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Gabinete de Guerra, esta manhã com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Olá, Bruno, bom dia, bem-vindo.

Olá, bom dia. Obrigado.

Bom dia, Bruno. Começamos pelo plano de paz para terminar o conflito com o Irão, proposta enviada através de intermediários paquistaneses. Washington exige que Teerão desista das armas nucleares. Em troca, promete o fim de sanções. Mas Bruno, este não é o mesmo plano que já tinha sido apresentado em maio do ano passado? Qual é a novidade? O que muda do lado do Irão, sendo que Israel já disse que não vai fazer parte das negociações e que vai continuar com os ataques no Irão e no Líbano?

O que parece confirmar que há, de fato, diferenças crescentes entre as prioridades dos Estados Unidos e de Israel, ou seja, há uma tensão entre os dois aliados. Mas sim, a grande questão é realmente essa. À partida, não temos conhecimento do texto oficial, mas as informações vão todas no mesmo sentido, de fontes bem informadas e, portanto, incluem coisas como, por exemplo, o Irão comprometer-se a não ter um programa de enriquecimento de urânio ou comprometer-se também a entregar o material, o urânio enriquecido. Comprometer-se com terminar o apoio às milícias armadas pela região, ter limites muito estritos a este programa de mísseis balísticos. Realmente, parece ser mais ou menos aquilo que o Irão já recusou no passado, sendo que aqui temos este problema que é: aparentemente, os Estados Unidos estão convencidos que esta campanha está a ser uma grande vitória, até porque isso é a linha oficial mantida por Donald Trump, mas na verdade, aquilo que está a acontecer é que está a mostrar os limites do poder militar norte-americano. Está a mostrar que o Irão tem capacidade para retaliar com eficácia, embora militarmente as suas capacidades sejam muito inferiores às dos Estados Unidos, mas a verdade é que tem continuado a conseguir atacar a região, atacar Israel, apesar de com menos lançamentos de mísseis e drones, aparentemente com mais eficácia, o que também levanta suspeitas ou confirma, eventualmente, as suspeitas de que está a haver um apoio direto russo nesse esforço de aquisição de alvos, inclusive à grande distância, como esta tentativa de ataque a Diego Garcia. Além disso, há sobretudo a questão do Estreito de Ormuz, que mostra que realmente o Irão tem aqui um instrumento de pressão sobre a economia global, de pressão também sobre as próprias dinâmicas políticas internas norte-americanas, porque obviamente a subida do preço do petróleo e dos combustíveis é muito impopular em todo lado, mas também em particular nos Estados Unidos. E, portanto, não se vê realmente razões para haver aqui uma cedência muito maior do Irão do que no passado. Mas vamos ver. Em todo caso, é significativo que haja aqui alguma tentativa de negociações, mesmo que por via indireta.

Entretanto, Donald Trump já aprovou o envio de 2 mil soldados da Força Aérea para o Médio Oriente. Bruno, dá para perceber quais são os planos dos Estados Unidos? Não sei se podemos falar em estratégia, mas tanto se fala em conversações como depois neste reforço.

Sim, isto eu penso que pode ser também visto por Donald Trump como uma forma de fazer pressão sobre o Irão. O fato também de se conhecer publicamente que isso está a acontecer. Já tínhamos estes marines que vinham a caminho, esta força expedicionária que vinha desde o Japão. Agora temos a 82nd Airborne, esta unidade histórica muito importante norte-americana, a grande unidade de paraquedistas norte-americanos que estiveram na linha da frente, foram as primeiras unidades a ser empregadas na Segunda Guerra Mundial, por exemplo, na invasão da Sília ou em operações muito famosas durante o desembarque da Normandia, mas por exemplo, também nas guerras do Golfo anteriores, na invasão do Iraque. Temos essa notícia de que entre 2 e 3 mil homens estarão a avançar para a região. E a minha percepção é que isso provavelmente alimentará os setores no Irão que dizem que isto de negociações da parte dos Estados Unidos tem sido sempre uma forma de tentar fazer baixar a guarda e durante essas negociações acaba por haver ataques contra o Irão. Dá a ideia que pode haver aqui este problema de base, que não é propriamente novo também na história norte-americana, que é os Estados Unidos estarem a ter uma visão estratégica com base em determinados cálculos e determinadas percepções que não têm nada a ver com os cálculos e percepções do outro lado. Um exemplo clássico disso é no Vietname, em que os Estados Unidos sistematicamente faziam o chamado body count. Também insistiam em contar o número de alvos que atingiam por via aérea, por exemplo, no Vietname do Norte, e com base em certos modelos, até já utilizando os primeiros computadores, garantiam aos presidentes americanos que era impossível o Vietname continuar a resistir à pressão americana e ia acabar por ceder às exigências americanas. E a verdade é que os vietnamitas, a liderança vietnamita, foi sempre encaixando todas essas baixas, todas essas perdas, todos esses ataques e continuando a resistir às exigências norte-americanas.

Bruno, uma outra questão. Minutos antes de Trump ter anunciado no início da semana discussões produtivas com o Irão, houve investidores que fizeram apostas milionárias em petróleo. Isto foi apenas coincidência ou pode haver aqui amigos de Trump que estão a enriquecer às custas da guerra e através de informações privilegiadas?

Parece ser uma grande coincidência. Isto não é propriamente uma novidade na história. Há episódios famosos, por exemplo, George Shultz tinha uma rede de informações, até familiares espalhada pela Europa e, por exemplo, a questão de Waterloo. Portanto, terão sabido primeiro por pombos correios da vitória britânica em Waterloo e feito investimentos em conformidade na City de Londres. Uma coisa é os empresários procurarem estar bem informados, outra coisa é realmente haver objetivamente aqui relações próximas com o presidente, que são usadas para ganhar dinheiro. Eu diria que tendo em conta o comportamento documentado, enfim, dados que estão bem documentados do comportamento da família de Donald Trump, de próximos de Donald Trump, realmente o que podemos dizer é que esta administração e a família do presidente e pessoas próximas, a família Witkoff, a família Kushner, e não só a família Trump, por exemplo, realmente levam-nos a dar algum crédito a essa possibilidade. Ou seja, claramente há aqui comportamentos que foram considerados no passado como inaceitáveis, mesmo que não fossem estritamente ilegais, e portanto, acho que é normal que essa possibilidade esteja a ser colocada, mas eu não tenho informação "inside" .

Tu não estás privilegiada.

Não tenho dados para garantir que é assim, mas realmente é um volume de negócios tal, que é estranho que não haja aí qualquer coisa que pelo menos mereça ser investigado pelas autoridades. Mas vamos ver se elas investigam, porque outra questão que também ajuda a validar essa suspeita, é que a administração Trump também politizou muito a justiça e, portanto, parece haver um pouco esta máxima populista, que é para os meus amigos tudo, para os meus inimigos a dureza da lei. Que é atribuída a Otávio Vargas. E portanto, desse ponto de vista, também é um pouco esta ideia de impunidade, que obviamente facilita esse tipo de práticas.

Claro. Entretanto, o embaixador de Israel nas Nações Unidas acusou o Ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano de ter dito que o Irão não tinha mísseis com alcance superior a 2000 km e de seguida ter lançado um míssil que percorreu quase 4000 km. Isto, Bruno, leva-nos a outro ponto. O chefe do Estado-Maior de Israel diz que com este alcance, capitais europeias como Berlim, Paris e Roma estão todas sob ameaça direta. É altura de acordarmos?

Mas porque não capitais, por exemplo, asiáticas também? A questão é o facto de um míssil ter um determinado alcance, nós, por exemplo, sabemos que a Rússia tem mísseis com esse alcance e aliás, tem passado a guerra toda da Ucrânia a ameaçar com ataques nucleares contra capitais europeias. O facto de haver essa capacidade não quer dizer que ela seja usada, porque apesar de tudo, e também ao contrário do que é dito, os países europeus não estão propriamente completamente desarmados, portanto ainda têm das forças armadas mais capazes do mundo. Em relação a sistemas de defesa antiaérea, é verdade que isso precisa de ser muito reforçado, a começar pela defesa antidrones, que não é sustentável com os modelos que nós temos. Aí temos muito que aprender com a Ucrânia. Em termos de defesa em relação a sistemas antimísseis, supostamente se a aliança atlântica, se a aliança com os Estados Unidos continuar, ela também está mais ou menos assegurada. Os Estados Unidos têm um sistema de defesa antimíssil, que também foi muito contestado pela Rússia e que os Estados Unidos sempre apresentaram como um sistema nomeadamente voltado para a defesa em relação ao Irão, porque havia sempre essa desconfiança que realmente o regime de Teerão não é de fiar, e eu acho que isso realmente vale a pena sublinhar e vale a pena constatar mais uma vez isso. Mas esse sistema existe, há uma base na Roménia, há outra na Polónia, com sistemas de interceção, com radares avançados, etc. Portanto, à partida, essas capacidades existiriam, não tanto do lado europeu, mas mais do lado norte-americano. Portanto, é mais um aspeto em que se não confiarmos tanto nos Estados Unidos, os europeus vão ter de investir mais em defesa, que aliás, é algo que também já está a ser assumido pelos países europeus.

Bruno Cardoso Reis, muito obrigada pela tua análise em mais um Gabinete de Guerra. Um bom dia, Bruno.

Bom dia. Obrigado.