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"Gabinete de Guerra" na Rádio Observador, espaço para olharmos para os conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente. Hoje com a Ana Cavalieri, especialista em Relações Internacionais. Boa noite, bem-vinda. Começamos com a guerra na Ucrânia. A Rússia vê com maus olhos qualquer solução para a Ucrânia negociada com os europeus. Foi o que disse hoje o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov. Assistimos aqui a um baixar de expectativas sobre a possibilidade de Moscovo aceitar uma solução para a Ucrânia negociada com países europeus. Diria que os últimos dias aumentaram bastante as expectativas, com todos os lados envolvidos nas negociações a falarem de progressos significativos e mesmo com Donald Trump a dizer que a paz está mais perto do que nunca. Acha que, tendo em conta estas recentes declarações do Kremlin, é apenas otimismo pensar num fim próximo para a guerra?
Boa noite. Eu penso que sim. Relativamente a questões fundamentais, os russos continuam irredutíveis, e isso tem a ver com as garantias de segurança. Se os ucranianos não querem ceder naquilo que é o mais importante, que seria o controle daquilo que falta aos russos conquistarem Donetsk, Lugansk. O Donbass tem duas províncias que neste momento estão a ser disputadas. Lugansk já está praticamente totalmente dominada pelos russos, mas Donetsk contém aquilo que é uma linha de defesa fortificada, que é absolutamente essencial para os ucranianos reterem. É por isso que se fala muito de Pokrovsk e de Seversk. Isto porque aquilo que os russos neste momento ocupam em Donetsk são cidades pequenas, vilas, aldeias, que não têm muita população, nem muito interesse logístico e de redes de comunicação. Aquilo que os ucranianos conseguem ter ainda de Donetsk é aquilo que tem importância em termos geopolíticos e, portanto, não querem ceder de graça, sem os russos terem passado pelo sacrifício militar de sangue e de dinheiro, aquilo que é o mais importante na região de Donetsk. Pelo que se os ucranianos, e isso percebe-se muito bem, têm dificuldades em ceder aquilo que os americanos estão a tentar impor, que é ceder aquilo que eles controlam de Donetsk e instaurar ali uma zona desmilitarizada, os russos não querem nem aquilo que seria a aproximação política numa integração à União Europeia. Sendo certo que eles às vezes dizem que não têm problemas nenhuns em que a Ucrânia entre num processo de adesão à União Europeia, mas nós sabemos que isso não é verdade. Aquilo que os russos querem não é propriamente território ucraniano, o que eles querem é o controle da soberania de toda a Ucrânia. Uma Kiev alinhada com os interesses e com o tipo de políticas ocidentais não seria aquilo que seria do interesse russo. Todavia, é preciso referir que os americanos estão a fazer muita pressão para que haja uma espécie de cessar-fogo até ao Natal. O Natal sendo aqui uma data simbólica, ainda por cima Putin e os russos têm uma relação muito expressa, pelo menos relativamente ao cristianismo, então o Natal seria aqui, talvez, um momento simbólico, mas é preciso referir que parece não haver condições. Não há interesse por parte dos russos, por mais que a economia esteja a ser afetada, por mais que os ucranianos consigam atingir determinados pontos de estruturas energéticas que são fundamentais, o sacrifício económico e também de vidas quase que desperdiçadas em várias escaladas ou tentativas de perfurar aquela linha de defesa ucraniana, não demovem aquilo que é a intenção de Putin.
Falava do Donbass, que é um dos pontos mais complicados em cima da mesa nas negociações. Zelensky continua a reiterar a ideia de que qualquer modelo de controle russo sobre o Donbass é inaceitável. Eu pergunto-lhe que implicações é que esta posição tem para as negociações de paz e para a relação com os aliados ocidentais, que por um lado querem apoiar a Ucrânia, mas por outro também falam cada vez mais da necessidade de uma saída diplomática para este conflito.
Esse é o grande dilema. Percebe-se porque é que o Zelensky não quer dar o controle do Donbass, não só porque não quer recompensar aquilo que foi a violação de direito internacional e uma invasão que foi muito dura, mas em termos estratégicos, aquela zona tem, pela topografia e pela rede de comunicações, uma importância estratégica que se os russos controlarem, nada vai impedir que daqui a cinco ou 10 anos, rearmados, não tenham uma passadeira vermelha para Kiev, porque aquilo que sustém aquela linha de defesa é exatamente controlar ainda determinadas posições naquilo que é o oeste de Donetsk. Aquilo que os americanos estariam a supor é que os russos estariam dispostos, nem que para isso escalassem até ao ponto de eventualmente utilizarem uma arma nuclear tática, que irão fazer de tudo e que nenhum sacrifício será excessivo para conseguir controlar aquilo que será o Donbass. Ou seja, o Donbass é algo que para Putin e para as restantes alternativas mais extremistas no Kremlin, que são as que existem, o Donbass é algo que terá de estar assente estando dentro do controle russo, mesmo que não em termos de iure, mesmo que não em termos legais, pelo menos em termos de fato, administrativos e de ocupação militar. E o cálculo americano é que os europeus não estão dispostos a fazer o sacrifício em sangue, porque para evitar que isso aconteça, daqui a um, dois, três anos, seria preciso pôr tropas europeias lá. Então o cálculo americano é que os europeus não vão estar dispostos a fazer o sacrifício necessário para que depois de uma longa guerra de atrito e dos russos, com certeza, voltarem a desperdiçar centenas e centenas de milhares de vidas, que Donetsk e Lugansk, que aliás já está tomado, serão tomadas. Então a lógica é: vamos utilizar aquilo que falta conquistar como moeda de negociação para evitar o sacrifício de mais de centenas de milhares de vidas russas e ucranianas, para não dizer milhões. Mas é preciso também não ignorar o facto, por exemplo, só este ano, em 2025, à custa de 300 mil baixas, ou talvez mais, russas Os russos só conseguiram avançar menos de 1% no território ucraniano, o que significa que esta inevitabilidade de que os russos estariam dispostos a sacrificar tudo, nomeadamente aquilo que seria a viabilidade econômica e humana do próprio país, para conseguir o Donbass, pode ser questionada. Todavia, existe um problema de, primeiro, saber como é que os europeus irão financiar aquilo que seria o esforço nos próximos anos, que seria o tipo de duração da defesa ucraniana pra conseguir pelo menos desgastar ou tentar desgastar os russos até um suposto limite. Não sabemos até que ponto os europeus vão conseguir concordar ou ter um acordo relativamente à utilização dos fundos que estão congelados russos. Isso vai ser algo muito importante. Também é preciso referir que do lado das concessões possíveis que a Ucrânia poderá dar, a Ucrânia precisa ter garantias de segurança e até agora não sabemos ao pormenor que tipo de garantias de segurança é que poderiam estar em cima da mesa. Sabemos que Zelensky à partida poderia abrir mão daquilo que seria uma grande ambição do povo ucraniano, que era juntar-se à NATO, mas em troca teria de ter garantias de segurança que fossem equivalentes ao artigo quinto da NATO. Ora, esse tipo de garantias de segurança é precisamente aquilo que faz com que os russos não queiram que a Ucrânia se junte à NATO. Pelo que também seria difícil de conceber Putin aceitar um cessar-fogo em que essas garantias de segurança aproximassem uma obrigação tão estabelecida, em termos legais, de auxílio por parte dos europeus e dos americanos, e de uma força de coligação, em caso de, daqui a uns anos, o cessar-fogo ou o conflito voltar a reaparecer. E eu penso que neste momento são essas as grandes dúvidas.
A Rússia recusou a trégua natalícia proposta por Kiev. O Kremlin considera que o cessar-fogo temporário ajudaria a Ucrânia a recompor-se e, consequentemente, a prolongar a guerra. De acordo com Zelensky, em abril, uma trégua da Páscoa decretada por Putin foi violada quase 3 mil vezes pelas forças russas. Faz sentido, do ponto de vista militar, este argumento do Kremlin de que um cessar-fogo ajudaria a Ucrânia a restabelecer-se ou só é uma desculpa por parte de Moscovo? E também como é que se deve interpretar o facto de o Kremlin dizer que quer a paz, mas ao mesmo tempo recusar este cessar-fogo?
Os russos estão sempre a dizer que querem a paz, mas naturalmente é nas condições que eles querem impor. Cada um irá argumentar que é o outro que não quer submeter às condições que, a priori, a outra parte estabelece pra terminar o conflito. Isso é típica retórica de beligerantes e os russos também estão a fazer uma estratégia típica em negociações, que é impor o máximo de pressão, nomeadamente é a razão pela qual eles agora estão a tentar reclamar para si determinadas vitórias que ainda não estão consolidadas. Por exemplo, relativamente a Pokrovsk, nós sabemos que existem ainda unidades militares ucranianas que estão a impedir a consolidação do domínio russo em Pokrovsk, principalmente no norte, apesar de os russos já terem supostamente formalizado essa vitória e Putin já ter falado dela. A mesma coisa relativamente a Seversk. Ora, parece que os russos estão a tentar pelo menos vender àquilo que são os mediadores americanos a ideia de que a vitória no terreno em Donetsk é já quase um dado consumado, quando isso naturalmente não é. No terreno sabemos, e os americanos estarão bem informados pelos seus próprios serviços de informação e inteligência, que isso não é verdade. E também estão a impor aquilo a que se chama uma posição maximalista em negociações, precisamente pra tentar fazer com que um eventual compromisso beneficie ao máximo a posição russa. Também é preciso referir que é verdade que este inverno está a ser penoso para os ucranianos, nomeadamente porque uma das táticas que os russos implementam é tentar atingir determinadas infraestruturas de energia elétricas, que faz com que as pessoas fiquem sem eletricidade durante várias horas. E isto no meio do verão, sem aquecimento e sem eletricidade, é horrível pra população civil e também pras operações militares. Pelo que, neste momento, sabemos que é provável que para os russos haja uma menor ansiedade relativamente a um cessar-fogo, não só pelas condições no terreno operacionais e para aquilo que são os objetivos negociais, mas também pela própria aparente imunidade ao sofrimento do seu próprio povo, dos seus próprios soldados russos ou dos mercenários que eles contrataram, porque parece que os russos têm, em termos de cultura militar, uma espécie de insensibilidade a sacrificar as suas próprias tropas em sucessivas investidas, em que basicamente esses soldados russos vão com pouco armamento, com péssimas condições, embater nas linhas de defesa, nas trincheiras, pra morrer, mas mesmo assim tentar avançar determinados milímetros. E eu penso que essa insensibilidade ao sofrimento também ajuda muito os líderes políticos russos, nomeadamente Putin, em assumir essa resistência a qualquer cessar-fogo.
Vamos passar para o conflito no Médio Oriente. As autoridades norte-americanas sublinham que a segunda fase do cessar-fogo não pode avançar até que o último corpo dos reféns seja devolvido. Algumas vozes mais críticas têm acusado Israel de usar a situação para atrasar o início da segunda fase do acordo de paz. Pergunto-lhe se, na sua opinião, é mesmo este o motivo que está a deter o início da próxima fase do cessar-fogo, o facto de ainda não terem sido entregues todos os corpos, ou se há aqui mais alguma coisa que está a atrasar este processo.
Eu penso que o que está a atrasar, de forma mais premente, é a dificuldade em estabelecer um mandato e organizar a tal força de estabilização internacional que terá de estar operacional para esta segunda fase do acordo ser implementada. Neste momento, nós sabemos que há uma delegação americana a reunir-se com várias delegações em Doha, nomeadamente delegações do Qatar, do Egito, da Jordânia, da Itália, da Indonésia, que são talvez parceiros que estarão dispostos a contribuir para uma força de estabilização internacional, mas é muito difícil estabelecer um mandato, a hierarquia, aquilo que será também a quantidade de tropas que vão ser mobilizadas. Isto porque espera-se que aquilo que será a segunda fase, que passa pela desmilitarização e o desarmamento do Hamas, seja algo duro, porque o Hamas, se à partida poderá até dizer que vai abdicar de determinado tipo de armamento, está absolutamente irredutível relativamente a determinadas armas de fogo, que para Israel, naturalmente, será absolutamente um limite que não vão aceitar ou uma condição que não irão aceitar, o Hamas ainda ser, de alguma maneira, uma força relevante política, militar, operacional, dentro daquilo que é o terreno que neste momento as IDF, as Forças de Defesa e Segurança, ainda não controlam. Por isso é uma questão também de saber se é possível organizar as tropas com um mandato bem claro, com uma estrutura hierárquica bem clara. Sabemos que a Turquia não foi convidada para esta reunião em Doha, o que é absolutamente essencial e inteligente, porque a Turquia é o maior rival, neste momento, agora que o Irão está tão enfraquecido, é o maior rival político, ideológico e militar de Israel, pelo que se, por um lado, a Turquia e o apoio da Turquia a esta elaboração deste plano, não esquecer que Erdogan e Trump têm uma relação muito próxima, foi importante para conseguir celebrar esta primeira fase do retorno dos reféns. Relativamente à segunda, nós sabemos que a Turquia é um financiador e um promotor também ideológico da Muslim Brotherhood, a Irmandade Muçulmana, que é, no fundo, aquilo que é a ideologia principal de grupos como o Hamas, pelo que é importante que a Turquia esteja a ser aparentemente excluída daquilo que vai ser estas forças de manutenção e de criação de condições de paz. O problema é que aquilo que vai ser duro é precisamente isso. Nós neste momento sabemos que a oeste da Linha Amarela, o Hamas tem agora quase total controle, de novo, da Faixa de Gaza e não sei que alternativa a Israel é que terá a capacidade de assumir os investimentos de sacrifício, de pôr tropas lá, que irão provavelmente estar num contexto de luta urbana e assimétrica com terroristas e combatentes que são irredutíveis em abandonar as suas armas. É difícil saber o que o futuro ou nas próximas semanas irá ditar. Mas neste momento sabemos que há trabalhos que estão a decorrer em Doha precisamente para tentar conciliar essa força de estabilização e tentar também organizar uma alternativa política de governança, no fundo, um governo, uma administração paralela que seja unida de tecnocráticos palestinianos, mas também tenha a supervisão da chamada Board of the Peace, não sei como é que se dirá em inglês, mas no fundo, um corpo da paz que possa também dar legitimidade internacional ao processo. Vamos ver se isso vai ser exequível.
Obrigada, Ana Cavalheiro, especialista em Relações Internacionais. Sou a Bibi Neto Guerreiro, estou de regresso amanhã.
Muito obrigada.