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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador, em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. Vamos aos balanços sobre a guerra na Ucrânia. Começamos pela vertente militar e de estratégia. Podemos dizer que o ano acaba com a Rússia na mó de cima?
Olá a todos. Eu penso que para dizermos isso, temos de acreditar que o objetivo da Rússia era apenas ocupar mais um pouco daquele território no leste e no sul da Ucrânia. Parece-me evidente que não era esse o objetivo, não fazia sentido, para atingir esse objetivo, lançar uma invasão naquela escala, lançar tropas sobre a capital Kiev. A Rússia realmente sofreu uma derrota significativa nos seus objetivos estratégicos fundamentais, não conseguiu satelizar, transformar a Ucrânia num estado vassalo com grande rapidez e facilidade, não conseguiu demonstrar a sua força, nem a fraqueza, nem a divisão da NATO, da União Europeia, dos países ocidentais, dos países europeus, dos Estados Unidos. Um conflito é dinâmico e para já, acho que não se pode dizer que a Rússia esteja propriamente na mó de cima. A grande vitória que o ministro da Defesa Shoigu apresentou nas suas últimas declarações foi: "Nós conseguimos aquilo que era a nossa prioridade, que era derrotar a ofensiva ucraniana." Isso é uma declaração extraordinária de um país que a elite russa, que Putin dizia que não existia, que na verdade era uma parte da Rússia, que todos os ucranianos ou grande parte deles desejavam ser russos. Dizer que a grande vitória da Rússia é conseguir travar uma ofensiva de um Estado que além disso, é muito mais fraco do que a Rússia em termos objetivos, tem uma população de menos de 40 milhões, porque há muitos refugiados. A Rússia mais de 140 milhões. A Rússia é uma potência nuclear, a Ucrânia deixou de ser uma potência nuclear porque, até por pressão ocidental, entregou todas as suas armas nucleares à Rússia em 1994, em troca da garantia das suas fronteiras. Transformar isso numa grande vitória, acho que não. É verdade que é um momento difícil para a Ucrânia, sobretudo porque há uma grande incerteza em torno da continuação dos apoios ocidentais. E obviamente, aqui a questão fundamental é a vontade de resistência dos ucranianos, mas é muito diferente essa resistência continuar com garantias de abastecimento de munições em quantidade suficiente, de, por exemplo, mísseis para garantir o funcionamento dos sistemas de defesa antiaérea, etc, ou subitamente ficarem numa enorme incerteza e não saberem exatamente que sistemas desses é que podem utilizar. Isso cria uma enorme dificuldade à Ucrânia, cria grandes expectativas positivas nas elites russas, que consigam arrancar uma espécie de vitória depois de uma série de derrotas estratégicas importantes. Mas isso cabe aos países ocidentais, aos eleitores, aos decisores ocidentais, a começar pelos Estados Unidos, decidir se querem dar essa vitória à Rússia ou não durante o próximo ano de 2024.
Do ponto de vista humanitário e civil, a guerra no Médio Oriente acabou por ofuscar os efeitos de um conflito que está quase a fazer dois anos, que continua a ter efeitos terríveis. O balanço, além de feridos e mortes, tem a palavra esquecimento associada?
Eu acho que não se pode falar da Palestina como um conflito esquecido. Há muitos conflitos esquecidos no mundo, mas o da Palestina nunca foi um conflito esquecido, mesmo quando estava numa fase bastante menos intensa, e não é atualmente. Nós estamos a falar de conflitos, por exemplo, no Sudão, que já resultaram em dezenas de milhares de mortos, em milhões de refugiados, refugiados deslocados internos e pelo menos um milhão de pessoas que foram obrigadas a fugir do Sudão. Há conflitos que se eternizam, por exemplo, na Birmânia, que hoje chamamos Myanmar, que também teve vários momentos bastante ativos este ano. Temos a guerra civil no Iémen, que se estima que resultou em mais de 400 mil mortes, provavelmente, que também se arrasta há anos e em que os houthis são a força agora dominante e que estão a ameaçar a navegação civil. Eu acho que não se pode falar de uma guerra esquecida. Isto não é desvalorizar o drama humanitário da população civil de Gaza, que é uma vítima dos ataques israelitas e também de toda a estratégia do Hamas, que sabia bem que o ataque do 7 de outubro, aquele tipo de ataque extraordinariamente violento, com todo o tipo de crimes de guerra, iria provocar uma reação militar muito forte de Israel. Mais ainda, o Hamas, isso é uma enorme diferença, por exemplo, quando fazemos o balanço humanitário destes conflitos na Ucrânia e em Gaza. Gaza é considerado o terceiro território com mais densidade populacional do mundo, mais de 6 mil pessoas por quilômetro quadrado. Na Ucrânia pouco ultrapassa as 60 pessoas por quilômetro quadrado. Era sempre muito difícil fazer lá operações militares, mesmo que muito discricionárias, e eu acho que nem sempre foi o caso com Israel, sem causar muitas mortes civis. Mas além disso, no caso de Gaza, o Hamas não quer saber da população civil, a não ser para a usar como arma de propaganda de arremesso contra Israel. Isso, aliás, não é uma questão de interpretação, são declarações da própria liderança do Hamas, que chegou a ser perguntada por uma televisão saudita, por que eles não faziam mais para proteger a população civil. Por exemplo, por que não utilizavam os famosos túneis como abrigos para a população civil e o líder do Hamas responde: "Porque a população civil não é uma preocupação nossa, isso é uma responsabilidade das Nações Unidas e da comunidade internacional." Na Ucrânia, uma das grandes prioridades tem sido exatamente proteger a população civil. Eu até me atreveria a dizer que se calhar se a Ucrânia não se preocupasse tanto Como proteger a população civil. Por exemplo, não desse tanta prioridade à aquisição de sistemas de defesa antiaéreos muito dispendiosos e sofisticados, como os sistemas Patriot, etc., se calhar já tinha conseguido fazer avanços militares mais significativos e também teria, é terrível dizer isto, mais vítimas civis para apresentar à opinião pública mundial. Mas obviamente não é esse o objetivo do regime ucraniano, do governo ucraniano. É realmente um balanço terrível em Gaza, mais de 20 mil mortos. Certamente nem todos esses mortos serão civis, uma grande parte deles serão também militares. Não é crível que Israel só tenha atingido civis na Faixa de Gaza. Aliás, o próprio Hamas reconhece que há muitos mortos entre, nomeadamente, os seus comandantes, e certamente os comandantes do Hamas não estão sozinhos, portanto não foram abatidos sozinhos. Agora, é realmente um balanço terrível e também me parece claro que, desse ponto de vista, há aqui uma tensão entre diferentes objetivos de Israel. Se Israel quer pacificar a Faixa de Gaza, quer, como disse o próprio primeiro-ministro Netanyahu, desradicalizar a população palestiniana, isso está evidentemente em choque com uma prioridade tal a desmilitarizar, a enfraquecer, a acabar com a organização militar do Hamas, que produza uma tal quantidade de mortes civis, que acaba por levar muitos palestinianos a radicalizar-se, a pensar que a via da luta armada é a única via possível. Isso também não é todo no interesse até do próprio Estado de Israel, independentemente das questões humanitárias e legais de leis da guerra que se colocam. Esta obrigação dos Estados, mesmo quando têm o direito a defender-se, fazerem isso procurando o mais possível minimizar os mortos civis. Nessa luta diplomática, realmente eu diria que Israel tem dificuldades crescentes e tem dificuldades crescentes também porque para já, pelo menos, tem optado por dar prioridade à dimensão militar e não a esta dimensão mais política, mais diplomática.
Mas voltando à Ucrânia e no campo diplomático, este ano de 2023 vai ficar mais marcado pelo cansaço e pelas dificuldades e até bloqueios em acordos na União Europeia e nos Estados Unidos, na ajuda a Kiev, ou apesar de tudo, vai sobressair o apoio que continuou durante este ano de 2023 a ser enviado para a Ucrânia?
Eu penso que objetivamente, durante o ano de 2023, esse apoio continuou, aliás, ainda continua, ainda agora os Estados Unidos anunciaram mais um pacote de 250 milhões, mas a verdade é que na questão da guerra não conta só os dados objetivos, também conta a percepção e a expectativa. Já nos últimos meses, a situação, embora objetivamente não esteja pior, embora objetivamente não falte equipamento, não faltem munições à Ucrânia, a verdade é que os ucranianos, de forma compreensível, já estão a gerir de forma muito mais contida, muito mais restritiva, por exemplo, a utilização de munições, com a ideia de que se calhar precisam de as racionar, de as ir poupando para o caso no próximo ano deixarem ter o abastecimento regular a que têm estado habituados. Desse ponto de vista, eu penso que a Ucrânia tem feito o que é possível para procurar manter esse apoio. Zelenskyy tem-se multiplicado em viagens para manter também ativa a questão da Ucrânia até na agenda midiática. Houve aqui a questão do conflito de Gaza, que foi muito positivo do ponto de vista da Rússia, no sentido também de desviar atenções, de criar confusão, de facilitar a desinformação russa, a propaganda russa, mas Zelenskyy tem procurado contrariar isso na medida do possível. Agora, a verdade é que em qualquer conflito armado prolongado, já vamos a caminho dos dois anos, isso obviamente cria tensões, cria divisões, cria algum cansaço da parte dos beligerantes, mas também da parte dos aliados, daqueles que apoiam os beligerantes. É normal que isto aconteça, é normal que haja aqui alguma pressão para repensar as coisas, para ver se é mesmo para manter este nível de apoio. A Ucrânia pode fazer alguma coisa, mas há limites ao que pode fazer, até porque do meu ponto de vista, sobretudo no caso dos Estados Unidos, mas mesmo da União Europeia, muitos dos problemas surgem sobretudo como uma espécie de consequência de tensões, de polarizações que são estranhas à Ucrânia. Quer dizer, no caso dos Estados Unidos, a questão da aproximação das eleições de novembro de 2024 e o problema da crise migratória na fronteira sul, que os republicanos usam contra os democratas e que depois utilizam para fazer pressão, se vamos dar mais ajuda à Ucrânia, também queremos mais dinheiro para defender a fronteira. E isso é controverso entre muitos democratas, portanto, cria-se aqui um problema de conseguir consenso. No caso da União Europeia, o grande obstáculo tem sido a Hungria, e sabemos que basicamente Orbán utiliza todo o tipo de pretextos de situações destas em que é preciso uma votação unânime para tentar extrair concessões, recuperar alguns dos apoios que a Hungria não tem recebido por via de uma série de violações das regras de funcionamento da própria União Europeia. Aí a Ucrânia é uma vítima indireta desta polarização, destes conflitos no seio da União Europeia e no seio dos Estados Unidos. Eu acho que não se pode dizer que seja propriamente um falhanço da diplomacia ucraniana. Agora é verdade que é um contexto político um pouco adverso para a Ucrânia, porque realmente nos países ocidentais há verdadeiras democracias, há verdadeiras eleições, há verdadeiras mudanças de governo e de políticas internas e externas, e isso cria objetivamente dificuldades, às vezes, à coerência, à continuação da política externa, de certas prioridades estratégicas. É um problema que regimes autoritários, como cada vez mais é o caso do regime de Putin, não têm, mesmo quando há eleições, e será o caso no início do próximo ano, em março, teremos as presidenciais russas, mas evidentemente Putin irá ganhar essas eleições, a não ser que entretanto seja derrubado por outras vias.
Há pouco falavas da duração do conflito. Seria um golpe de sorte a guerra terminar em 2024? Soubemos ontem que Vladimir Putin terá falado ao presidente chinês, Xi Jinping, numa duração de cinco anos de guerra.
Sim, a mim parece-me evidente que a Rússia não está interessada em fazer uma paz de compromisso. Não está interessada, certamente, em retirar dos territórios que ocupou. Aquilo que a Rússia está interessada é, eventualmente, numa rendição da Ucrânia. Que a Ucrânia, no mínimo, reconheça a perda dos territórios que a Rússia ocupou e até se consiga transformar no tal satélite modelo da Bielorrússia, que é o grande objetivo do Kremlin. Se for assim, obviamente a Rússia está disposta a assinar um acordo de paz. A dificuldade é que realmente a Ucrânia não quer fazer esse tipo de cedências e do meu ponto de vista, seria um erro estratégico tremendo os países ocidentais, nomeadamente os Estados Unidos e os principais países europeus, aceitarem uma paz nesses termos. Aqui outra questão é a questão do cessar-fogo. Pode ser que haja um certo esgotamento das partes e aí, obviamente, tem de ser essencialmente a Ucrânia a decidir quando é que quer parar de combater, vamos dizer assim, pelo menos numa fase mais intensa. Agora, ceder formalmente os territórios que foram ocupados pela Rússia, em última análise, é algo que a Ucrânia pode querer fazer, até em troca de outras concessões, por exemplo, poder ser parte da União Europeia ou da NATO, mas não há nenhum sinal de que a Rússia esteja disposta a ceder nessas questões. Seria, aliás, uma completa reviravolta em relação àquilo que tem sido toda a justificação da guerra por parte da Rússia, é precisamente dizer que a grande ameaça é a expansão da NATO. Mas independentemente disso, parece-me que para o Ocidente e, por exemplo, os Estados Unidos, seria criar aqui um precedente extremamente perigoso. Seria dizer às potências revisionistas, como a Rússia, o Irão ou a China em relação a Taiwan. Vamos lá ver, eu sublinho sempre isto, a China tem legalmente mais argumentos para ocupar militarmente Taiwan do que a Rússia tinha para ocupar o território ucraniano, que há poucos anos, várias vezes reconheceu que era um território ucraniano, que as fronteiras que valiam eram as fronteiras. Portanto, fazer essa cedência seria recompensar a agressão russa e seria criar aqui um precedente muito perigoso, no sentido de dizer a estas potências revisionistas que a agressão compensa, que guerras expansionistas compensam. Isso, do meu ponto de vista, não iria levar à paz, iria levar à multiplicação de conflitos armados bastante perigosos e inclusive a um risco de escalada para uma guerra mais alargada e potencialmente ainda mais perigosa.
O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 da manhã, tem nova edição depois da síntese das 16h30 da tarde e está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.