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Começa agora mais um Gabinete de Guerra, esta manhã com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Olá, Bruno, bom dia, bem-vindo.
Olá, bom dia, obrigado.
Bom dia, Bruno. Já vamos ao encontro entre Moscovo e Washington, mas primeiro Putin, que não só rejeitou aquilo que considerou propostas inaceitáveis da Europa, como ainda deixou um aviso, uma ameaça. Disse: "Se a Europa quiser fazer a guerra, estamos prontos agora". Bruno, não surpreende, mas estas provocações não são já demais?
Na verdade, como explicou ainda há pouco tempo o chanceler alemão, o chanceler Merz, e sabemos que a Alemanha não é propriamente um país que se caracteriza por uma diplomacia muito exuberante, ao contrário, por exemplo, da França. Na verdade, a Europa já não está bem em paz com a Rússia, porque vão-se acumulando provas de que estamos numa situação de multiplicação de ataques híbridos na zona cinzenta, ou seja, estas ações de sabotagem, às vezes até assassinatos. Ainda há uns meses foi assassinada uma pessoa em Espanha também, que tinha sido um desertor russo. Portanto, todas estas aparições de drones a interferir com a atividade normal de aeroportos, etc. Ou aquela ação de sabotagem no comboio na Polónia também, que a Polónia atribuiu a agentes russos. Tudo isso mostra que realmente a paz que Putin ameaça quebrar, na verdade, já não é bem paz. O facto de a Rússia realmente se comportar como um inimigo da liberdade e da segurança na Europa já é uma coisa bastante evidente, e não é apenas na Ucrânia que isso acontece. Agora, ao mesmo tempo, acho que é revelador de outra coisa, que é apesar de nós todos nos queixarmos da pouca relevância da Europa em relação ao nível de importância destas questões para o seu futuro, de haver estas tentativas de marginalização da Europa, dos Estados Unidos não se estarem a comportar como um aliado leal, nem sequer em termos daquilo que é a própria letra, para não falar do espírito do Tratado de Washington, que estabelece a NATO, porque há aquele princípio de consulta mútua entre os aliados em questões que têm a ver com problemas de segurança, que afetam os estados membros da NATO. Mas apesar disso, a verdade é que aparentemente a Europa é suficientemente importante para perturbar os objetivos de Putin e para justificar esta ameaça. Aquilo que está por trás disto é claramente a ideia de que, apesar de tudo, a Europa ainda tem alguma influência no processo, ainda tem alguma influência nos Estados Unidos e tem conseguido evitar que a Rússia de Putin consiga atingir os seus objetivos, nomeadamente na relação com os Estados Unidos.
O encontro entre Putin e a delegação norte-americana durou quase cinco horas, para além de Moscovo dizer que há muito trabalho para fazer. Sabe-se que também discutiram questões territoriais na reunião, mais uma vez, sem qualquer representante da Ucrânia presente. Bruno, será que assim vamos a algum lado, ou como diz o ministro ucraniano dos Negócios Estrangeiros, a Rússia está só a desperdiçar o tempo do mundo inteiro porque não tem reais intenções de procurar a paz?
Sim, parece-me que há muito este jogo, que também serve um pouco do outro lado, o lado dos ucranianos e dos europeus, que é tentar sempre evitar dizer que não taxativamente a Donald Trump e à sua equipa. Não aparecer aqui como o país ou os países que estão a bloquear o processo. Parece-me que a Rússia também está a fazer um pouco esse jogo. E no caso da Rússia, parece-me evidente que realmente, e isso é muito claro, por exemplo, ouvindo aqueles programas de propaganda que passam por programas informativos na televisão russa ou debate. Realmente as elites russas, as elites digamos, ligadas a Putin consideram que basicamente ganharam a guerra, ou que estão a ganhar a guerra. Não só no terreno continuam a ir avançando, ainda que muito lentamente. Tem aquela ideia de que a Rússia se tivesse colocado um caracol no ponto partido, na fronteira da Rússia com a Ucrânia quando começou a invasão, ela já tinha chegado à fronteira polaca, mas as tropas russas ainda não conseguiram sequer acabar de conquistar o Donbass. Mas a verdade é que lentamente têm conseguido continuar a avançar e, sobretudo, dá sempre esta perspectiva que é de que a aposta de Putin, que durante muito tempo se revelou errada, que era de que os países ocidentais se iam desinteressar da Ucrânia, se iam dividir entre si a respeito desta questão, nomeadamente entre os Estados Unidos e a Europa, ia haver divisões, que se ia minar a unidade da própria NATO, a própria Aliança Atlântica do Ocidente. No fundo, isso agora parece estar a concretizar-se, pelo menos em parte. E desse ponto de vista, realmente, para a sobrevivência da Ucrânia, isso seria potencialmente fatal. Ou seja, se realmente há aqui um colapso do apoio ocidental à Ucrânia, isso realmente tornará muito mais difícil a resistência militar eficaz dos ucranianos.
Quanto ao Medio Oriente, o governo de Israel pretende mostrar à vice-enviada especial dos Estados Unidos ao Medio Oriente, Morgan Ortagus, informações que indicam que o Hezbollah está a rearmar-se e a fortalecer-se no sul do Líbano. Bruno, o que podem os Estados Unidos fazer em relação a isso?
O que podem fazer, no fundo, é dar carta-branca a Israel para continuar com ações militares. Que foi eliminado o chefe militar do Hezbollah há poucos dias por Israel. Portanto, Israel estará aqui a tentar legitimar essa ação e ter algum tipo de garantia de que terá o apoio dos Estados Unidos para continuar esse tipo de ação. Ou seja, haverá aqui uma espécie de cessar-fogo, no sentido em que não há realmente ações militares intensas todos os dias, mas ao mesmo tempo não haverá um cessar-fogo no sentido que de vez em quando há ações militares mais pontuais da parte de Israel. Aqui a questão, do meu ponto de vista, é que isso parece sinalizar que mais uma vez Israel aposta sobretudo na dimensão militar e, portanto, na questão do Líbano, por exemplo, onde aliás esteve agora o Papa Leão XIV, haveria eventualmente uma oportunidade de tentar virar a página, de construir um consenso amplo e de marginalizar realmente o Hezbollah e desarmar, eventualmente o Hezbollah, mesmo que isso seja difícil. Mas a aposta de Israel parece ser sempre apostar mais na dimensão militar. Com base um pouco também nessas dificuldades, mas muitas vezes a suspeita também é que Israel nunca aposta muito em dar alguma oportunidade a esses processos políticos e no caso deste governo em particular, de facto, nunca é essa a aposta. A aposta é sempre manter o mais possível as mãos livres para continuar a apostar na dimensão militar. E, portanto, mais uma vez, o risco é de Israel ir acumulando vitórias militares, mas sem nunca resolver definitivamente o problema, porque isso implicava que algum tipo de diálogo político, algum tipo de solução política, que também fosse aceitável pelos países vizinhos.
Entretanto, o ministro alemão dos Negócios Estrangeiros diz que Berlim está disponível para ajudar na reconstrução da Faixa de Gaza. Bruno, que papel pode ou quer ter a Alemanha na região?
É o papel habitual dos europeus e, em particular, da Alemanha, que é ter uma influência política diminuta, ser atacada por todos os lados, ser sempre criticada, e depois a seguir pagar a reconstrução, pagar os serviços públicos, pagar o apoio à população civil, ao mesmo tempo que vamos ouvindo sempre esta conversa, nomeadamente dos famosos países do Sul global, inclusive muitos países islâmicos, etc, que os europeus é que são culpados da questão e que não querem saber dos palestinianos, mas depois, na verdade, quem paga as contas, em muitos casos, são os europeus.
Bruno Cardoso Reis, obrigada pela análise. É mais um Gabinete de Guerra. Um bom dia, Bruno.
Bom dia, obrigado.
Muito obrigada.