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Está no ar o Gabinete de Guerra, está na Rádio Observador. Neste programa falamos sempre dos conflitos em curso, destaque para a Ucrânia, destaque para o Médio Oriente, mas há mais conflitos. E hoje até vamos começar com a guerra comercial que os Estados Unidos estão cada vez mais a intensificar. Hoje recebemos neste Gabinete de Guerra o Bruno Cardoso Reis, historiador. Está conosco a partir precisamente dos Estados Unidos da América. Bruno, muito bem-vindo a este Gabinete de Guerra. Vamos falar aqui destas tarifas, desta guerra comercial que vai ficando cada vez mais complicada. Donald Trump anunciou tarifas, aqui o cálculo para chegar a estas tarifas é um pouco confuso, não é imediato, não é propriamente fácil de chegar até ele, mas tem por base o déficit comercial e também o valor de bens importados e depois há aqui uma divisão para se chegar a estes valores, de acordo com Donald Trump, até não são tão intensos como poderiam ser. Isto foi o que disse Donald Trump. Só que há uma coisa que salta à vista. A Rússia não tem aqui nenhuma tarifa aplicada pelos Estados Unidos da América.

Sim, e é algo que foi realmente assinalado aqui. Ou seja, há várias coisas que saltam à vista. Eu, por acaso, ontem tinha uma reunião próximo da Casa Branca e, de facto, passei lá exatamente na hora que estava a ser anunciado, com um enorme bruá no jardim, com grande presença de jornalistas. Havia algumas manifestações já na altura contra as tarifas. Um senhor mascarado de Tio Patinhas, vamos dizer assim, a dizer: "Este é o dia da libertação do nosso dinheiro". Realmente, está a gerar aqui grande controvérsia, inclusive entre os setores que tradicionalmente apoiam Donald Trump, inclusive alguns setores do Partido Republicano, que tem estado muito unido com esta ideia que isto vai ter um grande custo para os consumidores americanos, que vai criar enormes incertezas na economia, porque mesmo que se queira construir novas fábricas para fabricar mais produtos nos Estados Unidos, muitas dessas indústrias têm de importar pelo menos uma parte das matérias-primas, uma parte dos produtos de fora dos Estados Unidos. Ora, se isso se torna muito mais caro, como é que se faz isso? E depois toda esta incerteza que resulta também desta ideia de que isto é parte de um plano genial de negociação e, portanto, pode sempre mudar de um dia para o outro. Mas isso de mudar de um dia para o outro é terrível também para os investidores, porque não sabem com o que podem contar de um dia para o outro. Ora, estes investimentos são investimentos muito elevados e que demoram muito tempo depois a concretizar e depois também a ter retornos. Já há a incerteza que chega na economia mundial sem isso. Mas de facto há esse aspecto, que foi assinalado ontem, por exemplo, por um comentador, que é aparentemente há alguns territórios que não têm praticamente população e que praticamente não exportam para os Estados Unidos, que também foram atingidos, mas depois a justificação da administração para não incluir a Rússia e a Bielorrússia é que não há praticamente comércio com eles por causa das sanções. Ora, realmente, o comércio colapsou enormemente entre a Rússia e os Estados Unidos, mas há algum comércio entre a Rússia e os Estados Unidos, residual, mas continua a existir. Aqui, de facto, está esse elemento estranho, que é uma enorme vontade de taxar, de criar aqui um imposto alfandegário em relação a toda a gente, mas mais uma vez, de facto, a Rússia é uma exceção. Donald Trump não tem problemas em sistematicamente atacar todo o tipo de líderes mundiais, desde o Papa aos líderes europeus, a todo tipo de figuras, mas realmente em relação a Putin, raramente diz alguma coisa de negativo, se é que alguma vez diz alguma coisa de negativo, e portanto isso é algo que é aqui assinalado. Já agora, vale a pena dizer que em relação, por exemplo, à União Europeia, também há aqui um paradoxo que mostra bem o nível de hostilidade de Donald Trump, porque realmente fala-se destas contas com desconto, etc. A taxa devia ser 37%, mas é 20%, porque isso é o que os europeus cobram aos produtos europeus. De facto, todos os especialistas americanos dizem que, em média, as taxas alfandegárias da União Europeia em relação aos produtos americanos, obviamente variam de produto para produto, mas em média andam à volta de 1%. Nem 37, nem 20. E por exemplo, países como a Turquia ou mesmo o Brasil, por exemplo, têm taxas médias acima disso. Aparentemente, há aqui uma questão que Donald Trump utiliza para tentar justificar isto, que é o IVA, mas o IVA não é um imposto alfandegário, aplica-se sobre todos os produtos, inclusive os que são produzidos na União Europeia.

Exatamente.

Não se pode usar isso como argumento para dizer que os produtos americanos estão a ser discriminados. Mas isto realmente parece ser revelador das inclinações, das preferências do Donald Trump e desse ponto de vista, são más notícias para a Europa e serão boas notícias para a Rússia e para a Bielorrússia e notícias, eu diria, bastante alarmantes do ponto de vista da forma como está a ser conduzida esta negociação entre os Estados Unidos e a Rússia e entre os Estados Unidos e a Ucrânia.

Enquanto isto acontece, ou um dia depois do anúncio destas tarifas, temos uma visita do conselheiro de Vladimir Putin aos Estados Unidos da América. Está em Washington e está a conversar com a administração Trump. Entretanto, este conselheiro já acusou numerosas forças de estarem a tentar manter uma tensão entre Rússia e Estados Unidos da América. Temem um terreno comum, é o que diz este conselheiro. Estamos a falar de Kirill Dmitriev. Quem é este homem, Bruno, e de facto, para que serve este encontro do conselheiro de Putin com representantes dos Estados Unidos da América, encontros nos Estados Unidos da América?

Em si mesmo já é significativo, até porque este senhor estava também numa lista de sanções, portanto as sanções foram levantadas para ele poder visitar os Estados Unidos. Enfim, isso não é 100% na diplomacia, mas não deixa de ser significativo numa altura em que os Estados Unidos estão a fechar as suas fronteiras de uma forma bastante generalizada, indiscriminada e até em relação a pessoas provenientes de países tradicionalmente amigos. De facto, isso não parece ser aqui um problema. É alguém que tem uma ligação com os Estados Unidos, estudou aqui nos Estados Unidos, nomeadamente na Universidade de Stanford e também em Harvard. Portanto, é alguém que tem bons contactos aqui à partida e sabemos a importância que têm os contactos pessoais também na administração de Donald Trump. Mas genericamente diria que é mais um sinal que realmente os Estados Unidos parecem muito determinados a procurar melhorar relações com a Rússia, mesmo que à custa da Ucrânia ou dos seus aliados europeus. Isso torna ainda mais paradoxal declarações grandiloquentes do responsável da diplomacia, do Marco Rubio, a exigir aos aliados da NATO despesas em defesa de 5%. Ora, se nós temos ao mesmo tempo o responsável das negociações com a Rússia a dizer que não vê nenhuma ameaça do lado russo, bem, isso era um nível de despesa que não foi atingido. Foi atingido nalguns momentos e por alguns países durante a Guerra Fria, mas a média dos países da NATO durante o período da Guerra Fria foi 4,5%, portanto foi abaixo disso. Hoje em dia, a maior parte dos países do mundo gastam menos do que 5% do PIB em defesa, inclusive os próprios Estados Unidos. Portanto, de facto temos aqui este discurso bastante desencontrado com este enviado especial também, no fundo aqui a acenar com bons negócios, aproximação. Portanto, esta ideia de que são os outros países é que estão a criar problemas nas relações entre a Rússia e os Estados Unidos. Que eu saiba, ninguém obrigou a Rússia a invadir a Ucrânia, portanto foi esse aqui o grande problema nas relações entre os Estados Unidos e a Rússia. E tem a ver com o que tinham sido até aqui as grandes prioridades da política externa americana. Não é desde o presidente Biden, é há muitas e muitas décadas, desde a Segunda Guerra Mundial e até antes, que é defender o princípio de que as fronteiras são para respeitar e não para invadir. Portanto, tudo isso costumavam ser pilares da política externa americana, mas pelos vistos a Rússia acha que consegue argumentar que agora o que é importante são as boas relações, os bons negócios entre a Rússia e os Estados Unidos. Vamos ver se resulta.

Este encontro do conselheiro de Putin nos Estados Unidos da América acontece no dia em que a NATO está a reunir todos os ministros dos negócios estrangeiros dos países que fazem parte da NATO. Acontece em Bruxelas e é a primeira reunião com a presença do secretário de Estado norte-americano. Gostaria de falar aqui da importância desta reunião e também daquilo que já disse Marco Rubio, que garante que os Estados Unidos da América ficam na NATO. Por que razão sentiu necessidade de fazer esta declaração?

Eu já me antecipei um bocadinho e já aludi a um dos pontos que ele referiu, ao mesmo tempo desse, que era esta insistência nos 5% de despesa no PIB. Do meu ponto de vista, se essa insistência continuar, realmente é um sinal de que esta administração quer encontrar pretextos para hostilizar os parceiros da NATO e para, na prática, no fundo, desinvestir da NATO, porque isso não são números realistas e muito menos no curto prazo. Mesmo em relação a países que já gastam, digamos, significativamente em defesa e que têm essa tradição. Há um ou outro país europeu que tem essa margem financeira e também um nível de ameaça direta russa que pode justificar isso e que pode tornar isso possível até em termos de apoio da opinião pública. Agora, em termos quer económicos quer políticos, isso não é fazível na maior parte dos países. Portanto, ele diz uma coisa, mas ao mesmo tempo com este anúncio parece estar aqui a encontrar pretextos para depois vir a dizer outra. Em todo caso, significativo, como dizias, que haja necessidade de fazer esse tipo de declaração. O Marco Rubio diz isso com um tom muito enfadado, mas a verdade é que foi o presidente que ele atualmente serve, Donald Trump, que mais que uma vez atacou a NATO, disse que a NATO estava obsoleta, etc. Entretanto, aparentemente mudou de ideias, mas lá está toda esta proximidade com a Rússia de Putin, toda esta insistência que a Rússia não é uma ameaça. Esta ideia de que, no fundo, o que interessa são as relações com grandes ditaduras, muitas vezes abertamente hostis aos Estados Unidos, e não há nenhuma preocupação em hostilizar, em fazer, por exemplo, uma guerra comercial em grande escala contra os países aliados. Mais uma vez, está-se a pedir aos países europeus para gastarem mais em defesa, mas ao mesmo tempo está-se a criar aqui um enorme problema económico aos países europeus que exportam muito para os Estados Unidos. Portanto, realmente as declarações são uma coisa, mas depois os factos não vão exatamente no mesmo sentido. Eu diria que apesar de tudo é um bom sinal, provavelmente reflete o fato de que, apesar de tudo, a grande maioria dos americanos continuam a valorizar a pertença à NATO. Muitos elementos da liderança do Partido Republicano continuam a dizer que dão importância e dão valor à NATO. E fazem bem, porque realmente é uma aliança que tem sido muito importante para a segurança da Europa, mas tem sido muito importante também para os Estados Unidos, para o poder e para o prestígio dos Estados Unidos. Não há aliados mais fiáveis do que os europeus e mais capazes de, por exemplo, enviar tropas para combater ao lado dos Estados Unidos, capazes quer em termos de equipamento, apesar de ser desejável que tivessem investido mais e tivessem mais, apesar de tudo, as Forças Armadas europeias são das melhores equipadas do mundo. Só são comparáveis em termos de avanços de nível tecnológico, etc, aos dos Estados Unidos. E politicamente também há essa disponibilidade para, muitas vezes até em situações em conflitos que os europeus desaconselharam, foi o caso do Iraque ou do Afeganistão, depois apesar disso e por uma questão de lealdade à aliança, haver a presença, por exemplo, de tropas europeias. Portanto, vamos ver se isto é o prelúdio para uma mudança de atitude da administração Trump no sentido de valorizar mais publicamente a Aliança Atlântica e deixar cair estas exigências que de facto não fazem sentido e não são realistas, ou se, no fundo, é aqui o preparar o terreno para mais uma área em que se vai hostilizar os aliados tradicionais dos Estados Unidos.

Vamos terminar com a situação do Médio Oriente, até porque Netanyahu está a visitar a Hungria. A Hungria anuncia a saída do Tribunal Penal Internacional precisamente nesse momento e já descreveu Israel, Viktor Orbán, como uma âncora no Médio Oriente, demonstrou total apoio a Netanyahu. Que leitura fazemos desta saída da Hungria do Tribunal Penal Internacional perante esta visita e também o que dizer deste apoio total da Hungria a Israel?

Pelos vistos, para a Hungria é mais importante o apoio a Israel do que a coesão, a solidariedade com o resto dos países europeus, com os seus aliados no contexto da União Europeia ou da NATO, que fazem realmente o Tribunal de Haia, algo que é importante para a sua política externa. Genericamente, esta ideia de que é fundamental o direito internacional para países pequenos e médios é especialmente importante que não se volte a um sistema em que basicamente quem pode faz. Portanto, em que simplesmente o que interessa é o nível de poder militar, em que há alguns limites à ação dos Estados, alguma previsibilidade também na ação dos Estados e portanto é isso que explica a importância do direito internacional e de instituições deste tipo, que podem ser criticadas em certos aspetos concretos, mas de facto, por isso completamente de lado, em nome da aliança com Israel, mostra que realmente a Hungria não está propriamente muito empenhada em manter boas relações com o resto dos países europeus ou em manter a coesão da Europa num contexto internacional muito adverso.

Está feita a edição de hoje de Gabinete de Guerra. Estamos de regresso amanhã para mais uma edição.