimento, o Hezbollah, e o Estado israelita?
Negociações indiretas vai sempre havendo e até contactos às vezes diretos, através de serviços de informações, etc. E sobretudo uma série de mediadores. Portanto, esta ideia de que não se negoceia com terroristas é uma retórica bonita, até se percebe o princípio, mas na prática não acontece. Desde os anos 80 que há negociações com o Hezbollah, inclusive também da parte dos próprios Estados Unidos, embora geralmente com grande discrição.
Através de que interlocutores? Quem é que media essas negociações, partindo do pressuposto que não são negociações diretas?
Sim. Tipicamente, são países como o Qatar ou o Egito. Mas aqui, neste caso, passamos a ter negociações em que também o Paquistão assumiu um papel muito importante de mediador. Portanto, é um dos vencedores desta ronda de negociações e aparentemente, uma das coisas que os próprios responsáveis americanos vêm dizer que é uma vantagem é que eles agora também têm contactos diretos. O Irão aceitou negociar, de facto, também com os Estados Unidos. Agora, se isso é uma grande vantagem, já acho que é mais questionável, mas no fundo também corresponde muito a esta visão sempre muito personalista da política, nomeadamente da política externa, que agora prevalece com os Estados Unidos. Mas o problema de base continua a ser que nem sequer em relação ao Hamas essa questão está resolvida, do desarmamento em Gaza, mas não está de todo resolvida, não foi de todo aceite pelo Hezbollah, no caso do Líbano, e isso realmente é o problema de base há muitas décadas. O Líbano realmente tem um Estado dentro do Estado, que é um movimento armado, que faz do facto de ser um movimento armado um aspecto crucial da sua identidade política e, portanto, isso torna muito difícil realmente dar por certo que o Hezbollah aceite desarmar-se. Nada aponta nesse sentido, e sempre foi um dos problemas destes acordos. Mas não acontecendo isso, o problema é que Israel sente-se ameaçado, sobretudo o norte de Israel, isso leva a que haja uma pressão política muito grande sobre o Netanyahu para resistir à pressão americana, neste caso, ou pelo menos ir resistindo e ir fazendo ocasionais ataques no Líbano e vamos ver quais são as implicações disso para o resto do acordo.
Até no seio do governo liderado por Benjamin Netanyahu, hoje Ben-Gvir, um dos ministros do governo israelita, veio dizer que todo o Líbano deve arder. Obrigado, Bruno Cardoso Reis, historiador, neste gabinete de guerra em formato reduzido.