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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Vamos falar nos próximos minutos sobre alguns dos conflitos que marcam a atualidade com Rui Vilar, é especialista em defesa, é o nosso convidado. Olá, boa noite, seja muito bem-vindo.
Olá, boa noite, Diana.
Começamos, Rui, pelo Conselho de Paz. Donald Trump deixou ameaças aos países que não queiram aderir. Alerta para, e passo a citar: "Não se armarem em espertos". Foi hoje a primeira reunião deste conselho que os Estados Unidos criaram, de alguma maneira, para competir também com as Nações Unidas. O Ocidente, perante estas ameaças reiteradas de Donald Trump em vários contextos, pode assumir que está perante um ditador?
Boa noite e boa noite a quem nos ouve. Eu penso que é cedo, ainda por cima nos meios diplomáticos, que os países se movem e quando estamos a falar de uma potência como os Estados Unidos da América. Esquecendo que é Trump quem lidera, mas que é o presidente dos Estados Unidos da América, de facto, temos que admitir que Trump passa uma imagem de alguma força quando aparece ladeado de líderes de grandes potências e potências regionais, e não só, juntos dele neste Conselho da Paz. E demonstra ali uma certa abrangência e é certo que olhamos para aquelas imagens e não vemos ali a Europa. A Europa está de fora, para já, numa posição de observadora. É isso que os países têm dito.
Portugal, por exemplo.
Inclusive é Portugal. E eu penso que é uma posição moderada e consciente, mas, de facto, está ali a nascer alguma coisa. Agora com a efervescência e o dinamismo que Trump põe em tudo o que se mete, nós nunca sabemos, nem nunca percebemos muito bem se aquilo vai ser, de facto, para durar ou não. Temos que ser frios e pragmáticos na análise. Há ali um conjunto de países fortes e que dão uma certa imagem de força a Trump e aos Estados Unidos. Depois, o propósito é um propósito sempre positivo. A escolha da reconstrução de Gaza, daquela zona que foi tão destruída nos últimos anos, mas ainda hoje já percebemos que Trump pretende fazer outra coisa do tal Board of Peace. Parte do seu discurso já foi mandar recados para o Irão e outra parte também numa estratégia clara de diminuição da ONU, porque quando Trump diz que aquele organismo vai supervisionar a ONU, o que ele está a dizer? Está a dizer que se está a colocar acima da ONU. E eu acho que nós no Ocidente, e nós os países europeus, neste caso, mais concreto, temos que olhar para os acontecimentos e temos que ser frios e pragmáticos na análise e percebermos qual o melhor posicionamento que temos que ter em relação a isso. E também sermos conscientes da realidade, porque, de facto, a ONU nos últimos anos, em termos de força e de posicionamento, tem, de certa forma, se degradado.
Mas um líder precisa de ameaçar constantemente até parceiros para ter uma imagem de força?
Diana, nós vivemos numa nova realidade. Se isto fosse há mais de 10 anos, nós ficaríamos muito surpreendidos e estávamos todos muito chocados com isto. Mas de facto, hoje em dia, estas afirmações de Trump são quase diárias e é com ele que temos que lidar neste momento. E é com esse pragmatismo que temos que jogar hoje em dia neste jogo diplomático. E de facto, a Europa é um dos alvos de Donald Trump e, portanto, nós temos que perceber que posicionamento é que poderemos ter em relação aos Estados Unidos, porque nós temos que ser frios na análise e escolhermos aquele que será o melhor caminho para a Europa.
E qual seria a estratégia mais inteligente?
É difícil, porque ainda estamos a perceber o que é que vai dar neste momento o Board of Peace. Por isso é que eu disse há pouco que acho que a estratégia dos países europeus, e nomeadamente Portugal, tem sido bastante ponderada e consciente, que é ao não se colocarem de fora, para já, a maioria deles ainda não se colocou de fora, mas também ainda não entraram, mantendo-se nesta posição de observadores. Agora, também já ficamos a saber que a próxima reunião será na Noruega, ou seja, o Board of Peace entra na Europa. E sendo que a Noruega não está na União, mas partilha o Espaço Schengen e outras políticas económicas e fiscais connosco, e é um país da Europa. Vamos ter esse conselho a entrar na Europa, portanto a Europa tem que reagir e tem que fazer alguma coisa rapidamente. E acho que deve ser esse um dos temas em agenda para os líderes europeus já nos próximos tempos.
Acredita que este Conselho de Paz é uma organização que pode perdurar depois de Donald Trump sair da liderança dos Estados Unidos?
À primeira vista, ao dia de hoje, diria que não. Sem dúvida nenhuma. A ONU tem muito mais força nesse aspeto, é incomparável, mas na realidade atual, e pelo menos nos próximos três anos, parece-me que vamos ter que lidar com isto. E três anos é muito tempo, por isso é que eu digo que temos que ser bastante pragmáticos neste tema.
Os Estados Unidos estão em várias frentes, dizemos sempre isso aqui também. Ontem, a norte-americana CBS avançou que é provável um ataque dos Estados Unidos ao Irão no próximo sábado, neste próximo fim de semana. Quando começa a haver vários alertas deste género, esta semana tem havido vários, de que está iminente, está iminente hoje, está iminente amanhã, podemos estar perante um ponto sem retorno?
Este tipo de alerta já nos chegaram nas últimas semanas em outros momentos e onde o ataque também nos pareceu iminente. O que me parece agora é que a estratégia americana é sempre um pouco de ziguezague. Aliás, o que está a acontecer no Irão é uma estratégia semelhante à Venezuela. Um dia um representante americano diz uma coisa, no outro dia o presidente diz outra, no outro dia o negociador diz outra, no outro dia o vice-presidente diz outra coisa, e nós ficamos aqui no meio sem perceber muito bem o que está a acontecer. Agora, o que é facto é que Trump está a pressionar claramente o Irão e o que me parece é que a estratégia é de isolamento do Irão. Ou seja, Trump tenta claramente, e hoje usou o Conselho da Paz para mostrar que tinha vários líderes do Médio Oriente e a maioria deles países que são rivais do Irão na região, com ele, e tenta isolar o Irão. A própria Rússia ainda não se pronunciou em relação ao Conselho da Paz. Isto pode estar a acontecer um pouco como aconteceu na Venezuela, que pode haver um ataque surpresa onde não estamos a contar. Até que, por exemplo, e ligando à Venezuela e mais essa estratégia de isolamento do Irão, o facto de os Estados Unidos agora controlarem a Venezuela, deixa de haver o petróleo venezuelano a chegar ao Irão, deixa de haver também os carros e as viaturas, o comércio automóvel que havia muito entre o Irão e a Venezuela, que agora também já não há essas exportações por parte do Irão. O próprio porta-aviões que esteve junto à Venezuela agora já se deslocalizou para junto do Irão. Portanto, as movimentações estão a acontecer, mas estamos sempre numa linha, num equilíbrio muito delicado entre o que é dissuasão militar, próxima de um ataque ou não, ou a existência de uma tentativa de acordo nuclear, que é basicamente o que os americanos e os israelitas querem. E Trump está a pressionar muito o Irão. Começou com os protestos, que ajudaram. Agora este Conselho da Paz, esta força que mostra com os vários líderes da região.
O envio de equipamentos.
O envio de equipamento militar em grande escala. Portanto, eu acho que faz tudo parte de uma estratégia de dissuasão para tentar um acordo e tentar pressionar o Irão a chegar a esse acordo. Caso esse acordo não aconteça, eu não tenho dúvidas que Donald Trump intervirá, porque já percebemos que o objectivo ali é esse e eu acho que a demonstração de força e a percepção de força que passa para todo o mundo é que claramente o Irão está a ficar cada vez mais isolado.
Falamos também da guerra na Ucrânia. A Rússia está a preparar o recrutamento involuntário de soldados para mandar para território ucraniano. Ora, numa altura em que as negociações são até definidas como positivas por todas as partes, as negociações trilaterais, vai haver mais rondas de negociação, pode querer isto dizer que Moscovo quer mais do que concessões territoriais.
Eu acho que sim. E quando temos uma fonte russa em Bruxelas a falar no tal alistamento involuntário, ou seja, no aumento das suas Forças Armadas, e ao mesmo tempo fala também na revisão do acordo de não expansão da NATO que propôs em 2021 e que agora já o coloca também na mesa das negociações no plano ucraniano, demonstra claramente que a Rússia já está a colocar aqui outros objectivos. E também me parece, estou fazendo aqui um paralelo com o Irão, mas totalmente diferente, como é óbvio, mas que na mesa das negociações e da última negociação que terminou ontem, parece-me que já está a haver alguma cedência do lado ucraniano, nomeadamente ao nível territorial. E a Rússia está a fazer o tal abraço de urso, a aproveitar a sua superioridade e está ao estilo russo a ir para cima, a lançar a informação de que vai aumentar a sua capacidade, que quer resolver o problema da Ucrânia, seja por via diplomática, seja por via militar. Há sempre o fantasma das eleições a ensombrarem Zelensky e a pressão americana e a pressão de Trump para isso, de certa forma sinalizando claramente que Zelensky é que está a ser o impeditivo do acordo de paz, ou pelo menos do cessar-fogo. Portanto, parece-me que a Rússia está a sentir-se com força nas negociações e já está também a querer colocar em cima da mesa um acordo de não expansão dos países da NATO.
Rui Vilar, muito obrigada pelas suas explicações neste Gabinete de Guerra e pela sua análise. O Gabinete de Guerra regressa amanhã.
Boa noite.