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Gabinete de Guerra, o programa da Rádio Observador em que analisamos os factos mais recentes dos conflitos no leste da Europa, na Ucrânia, mas também no Médio Oriente. Hoje é nosso convidado para este Gabinete de Guerra o professor Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Bem-vindo, professor. Obrigado mais uma vez pela disponibilidade. Vamos começar pela Ucrânia, pelo conflito no leste da Europa, e há muito para dizer. Berlim foi ontem palco de importantes negociações. Vários líderes, incluindo Donald Trump, referem que nunca estivemos tão perto da paz, tendo por base os desenvolvimentos diplomáticos dos últimos dias. É desta vez que o processo de paz avança mesmo?
Boa tarde, Miguel. É sempre bom ter boas notícias e um progresso da paz é sempre um extraordinário passo e realmente parece haver algum tipo de avanço. Só que nestes processos há sempre muito nevoeiro, muita desinformação. Uma coisa sabemos, há realmente ainda muitos pontos em aberto às intenções de um lado e de outro, mas parece-me que ainda há um certo afastamento, pelo que me parece que não será para já a resolução deste processo de paz.
A questão de Donbass não se desinhe fácil. A questão dos territórios de Donbass não se desinhe fácil.
Esse talvez seja o problema mais complexo. A Rússia quer explorar o sucesso. Sempre apostou no cansaço ao Ocidente, foi sempre jogando com isso e a verdade é que está a ter agora o seu retorno positivo para os seus interesses. Portanto, os objetivos maximalistas, apesar de não estarem assegurados, paulatinamente vão sendo alcançados. Há uma cedência gradual da Ucrânia, nomeadamente nesse campo, mas ainda não estamos no designado equilíbrio estratégico. E relembro que a geopolítica procura equilíbrios, nunca procura justiça. Mas podemos começar exatamente pela questão territorial, talvez a mais complexa de todas. Cedências de território dolorosas, como dizia há dias Zelensky, seja do Donbass, seja da central nuclear de Zaporíjia, que cria algum tipo de vetores muito complexos. Seria uma perda de facto, se seria uma perda de direito com reconhecimento internacional. Nem sei como é que o direito internacional público iria aceitar, mas de alguma forma pode ser considerado. A tal zona económica livre, como seria administrada, que forças é que estariam a assegurar a interposição, como é que a própria Ucrânia iria reconhecer através de um referendo, quando a população parece não estar nada orientada nessa direção. Portanto, não serão fáceis, mas temos outros aspetos. Evoluímos, por exemplo, nas garantias de segurança, apesar dos Estados Unidos serem pouco credíveis, como já vimos, e Zelensky procurar uma ratificação pelo Congresso, a verdade é que só de uma forma transacionista é que poderia, com qualquer ganho económico, ter aqui um caso de apoio. A NATO sem os Estados Unidos seria fraca. A Europa está preocupada com a sua própria segurança, naturalmente, e obviamente que quer intervir, mas tem algum tipo de problemas concretos e práticos para o conseguir. Outros aspetos em aberto, a denazificação, essa sim é mais facilmente ultrapassável, pode ser invocável a qualquer momento, porque bastam umas eleições que perdem os argumentos principais da eventual saída de Zelensky. Só que depois temos questões como se a Rússia irá parar aqui, o que não nos parece, porque de alguma forma quer transformar a Ucrânia numa Bielorrússia 2.2, portanto, irá prosseguir com o conflito numa perspectiva de guerra híbrida. E obviamente que aqui temos que pensar sempre num aspeto que tem sido desvalorizado por alguns, que é a desmilitarização. Não me refiro em número só de soldados, mas também às capacidades.
A nível militar.
Exatamente. E em última instância, o esquiço que representa a nível de soberania. Neste ponto, e só para terminar, estou preocupado com o papel da Europa, que procura ser relevante, de facto, para mudar o equilíbrio de forças. Tem alguns sucessos, mas é confrangedora a incapacidade da Europa em ser reconhecido como ator geopolítico. E eu puxei isto apenas pela ligação direta de Merkel, que recebe em sua própria casa as negociações e não se pode sentar à mesa das negociações entre os Estados Unidos e a Ucrânia, o que é demonstrativo da fraca capacidade europeia deste momento.
De resto, é um problema que tem sido identificado por vários dos especialistas que têm passado por este gabinete de guerra. Apesar deste processo diplomático intenso no terreno, continuamos a assistir a um aumento da pressão militar russa. Esta ofensiva não coloca em risco o esforço diplomático que está a ser desenvolvido, professor?
A Rússia, Miguel, tem todo o interesse em manter essa pressão. De uma certa maneira, é normal neste tipo de processo haver pressão no terreno.
Também há ganhos negociais, não é?
Exatamente, é isso mesmo. Uma tentativa de ganhar algum tipo de leverage a nível da mesa de negociações e, portanto, com isso conseguir uma forma de pressionar. A teoria de jogos explica facilmente isso, portanto, é mais que evidente Só que a Rússia não aceitou nenhuma trégua, nem mesmo esta para o Natal. Pressiona no terreno, o Putin assinou um decreto recentemente a facilitar a mobilização de recrutas, quer demonstrar força e vontade de prosseguir, porque é uma guerra de comunicação orientada não só para a Ucrânia, mas também para a opinião pública europeia, que Putin sabe onde estão as fraquezas. A iniciativa no terreno tem outra perspectiva também relevante, que é quer ocupar o Donbass de fato, quer pressionar nas infraestruturas para termos aqui algumas imagens de blackouts, etc. Mas no terreno, seja em Pokrovsk, seja em Kupiansk, seja através das linhas logísticas, seja criar um controle de uma zona pivô para controlar todo o Donbass, de alguma forma, ter aqui uma vitória para apresentar, que isso é particularmente importante. Se não for alcançado esse território, de alguma forma, a Rússia, Moscou, fica aquém do que seria de esperar e, portanto, fica provado que há alguma incapacidade. Eu disse há pouco que esperava que a guerra hívida prosseguisse, mas é importante para a Rússia controlar esta zona que considera de alguma forma ligada historicamente, pois, por outro lado, tem diversos recursos energéticos, minerais e a própria central de Zaporítia. Portanto, seria importante conseguir atingir esse objetivo no terreno, demonstrando ser capaz, efetivamente, de alcançar algum tipo de vitórias. E nós sabemos o quanto precisa de ter vitórias a curto prazo e, portanto, este momento de desequilíbrio das forças ucranianas é uma exploração de sucesso nítida por parte de Vladimir Putin e das forças dos exércitos russos.
O senhor professor há pouco fazia referência ao papel de mediador da União Europeia. Ora, ultimamente temos ouvido falar de Turquia no âmbito dos dois conflitos, Médio Oriente e leste da Europa. Estamos perante o país mediador de que tanto precisamos?
Nós estamos perante um ator muito complexo em várias dimensões. Erdoğan, o presidente, procura que a Turquia seja um ator relevante a nível do contexto pan-regional. Isso é um grande objetivo, já o tem desde o primeiro momento em que surgiu na liderança da Turquia. Ser uma potência reconhecida na região com a liderança do mundo muçulmano é outra questão que tentou desenvolver, principalmente na reorganização pós primavera árabe, e tenta sempre equilibrar-se um pouquinho entre o Ocidente, de onde pertence à NATO e se procurou aproximar da União Europeia, mas também de outra fonte de poder global, como a China e com os BRICS e o Sul Global. Portanto, ser uma ponte entre os dois mundos seria o ideal para a Turquia ser capaz de ser relevante, não só a nível pan-regional, mas de alguma forma representar um novo período otomano. Mas como mediador é incapaz. Aliás, isso irrita imenso Erdoğan, ele tem sempre reações muito extrapoladas, em que demonstra vontade, mas não tem o reconhecimento nem o poder de fazer cumprir o que é obrigatório para um bom mediador. Pode ser relevante, no entanto, em alguns momentos, como foi no Afeganistão, como foi no acordo de cereais em 2022 da Ucrânia, etc. E procura com uma capacidade intervencionista cada vez maior, e eu relembro que a sua indústria de defesa desenvolveu imenso uma capacidade tremenda em algumas áreas. Os drones turcos foram determinantes em mais de que um conflito e o início do conflito ucraniano demonstra isso mesmo, mas principalmente o conflito na Arménia-Azerbaijão. E estamos a falar da segunda maiores forças armadas da NATO. Só que assumiu, por exemplo, Israel como adversário de estimação, que é politicamente rentável junto do mundo muçulmano, demonstrou inclusivamente posições extremadas como uma compreensão pela Intifada Global, pontos que não são muito facilmente defensáveis, e obviamente agora compete com Israel na Síria a intervir em Gaza. Aliás, ainda há pouco lia que a força de intervenção que a Turquia procurava liderar, parece pelo menos de acordo com a imprensa israelita, que foi excluída hoje por Donald Trump. Portanto, isso seria um revés tremendo para a Turquia, mas não deixa de tentar intervir em parceria com o Qatar, com projetos como, por exemplo, o plano recente com a proposta de não desarmar o Hamas durante dois anos, o que só serviria para o Hamas se reorganizar e obviamente se retornar novamente a um ator particularmente relevante no conflito. Portanto, mesmo assim, há uma evidente prova de importância deste ator que eu chamaria escorregadio, e os Estados Unidos consideram vender os F-35, portanto, demonstra a importância, porque eles foram cancelados na sequência da compra dos AS400 à Rússia e portanto demonstra a importância que os Estados Unidos acabam por dar a este ator. Portanto, não sendo determinante, sendo pouco fiável, acaba por ter papeis com alguma relevância secundária, mas que não o tornam definitivamente como mediador, apesar de todo o esforço que já demonstrou.
Sr. Professor, temos ainda aqui dois minutos. Vamos rumar até ao Médio Oriente, um conflito que tem estado um pouco esquecido, um pouco afastado do espaço mediático. Temos hoje o jornal "Area" a noticiar que as IDF estão a explorar a oportunidade de atacar o Hamas, mas que arrisca com esse ataque irritar Donald Trump. O que é que se passa com o processo de paz e há justificação para vários líderes referirem que a primeira fase do acordo já foi concluída com sucesso?
Há realmente aqui vários vectores. É natural que surjam as escaramuças em todos os conflitos, é perfeitamente normal, apesar de não desejável. Só que estamos aqui perante algo mais. Há aqui uma tentativa do Hamas, aliás, como todos os actores do eixo de resistência, em se reorganizar e reequipar. Israel procura alargar a sua segurança, é tão evidente como isso. Terá outros objectivos políticos, é uma evidência, mas há aqui questões de segurança que têm que ser asseguradas. O Hamas, como fez por exemplo o Hezbollah, recebe contrabando do Irão, que por si vai testando mísseis balísticos. Há uma nova dinâmica para tentar colocar em causa o status quo em Gaza. Por outro lado, Israel atua nas bolsas da resistência, atua duramente nessas bolsas, elimina líderes, consolida, prepara estrategicamente a linha amarela para servir de buffer zone, cria também outras zonas de interposição no Líbano e na Síria. De alguma forma está também a explorar o sucesso para garantir a segurança futura. Eu aqui vejo pouca capacidade para uma segunda fase em que a comunidade internacional consiga assegurar a estabilização. Aliás, o Egito nem consegue iniciar o processo de desenvolver as forças policiais ou forças de alguma forma de cumprimento da lei, porque não foi verdadeiramente assim que se conseguiu definir, nem os Estados Unidos conseguem assegurar a mobilização da força internacional, seja ela de interposição, seja de imposição de paz, nem uma autoridade de administração. Não vejo aqui vectores a cumprirem os relativos vectores de confirmação de uma segunda fase com sucesso. Isto é o resultado de negociações à pressa e coordenadas por agentes imobiliários que obviamente não conseguem transmitir confiança de líderes diplomáticos que esses processos necessitam. Há muitos actores, há muitos interesses regionais, há muitos interesses globais e também aqui não foi alcançado minimamente o que iríamos como equilíbrio estratégico.
Fica essa nota de pessimismo, professor Jorge Rodrigues. Muito obrigado por ter estado connosco neste Gabinete de Guerra para análise aos conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente. Jorge Rodrigues, que é coordenador de risco geopolítico da Porto Business School, nosso convidado na edição de terça-feira de Gabinete de Guerra.