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Este é o Gabinete Guerra das Manhãs 360, com a análise de Liliana Reis, especialista em relações internacionais. Bom dia, bem-vinda. Muito obrigada por ter aceitado o nosso convite, Liliana.
Bom dia.
Bom dia. Temos que começar pelo ataque russo desta madrugada a Kiev, um ataque em larga escala contra a capital ucraniana. Dezenas de pessoas ficaram feridas. Há, para já, três mortos. Liliana, qual é a explicação para isso? Sabemos que com a chegada do inverno, um dos alvos seria a central energética de Kiev, mas sendo um ataque massivo com mísseis e drones, claro que foram atingidos edifícios residenciais, nem que seja pelos destroços.
Naturalmente. Aquilo que nós já esperávamos era que houvesse um ataque massivo à Ucrânia, pelo menos às infraestruturas críticas do ponto de vista energético. Aliás, que isso tem acontecido nos últimos invernos. Repare que nós já vamos para o quarto inverno de guerra. Mas neste momento, aquilo que também nos parece que seja um dos objetivos do Kremlin, é debilitar o poder, é debilitar também a estrutura governativa de Kiev e fragilizar o Zelensky. E isto consegue-se não apenas por este ataque massivo à capital, por um lado, mas também por outro lado. Pelo menos é a leitura que podemos fazer. É que também quer afetar a moral da população. Segundo Clausewitz, é um dos elementos da Trindade. E a população começa a ficar exausta devido à continuidade desta guerra por vários invernos. Mas, por outro lado, também, e não nos podemos esquecer que esta semana também surgiram questões relacionadas com a corrupção.
A corrupção, sim.
E que são bastante relevantes nesta fase do conflito. E o que provavelmente Putin quer estar também a pretender é que a própria população questione a legitimidade do poder, ou seja, a legitimidade do seu presidente para a continuidade das operações militares. E sem o apoio da população, fica muito mais difícil, até porque, por outro lado, também pode pressionar o presidente para umas novas eleições. Pode precipitar umas eleições nos próximos seis meses ou no próximo ano. E por isso, parece-me que a leitura que deve ser feita deste ataque massivo é também esta de comprometer a moral da população e o suporte desse mesmo apoio popular ao presidente ucraniano, o que o vai fragilizar, naturalmente, ainda mais nos próximos tempos. E por outro, e agora estava aqui a pensar e recordei-me de um terceiro elemento que também me parece importante colocar em cima da mesa, que nós também temos estado um pouco a afastar. É que esta semana, depois também de várias especulações em torno de Lavrov, ele veio mostrar disponibilidade, finalmente, para o encontro de Donald Trump e de Vladimir Putin em Budapeste. Aliás, que tinha sido afastado.
Exatamente, sim, essa hipótese.
Tinha sido afastada essa hipótese. Se porventura, já se começa a falar na possibilidade dessas negociações no Kremlin, significa que também Moscovo quer avançar para a mesa negocial numa posição muito mais confortável e quanto mais poder militar demonstrar, neste momento, do ponto de vista do teatro de operações, mais fragilidade irá apresentar a Ucrânia nessa mesma mesa e mais força estará, naturalmente, a Rússia.
Claro. No Médio Oriente, os serviços secretos israelitas dizem ter impedido um ataque planeado pelo Hamas. Em Belém, foram detidas 40 pessoas na posse de armas. Liliana, é bom, de facto, entregarem o corpo de mais um refém, mas o Hamas não deixa de ser um grupo terrorista e ataques como este vão existir sempre com ou sem uma segunda fase do acordo de cessar-fogo em Gaza.
Naturalmente. Aliás, aquilo que o Hamas, neste momento, nos parece que está a tentar é comprometer a projeção da força de estabilização para Gaza e garantir também, naturalmente, o seu não afastamento de Gaza. Mas também em relação ao conflito que nós estamos a assistir no Médio Oriente, nós tivemos esta semana Rubio também a dizer que a violência na Cisjordânia pode também comprometer os esforços em Gaza. Temos, por um lado, o grupo terrorista Hamas a tentar inviabilizar todos os esforços possíveis para esta projeção da força de estabilização. E por outro lado, aqui também alguns comportamentos na Cisjordânia por parte de Israel, que também podem, por outro lado, inviabilizar. O que neste momento nos parece é que, na verdade, este cessar-fogo duradouro e esta passagem para a segunda fase da implementação do acordo está cada vez mais difícil. E não sabemos quando é que poderão estar as condições totalmente reunidas para que este acordo avance para esta segunda fase.
Entretanto, há dias, o líder supremo do Irã reforçou que a cooperação entre Irã e Estados Unidos não é viável enquanto Washington continuar a apoiar Israel. Liliana Reis, isto não é o mesmo dizer que nunca haverá cooperação, porque não parece que a aliança de décadas entre Washington e Tel Aviv esteja de alguma forma comprometida.
Não está comprometida. E mais, o que o Irão esqueceu-se de dizer é que a aliança que tem com a Rússia e com a China também está a comprometer qualquer tipo de acordo com Israel. Aliás, nós temos vários Estados, neste momento, a quererem também aderir aos Acordos de Abraham. Vimos o Cazaquistão, mas esta vontade de estabilização da região é permanentemente boicotada pelo Irão, que não para de enviar armamento aos seus proxies. Ainda há pouco falávamos do Hamas, sabemos que o Hamas foi alimentado durante muito tempo pelo governo iraniano. Não apenas o Hamas, mas os Houthis no Iémen, o Hezbollah no sul do Líbano. Ou seja, estes movimentos proxy terroristas também foram, em grande medida, projetados por parte do Irão. Mas o Irão, do ponto de vista das alianças no sistema internacional, está muito próximo da Rússia e também está muito próximo da China, apesar desta aliança ser menos visível. Agora, e por isso mesmo, é que numa lógica mais abrangente e daquilo que neste momento nós percebemos, que é o objetivo de transição do poder a nível global, naturalmente que interessa também ao Irão fragilizar Israel, porque sabe que com esta fragilidade também irá debilitar os Estados Unidos. E esta aliança não me parece que esteja toda comprometida.
Liliana Reis, muito obrigada pela sua análise. Bom fim de semana, Liliana.
Bom dia, bom fim de semana.
Igualmente, obrigada.
Obrigada, com licença.