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Jorge Rodrigues, coordenador de Risco Geopolítico da Porto Business School, que hoje está conosco nesta edição de Gabinete de Guerra, em que vamos falar dos conflitos no Médio Oriente e também no leste da Europa. Boa tarde. Bem-vindo, professor. Obrigado pela sua disponibilidade. Vamos começar pelo Médio Oriente e por aquela afirmação ontem feita por Donald Trump e disseminada um pouco por todo o mundo: finalmente há paz. O acordo de paz, como está a decorrer, que avaliação faz do cumprimento deste cessar-fogo, sendo que hoje há aquela notícia que dá conta de um grupo de palestinianos morto por soldados israelitas a norte da cidade de Gaza?
Boa tarde, Miguel. Em boa verdade, Trump está a delirar. É um momento de protagonismo incrível. Ele adora isto, adora poder mandar mensagens internas para o seu público, adora ser visto como pacificador, mas verdadeiramente, talvez seja ele o único contente na sala. Previa-se algumas dificuldades, era essencial ultrapassar, é normal nestes processos que surjam. Há falta de confiança entre as partes, houve escaramuças como essa que foi agora referida, há provocações. O Hamas está a tentar, de alguma forma, executar os seus adversários, até se chega a temer algum tipo de escalada nesse particular. E depois há uma guerra de comunicação permanente. Há uma guerra de comunicação porque, de certo modo, os objetivos não foram alcançados e, portanto, qualquer pormenor, mesmo a nível tático, pode ser aproveitado para escalar. O Hamas, inclusivamente, teve agora um ato que deixa algumas dúvidas e que poderá ser aproveitado por Israel, que não está a entregar os cadáveres dos reféns. Entregou quatro, mas não entrega os restantes. Já se sabia que iria ser bastante difícil porque, primeiro pela confusão do próprio teatro de operações, segundo porque parte deles estavam em mãos de outros grupos jihadistas e não eram controlados pelo Hamas, mas é certo que eles sabem de mais alguns e poderiam ser mais efetivos na tentativa de resolução. Isso está a ser assumido como uma tentativa para utilizar um pouco o tempo, estendem um pouco o tempo para ir assumindo o poder e reorganizar-se na Faixa de Gaza e lá está, de alguma forma, conseguindo controlar os seus adversários. A reação de Israel já será conhecida. Irá fechar a passagem de Rafah e, portanto, de alguma forma, controlar esse movimento para sul, para o Egito, eventualmente controlar a ajuda humanitária. Em suma, estamos a evoluir positivamente. Estamos melhor que há meia dúzia de dias atrás, sem dúvida. Há momentos críticos. Agora, o essencial será como a comunidade internacional, como os atores externos irão conseguir pressionar as partes para prosseguir com esta, que é, para todos os efeitos, a parte fácil do acordo.
A parte mais difícil será a fase dois, que envolve precisamente a comunidade internacional e particularmente os países da região do Médio Oriente. Há condições para pensarmos que, de facto, vai ser possível passarmos e executarmos essa fase dois?
Tenho francas dúvidas, porque realmente vai ser com meia dificuldade. Neste momento temos só um acordo de cessar-fogo. Não é acordo de paz efetivo. Aliás, temos inclusivamente dúvidas do que foi assinado por Trump. Tinha realmente alguns atores que estiveram ao seu mais alto nível, Sisi, o Emir do Qatar, Erdogan da Turquia, mas por exemplo, a Arábia Saudita e os Emirados não se fizeram representar ao mais alto nível. Portanto, ficou ali uma nítida sensação de falta de concretização do que seria esse próximo passo. Parecia mesmo os normais discursos de Donald Trump, em que realmente tem ali um conjunto de ideias e intenções, mas depois nada de muito concreto. Nós estamos a falar de um problema histórico. Os objetivos políticos de Israel e do Hamas não foram definitivamente alcançados. Não podemos esquecer que o Hamas é um grupo jihadista, não é um grupo propriamente político e, portanto, a sua essência, a sua existência, depende muito de continuar o combate. Por outro lado, temos diversos atores derrotados que procurarão destabilizar o processo, inconsequentemente irão criar algumas entropias e essas podem facilmente escalar. Portanto, isto é uma fase muito mais complexa, em que será necessário desmilitarizar o Hamas e não incluir o Hamas num futuro político, o que será completamente recusado por este ator. Haverá dúvidas-
Ainda assim, o Hamas aceitou este acordo de cessar-fogo, sabendo ou não que essa era uma das condições que fazia parte do roteiro proposto por Donald Trump. Como é que interpreta esta aceitação por parte do Hamas desta condição, sabendo a priori que não é para cumprir?
Era uma oportunidade. De alguma forma, o Hamas percebeu que era o momento e que não teria condições para prosseguir. Por muito que nos custe dizer, a verdade é que a força funcionou. O Hamas foi colocado numa situação complexa a nível operacional, perdeu completamente a sua liderança e coordenação, o chamado C2, o comando e controle, e portanto, verificou que mesmo em outros países, como foi na Síria, no Irão, no No Qatar, realmente os seus líderes não estavam seguros e portanto poderiam ser atacados. Sentiu que não tinha o apoio internacional, seja do Qatar ou da Turquia, que eram os seus grandes apoiantes. Quando dizia apoiantes era financeiro, naturalmente que o Irão numa outra área operacional era bem mais irrelevante e que realmente não conseguiu manter esse apoio, dada a sua dificuldade também. E depois percebeu uma outra coisa, que ter reféns não era uma justificação para conseguir parar a pressão de Israel. Portanto, nesse sentido tentou aproveitar um pouco a oportunidade para se reorganizar e para criar condições para uma melhor segunda fase do conflito e colocar-se numa melhor posição para prosseguir com a sua ação influente na zona de Gaza.
Acaba por responder à pergunta, por que agora? Por que o Hamas aceitou agora este acordo de cessar-fogo? E Israel, por que Israel aceitou suspender a intervenção militar em Gaza?
Em boa verdade, Israel também estava pressionado. Por um lado, teve a União Europeia e outros da comunidade internacional a reconhecer o Estado Palestiniano, a recusar a entrega de armas, portanto colocar alguma dificuldade a nível operacional, mas também a pressão dos Estados Unidos. A pressão dos Estados Unidos foi essencial e foi vital e depois naturalmente, internamente, a nível político e a nível social, que acompanhando com um momento económico menos favorável, iriam criar algum tipo de debilidade. E os Estados Unidos estavam empenhados também como único moderador capaz, em aproveitar este momento e isso foi determinante nessa pressão em Israel. Ao envolver, por exemplo, os estados árabes e muçulmanos de uma maneira geral, porque tem inclusiva também a Turquia, estamos a falar da Arábia Saudita, do Egito, mas como eu já disse há pouco, principalmente o Qatar e a Turquia, que iriam deixar de apoiar o Hamas. Toda essa conjugação de fatores acabou por, de alguma forma, colocar as duas partes, tínhamos falado do Hamas e agora de Israel, numa situação de incapacidade de manter o conflito, apesar de terem ambos os objetivos políticos ainda não alcançados.
Há vencedores e derrotados em todo este processo?
Como vencedores, é uma boa pergunta, porque realmente como vencedores é mais difícil de dizer do que derrotados. Como vencedores, obviamente, Israel a nível militar conseguiu provar o sucesso das suas forças armadas, seja diretamente em Gaza, por muito que a envolvente de baixas civis colaterais seja elevada, mas conseguiu realmente combater numa guerra assimétrica com bastante sucesso, mas também nas chamadas sete frentes, em que envolveu depois os outros atores como o Irão, o Hezbolá, a Hamas, e conseguiu de alguma forma impor essa capacidade. Nesta componente, Israel será vencedor, até porque conseguiu de alguma forma distrair também as ações que ia desenvolvendo na Cisjordânia e na Síria, criando ali uma buffer zone. Depois a Arábia Saudita e os seus aliados com a derrota do Irão, que conseguem nesta competição islâmica muçulmana, ganhar algum leverage. Os Estados Unidos que numa fase multilateralista acabou por ser uma ação unipolar que de alguma forma trouxe alguma estabilidade para criar condições para um cessar-fogo, e a China que assistiu de cadeira com alguma liberdade estratégica e com uma distração relativamente ao que vinha desenvolvendo. Relativamente aos derrotados, isso é que é mais preocupante, logo à partida os povos israelitas e palestinianos foram os grandes sofredores deste conflito. O Irão e os seus próximos completamente derrotados neste contexto. A União Europeia mais uma vez demonstrou ser uma potência de viva com pouca autonomia estratégica e incapacidade de ser respeitada no terreno. Israel, que há pouco dizíamos como vencedores num campo, obviamente que a nível de valores nacionais perderam referências que poderão vir a ser importantes para futuro, visto que todo o país era de alguma forma montado num conjunto de alicerces que agora foram um pouco colocados em cauda. E depois muitas dúvidas se a segurança melhorou em termos práticos. Por último, a ONU. Total incapacidade, não sendo respeitada, ficou patente que não temos um sistema de gestão de crise a nível global. Foi um ator completamente lateral e que em determinados momentos a sua parcialidade foi evidente e de alguma forma isso fica presente para futuro e necessita de uma refundação urgentíssima.
Os vencedores e os derrotados de todo este processo e da guerra no Médio Oriente. Vamos agora falar da guerra no leste da Europa, ainda de olhos postos no Médio Oriente, para lhe perguntar, professor, se o modelo de Donald Trump, que conduziu este cessar-fogo em Gaza, pode ser exportado para o conflito na Ucrânia.
Apesar de Donald Trump o dizer, apesar de alguma retórica, inclusivamente, que eu acho com alguma segunda intenção por parte do Kremlin, não é replicável de modo algum. Trump procura pressionar, mantém uma linha de pressão, ele sempre negociou dessa maneira, embora com alguns limites, mas a verdade é que tenta a nível diplomático uma reunião com o ator que agora se torna mais relevante para si, o Zelensky, a pressão com a eventual entrega do Mao Yi com a sua liberdade operacional Mas Putin não tem muito a perder, não se sente muito pressionado. Putin tem algumas causas profundas, como ele próprio diz, que têm que ser asseguradas e que enquanto não atingir pelo menos parte delas, não vai parar. Todo o regime, todos os interesses principais estratégicos da Rússia estão dependentes do resultado deste conflito. Portanto, está a intensificar os ataques em profundidade, está a intensificar ataques às infraestruturas energéticas, às infraestruturas civis, políticas. Há uma mobilização sem precedentes com dois milhões de reservistas para uso operacional inclusivamente no teatro de operações ucraniano. E depois vai desenvolvendo paralelamente uma guerra híbrida que chega a vários países da Europa. Demonstra e dá bem sinais que procura pressionar, procura tirar ganhos, procura que a opinião pública ocidental comece a ter francas dúvidas, comece a ter algum receio e que pressione os seus políticos nesse sentido. Putin não irá parar enquanto não atingir pelo menos um buffer de segurança, ser reconhecido como ator relevante do sistema político internacional, visto que tem vindo a perder algum tipo de relevância nas últimas décadas e quer aproveitar o momento. Quer aproveitar que Trump não está muito preocupado com a Europa e quer a paz a todo custo para se concentrar na China e percebe que é o seu momento de conseguir atingir esses objetivos e julgo que vai continuar a pressionar, portanto, não será facilmente replicável esta pressão que Trump conseguiu exercer no Médio Oriente, não será replicável para o conflito na Ucrânia.
Não é, portanto, possível descortinar na linha do horizonte uma solução que ponha termo a este conflito no leste da Europa. Ontem, Donald Trump falava no papel que Recep Erdoğan poderá ter como mediador, tendo em conta as relações privilegiadas que tem com a Rússia. Acha que sim, poderá ser um ator importante tendo em vista o alcançar de um acordo de paz?
Isso era um sonho de Erdoğan. Ele tenta alcançar isso já há várias décadas, ser um ator muito relevante a nível pan-regional. E consegue, de facto, é uma ponte entre os dois mundos, isso é perfeitamente evidente. Só que carece depois do fator força, de impor qualquer tipo de resolução, ou seja, pode levar as cartas de um lado ao outro, mas não consegue depois fazer cumprir. Eu julgo que haverá caminhos, obviamente, não posso ser assim tão pessimista. De alguma forma temos que alcançar um equilíbrio estratégico. E esse equilíbrio estratégico será com uma paz aceitável para o lado ucraniano e lateralmente para a União Europeia, mas também que Putin consiga alcançar alguns dos seus grandes objetivos. Isso só será conseguido com uma conjugação de esforços diretamente pelos Estados Unidos, sem dúvida, um grande mediador, porque tem essa capacidade de impor algum tipo de força, mas julgo que é essencial envolver outros atores, como por exemplo, a China. Enquanto a China lateralmente for apoiando a Rússia, enquanto outros atores dos BRIC, do Global South, etc. forem abrindo alguns caminhos de escapatória, naturalmente, Putin nunca se sentirá assim tão pressionado. Portanto, a conjugação desses fatores é que poderá levar a um caminho para a paz. Não vejo com facilidade outro tipo de caminho.
Professor Jorge Rodrigues, muito obrigado pela sua presença neste Gabinete de Guerra da Rádio Observador. É coordenador de risco geopolítico da Porto Business School e ajudou-nos hoje aqui a olhar para estes dois conflitos que teimam em fazer parte do espaço mediático, a guerra no Médio Oriente e o conflito no leste da Europa.