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Este é o Som do Gabinete de Guerra das manhãs 360 desta quinta-feira, com a análise de Francisco Proença Garcia, militar, professor universitário e investigador. Muito bom dia, bem-vindo.

Bom dia, Maria João.

Bom dia. Obrigada, Francisco. Hoje começamos pela guerra na Ucrânia. A Rússia lançou ontem mais de mil drones em apenas 24 horas. É um dos, senão o maior ataque desde o início da guerra. Francisco, com o foco internacional virado para o Médio Oriente, a Rússia está a aproveitar a distração para intensificar os ataques. A Rússia é um dos vencedores indiretos do conflito do Médio Oriente.

É a Rússia e o presidente Vladimir Putin. De facto, como a Maria João disse, nós agora estamos todos a olhar para o Irão, para o Catar, mas a guerra não parou na Ucrânia. As movimentações na Ucrânia e para estes têm sido lentas, como sempre, nada de novo. Quer dizer, ganhe um metro quadrado e perda de um metro quadrado. Agora, como disse, foi dos maiores ataques com drones. Mostra que os russos, afinal, não estão tão debilitados como nós pensávamos. Mostra que até têm mais dinheiro, que nas últimas três semanas o preço do petróleo tem subido e o presidente Putin tem encaixado umas centenas de milhões que o ajudam, que dão uma folga financeira para colocar isso na economia de guerra que tem, produzir mais equipamento, pagar aos seus homens e aos mercenários que lá têm a combater, que ele tem andado a recrutar um pouco por todo o mundo. De maneira que vem dar outro fôlego. Quem perde com isso? Perdemos todos nós. E sobretudo, eu imagino o presidente Zelenskyy, que estava com uma esperança de que houvesse algumas negociações. Já estavam a conversar entre Estados Unidos, Rússia e Ucrânia e de repente não se ouve falar nisso. Pelo contrário, ouve-se o presidente Zelenskyy para se manter na cena internacional a continuar a viajar, mas aparece um minuto nas notícias e depois oferecer, e bem, as suas capacidades de defesa e a sua tecnologia antidrone para aparecer também no radar, dizer aos países do Golfo: "Olha, eu tenho esta tecnologia, também não se esqueçam de mim, eu sou importante". Mas eu imagino o sofrimento daquele povo ao fim de quatro anos. Havia uma luzinha ao fundo do túnel, muito ténue, mas havia pelo menos já negociações ao fim de quatro anos. E hoje não falamos nisso e temos o maior ataque de drones.

Pois é verdade.

Exatamente. De maneira que vamos ver. Vão ser pacientes, infelizmente, com mais destruição de património e o sacrifício daqueles inocentes. Isso é que é lamentável.

É mesmo. Sobre o Médio Oriente, apesar de Teerão negar, Donald Trump diz que o Irão deseja desesperadamente fechar um acordo, mas que as autoridades têm medo de dizê-lo publicamente com receio de que os líderes sejam mortos pelo próprio povo. Francisco, vê sentido algum racional nesta narrativa?

O presidente Trump tem que falar muito para o seu eleitorado, tem que justificar esta intervenção, que militarmente corre-lhe bem, porque ele está farto de destruir alvos militares às centenas, a capacidade antiaérea, tudo isso ele tem destruído. Mas estrategicamente, por aquilo que nós vemos, não está a ser uma vitória bem-sucedida. E depois ponha-se na posição do Irão. Eles querem negociar. Oficialmente, ainda não há negociações. Há boa vontade de alguns vizinhos, sobretudo o Paquistão. A Turquia também tem manifestado esse interesse. Tem havido uma troca, mas não são negociações, são amigos a querer fazer a paz na região, mas oficialmente ainda não se sentaram. E depois apresenta 15 pontos. Ouviram o Irão.

Muito semelhantes aos do ano passado, apresentados no ano passado.

Exato, o ano passado. E o Irão o que é que diz a isso? "As duas vezes que eu estava a negociar, fui bombardeado a meio. Agora querem negociar, mas estão a mandar para cá a 82ª Divisão Aerotransportada, estão a mandar não sei quantos mil marinhos. Isto é para negociar, se é para fazer pressão, se eu digo que sim, eles ocuparão o mesmo território. Se eu digo que sim, qual é a reação do meu povo?" O povo que se uniu agora, por toda a contestação que há ao regime, quando destroem a escola, o hospital, a ponte, as infraestruturas energéticas, a própria população se une contra o inimigo externo. E depois, ao fim de 40 anos de lavagem de cérebro contra os norte-americanos, é normal que a população esteja revoltada. Eu não gostava de ser soldado norte-americano neste momento, porque eles podem desembarcar onde quiserem, podem lançar os pára-quedas onde quiserem. A operação militar é realizável, mas depois é preciso sustentá-la. E eles também sabem que ao fim de 20 anos saíram do Afeganistão, ao fim de 10 saíram do Iraque. É no fundo: "Deixa-os entrar que nós cá estamos à espera deles". Eu espero que isso não chegue a acontecer, mas é realizável militarmente. Tenho ouvido muitas pessoas a dizer: "Militarmente, os Estados Unidos têm essa capacidade". Agora, depois de ter a força no terreno, é preciso sustentá-la lá. E com que baixas, o Donald Trump está disponível para isso e a população norte-americana?

E com as eleições intercalares, entretanto.

Olha, essa, Maria João, penso que isso será a solução, as eleições intercalares e a campanha que vai começar em breve, que vão ajudar a parar o conflito.

Vamos esperar que seja.

Pode ser uma solução interna.

O certo é que Israel se mantém firme ao dizer que não vai fazer parte das negociações com o Irão. Isto revela divergência estratégica entre Washington e Tel Aviv? Ou seja, os Estados Unidos estão a tentar evitar uma guerra maior, mesmo que isso irrite Israel?

Aparentemente, quem está a liderar o processo são os réditos e são os grandes beneficiários disto tudo. São os russos e são eles, porque estão a exaurir de tal forma o poder militar iraniano. Ainda não aniquilaram suficientes, porque ainda hoje foram bombardeados durante a noite, e também está a esgotar a sua capacidade de defesa antiaérea e a proteção antimíssil. Tem sido tal a intensidade que também os réditos têm esse problema logístico e ganha a guerra, sempre soube, quem tem a logística. De maneira que faz parte do discurso, penso eu, na guerra, dizer: "Eu não vou acabar". Mas se Donald Trump forçar, eles têm mesmo que acabar, porque sozinhos não têm capacidade, nem de reconhecimento, nem de intelligence. Falta-lhe ali um conjunto de capacidades, mas faz parte da retórica também continuar a pressionar. Aliás, estamos a falar que há umas conversações entre amigos, mas não deixa de haver bombardeamentos E ameaças de um lado e de outro. "Vocês ocuparem o nosso território, nós também vamos ocupar territórios nalguns países do Golfo". Faz parte da gramática da guerra, digamos assim. Mas penso que até agora quem tem liderado o processo têm sido os israelitas, são os grandes beneficiários no curto prazo. Para a imagem deles internacional, vai levar muito tempo a ser ultrapassada a agressividade que eles têm, que nós compreendemos. Depois a opinião pública internacional terá outra leitura.

Outra leitura, sim. Entretanto, Portugal quer receber esclarecimentos sobre os drones descritos como assassinos que os Estados Unidos querem construir na base das Lajes, mas ainda não teve resposta. Há também a notícia de que bombeiros portugueses já receberam formação para alguma emergência no manuseamento destes drones. Francisco Louçã, o governo português está verdadeiramente a controlar este processo? Portugal pode dizer que não ou isto é, na prática, uma formalidade dentro da NATO?

Aquilo é equipamento militar. Se eles estão autorizados a utilizar a base, que é deles e pagam uma renda por isso. Já passaram os F-35, já passaram os KC, não sei das quantas, de transporte e de reabastecimento. Um drone é um avião que é tripulado à distância, tem um alcance muito grande, tem que fazer manutenção, é uma aeronave como outra qualquer. Agora, um drone assassino? O avião com maior capacidade é o F-35, que é o topo da tecnologia. Esses passaram vários. Eu acho que andamos todos distraídos com isto e todos temos uma opinião muito fundamentada sobre as Lajes. Há anos que dizíamos: "Os americanos vão-se embora, vamos ter um prejuízo grande". Se nós alugamos e cedemos o espaço, é para eles usarem, com regras que nós estabelecemos. Não há indícios que eles não tenham cumprido as regras. Agora, estes drones, os Reaper, são muito valiosos, mas têm capacidades inferiores a um F-35 ou outro avião qualquer. É apenas mais um avião. Por acaso não é tripulado fisicamente por um homem sentado ali agarrado ao mance, mas é tripulado a partir de Tampa ou de outra base qualquer, à distância. Não vejo qual é o drama. Vão ser montados ali e provavelmente, para não terem o desgaste de atravessar o Atlântico, os norte-americanos, em vez de os fazerem sobrevoar o Atlântico e cansar as suas tripulações, é mais fácil estes aviões, metê-los em contentores e levá-los em aviões de transporte para mais próximo do teatro de operações. E há de lá vir alguns, porque algumas das operações já foram feitas com esta. Agora, as aeronaves têm desgaste, têm que ser substituídas. Eu acho que fazemos uma tempestade num copo de água quando não temos grandes preocupações. Se olharmos para a situação interna do país, era muito melhor do que estarmos preocupados se eles agora estão a utilizar o avião A ou B ou C. Eles devem usar os aviões que lhes apetecer, porque a base é deles e nós cedemos a base, com as regras por nós definidas. E parece-me que essas ainda não foram afetadas. Nós definimos muito bem quais são os princípios de utilização da base. O Reaper é apenas um avião como outro, só leva oito mísseis Hellfire. O F-35 é a maior máquina de guerra, é uma plataforma de transmissão de dados, de coleta de dados e poder de fogo. Não vejo qual é a diferença.

Por isso é que é importante ter o Francisco conosco, para esclarecer.

Não vejo onde é a diferença. A comunicação social tem que vender notícias, faz parte do vosso negócio. Mas na minha opinião, é estar a alimentar uma não situação. Eles podem usar e com aquilo que quiserem. A base é deles. Se eles fossem embora, vamos gritar todos: "Vão, o desemprego, na base dos Açores, os americanos são uns malandros". Na altura até pagaram. Hoje não iam pagar para utilizar a base. Eles só pagaram uma renda. Se fosse hoje a negociação, não pagariam. Eu sou do Beira e costumo dizer: "É preso por ser réu e réu por ser preso". Não há maneira que estamos nessa situação. Infelizmente, é assim que nós estamos.

Francisco Louçã, muito obrigada pela sua análise. É sempre um gosto tê-lo connosco. Bom final de semana. Obrigada.

Obrigado